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B REVE V IGÊNCIA D O I NSTITUTO Z OOTÉCNICO D E U BERABA , 1895 A

2.2 Clientela escolar: critérios de seleção e graduação dos alunos

2.2.1 Os alunos do Instituto Zootécnico de Uberaba

Com relação aos alunos que frequentaram o Instituto, percebe-se que foram oriundos de famílias abastadas da sociedade uberabense, pois, provavelmente, muitos tiveram professores particulares ou saíram da cidade para estudar, o que à época somente era possível às famílias mais ricas.

Quanto à seleção dos primeiros alunos, esta se deu de 5 a 15 de dezembro de 1894, na Escola Normal de Uberaba, por meio de realização de provas escritas. Para ingressar no Instituto, o aluno deveria atender aos seguintes critérios, conforme art. 93 do Regulamento Interno:

Para ser admitido a matricula no 1º anno o candidato deverá ter 15 annos de edade, pelo menos, provar por certidão ou attestado medico ter sido vacinado dentro dos ultimos 5 annos, conforme é exigido pelo art.10 da Lei n. 12, de 13 de novembro de 1891, e apresentar certidão de approvação em portuguez, francez, historia e geographia geral e do Brasil, mathemática elementar e noções de cosmografia.

Os critérios colocados para o ingresso no curso do Instituto Zootécnico merecem atenção quanto a alguns indicadores sociais e culturais importantes. Primeiro, o aluno deveria ter o mínimo de 15 anos de idade. Isso indica que esse aluno precisaria ter cursado o ensino elementar e secundário dentro do prazo legal, que terminava aos quinze anos, ou seja, ele deveria ter tido acesso aos bons professores para cumprir os estudos em tempo hábil.

Segundo, a comprovação do atestado médico como exigência para a seleção. Lembra-se que, nesse período, o Brasil já disseminava o movimento higienista/sanitarista, que chegou inclusive ao interior do país. Outro fato importante a ser considerado acerca da exigência da vacina é que nessa época não havia as campanhas de vacinação gratuitas como ocorrem hoje, o que quer dizer que somente jovens cujas famílias podiam pagar por esse serviço estavam aptos a concorrer a uma vaga. E, finalmente, a comprovação de haver sido aprovado nas disciplinas acima relacionadas.

Ora, desde 1808, a admissão dos candidatos no ensino superior estava condicionada à aprovação nos chamados “exames de estudos preparatórios”, que eram feitos em um estabelecimento de ensino escolhido pelo aluno. A partir de 1837, os estudantes que

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concluíssem o ensino secundário no Colégio Pedro II passavam a ter o privilégio de se matricular em um curso superior sem a necessidade de passar por qualquer exame.

A pressão que as elites exerciam sobre o governo à época fez com que se diminuíssem os obstáculos ao ensino superior, representado pelos “exames preparatórios”. Assim, tais exames passaram a ser realizados por juntas especiais, no Rio de Janeiro, e posteriormente nas próprias capitais das províncias. Isso indica que os alunos do Instituto tiveram de se deslocar para outra cidade, a fim de fazerem o exame preparatório para obter a certidão de aprovação. Tal medida descentralizou a ação do governo sobre o acesso ao ensino superior.

Outro fato, também importante, foi que o prazo de validade da aprovação passou de instantânea para permanente e, ainda, o aluno podia fazer os exames de forma parcelada. Isso permitia ao estudante realizar as provas de cada matéria no tempo e lugar que lhe fossem mais convenientes (CUNHA, 2003, p.155). Apesar desta exigência da apresentação da certidão de aprovação, observa-se que esse item foi flexibilizado, pois o aluno que ainda não tivesse terminado alguma matéria poderia ingressar no curso, com a obrigatoriedade de que, no final do ano, ele apresentasse o certificado de aprovação da mesma.

O art. 93- § 1º, diz que:

Os candidatos a quem faltar uma ou mais destas certidões poderão requerer até o dia 1º de agosto exames das matérias correspondentes e prestal-as perante commissões de lentes e substitutos do Instituto, nomeados pelo director, conforme o processo adotado pela congregação, que redigirá os respectivos programas (DECRETO Nº 975 - de 27 de outubro de 1896).

A divulgação da matrícula, conforme Decreto Nº 975, de 27 de outubro de 1896, art. 92 do Regulamento Interno – “a inscrição da matrícula começará no dia 15 de julho e terminará no dia 31 do mesmo mez” – foi feita afixando-se edital na porta do Instituto e publicando-o num jornal oficial, pelo menos oito vezes.

A relação dos alunos aprovados foi publicada no Jornal Minas Geraes, com a seguinte redação:

[...] Arthur Costa, Celso Antonio Rosa, Fidelis Gonçalves dos Reis, Fausto Augusto de Paiva Teixeira, Hildebrando de Araújo Pontes, José dos Santos e Luiz Ignácio de Sousa Lima, approvados plenamente. Leônidas Antonio Rosa, José Maria dos Reis, Octavio Teixeira de Paiva e Eduardo Affonso de Castro, approvados simplesmente. Foi dispensado de prestar exame de habilitação o alumno Alexandre de Sousa Barbosa, por ser normalista e professor da escola normal da alludida cidade (MINAS GERAES, 03/01/1895, p.5).

Foram esses os alunos que compuseram a primeira turma de engenheiros agrônomos do Instituto Zootécnico de Uberaba, sendo que destes sete foram aprovados plenamente, quatro aprovados simplesmente e um, dispensado do exame de habilitação, pois já era graduado como professor.

Assim, o processo seletivo permitia aos alunos aprovados simplesmente – ou seja, aqueles que não conseguiram ser aprovados em todas as matérias exigidas para o ingresso no curso superior – frequentar as aulas como ouvintes e prestar, no final do ano, novos exames das matérias nas quais não haviam sido aprovados. Mediante essa justificativa, foram autorizados a assistir as aulas como ouvintes: Leônidas Antonio Rosa, José Maria dos Reis, Octavio Teixeira de Paiva e Eduardo Affonso de Castro. Pela publicação do jornal acima, a primeira turma teve nove alunos matriculados oficialmente e doze ouvintes, dando um total de vinte e um alunos.

Observando o livro de registro de faltas do Instituto, durante o primeiro ano, ou seja, em 1895, nota-se que há nomes de alguns alunos ouvintes que não constam na publicação do Jornal MINAS GERAES, de 03/01/1895, p.5 - (Anexo 5).

Aprovados plenamente no exame de habilitação

Aprovados simplesmente no exame de habilitação (Ouvintes) Alexandre de Sousa Barbosa Delcides de Carvalho

Arthur Costa Diocleciano Vieira

Fausto Augusto de Paiva Teixeira Eduardo Affonso de Castro

Celso Antonio Rosa Emiliano Alves Jardim Júnior

Gabriel Laurindo de Paiva José Gontijo de Carvalho Hildebrando de Araújo Pontes José Maria dos Reis

José dos Santos José Rochedo

Fidelis Gonçalves dos Reis Leônidas Antonio Rosa Luiz Ignácio de Sousa Lima Mário José Bernardes

Militino Pinto de Carvalho Otávio Teixeira de Paiva Sebastião Valaniel

Quadro 2 - Alunos que compuseram a 1ª turma do Instituto Zootécnico, 1895.

Fonte: Quadro construído pela autora a partir de dados do Jornal MINAS GERAES, 03/01/1895, p. 5, Livro de Registro de faltas dos alunos, Livro SA. 1042 - Arquivo Público Mineiro

Num levantamento geral, relacionando-se os nomes publicados do jornal com os nomes relacionados no livro de registro de faltas, nota-se que a primeira turma foi formada

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por vinte e um alunos, sendo nove “regulares” e doze ouvintes, conforme quadro acima. É importante citar que, nesse mesmo ano, ingressaram quarenta alunos na Faculdade de Medicina da Bahia, após 90 anos de sua fundação.

Ao se analisar o quadro 2 em comparação com o número de alunos que se graduaram, percebe-se que apenas oito conseguiram terminar os estudos no Instituto Zootécnico. Quando se observa os nomes dos formandos nota-se que houve alguns alunos regulares e ouvintes que prestaram novos exames em 1896, conseguindo assim o certificado de aprovação e se matricularam como alunos regulares. Apesar de ter formado apenas os oito alunos, é importante considerar que, para o contexto educacional da época, esse número era significativo, pois apenas poucos conseguiam concluir um curso superior.

As aulas do Instituto Zootécnico de Uberaba iniciaram-se em agosto de 1895, sendo que se matricularam, no primeiro ano do curso, sete alunos regulares e doze passaram a assistir às aulas como ouvintes. Ao final do primeiro período letivo, nos exames finais, apenas oito alunos conseguiram ser aprovados e passaram para o segundo ano (GAZETA DE UBERABA, 30/07/1899). Embora o Instituto Zootécnico, uma instituição gratuita de ensino, ter sido implantado para atender especificamente aos filhos da elite uberabense da época, encontrou-se nas atas da Câmara Municipal o registro de que foi apresentada e aprovada uma proposta, Lei nº 52, de 17/03/1898, a qual pretendia promover o acesso dos jovens pobres ao Instituto Zootécnico:

Em uma das primeiras reuniões da câmara discutiu-se e aprovou-se uma pensão de 1:200$000 annuaes para ser applicada ao moço que quizesse freqüentar o Instituto Zootechnico e ao qual faltassem meios de subsistência. Esta medida, aliás digna dos maiores encomios, não produziu o effeito desejado, pelo facto de ser pequena a quantia e, ainda mais, porque os moços que poderiam acceital-a, não se acham em condições de supportar as provas das matérias exigidas para a matricula. [...] pois bem: vote a câmara quatro pensões, 4:800$000 annuaes e applique-as, não a alumnos, mas ao pagamento a professores do Instituto que ensinem as matérias do curso de preparatórios, estabelecendo-se um externato que funcionará em um prédio qualquer, si não puder ser naquelle estabelecimento. Para auxiliar esta verba ficará estabelecida uma matricula de 50$ annuaes, que servirão para o aluguel do predio e utensílios para o ensino. Acaso não reconhecerá a câmara que a medida traz proveito directo a esta cidade e ao município? (GAZETA DE UBERABA, 14/08/1898, p.1).

Destacam-se, nesta reportagem, três aspectos que merecem atenção. Primeiro tentou- se promover condições financeiras, por meio de uma subvenção anual de 1:200$00, ao moço que quisesse estudar no Instituto e não pudesse prover sua subsistência, mas percebeu-se que,

além de essa quantia ser pequena, esse moço talvez não conseguiria cumprir a exigência do processo seletivo, pois ele deveria ser aprovado no exame de habilitação, ou seja, teria de ser aprovado nas matérias exigidas na matrícula.

Segundo, como o valor destinado aos alunos era pequeno, foi proposta uma votação pelo valor de 4:800$000, o qual seria destinado aos professores da instituição para que eles ensinassem aos moços as matérias exigidas no exame de habilitação. Tais aulas poderiam ser ministradas dentro do próprio Instituto ou em outro lugar. E, finalmente, os alunos pagariam uma matrícula anual de 50$00, que seria utilizada no pagamento do prédio onde as aulas aconteceriam, bem como na compra dos materiais necessários às mesmas.

Percebe-se que houve uma tentativa de promover o acesso ao Instituto também aos filhos de famílias menos favorecidas financeiramente. Apesar da tentativa de promover essa subvenção aos alunos pobres, essa proposta de lei não se concretizou devido ao fechamento da instituição dois meses após a mesma ter sido aprovada na Câmara Municipal de Uberaba.

Essa proposta pretendeu atender às necessidades dos jovens sem posses, pois, conforme será analisado mais adiante, o curso era ministrado em tempo integral, e, portanto, o aluno não tinha como estudar e trabalhar ao mesmo tempo.

No dia 05 de junho de 1898, o Instituto Zootécnico de Uberaba graduou a primeira e única turma de engenheiros agrônomos, composta pelos seguintes alunos: José Maria dos Reis, Fidélis Gonçalves dos Reis, Militino Pinto de Carvalho, Hildebrando de Araújo Pontes, Delcides de Carvalho, Otávio Teixeira de Paiva, Luiz Ignácio de Sousa Lima e Gabriel Laurindo de Paiva.

Esse acontecimento foi recebido com muita festa por toda a sociedade uberabense e região. A solenidade de formatura foi aberta às 12 horas daquele dia, pelo diretor, Dr. Draenert, que discursou e fez a entrega dos diplomas. A solenidade foi noticiada pelo Jornal Gazeta de Uberaba:

[...] feita a chamada dos graduandos pela classificação que obtiveram nos exames finaes, procedeu o digno director a collação do grau com as formalidades de estylo, exhortando e abraçando a cada um de per si e á todos os graduados, que foram egualmente felicitados ao receberem de seus mestres, membros presentes da congregação, o amplexo symbolico de confraternisação e colleguismo. Nos intervallos ouviam-se bellas e enthusiasticas harmonias de duas bandas de musica postadas em um dos salões do estabelecimento. Nesse momento em que a alegria irradiava dos semblantes das pessoas presentes a tão tocante solemnidade, foi dada a palavra a um dos recém-graduados, o jovem engenheiro agrônomo Fidelis Gonçalves dos Reis, que desempenhou cabalmente a honrosa incumbência de fallar em nome de seus colegas, prendendo a attenção do auditorio pela correcção da phrase e elevação dos conceitos quando dissertava sobre as responsabilidades inherentes aos títulos

95 que lhes eram conferidos, e sobre a missão que lhes incumbia desempenhar na lavoura nacional (GAZETA DE UBERABA, 09/06/1898, p.1).

Percebe-se por essa matéria a importância que a sociedade uberabense e região deram ao Instituto Zootécnico. Cada aluno foi abraçado por seu mestre, ação advinda do bom relacionamento entre eles, conforme pode ser notado ao longo da pesquisa. Provavelmente, o Sr. Fidelis Reis tenha sido o aluno de maior destaque durante o curso e, por isso, foi convidado para discursar em nome da sua turma. Pode ser notado, ainda, pela reportagem, que os alunos tinham consciência da importância daquele diploma em sua vida profissional, quando destaca que eles iriam desempenhar um papel significativo para a lavoura nacional. Os estudantes receberam o diploma de Engenheiro Agrônomo, conforme o modelo adotado à época.

Figura 10- Modelo do diploma do Instituto Zootécnico

Fonte: Lei 41, de 03/08/1892 - Arquivo Público Mineiro- Belo Horizonte/MG

O Jornal Gazeta de Uberaba fez comentário sobre o discurso proferido por Fidelis Reis, em nome de toda a turma:

Agradecendo aos lentes, seus mestres, os esforços empregados a bem de sua educação scientifica e profissional, manifestou o firme propósito em que estava com seus colegas de dignificar o Instituto por seu procedimento futuro, elles que desde o banco da escola já faziam proveitosa propaganda da Revista Agrícola do Grêmio Agro Scientifico, a que pertencem enquanto estudantes, e terminou declarando que ao entrarem na vida prática tudo fariam para retribuir por sua dedicação ao trabalho, a nítida comprehensão de seus deveres, como

cidadãos e como profissionais, os sacrifícios e favores prodigalisados pelo estado para sua educação (GAZETA DE UBERABA, 09/06/1898).

Pela reportagem percebe-se que os alunos agradeceram ao empenho e dedicação de seus mestres, reconhecendo a importância do conhecimento científico transmitido por eles. Ademais, comprometeram-se a, ao entrarem na vida prática, tentar retribuir a dedicação dos mestres, no exercício de sua vida profissional, e, também, como cidadãos. Por fim, ainda agradeceram o investimento do Estado em sua educação.

O secretário de Estado de Agricultura parabenizou o Instituto pela formatura de sua primeira turma no seguinte documento:

Figura 11- Oficio 368, de 18/06/1898

Fonte: Livro da Secretaria de Agricultura - SA 119 - Arquivo Público Mineiro

A conquista do diploma, certamente, proporcionou aos familiares destes alunos um grande orgulho, uma vitória alcançada em meio a tantas dificuldades.

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