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3 EMBASAMENTO TEÓRICO: AS REPRESENTAÇÕES SEMIÓTICAS

3.3 OS AMBIENTES INFORMATIZADOS: ALGUNS APONTAMENTOS

Os ambientes informatizados são importantes, de tal forma que “se tornaram os ambientes que comandam tão poderosamente todos os setores da atividade humana que se adaptar à realidade e ao mundo, é hoje se adaptar às telas via utilização de softwares.” (DUVAL, 2013, p. 31).

Para Duval (2011), o computador não produz um novo tipo de registro de representação semiótica, pois as imagens que exibe são as mesmas que podem ser produzidas no papel. O autor complementa ainda que, por exemplo, para a interpretação das figuras geométricas, a necessidade de modificação mereológica ou desconstrução dimensional permanece inalterada. No entanto, o computador é visto como uma ferramenta com potencial de tratamento ilimitado e imediato, com a possibilidade de que um registro se torne manipulável, arrastando-o, rodando- o ou mesmo estendendo-o a partir de um ponto. Essa característica favorece a “exploração heurística de problemas matemáticos.” (DUVAL, 2011, p. 137).

Salazar e Almouloud (2015) fazem importantes apontamentos quanto ao tipo de registro produzido num ambiente informatizado. Denominam registro figural dinâmico o tipo de representação semiótica produzido por esses ambientes e, mais precisamente, referem-se aos registros produzidos em ambientes de Geometria dinâmica. Explicam que, ao interagir com um ambiente dinâmico, o sujeito realiza as atividades cognitivas de formação, tratamento e conversão de modo diferente.

A atividade cognitiva de formação, que para Duval (2004) é o reconhecimento de determinado objeto, recebe uma adaptação quando ocorre no ambiente de Geometria dinâmica.

Uma “formação dinâmica, se dá quando o sujeito, para representar um objeto geométrico, escolhe uma ferramenta (da barra de ferramentas) que lhe permita criar a figura desejada.” (SALAZAR; ALMOULOUD, 2015, p. 928). O sujeito faz apelo ao conhecimento de geometria que possui, aliado à escolha das ferramentas que permitirão exteriorizar aquilo que lhe veio à mente.

O tratamento, que de acordo com Duval (2004) consiste em efetuar modificações internas no mesmo sistema semiótico ao qual determinado registro pertence, ao ocorrer no ambiente dinâmico é imediato e acelerado. Salazar e Almouloud (2015, p. 930) identificam que os tipos de tratamento que um registro recebe em um ambiente dinâmico são:

[...] mudar a posição da figura sem modificá-la (para isso, se utiliza a função de manipulação direta), mudar o comprimento dos lados da figura (aqui, se utiliza a função de arrastamento e também se pode utilizar a ferramenta de homotetia) e reconfigurar a figura (neste caso, se utiliza a função de arrastamento e outras ferramentas especificas que dependem da figura construída).

Em relação à conversão, Duval (2012) a caracteriza como a mudança de uma representação para outra em que se conserva total ou parcialmente o conteúdo da representação inicial. Esta operação cognitiva, ao ocorrer num ambiente de Geometria dinâmica, se realiza do sistema semiótico da língua natural, com a representação por meio do enunciado do problema, para a representação figural, em que se faz uso dos tratamentos dinâmicos para comprovação de conjecturas (SALAZAR; ALMOULOUD, 2015).

A partir dessas constatações, a utilização dos ambientes informatizados promove uma nova situação no ensino. Em um ambiente informatizado, há três importantes características mencionadas por Duval (2013, p. 32, grifos do autor), em que,

A mais fascinante é o poder de visualização que eles oferecem em todas as áreas. A segunda é que eles constituem um meio de transformações de todas as representações produzidas na tela. Em outras palavras, eles não são somente um instrumento de cálculo cuja potência cresce de modo ilimitado, mas eles cumprem uma função de simulação e de modelagem que ultrapassa tudo o que podemos imaginar “mentalmente” ou realizar de modo gráfico-manual. Enfim, a produção pelos computadores é quase imediata: um clique, e isto é obtido sobre a tela!

Duval (2011) pontua que as atividades cognitivas necessárias de acordo com cada software estão relacionadas com o menu de comandos. O menu de comandos corresponde ao modo de controle que é feito pelo indivíduo sobre o software.

Cada item do menu de comandos exigirá ações e atividades cognitivas diferenciadas. O Quadro 2, a seguir, apresenta exemplos de ações e atividades cognitivas mobilizadas a partir do menu de comandos de maneira geral.

Quadro 2 - Análise das tarefas cognitivas requeridas para a utilização de um computador

Menu de Comandos Ação Atividade cognitiva mobilizada

- Uma lista de termos designando os objetos matemáticos e as operações matemáticas ou não.

- Escolher um termo para uma instrução ou compor uma sequência de várias instruções.

- Conhecimento dos termos matemáticos e decomposição da figura esperada em função da escolha dos termos do menu.

- Lugar vazio para uma equação.

- Escrever uma equação. - Conversão automática de uma equação também já dada, ou coordenação preliminar para escolher o tipo de equação, a fim de obter o tipo de curva ou a superfície esperada.

- Uma tabela de ícones. - Apoiar sobre um ícone - Reconhecimento do ícone que codifica a instrução correspondente ao pedido.

- O mouse ou o tablet. - Deslocar manualmente o mouse.

- Coordenação do gesto e da visão para manipular a figura obtida.

Fonte: DUVAL (2011, p. 138)

O menu de comandos influencia o que se exibirá na tela, sendo necessário atentar-se para que não ocorra uma contrariedade nos modos de ver ou formular que estão aliados às três características destacadas anteriormente. Diante disto, Duval (2011) tece algumas considerações importantes:

− - É possível elaborar uma quantidade elevada de instruções. No entanto, deve-se tomar cuidado quanto às limitações da memória mesmo atenta ou então distraída, que pode influenciar no trabalho de comparação e observação das variações que ocorrem nas representações, pois uma sequência de instruções de exibições no monitor pode ser a mesma que numa produção da fala.

− - Um menu favorece unicamente a entrada de um tipo de registro de representação e reproduz a mesma em outro registro. Como é necessário o desenvolvimento da coordenação de registros, é necessário que o software seja explorado de modo a permitir a entrada inversa dos registros.

− - Na construção de uma figura, a desconstrução dimensional acontece de modo antecipado, o que influencia a maneira de ver uma figura, pois o menu impõe inicialmente a decomposição das unidades figurais 0D, 1D e as subconfigurações das

unidades figurais em 2D. “Essa decomposição imposta pelas primitivas do menu pode ser fortemente não congruente com a maneira como o olhar vê uma possível decomposição de uma figura.”. (DUVAL, 2011, p. 138, grifos do autor). Duval (2015) destaca que, para uma autonomia intelectual em Matemática, é necessário considerar as variáveis pertinentes, articular a representação do monitor com os enunciados, propriedades e teoremas. Considera que, com o uso do computador, as atividades matemáticas se tornam mais acessíveis e tornam as representações semióticas automáticas, o que caracteriza o recurso como inovador e interessante.

4 PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS DE COLETA, ORGANIZAÇÃO E