Memórias de jornal
5. Como era o Jornal do Brasil de 1901
5.4 Os anúncios classificados e o jogo do bicho
Esses novos serviços demandados pela sociedade que se diversificava e se estratificava, criando os chamados segmentos médios da hierarquia social, estavam nas ofertas ou procura de mão de obra dos anúncios classificados do Jornal do Brasil, o primeiro a publicá-los desta forma. Junto com o noticiário sobre o jogo do bicho, não somente os resultados do dia, como também as dicas e sugestões para os próximos jogos, eram ambos as grandes novidades jornalísticas da época, ao lado das notícias populares.
Na sua edição inaugural do novo século, o jornal tentava dar destaque a uma informação institucional, como hoje a identificamos:
O Jornal do Brasil traz diariamente grande número de anúncios de criados que se alugam.
Criados – Quem precisar não tem mais do que ler os anúncios do Jornal do Brasil. (negrito no original)
(Jornal do Brasil, edição da tarde de 1º de janeiro de 1901)
Publicados, nesta época, sempre à página quatro, tanto as dicas do jogo quanto os anúncios iriam se tornar uma marca do jornal e deles o Jornal do Brasil extrairia todo um novelo de novidades a apresentar ao público, conquistando novos leitores e consolidando a sua marca de jornal popular. Nas páginas de 1901 podem-se ler os seguintes anúncios, publicados sempre à página quatro, logo a seguir da seção intitulada “Arca de Noé” (que trazia as sugestões para o jogo do bicho, em versos, como veremos adiante):
Alugam-se duas boas cozinheiras do trivial, na rua de S. Antonio. (3/1) Aluga-se uma cozinheira na rua do Senado. (3/1)
Precisa-se de uma criada para todo o serviço de um casal. Rua da Alfândega, 248.
(7/1)
Alugam-se três moças portuguesas para copeiras e arrumadeiras de casa. (10/1) Precisa-se de uma criada branca para todo serviço. (10/1)
Precisa-se de modista que corta e coze com perfeição. (16/1)
Aluga-se uma boa ama de leite, francesa, na rua Gonçalves Dias, n. 81, 3º andar, quarto n. 10. (20/2)
Precisa-se de um compositor e impressor tipógrafo, pessoas de confiança. (23/3)
Capitalismo tardio, também aqui os direitos viriam depois. Por esta época, pelas colunas de classificados do jornal é possível perceber que o trabalho infantil, na sociedade brasileira desta época, era aberto e incentivado, até. É o que se constata ao ler nas páginas do jornal as seguintes ofertas de serviço de mão-de-obra.
Precisa-se de cozinheiro, criada, ama-seca, lavadeira e mocinha de 13, 14 anos para cuidar de uma criança. (3/1)
Precisa-se de um mocinho português, de 15 a 18 anos, para entregar pães em saco.
Precisa-se de um pequeno para vender cana.
Precisa-se de um pequeno para caixeiro. (10/1) Precisa-se de uma rapariguinha para ama-seca. (18/1)
Precisa-se de um pequeno e uma pequena de 10 e 12 anos para serviços leves.
(18/1)
Alugam-se duas mocinhas de 12 e 15 anos para copeiras. (20/2)
Precisa-se de um pequeno de 10 anos para serviços leves, na Travessa do Paço.
(2/3)
Precisa-se de uma mocinha para serviços domésticos de pequena família, na rua 7 de Setembro, 96. (1/7)
Se na capital federal o emprego de crianças era aberto, o que dá para imaginar que acontecesse nas cidades do interior do país. A ex-cidade imperial vivia seu dia-a-dia e as páginas do Jornal do Brasil retratavam, de certa forma, editados pelo olhar e pela fala dos donos do jornal, os problemas da capital, nos seus bairros, ruas, a falta de bondes, as reclamações contra as companhias de serviços públicos (bondes, gás, luz e telefone), as carências de todo tipo nos subúrbios do Rio, dos transportes, das vias, à iluminação e policiamento, como ainda a oferta de serviços populares através dos anúncios do tipo
“classificados”.
A virada para o século XX marca também a mudança da escrita do jornal, de sua linguagem, discurso que cada vez mais vai deixando de ser literário para ir desenvolvendo técnicas de dizer e falar, que viriam resultar no modo de transmitir a notícia, como a conhecemos hoje, influenciados pelo modelo do jornalismo estadunidense, no entendimento que Lage (2004) o confere. Ou seja, um discurso próprio, transfronteira, escrito e descrito em qualquer idioma.
Em pleno período de repressão ao jogo do bicho, criado pelo Barão de Drumond na década anterior, e tornado inimigo público a partir do governo Campo Sales (Lessa, 2000, p. 215), o Jornal do Brasil passa, exatamente, a divulgar em suas páginas, com maior desfaçatez, os resultados da aposta popular e, mais ainda, as dicas para o jogo do dia.
Naturalmente, com o humor da época. O resultado do jogo era inicialmente publicado na página dois, mas em várias edições da tarde de 1901 foi publicado na primeira. Sempre assinado por “Marocas”, trazia invariavelmente um pequeno texto antes dos números.
Como na quinta-feira, três de janeiro.
JOANINHA. Continuo a sofrer de nevralgia. Que dor insuportável! Ainda hoje não te posso escrever por esse motivo. Vai o resultado. Ant. gr. 20. Touro, cent.
182; Mod. Gr. 18; Porco, cent. 670; Rio gr. 20; Peru, cent. 780; Salt. gr. 7;
carneiro... 9 beijos e 17 abraços da tua Marocas.
A quantidade de beijos e abraços variava, tanto quanto os números do bicho e os casos contados. “Não tive notícias do Casusa, coitado! Tenho medo de que ele se suicide”, escreveu dias depois, deixando para “Joaninha” “seis beijos e 10 abraços”. Tanta ternura sugere que tantos beijos e os tantos abraços já indicavam sugestões para o jogo seguinte, embora as sugestões mesmas, assumidas como dicas em versos, fossem publicadas na forma de quadras de soneto, nem sempre de boa qualidade ou rima, em uma seção geralmente acima dos anúncios, e que vinha assinada pelo pseudônimo de “Kabuloso”. A
“Arca de Noé” trazia, a cada edição, suas sugestões para o jogo seguinte.
Sou homem desconfiado / Mas sincero e verdadeiro / Se não jogo no carneiro / Faço jogo no veado. (9/1)
Sou homem de muita sorte / Em nada meto o bedelho / Jogarei até a morte / No cavalo e no coelho. (15/1)
Tenho motivos de sobre / Para jogar sem cuidado / No veado / E na cobra. (1/2) Braz de Arruda Perdigão / Residente em Macaé / Joga sempre no pavão / E também no jacaré. (4/1)
Acredito neste instante / Sem fazer espalhafato / Que ganharei no elefante / Ou no gato. (11/3)
Neste tempo em que o calor / resiste até o gelo / Jogo sempre com ardor / No jacaré e no camelo. (23/3)
Não consta em nenhuma das edições pesquisadas, bem como nas referências bibliográficas desta dissertação, que o Jornal do Brasil tenha sofrido qualquer censura ou qualquer interpelação ou admoestação das autoridades públicas por publicar resultados e incentivar um jogo que era proibido. Tal como nos dias de hoje, o jogo do bicho era proibido, mas acontecia quase que de forma escancarada, pois, em plena rua.