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3. Desconstruindo e repensando o conceito de “prostituição”

3.2. Os anos de 1970 e a construção da “nova mulher”

Entre os anos de 1960 e 1970, o feminismo passou a ter mais reflexão e teorização nas Academias. O estudo sobre gênero ganhou mais força e ficou conceituado como uma construção social das identidades sociais e como objeto dos estudos feministas. Dava início à desconstrução e desnaturalização do ser masculino e do ser feminino (CONCEIÇÃO, 2009:740).

Ainda nos anos de 1970, o país passava pelo chamado “milagre econômico”.99 Este processo de crescimento econômico enfrentado pelo Brasil foi descrito por Luiz Carlos D. Prado como apenas um “produto de uma confluência histórica, em que condições externas favoráveis reforçaram espaços de crescimento abertos pelas reformas conservadoras no governo Castelo Branco”. Além disso, o mesmo autor revela que houve sim um crescimento, mas sem equidade entre as classes populares (PRADO, 2007:234).

O fato é que nos anos de 1970 o país apresentou altas taxas de crescimento econômico e, com elas, o aumento de empregos, já que houve investimentos nos setores de infraestrutura e indústria. É nesse contexto que o trabalho feminino ganhou mais destaque, sendo incorporado aos poucos no mercado de trabalho. Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), nos anos de 1970 a participação feminina no mercado de trabalho

99A expressão “milagre econômico” foi usada pela primeira vez para fazer referência à Alemanha Ocidental

sobre a sua rápida recuperação econômica na década de 1950. Posteriormente a expressão foi utilizada para o crescimento japonês em 1960. Na década de 1970 passou a ser usada como sinônimo de boom econômico no Brasil e também como instrumento do governo. Ver mais informações em: PRADO, Luiz Carlos Delorme. EARP, Fábio Sá. O “milagre” brasileiro: crescimento acelerado, integração internacional e concentração de renda (1967-1973). In: FERREIRA, José; DELGADO, Lucilia de Almeida Neves. O Brasil Republicano- O tempo da ditadura: regime militar e movimentos sociais em fins do século XX. 2ª ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2007, p. 219.

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brasileiro era de 18,1% e a masculina era de 71,8%. Mesmo observando esta disparidade entre os sexos, não podemos deixar de ressaltar a crescente presença da mulher no mercado, o que tornou um fator importante para modificação na estrutura social. A partir de então, a mulher ganhava não só apenas um emprego ou uma remuneração, mas também autonomia em relação ao companheiro.

A ideia de mulher submissa nos anos de 1970 começa a ser questionada e a própria novela nos revela isso. Após a morte do seu filho, Dr. Osmundo Pimentel (João Paulo Adour), o Sr. Osmundo (Rubens de Falco) vai até a cidade de Ilhéus a pedido de Mundinho Falcão (José Wilker) para comover a população com a morte do seu filho.100 A oposição organizou uma procissão até o cemitério, mas o maior objetivo era protestar contra o assassinato e criticar o coronel Ramiro Bastos pela impunidade diante do ocorrido, já que o mesmo estava protegendo o assassino coronel Jesuíno Guedes (Francisco Dantas), seu amigo e compadre.101

Ao saber da procissão, imediatamente os coronéis proíbem suas esposas e filhas de participarem do acontecimento. Entretanto, não são obedecidos. Ao perguntar a sua mãe, Silvia Tavares (Ana Ariel), se elas realmente iriam participar da caminhada ao cemitério, já que os coronéis proibiram e a imprensa local tinha alertado às damas de Ilhéus sobre o evento, Malvina (Elizabeth Savalla) escuta a seguinte afirmação: “Ora, minha filha, nós mulheres sabemos muito bem quando é e quando não é hora de obedecer”.102

Não só o ato de desobediência das mulheres como também a afirmação de Silvia, nos mostram a desconstrução de uma total submissão feminina, como também um novo perfil de mulher que se desenhava nos anos de 1970.

A própria Malvina se destaca na telenovela por seus constantes questionamentos e protestos sobre o modelo que a mulher devia seguir na sociedade. Seu primeiro ato de “coragem” é quando ela vai até a livraria e compra o livro “O crime do Padre Amaro” (Eça de Queirós), considerado uma leitura imprópria para mulheres. Jerusa, ao pegar o livro, afirma: “Dizem que esse livro é muito forte!”. Malvina: “Qual é?”. Jerusa: “O crime do padre Amaro. Eu vi lá na casa de Iracema. Ela pegou pra ler e o irmão tomou. Disse que não era leitura pra moça”. Malvina: “E por que que ele pode ler e ela não pode?”. Jerusa: “E eu é que vou saber?”. Malvina: “Pois eu tô com vontade de comprar!” Jerusa: “Esse livro, Malvina? E você tem coragem?”. Malvina: “Tenho!”.103

100 GABRIELA, 1975: capítulo 31, 29:08. 101 GABRIELA, 1975: capítulo 35, 25:00. 102 GABRIELA, 1975: capítulo 35,14:56. 103 GABRIELA, 1975: capítulo 01, 25:43.

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A mesma personagem ainda chegou a defender a saída das meretrizes na procissão em plena reunião com as damas da sociedade, que estavam ali para protestar a “absurda e imoral ideia das moças”. Olga: “O que é que vocês acham? Essas mulheres do tipo que dona Silvia se referiu, devem ou não participar da festa do nosso padroeiro?” Malvina: “Eu acho que elas também têm direito! Eu acho que as moças do Bataclan tem o mesmo direto de participar do que qualquer outra daqui!”.104

Outra cena que mostra a ousadia da moça é a da sua saída de casa meia-noite, às escondidas, para ir até o velório de Dona Sinhazinha Guedes (Maria Fernanda), pois era considerado um absurdo uma solteira velar o corpo de uma mulher que traiu seu marido.105 Tais atitudes de Malvina, na verdade, são reflexos de uma nova sociedade que estava se formando nos anos de 1970, em especial um novo modelo de mulher.

Revistas e jornais dos anos de 1970, mais especificamente no ano de 1975, quando “Gabriela” foi ao ar, nos mostram qual era este novo perfil feminino que estava presente no Brasil. Na Folha de São Paulo, por exemplo, encontramos a seção intitulada “Nova Mulher”. Mais do que assuntos destinados às mulheres, esta parte do jornal informava sobre as novas atuações e comportamentos femininos no mundo.

São alguns exemplos das matérias presentes na Folha de São Paulo críticas à psicologia, por ainda defender o ideal de mulher frágil ou a ideia de que o homem é o ser mais criativo e inteligente; opiniões relatam que características femininas não são naturais, mas impostas socialmente (como usar roupas cor-de-rosa ou brincar com bonecas)106; campanha lançada pela ONU para comemorar o Ano Internacional da Mulher , que fez circular em todo o mundo selos postais que traziam como temática o reconhecimento universal de igualdade entre os sexos107; crescimento gradativo de permissão para mulher dirigir moto e ainda a sua aparição em campeonatos e torneios108; realização do curso promovido pela OAB em Recife, com a temática “A mulher e o direito atual”, objetivando divulgar os mecanismos de proteção legal às mulheres109 ou ainda sobre o aumento do divórcio nos Estados Unidos, além de uma matéria sobre “como levar uma vida sem marido”.110

Vale lembrar ainda que já em 1961 houve a invenção da pílula anticoncepcional pelo Dr. Pincus, principalmente sobre a pressão do movimento feminista norte-americano. Em 1962, a pílula já estava disponível às mulheres brasileiras. Em 1979, a teledramaturgia da

104 GABRIELA, 1975: capítulo 06, 12:51. 105 GABRIELA, 1975: capítulo 27, 34:14. 106

FOLHA DE SÃO PAULO, 19 de Setembro de 1975, p.37.

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FOLHA DE SÃO PAULO, 08 de Março de 1975, p.29.

108

FOLHA DE SÃO PAULO, 10 de Julho de 1975, p.37.

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FOLHA DE SÃO PAULO, 17 de Abril de 1975, p.35.

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Rede Globo em “Malu Mulher”, telenovela com direção de Daniel Filho, Paulo Afonso Grisolli e Dennis Carvalho, mostrou a primeira cena da TV brasileira em que a personagem de nome “Malu” (interpretada por Regina Duarte), após ter relação sexual, tomou a pílula anticoncepcional.111

Nos anos de 1960, mais precisamente em 1968, em Atlantic City, Estados Unidos, as mulheres realizaram a “queima dos sutiãs”. Foi um protesto contra a realização do concurso de beleza de Miss América, com o objetivo de denunciar a exploração comercial e uma visão arbitrária e opressiva contra as mulheres. Dois anos depois nasceu o núcleo das reivindicações do Movimento de Libertação da Mulher. Nos anos de 1960 e 1970, as mulheres lutavam pelo “direito do prazer”, mas também pela escolha sobre quando queriam exercer o papel de “mãe”. Tais fatores apresentados, juntamente com outras transformações econômicas e políticas, “não causaram exatamente um milagre, mas ajudaram a empurrar barreiras” (PERROT, 2003:175).