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Os anos 1980 e a geração saúde

No documento arleterodriguesvieiradepaula (páginas 118-123)

3.2 Corpo em forma e moralidade

3.2.1 Os anos 1980 e a geração saúde

A segunda metade do século XX foi marcada pelo pós-guerra e pela crise de sentido que atingiu as comunidades do mundo ocidental. O corpo se tornou uma autorreferência, um lugar de construção de subjetividades, e o discurso de saúde, o parâmetro dessa imagem centrada em si mesmo. “O homem do pós-guerra é um homem que se busca desesperadamente. Fala com e através do seu corpo” (BRAUNSTEIN; PÉPIN, 1999, p. 156). Os movimentos que aconteceram nos anos 1970 iam de encontro a um padrão de sociedade que massificava e uniformizava os indivíduos. Nos grandes movimentos musicais que ocorrem durante esse período, o corpo ocupou um lugar de destaque e foi exibido como um lugar de prazer e liberdade. Usado como uma bandeira de paz e de contestação contra uma política de guerra, foi mostrado nu e tatuado com mensagens de paz e amor. As novas

performances apontavam um corpo imerso na natureza em comunhão com as forças cósmicas.

O uso da pílula anticoncepcional – que aliviou o fardo da gravidez feminina como destino, bem como possibilitou a mulher ocupar os postos de trabalhos, tradicionalmente destinados aos homens, durante as duas grandes guerras – conduziu a compreensão do corpo feminino para outro patamar dentro das relações familiares e sociais na segunda metade do século XX. Nos anos 1970, o corpo fica em evidência, é uma vitrine das novas subjetividades contemporâneas e de novos produtos de consumo.

Os anos 70 trazem a dúvida, as desilusões do progresso, mas também o direito à diferença. A visão econômica instala-se, favorece a retracção

indentitária, o narcisismo, o consumo do “pensar já feito”. [...] A partir dos

anos 80, a biologia, a sociologia, por causa das agitações da genética, trazem

novas interrogações sobre a natureza do homem e o papel do corpo na sociedade (BRAUNSTEIN; PÉPIN, 1999, p. 185, ênfase dos autores).

A década de 1980 foi marcada por mudanças profundas nos padrões de conduta social. A preponderância do setor de serviços aliada a hegemonia da era da informática apressou essas mudanças de comportamentos, encurtando o tempo das transformações culturais. Tudo se tornou muito rápido e descartável. Rapidamente algo pode se tornar velho e obsoleto. O corpo não escapou dessa velocidade de existir. Correr atrás do tempo ou à frente dele passou a ser um motivo para os imperativos de manter o corpo saudável, sem doenças e jovem, eternamente jovem como nos mitos e nas lendas em que o herói não morre e com sua determinação e coragem supera o envelhecimento e a morte.

Os anos 1980 ficaram conhecidos como geração saúde, com a difusão da ginástica aeróbica e da malhação e pelo aumento considerável das academias de ginástica no mundo ocidental. Os consumos de bens de serviços e de vestuário que eram específicos das atividades esportivas fazem parte desse período. A partir dos anos 1980, as calças tipo legging usadas nas academias de ginástica ganharam as ruas nos corpos dos indivíduos que faziam questão de mostrar as formas corporais. O corpo – que já havia ganhado foco nos anos 1970 com os movimentos da contracultura nos quais ele se torna símbolo de liberdade, prazer e juventude –, nos anos 1980, ganha uma visibilidade de néon, colorida e estampada. As cores vivas e brilhantes se tornam moda, e os corpos são vestidos dessa onda colorida, aeróbica e dançante que marcou os embalos dos anos 1980. O calçado tipo tênis se torna um símbolo de descontração e estilo de vida saudável. A geração saúde tem uma bandeira contra o consumo de drogas, álcool, tabagismo e alimentos que não promovem a saúde do corpo e ocasionam doenças crônicas degenerativas e doenças cardiovasculares. O que faz mal para o coração é riscado do caderno e exercitar é a palavra da moda. O corpo ocupa espaço no cotidiano da sociedade, e as academias de ginástica começam a fazer parte da rotina de vida do cidadão que se preocupa com sua vida e deseja se manter jovem, saudável e se possível viver eternamente. A saúde se torna a base de tudo na vida, pois sem saúde não se pode realizar nada. Dentro dos parâmetros de ter e manter a saúde, a atividade física tem lugar de destaque, o corpo precisa estar em movimento.

Dialogando novamente com a pesquisa de campo quando pedimos a Zaqueu para dizer quatro palavras que lhe vêm em mente quando se fala atividade física e depois escolher

a mais importante, ele disse: saúde, porque é a base de tudo (ZAQUEU, entrevista XII, 49 anos). E quando perguntamos a ele: o que mudou em sua vida com a prática de atividade física? Ele considerou:

Eu acho que não mudou nada. Eu já nasci com isso, está no meu eu, então eu não sei o outro lado. Não sei estar sem uma atividade física, nunca fiquei uma semana sem praticar atividade física. Eu não conheço o outro lado. Até nas viagens de férias, eu estou praticando atividade física (ZAQUEU, entrevista XII, 49 anos).

Zaqueu afirma que não conhece uma vida sem fazer atividade física. A prática de exercícios físicos está em suas entranhas, corre no sangue, faz parte de sua composição corporal. Ele ressalta que ao nascer já trouxe essa disposição de fazer atividade física, está em sua genética, em sua herança ancestral. Não há, para ele, outra opção de estar na vida. É algo visceral que carrega o tempo todo, seja no trabalho, seja no lazer. É uma identidade própria. Zaqueu é quase uma metáfora da geração saúde.

Continuando no contexto da pesquisa de campo, vamos dialogar com Ricardo. Quando perguntamos o que lhe vem em mente quando se fala a palavra corpo, era para ele dizer quatro palavras, escolher a mais importante e explicar o porquê. Em suas palavras: “saúde, porque eu faço atividade física sempre pensando em ser um garoto velho, não quero precisar de ajuda para subir uma escada” (RICARDO, entrevista XV, 53 anos). O entrevistado reafirma a relação entre atividade física, saúde e juventude, que foi um refrão dos anos 1980 quando o apelo era para estar saudável e jovem num corpo ativo. Essa performance é como um componente da personalidade, um item da carteira de identidade. Ter saúde é um capital, um patrimônio corporal, uma moeda de troca. Ainda no cenário da pesquisa de campo, fizemos a mesma indagação a Márcia, e, mais uma vez, a palavra mais importante foi: “saúde, porque a saúde engloba tudo, o bem-estar, a satisfação. Se tenho saúde, eu tenho equilíbrio” (MÁRCIA, entrevista XXII-a, 31 anos). A condição de estar equilibrada inclui ter saúde, pois a doença é percebida como uma ruptura nessa situação estática na qual o corpo está em silêncio em suas vísceras. A sensação de estabilidade corporal é compreendida como bem- estar. Ou seja, a saúde é fonte de bem-aventurança e prazer. A saúde, hoje, é compreendida como uma condição de equilíbrio que engloba o ser humano em sua dimensão física e mental, bem como em sua situação como cidadão. Ela é um direito garantido por lei.

Afirmando em 1949 o direito à saúde reconhecida como uma preocupação universal, a Organização Mundial de Saúde (OMS) dotou o século XX de

um novo direito do homem. Ele aparece, nos dias de hoje, na maioria das constituições nacionais. A definição de saúde da OMS, como estado de completo bem-estar físico, mental e social, tornou-se referência inevitável (MOULIN, 2008, p. 18).

A pergunta feita para Márcia no texto acima também foi feita para Eugênio, e sua resposta da palavra mais importante entre as quatro citadas foi: “bem-estar, porque se a gente está bem na mente e no corpo, bem consigo mesmo, a gente reflete isso para fora e saúde tem a ver com o bem-estar” (EUGÊNIO, entrevista XX, 29 anos). Nesta linha, ter saúde implica em ter bem-estar, não basta apenas não apresentar uma enfermidade, pois a condição saudável tem que se estabelecer na totalidade do ser humano e reflete uma subjetividade, visto que é o indivíduo com ele mesmo.

Na década de 1980, a Organização Mundial de Saúde propôs normas e estipulou metas para o ano 2000 com a campanha de saúde para todos na abertura do milênio. A década do progresso tecnológico das mídias digitais, da internet e do mundo virtual se realiza junto com o avanço da biologia e de sua filha predileta: a genética. Saúde e genoma começam a caminhar de mãos dadas, e as recomendações de prevenção da saúde tomam outra expressão, passando a ações concretas de mapeamento das possibilidades de adoecer dos indivíduos contemporâneos. Se os anos 1970 trouxeram a diferença, os anos 1980 trouxeram a padronização do corpo e das medidas dos tecidos celulares do corpo. O corpo em forma começa a ser formado no imaginário do cidadão ocidental e nas imagens das mídias contemporâneas. O progresso da genética, junto com o avanço da tecnologia dos computadores, imprime um novo brilho nas recomendações e ações na saúde das populações.

A sociedade contemporânea é marcada pelas representações de riscos e probabilidades de vir a adoecer. A ciência genética pretende controlar as variáveis aleatórias das espécies vivas, manipulando os acontecimentos fenotípicos numa tentativa de regulamentar a vida de acordo com as análises epidemiológicas das populações. Na virada do século XX, as intervenções na matriz biológica dos seres vivos almejam as intervenções nas subjetividades humanas. Paula Sibilia afirma que:

As medidas preventivas que fluem da medicina contemporânea constituem poderosos instrumentos de biopoder, pois nem todos os indivíduos apresentam falhas flagrantes em seus códigos, porém absolutamente todos têm probabilidades, em menor ou maior grau, de adoecer e morrer. Por isso, as estratégias de biopoder que apontam para a prevenção de riscos envolvem todos os sujeitos ao longo de toda a vida, com seu imperativo de saúde e seu amplo menu de medidas preventivas: alimentação, esportes,

psicofármacos, vitaminas, terapias, etc. (SIBILIA, 2004, p. 56-57, ênfase da autora).

Sibilia (2004) analisa o discurso contemporâneo da saúde com suas mensagens de riscos e probabilidades de adoecimento. Para a autora, esse discurso é uma das estratégias do biopoder que vigora nas práticas médicas contemporâneas para as quais o indivíduo é um portador de doenças mesmo sem sintomas, podendo adoecer a qualquer momento, ou em um determinado período da vida. Essa posição determinista sobre o futuro da saúde das pessoas se baseia em suposições estatísticas que relacionam os genes a doenças e a comportamentos esperados, desconsiderando todas as relações do ser humano com o ambiente ao longo da vida, bem como a possibilidade de não expressividade desses genes e as subjetividades próprias de cada indivíduo. A autora entende que essas práticas vão além da cura como foco de tratamento. A busca é pela antecipação do adoecer através da prevenção dos riscos, numa proposta empresarial de autogerenciamento da saúde, “[...] uma passagem da vigilância disciplinar característica da sociedade industrial estudada por Michel Foucault, em direção a uma gestão privatizada dos riscos” (SIBILIA, 2004, p. 58).

A determinação da Organização Mundial da Saúde (OMS) que afirma que saúde é um completo bem-estar mental, físico e social trouxe, na compreensão de Moulin (2008), uma meta difícil de ser alcançada. Uma condição de bem-estar total é quase uma condição encontrada no Paraíso celestial antes da queda de Adão e Eva, uma possibilidade que está além da condição humana. Para a autora, “a saúde passou a ser a verdade e também a utopia do corpo, aposta da ordem social e de uma ordem internacional futura, mais equitativa e mais justa, no conjunto do mundo” (MOULIN, 2008, p. 18).

Conversando novamente com a pesquisa de campo quando perguntamos para Gláucio como ele se sentia em relação ao próprio corpo quando estava praticando atividade física, ele respondeu:

Após fazer uma cirurgia do joelho, eu tento perceber mais o meu corpo. Então, enquanto estou praticando, eu tento prestar atenção no músculo, em tudo. Sinto um prazer, um bem-estar muito grande quando estou fazendo exercícios. Às vezes, saio da universidade com a cabeça quente, é muito papel, muita burocracia, a gente tem n coisas para pensar e chego aqui, coloco o fone no ouvido e desligo, relaxo. É uma higiene mental. Quem tem um corpo sarado tem mais clareza mental (GLÁUCIO, entrevista XIX, 35 anos).

Gláucio, depois da cirurgia que fez no joelho, que de algum modo o imobilizou, passou a ter mais atenção ao seu próprio corpo. Seu corpo em atividade física é uma fonte de prazer e bem-estar. O tecido muscular é um fator necessário para ter um corpo sarado e o músculo merece uma atenção especial. Com o corpo em atividade física, a mente fica relaxada e os pensamentos se tornam claros e límpidos. É o corpo em forma, sarado, com massa muscular demais e tecido adiposo de menos que possibilita a clareza mental. O cuidado e a vigilância com a própria saúde remetem o indivíduo a cuidar do seu corpo através da atividade física buscando um determinado padrão estético que se mescla com o discurso de saúde. A boa forma corporal é compreendida como uma condição moral numa sociedade que apresenta, nos discursos de saúde, mesmo que nas entrelinhas, uma fobia pelo tecido adiposo. O indivíduo considerado gordo, fora dos padrões estipulados pelos protocolos médicos sofre e se sente excluído de uma sociedade lipofóbica que, por analogia com as cruzadas medievais de caça às bruxas, proclama que a ordem agora é malhar, movimentar o corpo para queimar as gorduras. O gordo aqui é o herege, e a gordura, algo impuro e contaminado, mas esse é o assunto do tópico seguinte.

3.2.2 A sociedade lipofóbica: a gordura imoral

Na sociedade, encontramos um comportamento de aversão, muitas vezes declarado, às pessoas consideradas obesas ou com sobrepeso segundo protocolos médicos ou padrões veiculados por imagens midiatizadas do que é considerado um corpo sarado. O discurso dos profissionais ligados à saúde, de modo geral, é autoritário, culpabilizando o indivíduo pelo seu excesso de peso, desconsiderando as questões sociais e coletivas que envolvem o sujeito. Esses indivíduos são classificados como doentes, já que a obesidade é considerada, pelos protocolos de saúde pública, uma doença crônica não transmissível. Todavia, também sofrem um julgamento moral quando são acusados de não cuidarem de si e de desleixo por engordarem e se tornarem, assim, um grupo de risco de doenças crônicas degenerativas, como a hipertensão e o diabetes, entre outras.

Não cabe, neste trabalho, refletir sobre as teorias da transição epidemiológica que tentam explicar o perfil corporal dos indivíduos e sua implicação com a saúde e as morbidades, mas ressaltar que essas teorias médicas normatizam o que é desejável e o que não é desejável na constituição corporal das pessoas. Nessa dicotomia do que é bom e do que é mau, a gordura é considerada contrária à virtude. É algo para ser combatido e eliminado do

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