Flora Daemon e Kleber Mendonça
2. Os anos oitenta
O caso ‘Mão Branca’, analisado por Enne (2006), parece apontar para um movimento emblemático na imprensa ca- rioca. A legitimação da prática do extermínio ultrapassa a via da “representação dos fatos” para se converter em simulação de acontecimentos. Os principais jornais fluminenses, nesse processo, extrapolam os limites da cobertura noticiosa e pas- sam a ser, também, criadores de narrativas ficcionais para dar conta de cadáveres executados por esquadrões da morte.
A garantia de audiência, que pôde ser aferida pelo cres- cimento da venda de jornais despertou, simultaneamente, a percepção do valor da adesão popular entre os autores de crimes dessa natureza. “Há um momento em que a cria- tura se volta contra o criador, já que diversos grupos de extermínio começam a utilizar a assinatura ‘Mão Branca’ para suas práticas de assassinato” (ENNE, 2006, p. 11). Ao perceber que a subversão do processo produtivo da notícia (acontecimento, apuração e narração jornalística) se tornou refém da ficcionalização de outros crimes, o jornalista e autor da personagem Mão Branca tenta frear o descontrole:
Quando o repórter e o jornal começam a perder o controle sobre a ficção, segundo Louzeiro (que afirma ser do conhecimento da chefia da redação todo o processo inventivo do repórter), e buscam abandonar o personagem, há uma reação negativa por parte desses grupos, que começam a ameaçar o repórter (ENNE, 2006, p. 11).
Além da resposta dos grupos à tentativa de ‘exter- minar’ o mito ‘mão branca’, houve, ainda, uma resposta ne- gativa por parte da população leitora desses jornais que, de certa maneira, acabavam concordando com algumas dessas práticas. Em pesquisa realizada, nos anos 1980, sobre as ações
violentas da polícia paulista – cujos resultados podem ser transpostos para o Rio de Janeiro – Benevides mostra como, tanto para os delegados de então quanto para os jornalistas:
[...] a violência da polícia militar, aos olhos dela pró- pria e de certas autoridades é, então, inerente à nature- za de seu próprio trabalho[...]. A reação da população à ação violenta da polícia surge no noticiário através de manifestações públicas de aplauso ou repúdio à ação policial ostensiva (BENEVIDES, 1983, p.72)
Na outra ponta do processo, em relação ao trabalho da força policial, Benevides recorre a recortes de imprensa e a en- trevistas com agentes da Polícia Civil para desenhar um retrato preciso do modus operandi de parte da corporação naquele mo- mento. A autora apresenta uma declaração de um delegado da Baixada Fluminense à Revista Veja em julho de 1979:
Se os bandidos não souberem que aqui botamos pra quebrar, eles dominam a gente... se eu disser a um subordinado que deve fazer uma investigação ou interrogatório em tocar no preso, ele cruzará os braços. É o policial brasileiro: se não der pau, fica de braços cruzados. Se encostar a mão, espanca. (BENEVIDES, 1983, p.76)
Do ponto de vista das justificações dessa prática de tortura perpetrada pela força policial, pode-se apontar para um du- plo argumento apresentado na imprensa: de ordem técnica e de ordem moral. Para os investigadores, trata-se de maximi- zar “a eficácia dos interrogatórios. As informações só seriam obtidas com emprego da violência física e de exploração do medo” (BENEVIDES, 1983, p. 78). De outro lado, a tortu- ra também cumpriria a função de “punir e dar o exemplo. Como o argumento é moral, joga-se com critérios, quase
sempre ambíguos, de culpado (ou inocente), irrecuperável (ou “recuperável, perverso ou ‘ boa gente’” (Idem, Ibidem).
Benevides aponta de que forma a ambiguidade presente nesse segundo argumento (de ordem moral) vai oferecer os elementos simbólicos que poderão explicar a gênese do apoio de partes da população e da imprensa à emergência dos grupos de extermínio em meados dos anos 1970, no Rio de Janeiro. Ao aprofundar os argumentos morais da tortura policial, a autora evidencia como esses serão asso- ciados à uma ambígua (e polêmica) noção de justiça, atrela- da a sentimentos de vingança ou castigo divino:
Nesse caso, os maus-tratos e a tortura, em geral, re- presentam, para o policial, um resposta natural. Não se trata mais da eficácia [...] trata-sede castigar. O policial deixa de ser um funcionário, um burocra- ta eficiente, um homem da ordem; transforma-se num justiceiro. (BENEVIDES, 1983, p.83).
Tal aspecto explicaria, por exemplo, a ‘compreensão’ dos policiais para certos crimes que, na visão deles, poderiam ser ‘moralmente’ justificados, como maridos que assassinam mulheres na chamada ‘defesa da honra’. No outro viés des- se papel de justiceiro, Benevides percebe que a violência nas torturas será exacerbada nos casos de crimes que pro- vocam maior revolta e indignação. Aqui, percebe-se, clara- mente, uma semelhança aos argumentos encontrados para os linchamentos praticados pela população tão habituais nas páginas da imprensa daquele período histórico.
Será justamente no encontro dessas duas formas de se fazer “justiça pelas próprias mãos” que emergirá o terreno propício para a concordância e um certo apoio popular (e de setores da imprensa policial) às ações de execução pro- movidas por grupos de extermínio como o Esquadrão da Morte, naquele momento histórico. A ‘moral’ que emer-
girá dessa prática se sustenta, por um lado, na constatação da ineficácia do Estado e do sistema penal no controle da violência e, por outro, na crença de que os acusados de de- terminados crimes seriam irrecuperáveis.
Ao analisar a forma peculiar como se dá, historicamen- te, a administração dos conflitos, no Brasil, Kant de Lima mostra como os princípios igualitários – presentes no ideal republicano – esbarram em um conjunto de práticas hierár- quicas que, no Brasil, mantém-se e se perpetuam em virtu- de de nossa herança colonial. Nessa sociedade com arranjo paradoxal, a ordem pública, que seria o resultado do con- flito oriundo da oposição de interesses entre iguais, de uma sociedade igualitária, transforma-se no modelo brasileiro, numa reunião de diferentes práticas jurídicas “cujo objetivo principal é manter implícitos o conflito e a estrutura desi- gual da sociedade” (KANT DE LIMA, 1996, p.167).
É justamente a dissonância presente neste cenário que irá produzir a baixa credibilidade das instituições judiciárias e penais evidenciadas nas falas dos investigadores e nas repor- tagens de imprensa do período e que permitiriam, nos anos 80, a sucessão de casos de linchamentos produzidos coletiva- mente por populares. Outra consequência dessa contradição, como vimos, seria o papel ambíguo da instituição policial, que abriria margem para a prática de torturas e mesmo de execuções, na medida em que a polícia operaria “como se fosse uma agência autônoma, a serviço de um Estado imagi- nário, encarrega” do de manter uma ordem injusta em uma sociedade de desiguais” (KANT DE LIMA, 1996, p. 174).
Em resumo, para Kant de Lima, a questão da violência, no Brasil, remete a “uma situação estrutural de exclusão cultural, social e institucional, na qual a população continua tendo ve- dada sua participação nos mecanismos de acesso à alta justiça e à universalização dos mecanismos democráticos de admi- nistração de conflitos” (KANT DE LIMA, 1996, p. 176).
Emergem desse cenário algumas das respostas apre- sentadas aqui como o linchamento e o apoio à tortura e ao extermínio. Sobretudo porque a combinação dessa descrença em relação ao funcionamento dos aparatos de Estado com o julgamento moral dos ‘desde sempre cri- minosos’ permitirá, aos policias torturadores, aos lincha- dores e aos grupos de extermínio distinguirem, simbo- licamente, suas ações violentas daquelas praticadas pelos criminosos ‘justiçados’ por eles:
Em geral, os que justificam – ou mesmo defen- dem – a prática da tortura, não admitem (ou sequer percebem com clareza) ser igualmente condenável, no plano da lei e dos direitos hu- manos, torturar um bandido ou um inocente. O policial que se revolta com um crime cruel, ou se comove com a tortura do inocente, ficará per- feitamente tranquilo com a ‘punição’ ao culpado (BENEVIDES, p.87-88).
Outro tema que promovia a junção desses três as- pectos da “justiça pelas próprias mãos” (linchamento, tortura e execução) era o debate acerca da pena de morte. O Jornal do Brasil de 18/11/80 trazia, em sua cobertura sobre um Congresso Brasileiro de Violência Urbana, que reuniu policiais de todo o país, algumas evidências desta polêmica:
O ex-delegado Waldemar de Castro, cuja palestra foi sobre o Crime do Rio de Janeiro, leu uma es- pécie de tese teórica em que [...] conclui que o medo é o único efeito inibidor para o bandido e justificou a pena de morte, o linchamento e os gru- pos de extermínio como formas de defesa para a comunidade. [...] Castro lembrou que casos como o de Mão Branca e os linchamentos ‘fazem ver os
bandidos’ que eles não são donos da rua; acrescen- tou que não é uma questão de fazer justiça com ódio aos criminosos, mas sim por amor às vítimas.20
Essa mesma reportagem materializa, também, o modo como havia, naquele momento da Ditadura Militar – em que a censura prévia já havia deixado as redações (embora ainda existisse de fato) –, uma desproporção entre a forma como alguns temas polêmicos eram tratados. Metade da re- portagem citada trata da retranca ‘pena de morte’, em que es- ses pontos de vista eram reverberados, enquanto apenas dois parágrafos abordam a questão da falta de apuração dos ‘aten- tados de direita’ praticados, naquele ano, no Rio de Janeiro21.
Podemos estabelecer um paralelo entre esse duplo gesto de reverberar as ações ‘policiais’ de extermínio na mesma medida em que os atentados ‘políticos’ de direita têm seu destaque diminuído e nossa hipótese acerca da reconstru- ção contemporânea do mito de fundação do ‘Comando Vermelho’, naquele momento ainda nomeado, por mui- tos jornais, como ‘Falange Vermelha’. Há um silêncio se- melhante nos jornais da época, ao não se levar em conta a possibilidade de influência dessas práticas violentas, então hegemônicas e explicitamente oriundas de representantes da extrema direita, na construção do modus operandi das ro- tinas criminosas dessa mesma falange.
Ao propormos um salto genealógico para os anos 90, per- cebe-se um certo silenciamento inicial, nos jornais, a respeito
20. Jornal do Brasil de 18 de novembro de 1980, p. 07.
21. A reportagem cita especificamente os atentados ocorridos em dois supermercados no Rio de Janeiro, em 14/11/80, véspera do feriado da República, e aos atentados a bomba na OAB e na Câmara dos Vereadores, em agosto do mesmo ano também no Rio de janeiro.
da potência criminosa das milícias cariocas contemporâneas. Cabe desdobrar essa constatação, em pesquisas futuras, para verificar em que medida tal efeito de sentido se sustenta em uma certa memória discursiva que continua avaliando a questão da violência urbana com o mesmo viés estabelecido nos anos 50 e reatualizado nos 70 e 80, como vimos: o de que traficantes (bandidos sem moral) e milicianos (justiceiros heróis) não compartilhariam a mesma natureza criminal.
Não por acaso, o apelo ao combate às quadrilhas de traficantes de drogas aliou-se à divulgação pela mídia do “sucesso” da repressão privada, agora “al- ternativa”, de iniciativa dos moradores. São milícias constituídas na maior parte por ex-policiais, as cha- madas “polícias mineiras”, que geralmente contam com o apoio das forças regulares de segurança pú- blica. Essas práticas foram apresentadas pelos meios de comunicação de massa como um exemplo bem sucedido da postura cidadã em que cada um ‘faz a sua parte’ (FRIDMAN e MACHADO, 2005).
3. Esquadrão revisitado: o Caso Batman e Liga