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Os aparelhos ideológicos de Estado

No documento 2013PatriciaGomesdeOliveira (páginas 42-45)

2.1 Materialismo histórico

2.1.2 Os aparelhos ideológicos de Estado

Althusser compartilha das ideias marxistas, no entanto, considera que o socialismo marxista é, ainda, uma teoria descritiva que, por isso, necessita de um desenvolvimento para que o nível da descrição seja superado. É isso que Althusser se propõe a fazer.

Partindo do ponto crucial de que toda formação social é resultado de um modo de produção dominante, visto que o processo de produção aciona as forças produtivas existentes em e sob as relações de produção definidas, Althusser (1985) afirma que para que a formação social exista ela deve ter condições de reproduzir as suas próprias condições de produção (forças produtivas e relações de produção existentes). Isso é, não há produção possível sem que seja assegurada a reprodução das condições materiais da produção: a reprodução dos meios de produção.

Contudo, a reprodução das condições materiais de produção não deve ser pensada a nível de empresa, pois nela ocorre apenas um efeito da necessidade de reprodução, é preciso pensá-la a nível global, isso é, verificando as relações de circulação do capital entre a produção de consumo e a realização da mais-valia.

A reprodução das forças de trabalho distingue as forças produtivas dos meios de produção, pois a reprodução das forças de trabalho se dá fora da empresa e é assegurada pelo salário. Logo, o salário constitui o meio material de reprodução das forças de trabalho. Diferentemente do que diz a teoria marxista, para Althusser (1985) o salário não é determinado apenas pelas necessidades de um ser biológico, mas, também, por um mínimo historicamente variável.

Conforme Althusser (1985), a reprodução das forças de trabalho exige a reprodução de sua qualificação, de sua submissão às normas vigentes e, também, por parte dos agentes da exploração, o perfeito domínio da ideologia dominante para que possam assegurar, também pela palavra, o predomínio da classe dominante. Logo, a reprodução da qualificação da força de trabalho se assegura em e sob as formas de submissão ideológica.

No sistema de produção capitalista a reprodução da qualificação da força de trabalho acontece fora do ambiente de trabalho, acontece no sistema escolar, no qual são aprendidas algumas técnicas e elementos de “cultura científica” ou “literária”, as quais são diretamente utilizáveis nos diferentes postos da produção, como também regras de respeito à divisão social-técnica do trabalho e da ordem estabelecida pela dominação de classe.

A partir da questão da reprodução é possível, conforme Althusser (1985), esclarecer questões que a metáfora espacial do edifício indicava a existência, sem dar-lhes resposta conceitual, ou seja, por meio do processo de reprodução, torna-se possível pensar o que caracteriza o essencial da natureza da superestrutura, posto que a superestrutura jurídico- política e ideológica assegura as reproduções das relações de produção.

A partir disso, tendo como ponto de partida o materialismo histórico, a teoria althusseriana desenvolve sua reflexão sobre ideologia, com base na qual defende duas teses centrais: a ideologia interpela os indivíduos em sujeitos; a ideologia não tem história.

Analisemos a primeira tese apresentada: a ideologia interpela os indivíduos em sujeitos. Essa interpelação dos indivíduos em sujeitos é materializada por meio dos aparelhos ideológicos de Estado e que sua função é uma prática social e política, pois está relacionada às lutas de classes e à reprodução das condições de produção e de existência dos indivíduos nas instituições e na sociedade. Para melhor compreendermos esse processo, apresentamos na sequência algumas ideias de Althusser acerca do que são os AIE e de como eles funcionam junto ao AE (aparelho repressivo Estado).

Althusser (1985) admite que os marxistas compreenderam a complexidade do Estado, porém, afirma que não a exprimiram em uma teoria correspondente. Diante disso, Althusser se propõe a esboçar essa teoria, para tanto, isto é, para fazer avançar a teoria do Estado, considera não somente a distinção entre o poder de Estado (objetivo da luta de classes políticas) e o aparelho Estado13, como fez Marx, mas também os aparelhos ideológicos de Estado, que constituem realidades que se manifestam junto ao aparelho (repressivo) do Estado.

O aparelho Estado não se confunde com AIE, pois, enquanto aquele pertence ao domínio público, esses remetem ao domínio privado. Além disso, o que os diferencia fundamentalmente é, conforme Althusser (1985), que o AE funciona predominantemente por meio da repressão e secundariamente através da ideologia, inversamente, os AIE funcionam predominantemente por meio da ideologia e secundariamente por meio da repressão.

Todos os AIE almejam a reprodução das relações de produção, cada qual à sua própria maneira, no entanto, todos são regidos, mesmo que maneira contraditória e com perturbações, pela ideologia dominante, isto é, a ideologia defendida pela classe que detém o poder do AE (ALTHUSSER, 1985).

13 O aparelho estado (AE) pode ser dividido em duas partes: o corpo das instituições que o constituem e o corpo das instituições que o representam (AIE).

Althusser (1985) destaca que os AIE podem ser não somente os meios para a luta de classes como também o lugar dela, pois a classe dominante não consegue ditar sua ideologia nos AIE tão facilmente como consegue no AE. Muitas vezes, as antigas classes dominantes conservam suas posições nos AIE, ou mesmo as classes dominadas encontram nos AIE a “ocasião para expressar-se neles, utilizando as contradições existentes ou conquistando pela luta posições de combate” (1985, p. 72).

Analisemos agora a segunda tese: a ideologia não tem história. Percebemos na denominação dessa tese que Althusser retoma formalmente os termos da ideologia alemã, desenvolvida por Marx, no entanto, como veremos a seguir, defende sua tese de modo distinto ao que Marx defendeu. Baseando-se nas ideias freudianas que deram origem à afirmação de que o inconsciente é eterno, Althusser destaca ser a ideologia eterna.

Se eterno significa, não a transcendência a toda história (temporal), mas omnipresença, transitória e portanto imutabilidade em sua forma em toda extensão da história, eu retomarei palavra por palavra da expressão de Freud e direi: a ideologia é eterna, como o inconsciente. E acrescentarei que esta aproximação me parece teoricamente justificada pelo fato de que a eternidade do inconsciente não deixa de ter relação com a eternidade da ideologia em geral (ALTHUSSER, 1985, p. 85).

Com base nisso, Althusser (1985) propõe uma teoria geral das ideologias, da mesma forma que Freud propôs uma teoria do inconsciente em geral, afirmando que a ideologia em geral, isto é, a ideologia propriamente dita não tem história, é eterna sob sua forma imutável em toda a história das formações sociais de classe. É pertinente destacar que a corrente teórica do materialismo histórico é que permitiu a investigação acerca das transformações sociais recorrentes da luta de classe.

Althusser apud Indursky (1992) empreende uma teoria das ideologias que tenha como base a história das formações sociais nos seus modos de produção. Para Althusser, a ideologia possui existência material e reflete as relações sociais entre sujeitos. Essas relações, conforme ele, são imaginárias, pois se tratam de relações sociais e não de ideias, além de representarem as relações materiais que se estabelecem entre os homens, não constituindo as próprias relações.

Nessas palavras de Indursky (1992), trazemos à tona duas teses, relacionadas à ideologia, apresentadas por Althusser (1985): “A ideologia tem uma existência material.” (p. 88); “A ideologia representa a relação imaginária dos indivíduos com suas condições reais de existência” (p.85). Essas teses foram elaboradas com o objetivo de abordar a tese central

sobre a estrutura e o funcionamento da ideologia: “A ideologia interpela os indivíduos em sujeito.” (1985, p.93); a qual explicita a formulação elaborada por Althusser: “[...] a ideologia existe para os sujeitos concretos, e esta destinação da ideologia só é possível pelo sujeito: isto é, pela categoria de sujeito e seu funcionamento.”

Quanto à questão da interpelação dos indivíduos em sujeito por meio da ideologia, tem-se que ela funciona de tal maneira que transforma os indivíduos em sujeitos, por meio da interpelação, do que resulta a formulação de que os indivíduos são sempre/já sujeitos.

No documento 2013PatriciaGomesdeOliveira (páginas 42-45)