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Os apoderados da terra: o poder invisível e seu exercício

3. DISCURSO E CONFLITO NO TERRITÓRIO

3.6 Os apoderados da terra: o poder invisível e seu exercício

Os grandes projetos de desenvolvimento sejam eles ligados a produção mineral, florestal, agrícola, pecuária ou industrial, exercem influência, interferência e poder em todos os níveis sobre o Governo. Trata-se, por vezes, de dois tipos de poder. Um poder sutil, quase invisível e de seu exercício que revela o controle das instituições aos interesses privados de uma elite minoritária em conivência com as grandes corporações.

Um poder de controle em detrimento de direitos, de amplas lutas emancipatórias, sistemáticas e eficazes que não apoia partido ou políticos específicos. Sua tática é apoiar quem lhes convém e destruir quem lhes estorva. Isso muda de acordo com a conjuntura. O exercício real do poder não tem partido, bandeira nem cor, sua única ideologia é a supremacia do mercado e do lucro. Ele age de acordo com sua conveniência. Tudo faz parte de um jogo estratégico com cuidadosas análises das condições objetivas e subjetivas da conjuntura. Por outro lado, um poder que violenta, prende e tortura os quilombolas. Um poder que entrega as terras para fazendeiros e permite conflitos de direitos.

O Maranhão é um Estado com grandes apadrinhamentos em todas as esferas da vida social. As injustiças estruturadas em torno da hierarquia social reproduzem situações de dominação, que podem ser independentes ou, eventualmente, compradas ou cooptadas por interesses. Os conflitos no campo, por exemplo, têm se sustentado em ações praticadas em todos os níveis (municipal e estadual) e em todas as esferas do poder (Executivo, Legislativo e Judiciário), com cortes de direitos e mudanças brutais nas legislações e em ações orquestradas por distintos agentes sociais (públicos e privados).

Ou seja, ainda que aparelhos de estado tenham sido criados para coibir esse tipo de ação, a própria instituição faz parte da objetivação discursiva de poder dominante diluído nas diversas instâncias sociais. Pois, em tempos de muita crise, revolta e convulsão social tem-se que criar alguma coisa que pareça ser para fazer justiça social. Neste sentido, apesar de ter uma política de reconhecimento instituída, não significa que é fato consumado ter um direito reconhecido, pois, assim como existe uma contaminação por forças externas e comportamentos desviantes do próprio órgão. Existe também, uma dinâmica orientada pelas forças de poder que intervém sobre o INCRA e nas diferentes instâncias estatais. Exemplo disso foi o próprio julgamento do processo da Ação Direta de Inconstitucionalidade (ADI) na Suprema Corte, que questionou a Constitucionalidade do Decreto 4.887/2003, de autoria do Ex-Presidente da República Luiz Inácio Lula da Silva, que atualmente regulamenta o Artigo 68.

Proprietários rurais e a bancada ruralista33 passaram a contestar ativamente os processos de regularização das terras, previstos no Decreto 4.887 de 2003. A ADI marcou o início da reação da Bancada Ruralista contra os direitos territoriais dos descendentes de quilombos, garantidos pelo Artigo 68 da Constituição Federal. Gomes (2009) aponta o agronegócio como o principal opositor do direito estabelecido na Carta Constituinte. Para a autora, é a expansão do agronegócio que acirra o embate entre os ruralistas e os quilombolas. Para além da disputa no Congresso, a autora aponta a expropriação direta sobre as terras das comunidades quilombolas e outras populações tradicionais. Esses territórios sofrem o avanço de mineradoras, plantações de eucalipto, soja, cana-de-açúcar dentre outros. O agravante é que os interesses desses grupos têm mais capacidade de influenciar instâncias políticas e são fartamente cobertos pela grande mídia. Isso torna ainda mais desigual o embate entre quilombolas e os representantes do agronegócio.

33 A bancada ruralista constitui uma frente parlamentar na Câmara de Deputados, atuando na defesa dos interesses dos grandes proprietários rurais, embora, por razões estratégicas, às vezes, se coloque ao lado das reivindicações dos pequenos produtores.

As comunidades quilombolas ficaram à mercê da decisão a qual o supremo ainda precisava se manifestar. Ou seja, enquanto a Constitucionalidade desse Decreto não fosse aferida pelo Supremo Tribunal Federal (STF), os processos de Regularização e consequentemente a titulação de terras estariam sobrestados e o INCRA impedido de agir. Pois, uma vez titulada a terra com base no decreto e, posteriormente, o STF o julgasse inconstitucional, o título seria nulo de pleno direito.

Neste sentido, essa situação nos remete a pensar que somente institucionalizar e criar políticas não basta em um estado permeado por tantas outras lógicas. Assim, a luta das comunidades acaba sendo um combustível importante para a garantia de direitos. O termo “luta” é ligado à ideia de “mobilização social”, é utilizado para fazer referência ao modo de vida que os quilombolas levam, de uma “luta” constante, no sentido de que eles têm sempre que “conquistar” as coisas. Eles têm que lutar e reivindicar para consegui-las, como no caso de escolas, estradas, postos de saúde, dentre outros. Em Saco das Almas, dona Dudu declara que, “os quilombolas, todos eles são lutador, batalhador pela sua vida” (conversa informal, Vila das Almas, em 08/08/2017).

Saco das Almas é uma situação empírica possível de apontar de que modo os órgãos oficiais brasileiros, por meio da atuação de seus operadores, terminam por consolidar situações de expropriação, violência e confinamento de práticas culturais de grupos étnicos que se autodefinem como quilombolas.

A área de Saco das Almas tornou-se palco de conflitos pela posse das terras, entre os legítimos proprietários e as pessoas que invadiram as terras ou as compraram ilegitimamente. Em praticamente todos os Boletins de Ocorrências referentes à Saco das Almas, encontrados entre janeiro de 2011 a agosto de 2017 na delegacia de polícia de Brejo, há relatos de conflitos entre os moradores, ex-proprietários ou ocupantes não tradicionais, acusados de coagir e intimidar os quilombolas.

Juntos, a gente já vinha denunciando para as autoridades competentes a entrada de fazendeiros na área. Mas, elas se omitiam diante das graves violações praticadas contra os quilombolas, seja por agentes estatais, seja por entes privados com o aval do Estado (entrevista com Maria Ludovica (dona Dudu), Vila das Almas, em 08/08/2017).

De acordo com lideranças locais, há tentativas de distorção promovidas por setores públicos que tentam mascarar os conflitos ou desqualificar quem denuncia, critica ou pensa diferente do Estado. São usados termos como “supostos quilombolas” e “supostos territórios quilombolas”. A mídia, através do rádio, meio de comunicação principal do lugar, sobre o assunto, tentou veicular e assumir o ponto de vista dos que fraudam documentos para

se apossarem das terras. O discurso pelo qual os quilombolas estariam, assim, se autodefinindo, seria emitido apenas com o objetivo de adquirirem terras.

Um discurso, em vários casos, suscitado por parlamentares, proprietários de terras, empresários e setores conservadores do Estado e da sociedade brasileira, jornalistas e mesmo por certos pesquisadores. As comunidades são fragilizadas em sua cidadania desde o início da colonização do Brasil, pelo peso de setores poderosos representados pela classe dominante, de grupos industriais nacionais e internacionais que produzem para o agronegócio, grupos ruralistas com representatividade local, no Congresso Nacional e em órgãos dos governos, que diuturnamente promovem campanhas contrárias às aspirações dos grupos étnicos marginalizados historicamente e as políticas que ensejam pelo seu reconhecimento.

Para a classe dominante, orquestrada pelo capitalismo agrário latifundiário que tem no agronegócio sua principal forma de atuação, as comunidades tradicionais são vistas como “peixes” pequenos, se comparadas aos poderosos “tubarões” do desenvolvimento, os grupos dominantes, que invisibilizam as lutas e arrefecem a busca por direitos. É por isso que se pode compreender, quando algumas titularidades são dadas para os empresários, pois são eles os que historicamente, a partir de um modelo colonial com maior força do latifúndio ocupam a posição de poder, são os que garantem a produção econômica, o Produto Interno Bruto (PIB). O Estado está cada vez mais às ordens de grandes empresários, de investidores do capital, pois é necessário ter grandes produções, característica que a própria dinâmica do capital exige.

O Estado tornou-se um braço político dos empresários. Basta olhar quem financia as campanhas eleitorais, a mão que manuseia a aprovação de certas leis. Empresas que, a passos acelerados tornam-se um império mundial, tudo através da manipulação do Estado, das leis etc. Uma comunidade, ao contrário, está mais preocupada por gerar suas próprias formas de reprodução, cultivar e vender alguns produtos, mas não em fazer a grande empresa ou querer mais terras.

Os gaúchos, por exemplo, pelas relações mantidas com o mercado, se preocupam em competir, em gerar renda e fazer produzir a terra, entre menor custo e máxima produtividade. Ele entra plenamente no mercado, submete a terra e seu trabalho à concorrência aberta, busca lucro máximo e dá preferência ao produto mais lucrativo. Fato que, para o Estado, no formato que se conhece atualmente, é o que importa, pois, ele precisa manter o status quo na sociedade.

É precisamente nisso que reside o discurso do reconhecimento de que há populações reclamantes de terras e de que apenas concedê-las não significa ir ao encontro da

dinâmica do mercado. Tudo passa por quem estar nas esferas do poder. Não se trata unicamente de um fazendeiro, de um empresário ou gaúcho, mas de uma organização que representa o capital, de um complexo financeiro-empresarial que se apresenta com dimensões globais e conformações específicas locais constituindo-se os verdadeiros donos do poder. Ou seja, o foco do poder não se concentra apenas na política, mas na economia que comanda a sociedade. Pois, o próprio sistema exige essa dinâmica que move a economia do país. São os “apoderados da terra”, os responsáveis por movê-la, e isso em nada difere de lugar para lugar. Elas se dão em todas as partes do mundo de formas diferentes de um Estado a outro.

Assim, coloca-se a questão sobre o que seria Saco das Almas frente ao desenvolvimento do Estado ou do Brasil? Por meio de registros orais e documentais é possível perceber que a titulação do território ainda se encontra sob ameaças dos latifundiários, das grandes empresas e dos interesses do próprio Estado, que têm limitado esforços e recursos para conceder a titulação da terra. No cenário atual, quando pensamos nas comunidades e povos tradicionais frente ao Estado, representado por suas instituições, vê-se a forma subalterna como as mesmas são tratadas, tendo os seus processos de regulamentação emperrados. Isso é consumado pela participação direta do Estado, por meio de instrumentos lícitos (processo de colonização, assentamentos, projetos de desenvolvimento) e ilícitos, como no caso das constantes grilagens de terra e também da violência institucional, como a Polícia e as decisões judiciais concedidas contra os povos e comunidades tradicionais que, durante muito tempo condicionaram a propriedade da terra aos interesses econômicos dominantes.

No que diz respeito aos empresários (latifundiários/agronegócio) se apresentam de maneira organizada, inclusive nas instâncias superiores do Estado se mostram bastante articulados, em alguns casos, assumem cargos públicos onde legislam pela própria causa, com interesses fundiários ligados ao agronegócio na esfera do poder público, essas articulações se materializam em virtude do poder econômico e político que possuem.

Há discursos diversos de setores contrários aos interesses quilombolas, cuja leitura do valor mercantil da terra difere, em geral, do sentido que lhe é atribuído pelos quilombolas. Estes últimos são considerados obstáculos para o progresso da região, uma vez que são tidos como não integrantes do “setor produtivo”. Nesse sentido, o “setor produtivo” agrega as atividades diretamente ligadas ao agronegócio exportador enquanto o “não produtivo” está relacionado à pequena agricultura e ao consumo local. O que vale dizer que a terra titulada como quilombola não poderá ser negociada. Decorre dessa condição o fato de ser considerada um entrave em relação a determinados interesses econômicos/fundiários, especialmente se observarmos sua incidência nas regiões de colonização mais antiga, onde as

terras são mais valorizadas do que naquelas de ocupação recente (ALMEIDA, 2005).

Esses discursos procuram legitimar e colocar os quilombolas numa posição social subalterna, deslocando o foco de discussão para desqualificar as reivindicações das comunidades. De acordo com Santos (2010: 27) “a tentativa de qualificar a ‘classe de produtores rurais’ como ‘trabalhadores’ e os grupos quilombolas como ‘não produtores’, ou seja, não trabalhadores, é um artifício para moldar as percepções empíricas da realidade”. Esse fato indica a presença de indisfarçáveis diferenças sociais e modelos explicativos forjados a partir da ótica de interesses econômicos e de estratégias políticas.

As ações do Estado também reforçam essa fração na medida em que, diante das reivindicações das comunidades, o mesmo se posiciona usando aparelhos repressivos para silenciar as vozes dos territórios protegendo os interesses da classe dominante.

Percebe-se um Estado menos interventivo quando se trata de demandas das comunidades, mas, ágil quando é para defender o funcionamento dos grandes projetos da classe dominante que dirige o Estado. Como diz Wood (2014), uma das funções do Estado no sistema capitalista, é assegurar a estabilidade social para melhor operação e circulação do capital.

4 OCUPAÇÃO DAS CHAPADAS PELOS MONOCULTIVOS E DISCURSOS DE