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Os argumentos acerca da possibilidade da existência de um ser supremo

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conceitos com base nas percepções dos particulares. Esses conceitos são o que Kant entende por “ideias” e que não se referem mais a objetos parti-culares (já tratamos desse assunto anteriormente). Com isso, observamos que o sujeito passa a ter capacidade de pensar no tempo e não só nas horas, no espaço e não só nos lugares.

É com o conceito que o sujeito associa as percepções e cria relações entre elas, isto é, cria relações com a causalidade, quantidade, qualidade etc. E, nessa perspectiva, percebemos que o conceito não está demonstra-velmente no mundo, mas dentro do sujeito – na sua intelectualidade –, de modo que faz parte da estrutura interna do entendimento.

Compreendemos, então, que tanto a sensibilidade quanto o entendi-mento são frutos da razão pura, e as três operações do espírito, juntas, geram o conhecimento, tanto o universal quanto o particular. No entanto, separadas, elas perdem a sua função e, por isso, são ineficazes ou inope-rantes, visto que, na filosofia kantiana, o conhecimento é, necessariamente, a capacidade de julgar. E, para ser possível julgar, é ne-cessária a criação e a articulação dos juízos e, como vimos, isso só é possível com os estágios apresentados. Além disso, os juízos não são outra coisa senão asserções que se referem ao fenômeno e/ ou a situações. Por exemplo, “julgo que o resultado de 5 + 7 é 12”, “julgo que Sócrates é grego”,

“julgo que Sócrates gosta de Rock’n’Roll” etc.

com Kant, existem “três formas possíveis da existência de Deus”11 que aqui serão apresentadas.

Depois de percorrer o caminho do conhecimento humano, esta seção serve como preparação à objeção ao Argumento a priori outrora proposto por Santo Anselmo, sendo uma propedêutica para a crítica propriamente dita. Bem encaminhados no que se entende por conhecimento puro, ne-cessariedade, causalidade, conceitos, empiria, juízos etc., é possível, dentro da perspectiva kantiana, percorrer de forma segura e fácil o caminho crí-tico feito por Kant ao Argumento Ontológico.

Kant considera que a razão tem uma necessidade urgente de criar uma suposição que determine os seus conceitos, conceitos esses que se re-ferem ao ideal ou fictício. O que equivale a dizer que a razão, para Kant, busca sempre tornar real determinados frutos do pensamento que em si mesmos, pelos conceitos, não podem ser reais. Por isso ele afirma que “o curso natural de toda a razão humana é este, mesmo a mais comum, con-quanto nem todas sempre perseverem nele”12. No entanto, essa criação esbarra naquilo que é considerado como necessário, pois, “existindo algo, seja o que for, tem de admitir-se também que algo existe necessaria-mente”13.

Observemos que, no contingente ou na incerteza, uma coisa acontece decorrente de outra, ou seja, no contingente o acontecimento é causal. Mas seguindo as causalidades das coisas contingentes, chegar-se-á à causa principal que, por ser principal e causadora primeira, existe necessaria-mente sem condição; isto é, há uma coisa que existe necessarianecessaria-mente e

11 Ibidem, p. 450.

12 Ibidem, p. 446.

13 Ibidem, p. 446.

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que é causa de todas as coisas possíveis. É sobre tal argumento que “a ra-zão funda o seu progresso para o Ser originário”14.

Justamente por isso, a razão busca o conceito de um ser cuja existên-cia é necessária e infinita, tanto para que seja possível de ser pensada de forma a priori, quanto para, dentro dos possíveis conceitos, encontrar um conceito que não negue a “necessidade absoluta”15 de tal ser, porque, como vimos, é seguro para a razão a existência de “algo absolutamente necessá-rio”16. Sendo assim, eliminando tudo que não se sustenta dentro da necessidade absoluta, resta esse ser que é absolutamente necessário, de-duzindo-o unicamente pelo seu conceito.

Nesse sentido, algo em que no conceito está incluída a resposta para todas as objeções necessárias, bastando em si mesmo como condição, de-monstra ser pertinente à necessariedade absoluta, porque, nesse conceito, estão todas as condições de possibilidade e, assim, não necessita de ne-nhuma condição nem a ela é passível. Em outras palavras, um ser que é em si mesmo. No entanto,

[...] é certo que daqui não pode ainda deduzir-se, com segurança, que o que não contém em si a mais alta e nem todos os aspectos mais completa condição tenha por isso de ser condicionado quanto à existência. Contudo, falta-lhe esta característica única da existência incondicionada, que serve à razão para reco-nhecer um ser como incondicionado por meio de um conceito a priori.17

Sendo assim, se tomarmos a ideia de um ser dotado de realidade su-prema, ele tem de conviver dentro de todas as perspectivas conceituais de possibilidade, ou seja, ele seria aquele que caberia em todas as coisas

14 KANT, 2003, p. 446.

15 Ibidem, p. 447.

16 Ibidem, p. 447.

17 Ibidem, p. 447.

possíveis. Nessa ótica, não é susceptível de abandono, porque “nos vemos obrigados a apoiar-nos nele”18, visto que não se pode abandonar a existên-cia de um ser necessário. Contudo, se se admitir tal existênexistên-cia, não é permitido encontrar, dentro das prerrogativas da possibilidade, nada que seja mais legítimo de ter esse direito de existência.

Exatamente por isso, que, segundo Kant, a razão humana tem seu caminho natural na possibilidade de tal ser, porque a razão procura o con-ceito que independe de qualquer condição e encontra aquela ideia que é, em si mesma, a condição de tudo que existe, isto é, que contém toda a realidade. E sua “totalidade ilimitada é unidade absoluta e implica o con-ceito de um ser único, isto é, do Ser Supremo”19. Com isso, “a razão conclui, desse modo, que o Ser Supremo, como fundamento originário de todas as coisas, existe de modo absolutamente necessário”20.

Para Kant, existem três ideias – ou ideais como ele também chama – , a ideia de Alma, a ideia de Mundo e a ideia de Deus. Pelas razões que já foram expostas, de como se dá a intuição e o conhecimento humano, sa-bemos que a razão humana não conhece o objeto dessas ideias, porque não há fenômenos das ideias e só se conhece, segundo Kant, aquilo que é dado fenomenicamente. A razão humana tem essas ideias como um ponto de unificação do conhecimento, mas não conhece o objeto. No entanto, a ra-zão tende a ultrapassar os limites e querer afirmar conclusões acerca desses objetos. No Argumento Ontológico, que é a visão principal deste trabalho, utiliza-se da razão para afirmar a existência de Deus, mas ela – a razão – não pode afirmar nada desses objetos, apenas analisá-los enquanto ideias. Neste trabalho, nos concentramos, apenas, na atenção que Kant dá a ideia de Deus por ser esse o objeto de estudo proposto.

18 Ibidem, p. 447.

19 KANT, 2003, p. 448.

20 Ibidem, p. 448.

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Nessa perspectiva, resta-nos compreender que:

[...] todos os caminhos que se possam trilhar neste intuito partem da experi-ência determinada e da natureza particular do mundo dos sentidos, que ela dá a conhecer, e daí ascendem, segundo leis da causalidade, até à causa suprema, residente fora do mundo. Ou empiricamente, como fundamento, estes cami-nhos põem apenas uma experiência indeterminada, ou seja, uma existência qualquer. Ou, por fim, abstraem de toda experiência e concluem, inteiramente a priori, a existência de uma causa suprema a partir de simples conceitos. A primeira prova é a prova físico-teológica, a segunda a cosmológica e a terceira a ontológica. Não há nem pode haver outras.21

Assim, compreendemos que Kant, dentro do princípio da causali-dade, afirma que a razão humana é levada a trilhar o caminho pela existência de um Ser Supremo, sendo visto pela razão ou pela experiência.

Porque, pelos sentidos próprios das coisas particulares, somos levados a compreender que há algo superior gerente das coisas existentes e que está fora do mundo. Ou ainda que pela intuição somos levados a conceber uma ideia causadora em si mesma, simplesmente pelo conceito de causalidade.

Nessa ótica, segundo Kant, só existem três formas possíveis da existência causal e necessária desse Ser, que são a físico-teológica; a cosmológica e; a ontológica.

A prova físico-teológica parte da ordem universal da natureza física para chegar a uma causa estruturadora que é divina, mas pertencente ao mundo. Na prova cosmológica, a existência de Deus é um argumento que parte de uma existência seja ela qual for; pelo uso da causalidade, essa prova afirma que tudo que existe tem uma causa e, por isso, deve haver uma causa primeira que é causadora de tudo sendo ela imóvel; essa causa, portanto, seria Deus. Já a prova ontológica consiste na afirmação da

21 Ibidem, p. 450.

existência de Deus, verdadeiramente, a partir da sua própria ideia – con-ceito, enquanto objeto da razão pura –, atrelada ao conceito de infinito para, assim, avocar a necessidade de sua existência, partindo da análise dos conceitos e sem nenhuma evidência empírica.

Diante do exposto, após percorrer o caminho proposto por Kant, na Crítica da Razão Pura (1781), acerca do conhecimento humano, observa-mos que ele apresenta uma perspectiva crítica ao que se compreendia como conhecimento até então. De um lado, os racionalistas diziam que os sentidos enganam e que era pela razão que se era possível conhecer as coisas. De outro lado, os empiristas diziam que o conhecimento era como uma tábula rasa, a qual, ao longo das experiências, ia sendo preenchida.

Kant, então, afirma que, na verdade, o conhecimento é formado a partir daquilo que temos em nós, com aquilo que está fora de nós; revolucio-nando, assim, o pensamento acerca do conhecimento. Depois desse caminho, chega-se a uma crítica às possíveis provas da existência de um Ser Supremo, apresentadas por Kant, na obra supracitada. Dentro dessas possibilidades, está a Prova Ontológica, ou a priori, que havia sido elabo-rada inicialmente por Santo Anselmo. E é só a partir da abordagem acerca do conhecimento humano, que se é possível entender tais posições e, pos-teriormente, suas limitações.

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A crítica ao argumento ontológico

O presente capítulo tem como objetivo principal apresentar a crítica de Kant ao Argumento Ontológico. Para isso, serão apresentadas aqui as três críticas feitas pelo autor às possíveis provas da existência de um Ser Supremo, a saber: físico-teológica, cosmológica e ontológica. Divergirei do autor com relação à ordem pela qual apresentarei as já citadas críticas, pois ele apresenta a crítica ontológica por primeiro, mas, por motivos di-dáticos, eu a deixarei por último, fazendo, assim, o caminho inverso ao dele. Sendo assim, as três seções que subdividirão este capítulo estender-se-ão sobre as impossibilidades da existência de um Ser Supremo a partir das visões, físico-teológica, cosmológica e ontológica numa perspectiva kantiana.

3.1 “Impossibilidade da prova físico-teológica”1

Kant, na Crítica da Razão Pura (1781), apresenta primeiro as provas que derivam de um conceito “transcendental, para, depois, averiguar até que ponto a soma do empírico pode aumentar sua força demonstrativa”2, seguirei, no entanto, o caminho inverso, não por discordar do autor, mas porque pretendo encerrar este trabalho retomando o tema que o intitula, ressaltando sua importância para a Filosofia. Exatamente por isso, esta se-ção tem como objetivo apresentar a crítica de Kant, numa visão fenomênica das possíveis manifestações de Deus.

1 KANT, 2003, p. 466.

2 Ibidem, p. 450.

Para Kant, nem o conceito das coisas nem uma existência experimen-tal, ambas tidas em linhas gerais, concedem o que é postulado e, por isso, resta um meio para se chegar a uma ideia suprema: a procura, no mundo em que vivemos, de manifestações experimentais determinadas que pu-dessem nos levar à “convicção da existência de um Ser supremo”3.

O autor considera que a existência transcendental de um Ser Su-premo é, de certa maneira, tão exagerada, porque pensar em um Ser

“absolutamente necessário”4 está tão acima do que é empírico, que não consegue nunca encontrar, na experiência, algo que preencha o seu con-ceito, além de ser fragilizado pela procura do incondicionado, dentro de uma ideia condicionada. Em outras palavras, Kant quer dizer que nenhum apanhado empírico seria capaz de dar qualquer indício nem exemplo acerca da existência desse Ser.

Bem, para Kant, considerar essa ideia de um Ser Supremo só é pos-sível relacionando “objetos do mundo dos sentidos”5 e, só a partir desses objetos, há aquisição de significação. Compreendendo isso, ele levanta a questão da passagem do efeito para a causa, assim como a associação do conhecimento humano relacionando-se com a “experiência possível”6. Sendo assim, tirar esse Ser Supremo do conjunto de condições possíveis e tomá-lo como “meramente inteligível”7 não o incluindo, assim, na série de causas naturais, é o que impossibilita a chegada até ele.

A partir disso, Kant afirma que:

[...] O mundo atual presente abre-nos um campo tão incomensurável de vari-edade, de ordem, de finalidade e de beleza, quer se considere na infinitude do

3 Ibidem, p. 466.

4 Ibidem, p. 466.

5 KANT, 2003, p. 466.

6 Ibidem, p. 466.

7 KANT, Immanuel. Crítica da Razão Pura. Trad. Manuela Pinto dos Santos. 4. ed. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 1997, p. 519.

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espaço, quer na ilimitada divisão deste, que, apesar dos conhecimentos que o nosso débil entendimento nele pôde adquirir, toda a linguagem é impotente para traduzir tantos e tão grandes prodígios, os números perdem a sua capa-cidade de medida e os nossos próprios pensamentos toda a limitação, de tal modo que o nosso juízo sobre o todo acaba por se resolver numa admiração muda, por isso mesmo, tanto mais eloquente. Por toda a parte, vemos uma cadeia de efeitos e de causas, de fins e de meios, uma regularidade na aparição e desaparição das coisas e, visto que nada chega, por si mesmo, ao estado em que se encontra, este estado aponta sempre para mais além, para uma outra coisa como sua causa, a qual, por sua vez, exige que se prossiga a interrogação;

de tal sorte que tudo acabaria por fundar-se no nada se não se admitisse al-guma coisa que, existindo por si, originariamente e de uma maneira independente, fora desta contingência infinita, servisse de suporte a esse todo e que, sendo a sua origem, lhe garantisse ao mesmo tempo a duração.8

Com isso, observamos que relacionado a ideia de um Ser Supremo há uma existência noumênica, porque dentro das limitações do conheci-mento humano é necessário que haja um ser que exista em si mesmo, de forma infinita, e que esteja fora da contingência. Nessa perspectiva, com-preendemos que a razão se funda na experiência, em busca da finalidade desses princípios, e, por ser assim, não são contraditórias. Por isso, é pos-sível haver uma correlação entre razão e experiência na concepção físico-teológica:

[...] esta prova deverá sempre ser citada com respeito; é a mais antiga, a mais clara e a mais adequada à razão humana comum. Vivifica o estudo da natu-reza, assim como dele extrai a existência e recebe sempre novas forças.

Introduz finalidades e desígnios onde a nossa observação, por si mesma, os não teria, mediante o fio condutor de uma unidade particular, cujo principio é exterior à natureza.9

8 Ibidem, p. 519.

9 KANT, 1997, p. 520.

Kant defende que essa argumentação é a única pela qual o noumeno se manifesta e é compreendido no fenômeno. É quando a coisa em si, que é causadora de tudo, se manifesta na experiência e causa tudo quanto é possível, dando a conhecer, de forma sintética e a priori, muitas das suas manifestações. No entanto, ele vai dizer que “estes conhecimentos reagem, por sua vez, sobre a sua causa, ou seja, sobre a ideia que os inspira, e for-talecem a crença num ser supremo, autor do mundo, até fazer dela uma irresistível convicção”10. Em outras palavras, o que Kant quer dizer é que a ideia de um ser, nas condições já descritas, leva a uma crença e, em se-guida, essa crença se torna convicção. Aqui começa a primeira etapa da sua crítica a esse argumento.

De acordo com Kant, a prova físico-teológica não se sustenta sozinha, porque como ela é uma junção da razão com a experiência, necessita sem-pre do Argumento Ontológico para introduzi-la e sem-preencher a fenda racional – fundamento especulativo/possível – que ela possui. Racional-mente é, de fato, um argumento bem elaborado, mas conduz a uma

“certeza apodítica”11, ou seja, pretende levar quem a ouve a uma verdade necessariamente verdadeira.

Existem quatro dimensões bem específicas que são a base da argu-mentação físico-teológica, a saber: I- existem por todo o mundo sinais manifestos de um determinado ordenamento, que deriva de um propósito e que é realizado a partir de uma grande sabedoria e numa pluralidade surpreendente, “tanto pelo conteúdo como pela grandeza ilimitada da ex-tensão”12; II- o ordenamento próprio do mundo é indiferente às coisas deste mesmo mundo, pertencendo-o apenas circunstancialmente, ou seja, as coisas, no mundo, não teriam capacidade de adaptar-se se isso não fosse

10 Ibidem, p. 520.

11 Ibidem, p. 520.

12 Ibidem, p. 521.

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permitido por aquele que o ordenou racionalmente; III- existe uma causa

“sublime e sábia”13 que tem de ser a causa do mundo, “não simplesmente como uma natureza onipotente, agindo cegamente pela fecundidade, mas como inteligência que atua mediante a liberdade”14; IV- a identidade da causa é inferida da identidade da “relação recíproca das partes do mundo, consideradas como peças de uma obra de arte”15, inferidas a partir da nossa observação.

Bem cientes dessas dimensões, compreendemos que o que elas infe-rem é que a razão termina por concluir que a natureza tem um princípio causal que produz coisas no mundo, de acordo com os seus fins, ou seja,

“uma inteligência e uma vontade”16 das quais derivam todas as coisas, sendo uma “possibilidade interna da natureza livremente operante”17 e que, a partir delas, é possível, inclusive, a razão – Kant considera que esse argumento, muito provavelmente, não aguentaria uma crítica transcen-dental. É preciso considerar que a razão não se justifica, diante de si própria, quando passa da causalidade que conhece a explicações abstratas e indemonstráveis; ou seja, não se sustenta racionalmente algo que é ex-plicado pela razão, mas que não pode ser demonstrado por essa mesma razão.

Seguindo esse raciocínio, observamos que o fim último dessas dispo-sições da natureza provaria apenas a eventualidade da forma, mas não a da matéria, isto é, a “substância do mundo”18, porque, para provar a con-tingência da matéria, seria necessário estabelecer que as coisas do mundo fossem, em si mesmas, leis universais, “insusceptíveis de tal ordem e

13 Ibidem, p. 521.

14 KANT, 1997 p. 521.

15 Ibidem, p. 521.

16 Ibidem, p. 522.

17 Ibidem, p. 522.

18 Ibidem, p. 522.

harmonia”19 e que não fossem produto de “uma sabedoria suprema”20 quanto à substância. Por isso, Kant considera que:

[...] esta prova poderia, quando muito, demostrar um arquiteto do mundo, sempre muito limitado pela aptidão da matéria com que trabalha, mas não um criador do mundo a cuja ideia tudo estaria submetido, o que não basta de modo algum para o grande fim que temos em vista e que é o de provar um Ser ori-ginário, plenamente suficiente.21

Com isso, observamos que, dentro da perspectiva físico-teológica, este Ser Supremo estaria mais para artífice que para criador, porque se ele se manifesta nas coisas do mundo como um artista ao fazer uma obra, ele está trabalhando a partir de um acidente já dado pela criação, visto que a matéria é já criada e está apenas sendo modificada. Por isso, ele está tra-balhando – modificando – a forma e não a matéria. E se, por acaso, um defensor quisesse justificar a contingência da matéria, teria de recorrer a um argumento transcendental e, desse modo, abandonaria o argumento que estava defendendo.

A partir do que foi apresentado até aqui, compreenderemos com fa-cilidade o que consiste a crítica kantiana, pois sua conclusão é muito simples, tendo em vista que o autor prepara todo o caminho para chegar até ela. Observando a ordem e a finalidade das coisas no mundo, “en-quanto disposição totalmente contingente”22, o argumento físico-teológico faz uso de uma inferência para dizer que existe uma causa que proporciona toda ordem e finalidade das coisas. No entanto, essa causa só nos leva a conhecer algo que seja determinado, isto é, essa causa só pode ser

19 Ibidem, p. 522.

20 Ibidem, p. 522.

21 Ibidem, p. 522.

22 KANT, 1997, p. 522.

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onipotente, suma sabedoria etc. Em outras palavras, detentora de toda a perfeição e suficiente em si mesma.

Contudo, “os predicados de potência muito grande, prodigiosa, inco-mensurável, não dão nenhum conceito determinado e não dizem, em verdade, o que seja a coisa em si mesma”23, ou seja, todo predicado dado a alguma coisa são apenas representações dadas a partir do observador – que está no mundo. Nesse caso, ele confere representações de grandeza.

Sendo assim, observamos que o sujeito – no mundo –, dá ao objeto – fora do mundo – uma predicação, a partir da sua “faculdade de compreen-são”24, superlativa, de acordo com a sua posição no mundo. Exatamente por isso, “sempre que se trate de grandeza (perfeição) de uma coisa em geral, não há conceito determinado, senão aquele que compreende toda a perfeição possível, e só o todo (omnitudo) da realidade está totalmente de-terminado no conceito”25.

Tendo em mente tudo que foi trazido até então, Kant diz:

[...] não quero crer que alguém tenha a pretensão de compreender a relação da grandeza do mundo por ele observada (quanto à extensão e quanto ao con-teúdo) com a onipotência, da ordem do mundo com a unidade absoluta do seu autor etc. Portanto, a teologia física não pode fornecer um conceito determi-nado da causa suprema do mundo, nem ser, pois, suficiente para apresentar um princípio da teologia que, por sua vez, deva constituir o fundamento da religião.26

Portanto, Kant fecha sua crítica afirmando que, pela prova físico-te-ológica, não se chega a um conceito, plausível, da causa máxima do mundo e, por isso, é impossível compreender a totalidade das coisas pela via

23 Ibidem, p. 523.

24 Ibidem, p. 523.

25 Ibidem, p. 523.

26 Ibidem, p. 523.

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