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Norton Corrêa (2006), ao descrever como funciona a economia da Nação na sua pesquisa a define como:

[...] movimentação de bens materiais que a dinâmica destes templos envolve, ou seja: como obtêm os recursos (receita) e como os emprega (despesa) e qual a sua natureza (dinheiro ou bens). (Corrêa, 2006, p. 83)

O autor considera que a maior fonte de receitas de uma casa de religião são os serviços de leitura de cartas e búzios realizados pelo Babalorixá ou Ialorixá. É através da interpretação do que dizem as cartas e os búzios, instrumentos divinatórios de comunicação com as entidades cultuadas, que são indicados os trabalhos ou rituais a serem feitos pelos consulentes, incluindo-se os serviços espirituais tais como as limpezas energéticas e os trabalhos maiores para questões como saúde, amor, família ou negócios que poderão envolver oferendas e sacrifícios e uma preparação mais elaborada.

Durante esta pesquisa, muitas vezes ouvi dos meus interlocutores a expressão “tratamento” para designar os serviços prestados pelo templo. O consulente estaria “se tratando” em uma casa, desejando a “cura” de um problema que seria solucionado se tudo o que foi prescrito for realizado.

Como relatou Fernando, líder da casa no Lami, na Umbanda além do processo iniciático e as obrigações de confirmação serem mais simples em relação aos rituais da Nação, pois, são usadas apenas bebidas e ervas, itens de valor bastante acessível, e não havendo a necessidade de ficar recluso no templo por parte do iniciado, o seu custo costuma ser muito baixo. Da mesma forma para os rituais da Umbanda, que também

não envolvem materiais de custo elevado, utilizando normalmente apenas alimentos, flores e velas.

No templo de Fernando, não há uma entrada certa de dinheiro, pois não cobra mensalidades dos adeptos, como é o costume de muitas casas. Os banhos de descarga energética (banho ritual, em geral à base de ervas, realizado para limpeza energética), reforços de santo (é comum entre os médiuns de Umbanda fazer reforço do ritual iniciático depois de um tempo de iniciação para fortalecer o vínculo sagrado com os deuses) e a leitura de cartas não são pagos pelos médiuns, havendo uma clientela de fora, esporádica e reduzida para isso, sendo atendida apenas quando Fernando está disponível. Desta forma a casa baseia-se num sistema de manutenção através de doações e ajudas por parte dos adeptos.

Fernando mencionou também que faz rifas de objetos para levantar fundos e abater dos gastos das compras de produtos e os custos das celebrações não saírem tão caros para os médiuns. Estes objetos são, em geral, presentes recebidos dos adeptos e frequentadores do templo, como panelas, perfumes, entre outros. Fernando relata que a casa também recebe muitas doações dos adeptos e de pessoas da comunidade relacionadas com a obtenção de uma “graça”. Foi assim, por exemplo, que recebeu os azulejos que utilizou na reforma do terreiro.

Para as leituras de cartas e búzios, os Babalorixás costumam ter um preço fixo, e este valor pode estar ligado ao status que o Pai-de-santo ou a casa têm entre os membros da comunidade. No caso de Fernando, que trabalha numa região muito pobre de Porto Alegre, o valor que costuma cobrar de 50 reais para a leitura de cartas é considerado baixo, mas, como me explicou em entrevista, Gabriel, o seu companheiro e auxiliar na administração da casa, a população do Lami tem uma renda muito baixa e os clientes não poderiam pagar mais. Quando Fernando atende semanalmente no município do interior, na região da Serra do Rio Grande do Sul, onde mantém um consultório de psicologia e eventualmente faz a leitura de cartas, ele pode aumentar o valor cobrado, pois a renda das pessoas de lá é maior e o preço chega a 120 reais.

Quando se calcula o valor da realização de um trabalho, como me explicaram os adeptos que colaboraram com esta pesquisa, cobra-se o material, que são os produtos utilizados, tais como velas, alimentos, alguidares, entre outros e o Axé, que é um cálculo feito considerando o número mítico do Orixá que está envolvido na questão. Normalmente é a quantia destinada ao Axé que fica no caixa da casa para custeio de despesas de rotina e manutenção do templo.

Em conversa com César, adepto da casa do Pai Maike de Ogum, pedi que ele me explicasse como funcionavam os “cálculos” dos valores cobrados pelas limpezas, trabalhos e demais serviços oferecidos ao público de um templo afro-brasileiro. Esses valores também são chamados de Axé pelos adeptos e costuma-se utilizar a simbologia presente nos números dos Orixás envolvidos na demanda para se chegar ao “valor” final. César enfatizou que não devemos nunca considerar um valor monetário e sim num número, a simbologia do número, pois cada Orixá pertence a um grupo, classificado por suas características míticas e cada grupo desses é representado por um número e seu múltiplos, então, como ele disse,

“Se for um trabalho para Xangô, pensa-se o seu número, que é o 6 e seus múltiplos para fazer o cálculo. Não é que tenha um valor, não vamos botar num valor monetário e sim no simbólico. O número é o símbolo. Cada Orixá tem o seu número e este número entra na sua conta para representá-lo.” (César, 10 de janeiro de 2019).

Na gestão dos gastos de uma casa, os custos mais elevados, segundo Corrêa (2006), são os dos rituais que envolvem sacrifícios animais, como por exemplo, a iniciação de novos adeptos. No caso das iniciações e outros rituais para os adeptos o costume é que eles mesmos arquem com os custos do ritual, podendo ser rateado entre os filhos da casa, dependendo das circunstâncias. Por exemplo, na casa de Pai Maike está previsto para o mês de julho de 2019 uma homenagem à Ogum, quando serão comemorados os seus 40 anos de “aprontamento”, e o gasto mínimo previsto é de 30 mil reais, apenas para a parte do material da obrigação. Na ocasião, além da festa, haverá três semanas de rituais de obrigação dele, da casa e de aproximadamente 20 filhos, entre eles os novos iniciados do templo que estarão fazendo “chão” na mesma época.

Conforme Pai Maike de Ogum relatou em entrevista, os adeptos da casa já vinham se organizando desde julho de 2018, a pedido do Babalorixá, para esta obrigação, tanto com a parte financeira, quanto com o tempo de dedicação ao templo. Os que trabalham em empregos fixos planejam tirar férias, para ter uma disponibilidade maior para o ritual religioso.

Quando acontecem rituais que demandam um grande número de adeptos e muitas horas de trabalho, Pai Maike costuma dividir em escalas, para que nenhum filho

fique sobrecarregado. Durante a realização desta pesquisa o templo passava por uma reforma. Uma das filhas da casa assumiu a tarefa de administrar as contas e todos os valores arrecadados que sobravam depois de pagar as despesas de manutenção são direcionados à finalização da obra. As obras estavam sendo realizadas em mutirão pelos adeptos aos sábados e domingos, empenhados em finalizá-las até o mês de julho (2019) em função desta comemoração e importante obrigação para o Orixá regente da casa, Ogum.