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OS(AS) TRABALHADORES (AS) DA BIBLIOTECA ESCOLAR

No documento MARISTELA APARECIDA NUNES (páginas 92-96)

Se há escolas que não possuem bibliotecas, também o bibliotecário, enquanto profissional responsável por esse setor, praticamente não existe nas instituições escolares. Contudo, a necessidade da presença desse trabalhador é defendida por diversos autores como Silva (1991; 1993), Silva (2003), Freire (1989), Milanesi (1986; 2002) e Gehrke (2013; 2014).

Infelizmente, a realidade das bibliotecas escolares mostra que os profissionais que trabalham nesse espaço não são bibliotecários – com formação específica na área – (aliás, os concursos não ofertam vagas para funcionários formados em biblioteconomia). Destacamos que a ausência desse profissional especializado remete à falta recursos para o funcionamento da biblioteca escolar e fere a legislação, especialmente Lei nº12.244, de 24 de maio de 2010 que aponta a necessidade desses trabalhadores na instituição escolar. Observando a dimensão dos serviços que a biblioteca oferta, bem como o êxito no desempenho desses mesmos

trabalhos, é extremamente importante a presença do bibliotecário devidamente formado e capacitado para gerenciar a biblioteca escolar.

Mas o que se percebe é que em muitos casos o que acontece é a readaptação de outro profissional, um professor ou funcionário que, por algum motivo, foi direcionado para essa atividade exercendo um ofício para o qual não foi capacitado. De forma geral, observa-se também que a esses profissionais realocados não é oferecida formação com os saberes necessários para atender à biblioteca. Esse fato explica, em grande parte, a ‘falta de voz’ da biblioteca escolar dentro das instituições.

Pesquisadores como Campello (2010), Milanesi (1986) e Silva (1993) defendem a presença desse profissional nas escolas públicas por partilharem da ideia de que esses trabalhadores são agentes políticos, coordenadores técnicos e intelectuais e animadores culturais. Algumas características do trabalhador da biblioteca são apontadas a seguir.

Uma vez que o trabalhador que atende na biblioteca orienta o trabalho com a leitura e a pesquisa, é considerado por Yunes (1984), Milanesi (1986), Silva, (2003) como um educador. Em consonância com esses autores, Gehrke (2014, p. 198) assim se refere ao trabalhador da biblioteca escolar: “Educador. Assim iniciamos demarcando o perfil de quem trabalha na BE [biblioteca escolar]. Um trabalhador que articula no seu fazer educativo a escola e a vida, o trabalho-estudo, a informação, o saber e o conhecimento”. Como já mencionamos, o autor aponta que o trabalhador da biblioteca escolar comporta três dimensões em seu perfil, a saber: dimensão profissional relacionada com o seu conhecimento como classe trabalhadora; dimensão pedagógica, enquanto formador escolar e cultural e a dimensão política que sinaliza seu trabalho na formação do ser humano.

Campello (2010) relata que a promoção da leitura é, historicamente, a principal função educativa do bibliotecário, principalmente dos que atuam na biblioteca escolar. Contudo, segundo a autora, esse papel, devido às transformações ocorridas no âmbito social e escolar, vem agregando novas funções como a orientação à pesquisa, localização e uso das informações. Essa função também é apontada por Moraes, Valadares e Amorim (2013), segundo os quais, a promoção da leitura é a principal função educativa do bibliotecário na escola, contudo, a ação desse profissional ampliou-se e passou a abranger o auxílio aos estudantes na busca das informações e no uso das fontes. Além disso, argumentam que é parte da função educativa do bibliotecário promover o letramento informacional e o literário.

Silva, (2003, p. 76) chama a atenção para a importância desse profissional e da sua função, destacando que ele é um:

[...] coordenador da biblioteca, responsável, como já denota o termo, pela coordenação das sugestões, ideias, atividades vindas de todos os pontos da escola, sempre visando a transformação da biblioteca escolar num espaço dinâmico e articulado com o trabalho desenvolvido pelo professor.

Considerando os aspectos políticos da socialização do saber, verifica-se que o ‘trabalho’ do bibliotecário não se desvincula de determinados objetivos sociais e valores humanos e que, por isso mesmo, é um trabalho de cunho político. Segundo Silva (1993), a função social do bibliotecário está perpassada pelo para quem, como, o que e com qual objetivo propagar o conhecimento e a informação. Além do mais, esse profissional, tanto quanto um jornalista, por exemplo, é um profissional da informação. A tarefa de estimular o hábito de leitura e de orientar os usuários na utilização dos materiais são as atribuições mais reveladoras da dimensão educativa do trabalho desse profissional. Como afirma Fragoso (2013, p. 13), “O contato direto e permanente com o leitor [...]” é um dos maiores encargos do educador que atende a biblioteca e, além disso, também se configura no item mais significativo em termos de dinamização da biblioteca. Essa autora relata que a promoção de aprendizagens e descobertas, sem a “[...] presença de um profissional consciente, com sensibilidade e habilitações específicas para manter esse espaço atraente” (FRAGOSO, 2013, p. 13), mesmo contando com uma boa infraestrutura e um acervo pomposo, pode não possibilitar uma relação entre os frequentadores e o acervo, tampouco aprendizagens significativas.

Muitas vezes, o coletivo escolar desconhece o trabalho e o potencial educativo do bibliotecário, sendo este visto como “[...] o guarda – livro ou bedel da seção de referência que, preso a quatro paredes, não tem muito a dizer sobre a educação dos jovens” (SILVA, 1993, p. 67). Muito mais que um organizador do acervo, o bibliotecário deve ser um intermediador entre o conhecimento e a criança. Milanesi (2002, p. 55) salienta que no trabalho do bibliotecário a “[...] intermediação entre as informações e os pesquisadores parece ser uma questão essencial”, exercendo, portanto, um papel de orientação e medicação pedagógica.

Almeida, Costa e Pinheiro (2012, p. 476) asseveram que “[...] o bibliotecário mediador é quem proporciona o elo entre o leitor e a informação, de forma significativa, o que corresponde dizer que ele oferece ao leitor a oportunidade de ser ator no contexto da informação [...]”. Abordando essa questão, Hillesheim e Fachin (1999) defendem que o profissional que atende à biblioteca é primordial na intermediação entre leitor e o livro.

A esse educador, então, “[...] cabe dedicar-se menos às atividades mecanizadas e muito mais a programas de incentivo à leitura, juntos aos alunos, com o apoio dos outros educadores da escola, como os professores e especialistas” (SILVA, 2003, p. 79). Assim, o bibliotecário não deve se ater às minúcias tecnicistas e relegar a segundo plano o papel de orientação à leitura e à pesquisa. Tamanha é a responsabilidade do bibliotecário na disseminação e elaboração do conhecimento que Milanesi (2002, p. 70) afirma que “[...] pouco valor tem o domínio das técnicas de organização das informações se o assunto a ser organizado é desconhecido para o organizador”. O autor destaca a importância do conhecimento desse trabalhador sobre o acervo disponível na biblioteca em que atua.

Também Silva (1983, p. 81) salienta que “[...] o bibliotecário deve se preocupar com a qualidade de seu acervo. Caso contrário, ele poderá se colocar como um agente de reprodução da estrutura social vigente:

[...] O trabalho do bibliotecário, é bom repetir, não é neutro – por isso mesmo, parece-me que a preocupação com aquilo que o usuário está buscando e com a orientação sobre outras possibilidades de leitura deve ser uma constante na prática biblioteconômica (SILVA, 1993, p. 81).

Saber do material que dispõe e o que ainda é preciso é um dos passos para atender a demanda de usuários com qualidade. Assim, percebemos que os autores são enfáticos em argumentar que em sua atuação, o bibliotecário precisa transcender as técnicas biblioteconômicas voltadas demasiadamente para o acervo e focalizar nas práticas de atendimento, uma vez que apenas a existência do livro não garante a leitura nem o aprendizado, mas é a mediação que se estabelece entre esse material e o sujeito que a materializa. Nesse sentido, o bibliotecário deve conhecer as necessidades informativas dos usuários da biblioteca. Para tanto, o educador que atende à biblioteca, segundo Milanesi (2002, p. 56), precisa “[...] circunscrever o público e o seu universo de conhecimento para saber atendê-lo”. E, uma vez que as crianças não podem ser entendidas de maneira homogênea, precisa conhecer suas especificidades. Isso inclui conhecer o acervo e também as crianças e para tal deve-se lançar mão da observação e do diálogo.

Segundo Almeida, Costa e Pinheiro (2012, p. 476), é “[...] necessário que o bibliotecário escolar goste de trabalhar com crianças, somente assim, esse profissional terá prazer em apresentar atividades voltadas ao gosto pela leitura para os pequenos e jovens”. A sua relação com o público, a empatia e os seus conhecimentos são de fundamental importância para uma relação exitosa entre os(as) frequentadores(as) e a biblioteca. Além do

mais, conhecer os estudantes auxilia na proposição de atividades que os atraiam.

Campello (2012) defende a importância do profissional que atende na biblioteca se aperfeiçoar constantemente e participar da produção científica da área, pois ao se manter atualizado entra em contato com diversas experiências bem-sucedidas que podem colaborar no desempenho de seu trabalho. É o que a autora chama de desenvolver uma prática baseada em evidências. Trata-se de respaldar o trabalho bibliotecário em resultados de pesquisas e experiências sobre bibliotecas escolares e à subsequente reflexão dessas práticas.

Embora, tal como destaca Silva, (2003), o responsável pela condução da biblioteca escolar seja o bibliotecário, esse profissional não deve agir sozinho, decidindo por si só, sem consultar a comunidade escolar. Um trabalho coletivo (GEHRKE, 1014) se faz necessário, principalmente integrado ao fazer docente da sala de aula. Em outras palavras, o trabalho do (a) bibliotecário (a) é bem próximo ao do(a) professor(a). Moraes, Valadares e Amorim (2013) são enfáticos ao defender que deve haver um trabalho colaborativo entre bibliotecário e equipe pedagógica, especialmente no que tange ao planejamento de estratégias didáticas voltadas à leitura e a utilização das TIC’s41

. A cooperação e a integração entre bibliotecários e demais membros do coletivo escolar é ponto fundamental para a elucidação de muitos hiatos existentes no ensino aprendizagem. Compreendendo isso, podemos questionar quanta ação educativa está sendo ameaçada e não praticada pela falta desse profissional nas escolas?

3.5 UM PASSO A MAIS NA HISTÓRIA DA BIBLIOTECA: AS TECNOLOGIAS DA

No documento MARISTELA APARECIDA NUNES (páginas 92-96)