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2.1 CARACTERÍSTICAS DOS ADOLESCENTES EM CONFLITO COM A

2.1.5 Os aspectos emocionais do adolescente em conflito com a lei

No desenvolvimento emocional normal de uma criança, o desenvolvimento cognitivo e emocional se relaciona dinamicamente e trabalham juntos para processar informações e executar ações. A partir do desenvolvimento das habilidades cognitivas, vão se modificando os laços emocionais e dessa forma desencadeiam-se

os processos complexos entre emoção, cognição e comportamento (COLE; MARTIN;

DENNIS, 2004).

As teorias, psicanalítica e do apego, estudaram os primeiros anos de vida como parte fundamental do desenvolvimento, dando importância às primeiras relações, que servem de base para o estabelecimento das próximas etapas do

desenvolvimento emocional (CASTRO; LEVANDOWSKI, 2009).

Freud foi o precursor da teoria psicanalítica e dentro do desenvolvimento emocional normal estabeleceu o desenvolvimento psicossexual, com as fases do desenvolvimento: oral, anal, fálica, latência, adolescência até chegar à fase adulta. Também desenvolveu a teoria da formação da personalidade, que se dá por meio dos impulsos biológicos e das exigências da sociedade. Ainda muito importante na teoria freudiana no desenvolvimento emocional é a conflitiva edípica, pois neste momento há um medo da perda do objeto e a angústia da castração, nesta fase

ocorrendo a formação do superego (regras e valores sociais) e a aquisição da

identidade sexual (FREUD, 1987).

Na concepção da delinquência a partir da psicanálise a vida é regida por forças e conflitos, no desenvolvimento emocional normal há uma renúncia do princípio do prazer. Para Freud, os pacientes que praticam ações proibidas, crianças com comportamentos antissociais, com origem do complexo de Édipo, têm o objetivo

de serem punidas (FREUD, 1987).

Para Melanie Klein (1991), os fatores etiológicos são intrapsíquicos e constitucionais. A presença do superego é que acarreta os comportamentos antissociais. Somente mediante a análise dos conteúdos das fantasias inconscientes recalcadas é possível curar a delinquência.

Na teoria do apego, Bowlby e Cabral enfatizam a função biológica dos laços emocionais íntimos entre as pessoas e a influência dos pais para o desenvolvimento da criança, ressaltando a importância da disponibilidade e prontidão dos cuidadores primários para responder quando solicitados, além de encorajar e dar assistência. Isso gera na criança a capacidade de exploração do mundo e a tranquilidade do saber que, no retorno de uma separação, será bem-vinda, confortada e nutrida física e emocionalmente. Colocam que o bebê, assim como os outros animais, tem uma capacidade inata para estabelecer contato com outro ser humano, que vai dar

origem ao apego (BOWLBY; CABRAL, 2002).

A teoria psicanalítica e a teoria do apego estão de acordo que as vivências entre mãe e bebê são cruciais para o desenvolvimento da criança e o estabelecimento de suas futuras relações objetais. Sobre a importância da capacidade de a mãe entender o bebê e se comunicar com ele, o bebê precisa que a mãe o entenda e transmita a ele o que está acontecendo. Para os autores os psicopatas tiveram uma infância severamente perturbada pela morte, divórcio ou

separação dos pais ou rupturas de vínculos afetivos (BOWLBY; CABRAL, 2002).

As interações que ocorrem entre a mãe e o bebê, vistas sob a óptica de diversas teorias: a do apego (Bowlby e Cabral), da mãe suficientemente boa (Winnicott) e da continência materna (Bion), é que permitirão que a criança aprenda

a se diferenciar da mãe/cuidador e a ter noção do próprio self (CASTRO;

LEVANDOWSKI, 2009).

Para o entendimento emocional dos adolescentes em conflito com a lei, a teoria psicanalítica que trouxe um melhor entendimento foi a de Winnicott. Para este

pediatra e psicanalista, o ambiente tem uma importância fundamental, sendo a condição necessária para o desenvolvimento humano. Desenvolveu essa teoria observando crianças e adolescentes que passaram por muitas situações de rupturas familiares, movidas pela situação da Segunda Guerra Mundial. Nos dias atuais, observamos outras guerras, percebidas pelos afastamentos, transições familiares, inseguranças, também geradas pelo cotidiano violento e competitivo das grandes cidades, que levam, muitas vezes, os pais a olharem menos os seus filhos, gerando uma falta de legitimidade das funções paterna e materna na contemporaneidade (VILHENA; MAIA, 2002).

Essas rupturas familiares estão ocorrendo pela falta de padrões adultos para os adolescentes se identificarem, desta forma, colocando em risco os pais de serem negligentes na criação dos filhos. Muitas vezes faltam continência e limites, o que deixa os filhos mais vulneráveis à violência psíquica, passando a maior parte do tempo em frente da televisão, da internet ou em ambiente com disponibilidade de

drogas etc. (HACK, 2008).

Na teoria do amadurecimento de Winnicott, todo indivíduo possui uma tendência inata ao amadurecimento e à integração; e o ambiente é uma condição necessária para o desenvolvimento da criança. Esta tendência só se realiza na presença de um ambiente suficientemente bom, com uma mãe suficientemente boa (WINNICOTT, 1983).

Existe uma fase do desenvolvimento muito importante, quando é necessário que a mãe vá se distanciando (sem que signifique abandono), com vistas a possibilitar a percepção para a criança de que ela e a mãe são diferentes, bem como a interação com o pai. Com isso, abre outro caminho para a criança, ao acrescentar elementos novos e valiosos. Para Winnicott, a existência de uma mãe suficientemente boa está ligada à presença de um pai suficientemente bom. Nessa fase, surge a ilusão, e com ela o objeto transicional, tão amado e dilacerado ao

mesmo tempo (WINNICOTT, 1975).

Quando o afastamento da mãe for maior do que a pequena criança possa suportar, ou se o pai não puder cumprir a sua função, leva a um sentimento de abandono e raiva, ocorrendo a deprivação, podendo desenvolver o comportamento

antissocial (NEWMAN, 2003). A criança ao invés de ser criativa passa a ser reativa e

o objeto transicional pode ser destruído ou perde o sentido, cessando sua

Os sintomas como mentir, roubar, agredir, destruir e desafiar mobiliza os cuidadores (pais, professores, pediatras), bem como os outros que convivem com estas crianças. Dentre os portadores destes sinais e sintomas, devem-se diferenciar as crianças com bom nível de integração, maturação, criatividade, estruturação e saúde psíquica, daquelas crianças ou adolescentes congelados psiquicamente, com

intensa destrutividade (VILHENA; MAIA, 2002).

Deve-se atentar para as estruturas que acompanham o problema de

conduta: neurótica, borderline, psicótica, psicopática ou uma síndrome orgânica.

Como se podem explicar as manifestações iguais em estruturas diferentes, as

intensidades variadas, o que elas têm em comum e o que clamam? (HACK, 2008).

Pode-se diferenciar o Transtorno de Conduta (delinquência), um transtorno psiquiátrico que não apresenta sofrimento psíquico ou constrangimento com as atitudes e não se importa em ferir ou desrespeitar, do distúrbio de conduta (tendência antissocial), onde há problemas de saúde mental que causam incômodo

no ambiente (HACK, 2008).

Na teoria da tendência antissocial de Winnicott, nas fases de amadurecimento, de dependência absoluta, relativa e o rumo à independência, há uma necessidade de uma adaptação do ambiente familiar às suas necessidades. Nesta teoria há uma ruptura ou perda dos cuidados parentais, o que é chamado de

estado de deprivação (WINNICOTT, 2000).

Winnicott diferencia quando a perda materna ocorre no estágio inicial da vida, em que há uma dependência absoluta, chamando de privação. Mas quando a

perda ocorre na fase posterior, quando já existe uma diferenciação do self, o bebê

passa a viver o estado de deprivação, neste momento desencadeando a tendência

antissocial (WINNICOTT, 2000).

A deprivação caracteriza-se pela destituição de algum aspecto essencial de sua vida em família, levando ao comportamento antissocial, como roubo, mentira,

agressividade, sintomas alimentares, portanto, uma desordem generalizada (HACK,

2008).

Quando no início a criança recebe cuidados adequados que são retirados abruptamente e a perda não é corrigida a tempo de a esperança ser mantida, ocorre uma aflição intolerável. Em um momento posterior, em uma fase de amadurecimento, a criança poderá se dar conta que o ambiente falhou. Portanto, na

deprivação há um sentimento pela perda, levando a uma dissociação, já na privação

há um aniquilamento levando a uma cisão (WINNICOTT, 1999).

Para Winnicott, a causa para o comportamento antissocial é a falha ambiental e não da culpa pela conflitiva edípica. É a fragilidade dos relacionamentos

entre pais e filhos e com a interação familiar (OUTEIRAL, 2007).

As graduações para comportamento agressivo e destrutivo (Winnicott) apresentaram três níveis a serem avaliados: as manifestações naturais de agressividade, as manifestações da própria tendência antissocial como sinal de esperança e como resultado de deprivação e o extremo do comportamento

delinquente (quando já ocorreu o congelamento emocional) (WINNICOTT, 2000).

Também se pode dizer que há dois tipos de tendência antissocial. Em um, a enfermidade se apresenta em forma de furto ou chamando atenção especial pelo ato de urinar na cama, falta de asseio e outras delinquências menores que, de fato, dão à mãe trabalho e preocupações extras. No outro, há destrutividade, provocando atitudes firmes. No primeiro há perda do cuidado materno, no segundo há falha na interação com o pai, com falta no estabelecimento de limites, necessários para o

autocontrole (WINNICOTT, 1984).

Para as teorias do desenvolvimento emocional é feita uma diferenciação do antissocial, que é vista como uma organização defensiva que busca a preservação da esperança e do humano, fruto da decepção e desesperança, e a psicopatia que é uma organização psicótica, na qual não há memória ou traços da experiência

humana (VILHENA; MAIA, 2002).

Para estudiosos mais atuais (SAFRA, 2002), o comportamento antissocial é visto como um grupo que reivindica a situação perdida, que procura a experiência constitutiva na rua e não em casa, com um "código de relacionamento e pertencimento ao grupo da rua". O grupo que congela sua esperança busca destruir o que lhes parece mais hipócrita no campo social.

Para a reabilitação de comportamentos antissociais na visão da psicologia psicodinâmica, a criança ou o adolescente necessita de um ambiente cuidador, que deve ser redescoberto e testado pela criança, para experimentar novamente os impulsos e a estabilidade. Um ambiente que proporcione para a criança a possibilidade de trazer os fatos significativos essenciais. Quanto mais precocemente esta criança for atendida, quanto mais próxima do ponto de origem, melhor será o

O trabalho com a criança deve ter como objetivo chegar ao trauma original

da deprivação e redescobrir no setting terapêutico a experiência que foi perdida,

fornecendo, assim, uma real confiabilidade, segurança e o reconhecimento do próprio trauma. Os pais também necessitam ser trabalhados, descobrindo e entendendo o significado dos sintomas, restituindo desta forma os cuidados perdidos (WINNICOTT, 1984).

O terapeuta deve ser empático, reconhecer que as angústias se apresentam por meio de atos antissociais, compreender este ato como uma esperança e não como resistência. O ato diz respeito à perda, e o terapeuta deve ter cuidado com a contratransferência para não repetir a deprivação. A confiabilidade, a continuidade e

a compreensão restituirão a esperança quase perdida (HACK, 2008).

O tratamento institucional tem sido o caminho para a delinquência, muitas vezes quando já há um congelamento afetivo, quando a perda total da esperança já ocorreu. A instituição deve fornecer uma estrutura rígida e estável, porém justa e

confiável, de controle externo, para conter a confusão (GARCIA, 2005).

Do ponto de vista da psicanálise, o atendimento tem de ocorrer antes que os sintomas cristalizem, antes que percam a esperança, buscando o "tesouro perdido", o relacionamento com as figuras parentais, que foram rompidos ou fragilizados. "É preciso ajudar o paciente a resgatar a esperança, ouvir seu "pranto" e resgatar seu

"canto", ou seja, retomar o curso de seu desenvolvimento" (HACK, 2008).

Várias teorias têm tentado analisar e compreender os fatores e a etiologia da delinquência, ou o que pode ser também chamado de comportamento violento juvenil. São teorias dos aspectos socioculturais, dos aspectos biológicos e dos psicológicos. O presente estudo vem apontar que o problema de saúde mental é também um fator relevante.

Quando se estuda o adolescente em conflito com a lei, os fatores de risco e de proteção são temas de fundamental importância, salientando-se que os fatores sociais e os fatores individuais é que deverão ser avaliados.