Além das matrizes jesuíticas e franciscanas, outras interpretações foram elaboradas nas últimas duas décadas para explicar a ruptura na história mexicana no século XVI. Entre as novas leituras, lançou-se luz sobre as alterações na sociedade virreinal que ajudariam a compreender a “troca de comando” na Igreja por volta de 1570. De maneira geral, afirma-se que, conforme o tempo passava, a sociedade mexicana ganhava novas feições – menos favoráveis ao trabalho missionário das ordens religiosas. Um dos aspectos considerados é a diminuição da população indígena e o crescimento do número de crioulos e espanhóis no terço final do século XVI. Como os religiosos haviam se dedicado exclusivamente aos nativos, seus espaços de atuação se tornavam cada vez menores.
Segundo Solange Alberro (1999: 77 e ss.), a sociedade mexicana passava por transformações significativas, às quais os mendicantes não eram capazes de atender. A classe dos crioulos ganhava corpo e precisava ser integrada à sociedade e à vida civil e eclesiástica. Nesse sentido, o clero secular se abriu primeiro à entrada dos crioulos, além de ter mantido relações mais amigáveis com os peninsulares e com as autoridades civis. Assim, os diocesanos puderam desfrutar de maior prestígio social nas últimas décadas do século XVI, enquanto os regulares viam reduzir seu espaço de atuação na capital do vice- reino (Chocano Mena, 2000b: 25-28). Às transformações sociais e ao prestígio do clero secular, a historiadora Solange Alberro acrescentou outro elemento para explicar as mudanças na América: a emergência de um novo projeto político para a Nova Espanha que prescindia dos regulares. Segundo essa autora:
Pero si la Nueva España de las últimas décadas del siglo XVI tenía poco que ver con la de las primeras, también había cambiado el proyecto político original que la monarquía había concebido e impuesto a los reinos americanos. Terminadas en sus fases principales la conquista militar y espiritual, el conquistador y el fraile se volvieron obsoletos, cuando no indeseables. [...] Sólo en las regiones
apartadas y aún indómitas se consentía la presencia del guerrero, el misionero y el encomendero, porque resultaban insustituibles y, por tanto, imprescindibles en las primeras etapas de la penetración hispana. Pero en la mayor parte del México central tuvieron que ceder el lugar a los funcionarios reales y al clero secular. (Alberro, 1999: 78)
Conforme se nota, Alberro entende que as décadas finais separaram duas etapas: a primeira, da conquista espiritual e militar, era caracterizada pela força dos conquistadores e pela presença dos encomenderos e dos frades; a segunda, quando se alterou o projeto político da Coroa, era marcada pela influência dos funcionários reais e do clero secular. A historiadora assume, assim, a perspectiva mais ampla da “conquista espiritual” de Robert Ricard e ratifica o fim da edad de oro nas últimas três décadas do século XVI. Em tom dramático, Alberro (1999: 79) conclui que “los frailes de las tres primeras órdenes tuvieron que abandonar a quienes consideraban como sus hijos queridos al clero secular”, que chegara tarde ao vice-reino e era ignorante, quando não indiferente, em relação ao mundo indígena.
Não se tratava, porém, de disputas meramente eclesiásticas, mas de contendas que envolviam outros elementos, como as alterações sociais e os projetos políticos coordenados desde a Espanha a fim de levar adiante o processo de secularização7. Parte
dessas mudanças, sublinha Solange Alberro, expressava-se por meio de dois acontecimentos decisivos para os rumos da jovemIgreja e, em particular, dos religiosos: a introdução do Tribunal do Santo Ofício, em 1571, e a chegada dos jesuítas, em 1572.
María Alba Pastor (1999) compartilha do ponto de vista de Solange Alberro a respeito do surgimento de um “novo projeto político” para a Nova Espanha. A tese central de Pastor é a de que a sociedade novo-hispânica enfrentou um período de crise e recomposição social durante a transição do século XVI para o XVII, entre 1570 e 1630. A crise – e as mudanças por ela impulsionadas – teria sido provocada por diversos fatores, tais como a desestruturação das sociedades indígenas e de suas tradições, as reformas na
7 Partilhando de ponto de vista semelhante, Ernesto de la Torre Villar escreveu um interessante artigo sobre
a administração pública e o governo civil e eclesiástico no México. Nesse texto, Torre Villar (1985) trata da “administración casuista y rigurosa” de Felipe II e da tendência secularizadora, entendida como a maior participação do Estado nos assuntos da Igreja, sobretudo pelo crescente aumento da autoridade dos bispos.
Igreja, o surgimento de um novo quadro de valores com a Contrarreforma e o aumento do número de imigrantes europeus e africanos. Para superar tal crise8 e reorganizar a
sociedade novohispana, surgiram, segundo a autora, duas propostas, “concorrentes e complementares”.
À primeira, ela deu o nome de contrarreformista y monárquica. Seria uma combinação de esforços da Igreja pós-tridentina e do Estado espanhol sob Felipe II. De acordo com Pastor, os principais objetivos desse projeto eram disciplinar e unificar as múltiplas culturas diversas; combater o relaxamento moral; catequizar os nativos e combater as idolatrias e heresias; impulsionar a educação; difundir a arte maneirista; estabelecer o Tribunal do Santo Ofício; reorganizar e controlar a cobrança de dízimos e ampliar o clero secular (Pastor, 1999: 8-11). A autora caracterizou a segunda proposta como criolla. Esse projeto nascia como uma espécie de contrapartida do primeiro, que, com seu afã de controlar e centralizar o poder, atingia os interesses dos crioulos, limitando-os às margens da vida política e social do vice-reinado. Desse modo, seguindo a argumentação de Pastor, os espanhóis nascidos no México se organizaram a fim de formar seus próprios poderes locais, aliando-se às famílias de boa posição e à burocracia urbana; buscar alianças matrimoniais que lhes favorecessem maior circulação e prestígio social; ingressar nos centros educativos, sobretudo naqueles administrados pela Companhia de Jesus; se colocar à frente das “empresas” da Nova Espanha, como as casas de comércio, de finanças e de exportação9.
À medida que esses dois projetos eram postos em prática, segundo María Alba Pastor, as ordens religiosas pioneiras perdiam ainda mais espaço. Observadas em
8 A autora utiliza o conceito de “crise” para explicar e significar um período marcado por mudanças
estruturais na sociedade mexicana do final do século XVI. É importante lembrar, porém, que a palavra “crise” – com o sentido empregado por María Alba Pastor – não era usada correntemente até o século XVII. Como bem notou José Antonio Maravall, em seu clássico A Cultura do Barroco (1997: 67), a “palavra ‘crise’ surgiu muito antes, no terreno da medicina, e seu derivado, o adjetivo ‘crítico’, que às vezes é substantivado – e assim se fala da pessoa do crítico –, começa a ser empregado no começo do século XVII, ou seja, durante o período que pretendemos estudar. Porém, está longe esse vocábulo de significar os estados sociais de perturbação a que nos vimos referindo. No entanto, embora falte a palavra, não falta a consciência para perceber a presença desses momentos da vida social, anormais, desfavoráveis, especialmente convulsionados, aos quais chamaremos crise”. Tal como Maravall, Pastor conceitua os momentos “especialmente convulsionados” da sociedade mexicana da virada do século XVI como “crise”, embora, ao contrário do que faz o historiador espanhol, ela não evidencie qual era a consciência que aquela sociedade tinha da “crise”.
9 Para os detalhes dos dois projetos, ver os capítulos II (Los valores de la Contrarreforma, p. 55 e ss.) e V
conjunto, as propostas não favoreciam em nada o trabalho dos mendicantes. As decisões de centralizar e uniformizar as ações eram opostas às práticas dos regulares, que atuavam quase sempre de modo independente e descentralizado. O aumento da população crioula e sua participação na sociedade quase não diziam respeito às atividades missionárias dos frades, que haviam se dedicado exclusivamente aos indígenas até os anos de 1570. Além disso, Pastor chama a atenção para o fato de que os mendicantes enfrentavam dificuldades internas, provocadas por certo debilitamento e perda de autoridade:
Durante el proceso de crisis y recomposición se puso en evidencia la pérdida del lugar central que habían ocupado las órdenes mendicantes durante la primera mitad del siglo XVI. Desde la década de los sesenta de ese siglo, las actas capitulares y otros documentos religiosos lamentaban el progresivo debilitamiento de la obediencia y la autoridad, la pérdida del significado de la pobreza misional y el abandono de las funciones religiosas de los mendicantes. Entre súbditos y superiores se había generado un clima de mutua desconfianza. Los frailes abusaban de los obsequios de los indios, malversaban los fondos de las cajas de las comunidades, negociaban con libros, misas y estipendios, les concedían beneficios a sus familiares, ignoraban el voto de castidad y mostraban gusto por la comodidad y la ostentación. A pesar del aumento del personal eclesiástico, la asistencia indígena a la Iglesia había declinado desde 1550. (Pastor, 1999: 171)
Havia, pois, um choque entre o projeto contrarreformista e monárquico, cujo eixo estava nas propostas de centralizar, reformar, reordenar, reorganizar e disciplinar, e as práticas “relaxadas” dos mendicantes, “debilitadas” e “carentes de autoridade”. Do mesmo modo, as propostas crioulas não se alinhavam às perspectivas dos missionários, que ignoravam aquela parcela da sociedade. Ao definir esse impasse para os frades, Pastor aproxima-se bastante da concepção de ruptura esboçada entre os historiadores de matriz jesuítica, segundo a qual a descontinuidade indicava o início de um período de regeneração, de reforma. Nesse sentido, o declínio das ordens religiosas e a ascensão de novos grupos (como os diocesanos e os jesuítas) não eram processos aleatórios ou isolados; pelo contrário, integravam um projeto mais amplo (com suas faces monárquicas
e crioulas) que estava sendo posto em prática desde os anos 1570 para superar o período de crise.
Considerações finais
Essas três matrizes – em especial as duas de cunho religioso – influenciaram a grande maioria das interpretações produzidas nos últimos cem anos a respeito da história colonial mexicana. Independentemente dos sentidos atribuídos, todas elas partilhavam uma conclusão comum: os anos de 1570 haviam estabelecido um ponto decisivo de ruptura. Tal corte estava ligado diretamente à história eclesiástica (o prestígio das ordens mendicantes se deslocava para o clero secular e para os jesuítas), mas também sinalizava transformações nas esferas social e política, sobretudo com a ascensão dos crioulos – até então “esquecidos” – e com as orientações de Felipe II para a Nova Espanha e para o Peru.
A nós, historiadores, cabe então indagar a respeito de tal rutpura e das interpretações que a construíram. Sabemos que toda periodização parte de critérios que são, pelo menos parcialmente, subjetivos, e que os recortes no tempo decorrem da prática do historiador – e não da natureza, como alguns casos poderiam sugerir. Nesse sentido, seria possível, pois, pensar em outros recortes para o primeiro século da história colonial mexicana que escapassem da marcação nos anos de 1570? Acreditamos que sim10. Mais
do que possibilidade, trata-se de uma necessidade, de um ímpeto inerente ao ofício do historiador interessado em evidenciar as operações historiográficas, para relembrar De Certeau (2002), que constituíram tais matrizes interpretativas.
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10 Em outro lugar (Reis, 2012: 25-55), nós propusemos diferentes recortes, ângulos e perspectivas para se
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