3 A TEMPORALIDADE NO COTIDIANO DA VIDA
3.4 OS ASSENTADOS DO CONTESTADO: O RETRATO DA
social familiar rural, como em suas relações sociais e em seus espaços em que vivem.
Na medida em que a modernização agrícola continua avançando sobre a fronteira e transformando o campo, no contrafluxo desse processo revigora-se a resistência camponesa, como uma representação identitária de um modo de vida que confronta a verticalidade imposta pelo capital. Por esse motivo, se faz necessário um olhar sobre o campo não apenas em perspectiva meramente econômica, pois as realidades e peculiaridades presentes no meio rural também se caracterizam em âmbitos culturais e ambientais.
Precedentemente, Chayanov (2014) atentava para a perspectiva econômica camponesa como teor da sua realidade social e como diferencial em relação à empresa de ordem capitalista, visto que sua produção advinha da força de trabalho de base familiar para cultivar o solo e obter o produto bruto de sua exploração, caracterizando-se como estrutural social e econômica específica. Entretanto, na atualidade, o modo de vida camponês apresenta algumas particularidades que não rechaçam a esfera econômica, mas que a concebe como mais um dos elementos em confluência com a preservação sociocultural e seus valores do homem do campo, como nos explica Woortmann
Nas culturas camponesas, não se pensa a terra sem pensar a família e o trabalho, assim como não se pensa o trabalho sem pensar a terra e a família. Por outro lado, essas categorias se vinculam estreitamente a valores e a princípios organizatórios centrais, como a honra e a hierarquia. Pode-se opor esse tipo de sociedade às sociedades modernas, individualizadas e voltadas para o mercado; em outras palavras, pode-se opor uma ordem moral a uma ordem econômica (WOORTMANN, 1990, p.23).
Pelo que foi exposto, o autor também reflete sobre a importância da ordem subjetiva do camponês, na qual a moral se sobrepõe ao pilar da racionalidade instrumental e mercadológica. Assim, mesmo que muitos camponeses tenham sido levados a migrar temporariamente para as cidades, ou a realizar atividades de trabalho volante ou como bóias-frias, ou ainda outras atividades relacionadas à setores de serviço ou nas industrias, para Woortmann e outros pensadores (Woortmann,1990; Brandenburg,1999; Gorgen 2009), algumas tradições familiares e históricas permaneceram arraigadas.
Nesse sentido, a identidade camponesa tem permanecido no interior de cada sujeito, com seus valores simbólicos, seus signos e seus saberes, o que lhes
permite, quiçá, manter a vontade de retornar ao campo. De acordo com tais circunstâncias, para Marques (2016), embora muitos camponeses brasileiros sejam migrantes e expropriados da terra, seus vínculos com suas origens, com seus familiares e a manutenção de algumas tradições religiosas reforçam a resistência identitária.
Outra característica inerente ao “camponês brasileiro” condiz com a miscelânea de famílias ou grupos sociais, os quais por vezes não se denominam como camponeses, mas que com eles se identificam, dado o modo de reprodução social, de produção, de consumo na unidade familiar e de relativa autonomia. Segundo Carvalho (2005), os sujeitos desse contexto seriam compreendidos como posseiros, povos tradicionais (quilombolas, ribeirinhos, pescadores artesanais etc.) açaizeiros, arrendatários, foreiros, serranos, caboclos, colonizadores (povos do sul) e recém-assentados da Reforma Agrária.
Entre essa diversidade de sujeitos ligados à cultura camponesa e para além da ordem dos valores e da moral, boa parte dos assentados do Contestado enquadram-se em um dado um contexto socioambiental, onde a sua qualidade de vida, bem como o seu desenvolvimento de produção com equilíbrio ecológico, faz, desses assentados, sujeitos de resistência perante as pressões do mercado agrícola e do desenvolvimento da industrialização do rural.
Desse modo, o reordenamento social e produtivo tem convergido para a reafirmação de uma condição camponesa, pautada na independência dos agricultores, para a sua permanência no meio rural. Por isso, nessa mudança no modo de agir, sentir e pensar, e na busca em reafirmar sua autonomia para confrontar os imperativos das privações e dependências (PLOEG, 2008) verifica-se que os Assentados do Contestado como representantes de um processo de recampenização.
Através de tal processo, também se pode demonstrar como o modo de vida camponês está longe de ser engessado em suas práticas produtivas. Dada, por exemplo, a compreensão de como e de qual “natureza” (fauna/flora) se desenvolvem as práticas agrícolas, em terrenos de distintas situações, que fazem desse camponês o detentor de um capital de conhecimento que se contrapõe a uma visão empresarial capitalista.
Ademais, no Contestado, com a arte de dominar os acertos e de refletir e dialogar sobre os erros com os demais camponeses, o redirecionamento no processo de desenvolvimento de trabalho se conforma como uma estratégia coletiva. Deste modo, pode-se constatar que o processo de recampenização materializa-se nas práticas articuladas com as lutas em defesa da biodiversidade, em prol do reconhecimento produtivo e de autonomia tanto no modo de vida como no modo de produção.
Portanto, a recampenização traz consigo a confrontação ao modelo perverso de produção econômica sobre o social e o ambiental
Questionando uma visão da agricultura, que a considera como simples campo de investimento de capital, que privilegia, em consequência, a quantidade produzida e a produtividade dos fatores produtivos, estes agricultores, defendem um modelo fundado sobre a qualidade dos produtos, propondo um pacto social entre produtores e consumidores, isto é, entre os agricultores e as populações urbanas. Produzir qualidade supõe, nesta perspectiva, que os agricultores dispõem de uma profunda competência profissional, que resulta da confluência do saber técnico aprendido, com o conhecimento da terra e da atividade agrícola, herdado das gerações anteriores e assimilado pelas experiências cotidianas da observação e do trabalho localizados” (WANDERLEY, 2004)
Portanto, mesmo diante da complexidade de permanência no campo, o modo de vida camponês, na especificidade do Assentamento do Contestado, demonstra que a autonomia não vinculada a empresas agroindustriais, bem como a capacidade de articular práticas agrícolas tradicionais com as novas dinâmicas produtivas, vem marcando seu papel dentro de uma estrutura fundiária. Atreladas a esse enfoque, as maneiras como se trabalham e como se combinam as premissas de preservação ambiental, de cultura e de centralidade política que metamorfoseiam o próprio espaço social rural fazem dos assentados o retrato da própria recampenização.
Por isso, esse contexto, uma questão que emerge: em que medida o assentado, enquanto sujeito de um processo de recampenização, reproduz uma condição de vida camponesa no qual o tempo livre ou o lazer conjuga diferentes dimensões decorrentes do uso do tempo?
Enfim, no decorrer deste capítulo apresentaram-se alguns elementos que direcionam e pontuam a temporalidade de vida do camponês assentado distinto ao modo de vida urbano. Ainda que devido às demandas engendradas dessa inter-
relação campo e cidade, constata-se no decorrer de nossa pesquisa a maleabilidade dos assentados para adaptar seu tempo ritmo de vida as exigências externas.
No capítulo a seguir apresentam-se mais elementos que conformam a temporalidade dos assentados do Contestado, articuladas as analises sobre os materiais coletados em campo.