5 A QUESTÃO AGRÁRIA NO PONTAL DO PARANAPANEMA
5.4 Os assentamentos e a conquista dos territórios
A luta pela terra consiste na formação de um espaço que será denominado de assentamento, ele nada mais que é que a conquista de famílias que ficaram um determinado tempo acampados em um determinado local, até que tenham o acesso a posse das terras. De acordo com Bergamasco e Norder (1996, p.
6) os assentamentos podem ser considerados, como a criação de novas unidades de produção agrícola para as políticas públicas governamentais. De acordo com os autores Bergamasco e Norder, “os assentamentos rurais representam uma importante iniciativa no sentido de gerar empregos diretos e indiretos a baixo custo e para estabelecer um modelo de desenvolvimento agrícola em bases sociais mais equitativas” (BERGAMASCO, NORDER, 1996, p. 8).
15 Idem.
16 Idem.
Durante uma ocupação, existe toda uma ação do movimento para conscientizar as famílias. Segundo Luz17, o processo de ocupação é organizado a partir do momento que uma determinada área é estudada por um líder. O líder tem contato com instituições como Itesp (Instituto de Terras do Estado de São Paulo), informa que determinada área está sendo discutida na justiça. A partir dessa informação o movimento passa a fazer um estudo de base nas cidades principalmente em periferias, que tem como objetivo principal realizar um trabalho de diálogo com famílias e expor a importância da luta pela terra. Luz18 também explica que as áreas ocupadas normalmente estão pendentes na justiça, ou griladas, ou estão com dívidas atrasadas. Sendo assim, o grupo combina uma determinada data, e vai para o local devoluto.
Para a organização de um acampamento, segundo Luz19, não é possível determinar o número de dias em que as famílias ficarão acampadas. São organizados processos nos quais as famílias ficarão em núcleos de trabalho, onde cada grupo possui uma função. Muitos acampamentos aproveitam o espaço para a alfabetização, usando do tempo para ensinar tanto crianças, como pessoas mais velhas. A partir do momento em que a terra é concedida, as famílias saem do espaço em que estavam e cada um vai ocupar o lote que ganhou. Marinotti 20, durante algumas ocupações no Pontal do Paranapanema, foi coordenador e ressalta a importância desta função dentro do acampamento. Segundo ele, são estudadas várias estratégias de ocupação. Como, por exemplo, rastrear a fazenda, prestar atenção se os locais onde pretendem se fixar são próximos a represas, pois vai ser a água daquele local que vai abastecer o acampamento. Sem contar as preocupações com cada envolvido em relação a saúde e alimentação.
Para muitos acaba sendo uma tristeza, pois os lotes ficam longes um do outro e perde-se o contato com as pessoas que conheceram durante o assentamento. De acordo com Lima21, durante as ocupações aconteciam muitos conflitos com os próprios jagunços e empregados dos fazendeiros. Os próprios
17 Entrevista com Marisa Luz moradora do assentamento Rodeio e integrante do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra no lote 12. No dia 11 jul. 2016.
18 Idem.
19 Idem.
20 Entrevista com Valdecir Marinotti morador do assentamento Água Limpa, no dia 14 jul. 2016.
21 Entrevista com Cícero Bezerra de Lima, morador do assentamento Florestan Fernandes, no dia 09 jul 2016.
acampados na sabiam os lugares em que as ocupações iam ser realizadas para a informação não se espalhar.
Segundo o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (INCRA), existem 9.256 assentamentos em todo o país, ocupando uma área de 88.314.857 hectares. Já o estado de São Paulo, são 17.640 famílias assentadas, sendo divididas em 270 assentamentos com uma área de 344.939,48 hectares.
5.4.1 Presidente Bernardes e os assentamentos
A região do Pontal do Paranapanema, localizada no extremo sudoeste do estado de São Paulo, foi ocupada principalmente por meio das grilagens de terra, como esclarece Fernandes (2000, p. 66). Desde o século passado existem diversos conflitos entre grileiros, pessoas responsáveis por forjar documentos através de grilos, já os posseiros, pessoas que tomam posse de terras sem nenhuma documentação. Em sua outra obra o autor explica que o estado de São Paulo é uma importante referência para compreender o processo de ocupação de terras, realizadas através de grilagens:
O território paulista foi apropriado, principalmente, por meio da formação de fazendas de café. Para a abertura de novas fazendas, os coronéis criaram a indústrias das grilagens de terras, compreendida pela falsificação de documentos e outras atividades ilícitas, como subornos de funcionários públicos, além dos crimes praticados contra os camponeses. Era esse processo escuso que determinava o preço das terras, antes devolutas, passando, dessa forma, a ser propriedade particular. Por essas práticas, os grileiros eram verdadeiros traficantes de terras, semelhantes aos traficantes de escravos. (FERNANDES, 2000, p. 28)
De acordo com Luz22, o MST entre os anos de 1990 e 1992 realizou as primeiras ocupações na região do Pontal do Paranapanema, onde havia grande concentração de terra pública grilada. Esse período foi um dos maiores de resistência e luta registrada na região, emergindo vários acampamentos e posteriormente a conquista de assentamentos. O município de Mirante do Paranapanema, por exemplo, é o local que mais concentra assentamentos no Brasil.
Assim como no município de Presidente Bernardes, acontece na época uma explosão não só de lutas, mas de conquista de territórios.
22 Entrevista com Marisa Luz. Moradora do assentamento Rodeio e integrante do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra no lote 12, em 11 jul. 2016. Todas assim
Localizado na região do Pontal do Paranapanema, está o município de Presidente Bernardes originário da antiga povoação Guarucaia. De acordo com o site oficial da Prefeitura Municipal de Presidente Bernardes, no dia primeiro de novembro de 1919, havia sido inaugurada a estação da Estrada de Ferro Sorocabana, que facilitava assim os interessados, e dava acesso a compra de lotes e terras férteis. Em 1920, o município teve seu projeto urbano traçado pelo Coronel José Soares Marcondes. Na parte norte da linha havia 50 mil alqueires, que pertenciam à firma Ramos, Porto e Cia.
Essa firma, segundo dados do site da Prefeitura, fazia parte da empresa dos irmãos Luiz Ramos e Silva e Arthur Ramos Júnior, que tiveram o primeiro loteamento aberto na cidade de Santo Anastácio23 e Piquerobi24 ambas desbravadas no ano de 1917. Já Arthur Ramos fixou-se na Fazenda Guarucaia em Presidente Bernardes. Segundo o censo realizado no ano de 2010, a população total de Presidente Bernardes é de 13.570 habitantes, sendo 10.500 residentes na zona urbana e 3.070 na zona rural. Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE, 2010) a área total do município é de 752 km².
De acordo Santos (2006, p. 53), as ocupações no município começam no ano de 1995. No entanto, desde o ano de 1990 famílias já estavam nas terras realizando ocupações. Hoje fazem parte do Município seis assentamentos, sendo eles Água Limpa são 30 lotes e sua instalação aconteceu no ano de 1996, com área é de 167 hectares; Florestan Fernandes são 55 lotes, instalado no ano de 1998 com área é de 1117 hectares. O Assentamento Palú 44 lotes, instalado 1996 e tem 1244 hectares. O assentamento Rodeio são 65 lotes, instalação em 1997 e sua área é de 1861 hectares. Por fim o Assentamento Santo Antônio, são 26 lotes sua instalação foi em 1996 e sua área é de 789 hectares.
Todos os assentamentos de Presidente Bernardes tiveram a origem de seus nomes, de acordo com os nomes das antigas fazendas. Somente o assentamento Florestan Fernandes, foi uma homenagem feita ao filósofo, Florestan Fernandes, que lutou durante anos pela reforma agrária.
De acordo com Santos (2006, p. 56), a primeira conquista do MST em Presidente Bernardes foi a Fazenda Fortuna. As famílias instaladas foram as que participaram do acampamento Primeiro de Abril de Mirante do Paranapanema. A
23 Disponível em: <http://189.124.85.57:5656/transparencia_menu/>. Acesso em: 24 out. 2016.
24 Disponível em: <http://www.piquerobi.sp.gov.br/>. Acesso em: 24. out.2016.
Fazenda Fortuna foi dívida em três áreas: Água Limpa I, Água Limpa II e Santa Eudóxia, hoje são todos apenas um assentamento, o Água Limpa. O assentamento Palú foi o segundo ocupado no município, após divulgações de carros de sons e palestras em Presidente Bernardes. A Fazenda Rodeio foi ocupada no dia 10 de março de 1997, famílias que estavam nos acampamentos Taquaruçu e Primeiro de Abril ganharam as terras no hoje assentamento Rodeio. O assentamento Santo Antônio foi liberado no ano de 1997 e foi divido em dois assentamentos Santo Antônio I e Santo Antônio II. Como vários cadastros realizados pelo prefeito da época haviam sido realizados, o ITESP optou também pela Fazenda Quatro Irmãs, para dividir o número das famílias do assentamento Santo Antônio.
O assentamento Quatro Irmãs não se insere nesta pesquisa pois não possui famílias atualmente que participaram de ocupações. O último assentamento foi a fazenda São Jorge, hoje conhecida como assentamento Florestan Fernandes.
Ocupado em 1998, fruto dos acampamentos Santa Rita; Taquaruçu e Antônio Conselheiro.
As ocupações de Presidente Bernardes todas foram realizadas pelo MST. As famílias sempre reclamaram que durante a chegada do movimento, faltava apoio de entidades. O município no início não recepcionou bem os assentados.
Segundo Lima25, eles encontravam dificuldades para realizar compras, na saúde e também na educação.
As formas de produção nos assentamentos são principalmente a pecuária, laticínio e a pequena produção familiar. Como dito anteriormente, hoje o pequeno produtor tem perdido espaço no Pontal e também em Presidente Bernardes, pois grandes empresas tomaram o lugar.
25 Entrevista com Cícero Bezerra de Lima, morador do assentamento Florestan Fernandes, no dia 09 jul 2016.
6 PROJETO EDITORIAL
6. 1 Introdução
A revista Prisma é fruto de uma peça prática de um Trabalho de Conclusão de Curso no ano de 2013, sendo implantada somente no ano de 2014, como laboratório de revista digital na Faculdade de Comunicação Social de Presidente Prudente (Facopp). A princípio, no projeto piloto, o intuito era trazer para dentro do ambiente acadêmico, a prática de um jornalismo interpretativo, usando os recursos que a internet proporciona. Na sua implantação, além desse objetivo, visava criar um laboratório dentro da faculdade, onde os alunos poderiam estagiar.
Os idealizadores da revista optaram pela forma digital devido aos avanços tecnológicos que foram surgindo no mundo e que consequentemente refletiram na maneira de fazer o jornalismo na web.
O nome da revista, denominada Prisma, foi escolhido porque segundo os autores, a revista digital visa trazer para quem a lê, diversas perspectivas de um mesmo assunto, contextualizando e informando por meio de análises, abrindo caminho para várias formas de interpretação. (ARAKI; BOZZA; SILVA, 2013)
Nesta nova edição, a revista Prisma será voltada para os assentamentos do município de Presidente Bernardes. Para isso, a revista será composta por reportagens explorando o jornalismo interpretativo e contará a história de cinco famílias que moram no município, que vivenciaram a luta, os acampamentos, ocupações e que por isso conseguiram seu lote. Será composta também pelos recursos multimidiáticos, trazendo galerias de imagens, áudio, vídeo e infográfico.
6. 2 Objetivos
6.2.1 Objetivo geral
Produzir uma nova edição da Revista Prisma sobre a história de vida de seis famílias assentadas de Presidente Bernardes (SP).