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Os autores das indisciplinas: como se sentem estes sujeitos?

As respostas sobre como se sentem os educandos considerados autores das indisciplinas trouxeram uma série de considerações que incluem desde percepções sobre imaturidade, inocência, sentimentos de exclusão e vergonha, até afirmativas que apontam para a desestruturação familiar como causa destes comportamentos: Pode ver, o aluno que é

indisciplinado, ele tem problema na família. Isso é fato, é fato (Paineira, Escola A). Esta mesma professora acredita que isso vem de casa, impedindo o aluno de fazer o seu papel mesmo,

sem aquele trabalho de querer chamar a atenção daquele pai, daquela mãe que estão sendo omissos, que não estão dando a devida atenção para ele em casa (Paineira, Escola A). As

a responsabilidade, fortalecendo uma visão de mundo binária que a tudo vê de modo simplista, como causa e efeito.

As exclusões que se produzem na Escola, para um dos educandos que participou da pesquisa, têm este sentido: Acho que eles devem se sentir excluídos muitas vezes, assim... diferentes. A turma vai tentando excluir o cara por causa do mau comportamento. Eles começam a ficar isolados, sozinhos (Jasmim do Cabo, Escola A). Diz ainda que, às vezes, a professora puxa quem está interessado e quem não está fica atrás. Aí ficam conversando e ela não consegue dar a matéria. Esse relato pode indicar que a estratégia de ignorar o diferente ou o bagunceiro, deixando-o a parte do que acontece em sala de aula entre educador e educandos, produz justamente o efeito contrário daquele que o professor esperava, uma vez que, ao invés de manter-se ao longe, os alunos indisciplinados criam meios para que sejam vistos e ouvidos na sala de aula.

Outra questão apontada remete à preocupação de alguns educadores com o restante da turma, ou seja, com aqueles educandos considerados não-indisciplinados, mas que sofrem os efeitos diretos das indisciplinas que surgem nas salas de aula. Não é o problema de descartar ou

não, de expulsar ou não. Não é essa a questão. Eu também quero contribuir para ele ser resgatado, mas e os outros que estão no meio? O que a gente vai fazer? (Azaléia, Escola A) Eles são atrapalhados pelos outros, embora não consigam enxergar isso. Tem aluninhos ali que eu fico com peninha deles por estarem naquele ambiente (Flor de Maio, Escola B). Para Rebelo

(2002), essa situação parece mostrar que os professores sabem o nome dos educandos indisciplinados ou dos mais inteligentes da classe, enquanto os outros são tratados pelo número de chamada, uma faceta das violências que transitam pelas escolas.

As compreensões sobre os sujeitos das indisciplinas também trazem relatos sobre inocência e imaturidade e chamam atenção para o fato de quão distantes podem estar educadores e educandos, na medida em que uma expulsão pode se dar mais pela desconsideração do universo cultural do educando do que por uma atitude verdadeiramente indisciplinada. Talvez, se o ano letivo fosse iniciado com a pergunta “Quem é você?”, as supostas indisciplinas que mais revelam

os lugares sociais de onde os educandos falam não chegassem nem a acontecer. Isso não significa fechar os olhos para as atitudes que de alguma forma ferem o respeito mútuo e a consideração das legitimidades dos sujeitos em relação, mas criar brechas para uma aproximação que reafirme a ética como estética da convivência (CHAUI, 1997).

De outro lado, acredito na dificuldade que muitos professores têm para se achegarem aos seus educandos e conhecê-los pelo nome. Suas jornadas são exaustivas e muitos deles precisam se submeter e a um número absurdo de educandos por sala e de aulas e turmas. Embora esta também não seja uma justificativa plausível para as indisciplinas, pois, no decorrer da pesquisa de campo, fui apresentada a uma turma considerada indisciplinada, mas que possuía apenas dez estudantes. Viver essa experiência como pesquisadora foi extremamente revelador para mim. Reafirmou minha crença de que as indisciplinas são assuntos que dizem respeito a toda escola e também ao núcleo do fazer pedagógico. Abaixo uma das falas que exemplifica as considerações aqui tecidas:

Ele fez aquele ato, muitas vezes respondeu ao professor ou não fez o que era pra fazer e não tem aquela consciência que muitas vezes não vai ter a chance de fazer aquele trabalho de novo. Eles chegam aqui porque no momento de prova conversaram ou responderam à professora, agiram de alguma forma indisciplinada. Então vem pra cá e daí tu conversas e ele olha pra ti e diz: “Eu vou voltar pra fazer a prova?” Aí tu consegues ver a inocência de não saber que para aquela ação dele vai ter uma reação, vai ter algo que vai prejudicar ele. Eu vejo que é um ato até da maturidade e também um pouco da criação que vem da família, a forma como convive na família. Muitas vezes tem costume de falar palavrão, se tratarem com tapinha, de forma agressiva. Para eles, aquilo é normal, mas o professor já não vê de forma normal. Acaba o professor dizendo: “Sai da minha sala!” Acaba vendo aquilo de uma forma muito maior do que na verdade é. Para eles (os alunos) aquilo é normal. “Ah! Eu não fiz nada!”

(Camélia, Escola B)

Uma outra professora comentou que os educandos não têm noção daquilo que realmente

eles deveriam fazer na sala de aula (Flor de Maio, Escola B). Ao contrário do que esta

professora anuncia, as falas dos educandos revelam que eles sabem para que servem as escolas e também as salas de aula, mas estão cada vez mais arredios aos afazeres que nelas se inscrevem. Por isso, era comum ouvir de meus interlocutores: A escola é importante, mas é chata. Eu não

bastante nota para passar de ano e esse ano eu acho que vou rodar. Eu não gosto de estudar, daí no final do ano a gente se ferra (Espatódea, Escola B). Esta é uma fala que explicita como a sala

de aula se tornou um lugar chato, ajudando, com isso, na construção das indisciplinas e de suas conseqüências. Há uma perda contínua do encantamento pela escola, pelos saberes que ela ensina, pela conectividade que faz com o mundo e com as manifestações de vida. Um desencantamento que contamina educadores e educandos, limitando-os na inventividade para construírem alternativas.

3.5 Turmas indisciplinadas X turmas não-indisciplinadas: onde