3 A UNIVERSIDADE FEDERAL DA BAHIA E OS BACHARELADOS
3.2 OS BACHARELADOS INTERDISCIPLINARES NA UFBA
A proposta central do movimento “UFBA Universidade Nova” foi promover a reestruturação acadêmica da UFBA. O ponto principal dessa pretendida reestruturação consistiu na adoção de um novo formato de graduação a partir do ano de 2009: os Bacharelados Interdisciplinares, que inaugurariam na instituição um modelo de formação superior estruturado em ciclos. Além da implantação desses novos cursos, a universidade
propunha uma reforma nos projetos pedagógicos das graduações48 já existentes, de forma a
articularem-se ao novo modelo.
Nessa nova arquitetura curricular, o primeiro ciclo de formação compreende a graduação no formato de BI, estruturada em torno das grandes áreas do conhecimento – Artes,
Ciência e Tecnologia, Humanidades e Saúde. Essa modalidade49 de graduação, recente no
país50, consiste no ingresso para a formação universitária e no pré-requisito para progressão
aos ciclos subsequentes. O segundo ciclo corresponde à formação profissional específica,
encurtando a duração dos atuais cursos de graduação51 e focalizando as etapas curriculares de
práticas profissionais. O terceiro, por sua vez, integra a formação acadêmica em nível de pós- graduação, com cursos de mestrado e doutorado.
47 Esse termo, utilizado nos documentos oficiais acerca da implantação do Instituto, refere-se à combinação de
três atributos contemporâneos acerca do conhecimento científico: a multidisciplinaridade, a interdisciplinaridade e a transdisciplinaridade.
48 A adesão ao regime de ciclos foi facultada a cada unidade de ensino da UFBA, em obediência a autonomia
universitária que possuem na instituição.
49
Do ponto de vista nacional, os BI possuem diretrizes estabelecidas através dos “Referenciais Orientadores para os bacharelados interdisciplinares e similares”, documento do MEC, aprovado pelo Conselho Nacional de Educação em 2011, depois de seguidas tramitações em instâncias do Ministério (MEC, 2013b).
50
O primeiro Bacharelado Interdisciplinar no Brasil foi ofertado na área de Ciência e Tecnologia, pela Universidade Federal do ABC (UFABC), no estado de São Paulo, no ano de 2006 (UFABC, 2013). Em 2013, havia treze IES brasileiras com oferta de cursos na modalidade BI, seguindo características próprias (GLOBO, 2013).
51
Por meio de reformas curriculares que combinem a formação a ser obtida no BI com as etapas profissionalizantes, requeridas pelas Diretrizes Curriculares de cada curso de graduação e regulamentadas pelo MEC. Deveria também haver um equilíbrio entre o tempo destinado à formação geral e à específica.
De forma geral, a formação em regime de ciclos compreende uma estrutura modular, interdisciplinar, flexível e progressiva, compatível com outros modelos de formação superior, ao convergir com modelos adotados em países com avançado grau de desenvolvimento econômico, social, cultural e científico-tecnológico, a exemplo da Europa, através do Processo de Bolonha, em 1999, e das universidades norte-americanas, estruturados em ciclos nos dois casos, cujo regime prioriza estudos gerais no primeiro ciclo (ALMEIDA FILHO et al., 2010). No entanto, até o final de 2013, cinco anos após a implantação dos BI e embora prevista na legislação interna da universidade (UFBA, 2008a), a adoção do segundo ciclo, facultada a cada curso de graduação já existente, não foi implantada para nenhum dos cursos da UFBA.
A introdução dos BI se deu em meio à resistência de segmentos da comunidade acadêmica. Preparar a estrutura da universidade para a oferta plena desses cursos exigiu esforços contínuos e pontuais, e ainda assim, diversos aspectos presentes na proposta inicial não foram contemplados. A própria legislação que regulamenta esses cursos, no âmbito da UFBA, aparece de forma espaçada ao longo do período 2008-2012 (UFBA, 2013e).
Embora a primeira turma de alunos tenha ingressado no ano de 2009, a versão definitiva dos Projetos Pedagógicos foi aprovada pelo Conselho Acadêmico de Ensino (CAE) da universidade apenas em meados de 2010. Por sua vez, a regulamentação para ingresso nos
Cursos de Progressão Linear52 (CPL) só veio ocorrer no final do ano de 2011 (UFBA, 2011a),
às vésperas da colação de grau dos primeiros estudantes a ingressarem nos BI. Esse cenário dificultou o avanço da implantação de outros atributos da proposta na universidade, a exemplo da adoção do regime de ciclos. Isso resultou em pouca articulação entre os currículos dos BI e dos CPL, no que se refere à combinação das duas formações e ao equilíbrio entre o tempo destinado à formação geral e à específica.
A despeito das dificuldades encontradas para o funcionamento dos BI na UFBA e mesmo tratando-se de uma opção de curso superior novo, com pouca compreensão por parte
da sociedade, ao longo do período 2009-2013, foram ofertadas 6.10053 vagas nesta
modalidade de curso. Esse montante gerou o interesse de 32.357 candidatos (UFBA, 2013d), que optaram pela inscrição nos BI nos processos seletivos para ingresso na UFBA realizados durante esses cinco anos. O público efetivamente ingressante – 5.348 estudantes (IHAC, 2013), compõe-se de maneira heterogênea, ao combinar simultaneamente estudantes dos
52 São os cursos tradicionais de graduação da UFBA, voltados para a formação profissional. Há uma reserva de
20% das vagas nos CPL para egressos do BI. A migração é feita através de processo seletivo próprio, baseado no rendimento e no percurso acadêmico do estudante durante o Bacharelado Interdisciplinar.
turnos diurno e noturno. Dos dados socioeconômicos divulgados pela universidade, tem-se, por exemplo, que dos ingressantes no ano de 2011, 60,9% eram oriundos de escolas públicas, e 12,1% se autodeclararam da cor/raça “branca”, 46,0% da “parda” e 30,6% da “preta” (UFBA, 2013d), percentuais que ultrapassam aqueles previstos no Programa de Ações Afirmativas da universidade.
A matriz curricular dos BI, idêntica para cursos diurnos e noturnos de uma mesma área, foi concebida do ponto de vista da integração de quatro princípios básicos e norteadores: a flexibilidade, a autonomia, a articulação e a atualização. A formação universitária nos campos artístico, humanístico e científico pretendida por estes cursos, que possuem terminalidade própria, é finalizada com a obtenção de diploma que confere um título de bacharel, conduzindo o egresso ao mundo do trabalho, a um curso de formação profissionalizante ou diretamente à pós-graduação (UFBA, 2008b).
De acordo com o Projeto Pedagógico dos Bacharelados Interdisciplinares, esses novos cursos se caracterizam por
[...] agregar uma formação geral humanística, científica e artística ao aprofundamento num dado campo do saber, promovendo o desenvolvimento de competências e habilidades que possibilitarão ao egresso [...] autonomia para a aprendizagem ao longo da vida, bem como uma inserção na vida social, em todas as suas dimensões (UFBA, 2008b, p.12).
A carga horária dos currículos totaliza 2.400 horas, com tempo mínimo de formação estabelecido em três anos, e compreende componentes curriculares majoritariamente
optativos, estruturados em torno de componentes obrigatórios54 vinculados à grande área do
curso, além de atividades complementares. Anualmente, são ofertadas 1.300 vagas55,
distribuídas entre os quatro Bacharelados Interdisciplinares, nos turnos diurno e noturno. A formação universitária prevista para os estudantes dos BI, segundo o seu Projeto Pedagógico, possibilita uma “leitura pertinente, sensível e crítica da realidade” (UFBA, 2008b, p. 24). Assim, são esperados egressos críticos e sintonizados com o seu tempo. Essa articulação egresso-tempo diz respeito ao modo de preparação para a inserção no mundo trabalho. Enquanto o modelo de formação superior ainda vigente se volta de forma direta e imediata para certos campos do saber ou para a profissionalização com desenvolvimento de competências específicas, o proposto pelos BI visa preparar o indivíduo para o desempenho de ocupações diversas e novas que associem, de modo flexível, competências cognitivas e
54 Cada BI possui ainda um componente curricular específico para a produção de textos na área em que se insere,
de natureza obrigatória. Esse é também um diferencial desses cursos, em relação aos demais da universidade.
55 Considerando apenas o campus Salvador. Houve também oferta adicional de vagas na unidade ensino
habilidades técnicas (UFBA, 2008b). A concepção desse modelo de formação considerou fenômenos observados no contexto político e econômico atual: o processo de globalização, a centralidade da tecnologia, a novas formas do trabalho e os ciclos de instabilidade econômica e social, dentre outros.
Um dos eixos estruturantes dos Projetos Pedagógicos, denominado Eixo Orientação Profissional, diz respeito a uma “visão panorâmica das diversas áreas básicas do
conhecimento e das profissões, orientando o estudante na escolha da Área de Concentração56
e de estudos posteriores” (UFBA, 2008b, p. 33). Esse eixo previa a realização de “oficinas de orientação e desenvolvimento de carreiras, [...] auxiliando [o estudante] na auto-avaliação de suas potencialidades e preferências, na definição de metas e no planejamento da carreira” (UFBA, 2008b, p. 33). Embora sua implantação não tenha ocorrido efetivamente e seu objetivo estivesse centrado numa perspectiva de orientação direcionada à descoberta e planejamento de uma profissão, esse Eixo seria responsável por conduzir o estudante na escolha de percursos acadêmicos, direcionando-o a um curso profissionalizante. Faltava, no entanto, uma perspectiva de acompanhamento centrado na figura do aluno, ao se deparar com um vasto mundo universitário à sua frente, com intensas dinâmicas acadêmicas.
Características peculiares aos BI como a flexibilidade e a autonomia de percurso nos seus currículos, associadas à concentração dos estudos em um único turno e disponibilidade de turmas noturnas, introduziram novos sujeitos no ambiente acadêmico. Essas características conferem liberdade ao estudante para escolher o seu itinerário acadêmico, tornando-o autor da sua própria formação e com a possibilidade de trilhar caminhos diversos na sua trajetória universitária, de forma a integrar saberes das grandes áreas do conhecimento.
Esses aspectos possibilitariam a descoberta de interesses e aptidões e o amadurecimento intelectual do estudante, para que suas escolhas relativas à especialização profissional evitem a decisão precoce por uma dada carreira, além de permitir egressos da universidade com perfil diferenciado e em sintonia com as novas demandas sociais e do mundo do trabalho. Como resultado, espera-se uma evolução das estatísticas indicadoras de inclusão do sistema público de educação superior, com aumento constante das matrículas e a redução significativa da taxa de abandono dos cursos (UFBA, 2008b). É justamente este o
56 Nos currículos dos BI, Áreas de Concentração correspondem à “estruturas curriculares de formação específica”
(UFBA, 2011b, p. 1). O conjunto de componentes curriculares integrantes de uma Área se organiza a partir de estudos a serviço da construção de um perfil acadêmico ou ocupacional, visando um recorte na formação do indivíduo. Nos BI onde existem Áreas de Concentração, estas equivalem aos três últimos semestres, considerando a formação em três anos (UFBA, 2011b).
tema abordado no capítulo 5, após uma exposição de aspectos teóricos relacionados à evasão na educação superior, apresentada a seguir.