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CAPÍTULO 1 FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA

1.3 PARQUES INDUSTRIAIS ECOLÓGICOS

1.3.4 Os benefícios e desafios

Como já argumentado neste trabalho, o conceito de PIE revela-se como uma poderosa ferramenta, uma vez que promove benefícios não somente para as empresas que

      

35 Vale lembrar que Lowe (2001), ainda neste capítulo (p. 44), ressalta que um parque industrial ecológico

remete à ideia de ecossistema industrial, a relação mais complexa e sofisticada em parques industriais. Dessa forma, apesar de Mazoukitis et. al. (2003) também denominar parque industrial ecológico os que se encaixam nas quatro primeiras tipologias, este trabalho considerará a caracterização dada por Lowe.

deles fazem parte, mas para o meio ambiente e comunidade local. É possível afirmar que, em diferentes intensidades, os PIEs colaboram com as três esferas do desenvolvimento sustentável: indústrias (econômicos), comunidade e governo (social) e para o meio natural. Fleig (2000, p. 24) reforça essa ideia: “o conceito de Parques Ecoindustriais podem vir a ser uma estratégia de grande ajuda para o desenvolvimento social e ambiental sustentável sem prejudicar o crescimento econômico”.

Para as empresas envolvidas, são diversos os benefícios: a oportunidade de reduzir custos de produção por meio da maior eficiência com a qual os recursos e energia são utilizados; receitas adicionais provenientes da comercialização de subprodutos e resíduos; divisão, com outras empresas do parque, dos custos operacionais referentes à infraestrutura e fornecimento de energia; e, finalmente, a atitude cooperativa entre os participantes do PIE promove a solução conjunta de problemas e a disseminação de conhecimento (MOUZAKITIS et. al., 2003, p. 87).

Lowe (2001) enfatiza outros benefícios para os negócios provenientes da colaboração entre empresas: a divisão de treinamentos em novas regulamentações e tecnologias e serviços de gestão emergenciais; o PIE fornece à empresa associada imagem verdadeiramente verde no mercado; a colaboração potencial entre algumas empresas em áreas como marketing, treinamento ou pesquisa e desenvolvimento pode oferecer uma nova fonte de vantagem competitiva36. O autor cita ainda outras vantagens: como a divisão de serviços como refeitórios e creches; o aumento do poder de barganha na aquisição de produtos não relacionados à produção; o compartilhamento de salas de treinamento e educação e serviços de transportes.

Quanto aos benefícios para a comunidade local, Mouzakitis et. al. (2003, p. 87) afirmam que o desenvolvimento ecoindustrial pode criar demanda para pesquisa e desenvolvimento em tecnologias empresariais. Além disso, continua, “a atividade industrial (ecoamigável) pode levar a novos investimentos e empregos”. Para a comunidade como um todo, PIEs podem reduzir os efeitos ambientais perversos provenientes da atual conduta de produção reduzindo a eliminação de lixo e a utilização de recursos naturais. Confirma-se, assim, que o conceito de PIE cria oportunidades não somente em termos de desenvolvimento sustentável global, mas, como diversos autores afirmam, atingem beneficamente os níveis

      

36 Lowe (2001) reforça essa posição afirmando que “o mais básico benefício ao se transformar em um PIE é que

local e regional da sociedade, tanto em termos de melhoras sociais e ambientais quanto em criação de vantagens para as empresas colaboradoras (FLEIG, 2000, p. 15).

Abaixo, tabela resumo contendo os benefícios para cada uma das esferas do desenvolvimento sustentável, segundo Fleig (2000, p. 15), Veiga (2007, p. 28) e Lowe (2001), em que o social é representado pelas comunidades e governo e o econômico pelas empresas.

Tabela 2

Potenciais benefícios para comunidade, ambiente e empresas com o desenvolvimento de um parque industrial ecológico

Comunidade Ambiental Empresas

Expansão das oportunidades de negócios localmente

Melhoria ambiental contínua

Maior rentabilidade

Aumento da base tributária (benefício para o governo)

Consumo sustentável dos recursos naturais

Melhoria da imagem corporativa no mercado (imagem verde)

Desenvolvimento de orgulho comunitário Redução da quantidade de resíduos despejados no meio ambiente

Acesso a novas camadas do mercado

Redução dos custos com a eliminação de resíduos

Soluções ambientais inovadoras

Eficiência ambiental melhorada

Melhoria da saúde ambiental Aumento da proteção de sistemas naturais

Facilidades no acesso a financiamentos

Ao criarem-se indústrias sustentáveis, criam-se empregos sustentáveis

Desenvolvimento de tecnologias ambientais

Menor vulnerabilidade das indústrias - parcerias em rede

Melhor saúde dos empregados e da comunidade

Recuperação de Brownfields

Vantagem competitiva: aumento da presença e liderança no mercado Ambiente e habitats melhorados Redução da poluição no ar,

água e solo

Redução de custos operacionais (energia, materiais e água)

Criação de uma economia paralela que reutilize os resíduos das indústrias

Redução dos custos de eliminação de dejetos

Ganhos econômicos e sociais resultantes da parceria comunidade / indústria

Receitas adicionais provenientes da comercialização de resíduos Minimização dos impactos de

infraestrutura

Melhora na relação entre fornecedor e cliente

Melhoria da qualidade de vida nas áreas próximas ao PIE (programas sociais)

Melhoria da imagem pública

Uso mais eficiente de recursos como resultado da maior conscientização ambiental

Aumento da produtividade do empregado

Aumento do número de empregos Redução do passivo ambiental

Diversificação dos negócios

Fonte: (FLEIG, 2000; VEIGA, 2007; LOWE, 2001)

Côté e Cohen-Rosenhal (1998) vão além e defendem que a consideração de um sistema industrial cujas empresas colaboram entre si não é só vantajosa, mas vital:

No ecossistema natural, sua estabilidade depende fortemente da interconectividade das espécies que fazem parte deste mesmo meio. Essas conexões se expandem à medida que o sistema amadurece. Os seres humanos são parte e interagem com outras espécies do ecossistema, assim como influenciam seu caráter físico e químico. Em contraste, sistemas industriais tendem a enfatizar a independência e competitividade das empresas. Contudo, as empresas possuem cadeias ou redes de fornecedores e consumidores, assim os ecossistemas naturais possuem cadeias e redes. Mais, indústrias são dependentes dos recursos disponíveis no meio ambiente para garantir sua produtividade. Isso inclui a terra onde a fábrica foi construída, os materiais de construção, os hidrocarbonetos para o suprimento de energia, a água que pode ser necessária para o processo de produção ou refrigeração e o ar usado tanto pelos trabalhadores quanto pelo equipamento do processo. Em outras palavras, elas são dependentes umas das outras e devem cooperar entre elas para que sobrevivam.

A quantidade de parques industriais existentes hoje no mundo torna desejável a possibilidade de mudança deste modelo para um mais sustentável. Como demonstrado, os efeitos positivos dessa nova visão dos parques industriais acarretam em benefícios do interesse de qualquer localidade e servem de motivação para que os envolvidos no processo trabalhem para alcançá-los. O caminho, importante dizer, é difícil e possui seus desafios.

Como o conceito de PIE é responsável pela união de diversas estratégias que raramente foram combinadas em um único projeto, apesar de sozinhas obterem resultados satisfatórios para seus determinados fins, sua utilização envolve certos riscos e desafios. Fleig (2000, p. 17) e Mouzakitis et. al. (2003, p. 87) atentam para os principais problemas de PIEs bem estruturados.

• Obstáculos para a evolução de novas tecnologias: em função dos retornos econômicos resultantes da venda de resíduos, as empresas não se sentem motivadas a investirem em outras tecnologias para a redução dos resíduos.

• Contínua dependência de materiais tóxicos: como as empresas já possuem destino para seus resíduos perigosos, não há razão para realizar a troca.

• A criação de dependência entre empresas: quanto maior for o nível de cooperação entre as indústriais, maior a interdependência e riscos para as empresas envolvidas. O fechamento de uma das empresas da rede causaria a perda de um fornecedor/cliente para outra(s), levando a empresa prejudicada a buscar material/energia/água no ambiente. Esse risco é aumentado caso a empresa tenha realizado investimentos em infraestrutura para realizar trocas com a empresa encerrada. Vale dizer que esse risco não atinge somente a relação entre firmas, mas, no caso do fechamento de um membro importante no PIE, a estabilidade de todo o parque poderia ser prejudicada.

• Alto custo de desenvolvimento: envolve desde o desenho do projeto, a preparação do lugar escolhido, a construção, dentre outros. Devido aos altos padrões exigidos, o retorno do capital investido nesse empreendimento poderia ser maior se comparado a parques industriais tradicionais.

Outros desafios são listados por Fleig (2000). Para o autor, o maior problema que um PIE pode enfrentar ocorre em países onde a poluição do ar, água e solo resulta em baixo custos e o preço de energia e materiais são muito baixos. Para que a ideia de um PIE se torne atrativa, é necessário que as vantagens proporcionadas pela comunidade de empresas se estendam além da troca de materiais e energia.

Deve ser verificado ainda que para que o PIE obtenha sucesso, não deve haver utilização, por parte do setor informal da economia, dos resíduos/subprodutos gerados nas empresas para fins comerciais. Nesse caso, o estabelecimento de redes de troca de subprodutos e reciclagem destruiria a capacidade de sobrevivência dessas famílias. Fleig (2000) cita ainda outros pontos que podem dificultar o bom desempenho de um PIE:

• Introdução de novas tecnologias: estando a aquisição de novas tecnologias diretamente ligada ao custo de investimentos, existe a possibilidade de criar vantagens competitivas para empresas que já se encontrem em situação privilegiada, que disponham do dinheiro para tais investimentos, em detrimento daquelas de porte mais modesto, mesmo que, a longo prazo, o investimento se mostre positivo;

• Falta de capital para investimento: pode restringir ainda mais a participação de pequenas e médias empresas no PIE – a não ser no caso de linhas de financiamento de crédito para esses participantes;

• Falta de know-how local: as novas tecnologias, normalmente provenientes dos países ricos, exigem o treinamento da mão de obra local para seu manuseio;

• Economia estatizada: segundo o Stoldt (apud FLIEG, 2000), “é muito importante evitar o risco de se projetar um PIE em uma ‘economia controlada pelo Estado’, cujas vantagens locais criadas artificialmente não se sustentem no longo prazo”; • Mentalidade e legislação de fim de tubo: devem ser evitadas as práticas de

proteção ambiental voltadas ao modelo linear, não circular, como proposto pela EI. Deve-se atentar também para a pressão dos países industrializados para vender suas tecnologias e serviços de fim de tubo e

• Não restringir a ideia de EI aos PIEs: uma vez que empresas pequenas, cuja tecnologia de produção é quase sempre ultrapassada e o uso de recursos ineficiente, deve-se dar ênfase a uma abordagem não somente local, mas regional. Assim, por se tratar de uma abordagem nova e devido à complexidade de seus objetivos, Bringezu (apud FLEIG, 2000) alerta para o entusiasmo e esperança sobre o conceito de PIE. Segundo o autor, devemos lembrar que ele é somente uma de diversas outras estratégias para a melhoria do desempenho ambiental no sistema industrial. Como uma solução isolada (island solution), ele não é suficiente para realçar o desenvolvimento industrial sustentável, mas deve ser conectado a outras estratégias em campos e níveis diferentes. Por outro lado, apesar da grande lista de dificuldades acima descrita, ela não desencoraja a adoção dos conceitos de PIE para o alcance de uma forma de desenvolvimento mais sustentável, mas somente alerta para certos fatores que não devem ser ignorados.