As Violências nas Escolas Públicas de Florianópolis: o lado obscuro da “Ilha da Magia”
1- Os Boletins de Ocorrências e as escolas
São várias as interpretações que tentam explicar o complexo fenômeno das violências nas escolas. Entre estas estão as que explicam a violência como sendo reflexo da pobreza, falta de profissionalização, desintegração familiar, baixa escolaridade, etc, assim, as violências seriam provenientes das populações pobres, ditas faveladas e sem perspectiva nenhuma. Essas situações determinariam os comportamentos de menores autores de atos infracionais. Mas mesmo que se reconheçam tais aspectos causais, não pode haver linearidade, pois, esses aspectos não refletem automaticamente nas escolas e nem todos os indivíduos reagem da mesma forma diante de tais situações.
Para Sposito (1998, p. 61), as violências escolares não são meros reflexos do espaço estrutural da sociedade brasileira. Reconhece que o quadro social no Brasil propicia as condições para a eclosão da conduta violenta, mas isto não significa estabelecer linearidade entre o quadro social que favorece o seu aparecimento e as práticas de violência na instituição escolar. Relata ainda que alguns estudos comprovam que não são as regiões mais miseráveis do país aquelas que condensam maior índice de violência. Então, “mais do que a pobreza em termos absolutos”, a violência nestes estudos se explicaria devido a uma “exacerbação da desigualdade social - a extremada distribuição desigual da renda ao lado da convivência de dois mundos (o dos excluídos e o dos incluídos) – uma das molduras propícias às relações de violência e suas conseqüências sobre a escola.”
Adorno (1994, p. 72), em uma pesquisa realizada com crianças “delinqüentes”, observa que “nem todas as crianças submetidas a iguais condições de pauperização reagem do mesmo modo. Muitas resignam diante de seu destino. Aceitam as regras do mundo adulto e perseguem sua trajetória de trabalhadores obedientes. Outros manifestam comportamento arredio, indisciplinado. Entre estes se encontram os que optam por construir uma carreira na delinqüência.”
A escola aparece na memória dessas crianças (chamadas de menores, uma vez que perdem sua condição social de serem crianças) ao mesmo tempo distante e ao mesmo tempo familiar, “distante porque nunca se constituiu em espaço efetivo de realização social” e “familiar porque espaço de aprendizado da violência.” (Idem, p. 70)
A sociedade brasileira e suas instituições são fortemente marcadas pela hierarquia, tanto nas instituições públicas quanto nas privadas. A instituição escola pública a qual nós conhecemos hoje, foi constituída num espaço propício a manifestações das violências. Tanto no aspecto físico, quanto nos aspectos pedagógicos, este pedagógico na qual faço referência enquadra as relações de poder entre professores e alunos, entre direção e professores, entre direção e alunos, e as relações entre estes sujeitos com um saber hierarquizado.
As violências sempre fizeram parte das relações sociais no Brasil, embora muitos atos que hoje são considerados violências, não o eram outrora, por exemplo: os castigos físicos aos escravos ou à própria escravidão. A partir da década de 80 com o processo de democratização, que se queria implementar no país, houve uma maior abertura para questões latentes que afetavam a sociedade brasileira. Em vários setores da sociedade surgia um sentimento de revolta contra as desigualdades sociais e conseqüentemente se denunciava com mais fervor as injustiças e as violências. Neste período, e na década de 90, as violências nas grandes cidades e no ambiente escolar se intensificam e adquirem diversas facetas, ganhando o debate público. Surgem, também, os primeiros trabalhos escritos acerca das violências 20.
20
No período dos anos 80, como demonstra Sposito (2001, p. 92-93), sob o ponto de vista da produção acadêmica na pós-graduação em Educação, o tema da violência na escola foi abordado em toda a década apenas duas vezes. A primeira, como descreve a autora, na dissertação de mestrado de Guimarães (1984), onde esta oferece um quadro bastante sugestivo ao contrariar hipóteses dominantes no período que propunham ser a violência em meio escolar decorrência do controle evigilância exercidos por professores e demais profissionais das unidades escolares, por demonstrar que tanto escolas com regras altamente rígidas, quanto às permissivas e desorganizadas o fenômeno estava presente. E a segunda, da mesma autora já nos últimos anos da década, agora como tese de doutorado, que a intensificação do policiamento resultava na diminuição dos índices de depredação, sendo perceptível, ao mesmo tempo, o aumento das brigas físicas entre alunos.
Nos anos 80, as violências escolares eram tratadas como reflexo do contexto social. As ocorrências mais freqüentes eram de vandalismo, depredações, invasões e roubos. A partir dos anos 90, as violências escolares começam a ser indicadas como práticas originadas no interior escolar. Essa década foi mais promissora no meio acadêmico, surgem vários trabalhos, que tratam da vida escolar com o narcotráfico e com o crime organizado. Trazem questões importantes entre escola e violência, como o aumento da criminalidade e da insegurança sobre os alunos e a deterioração do clima escolar (Sposito, 2001, p. 95).
A violência escolar começa a ser observada nas interações dos grupos de alunos caracterizando um tipo de sociabilidade entre os pares ou de jovens com o mundo adulto, ampliando e tornando mais complexa a própria análise do fenômeno. Há uma mudança no padrão das violências, os vandalismos continuam, mas as práticas de agressão verbais e ameaças são as mais freqüentes e não é evitado com o aumento da segurança. (Sposito, 2001, p. 91, 94)
Os Boletins de Ocorrências registrados na 6ª Delegacia Policial de Proteção à Mulher e ao Menor Infrator de Florianópolis corroboram para o que Sposito ressalta, de que o policiamento não diminui as violências nas escolas, pelo contrário, percebemos um aumento gradativo dos fatos e um aumento das ocorrências entre os alunos e destes contra o corpo técnico-pedagógico, como as agressões físicas, as perturbações ou desordens, as agressões verbais e as ameaças.
Os 16.352 Boletins de Ocorrências revelam a dimensão das violências que atingiram as crianças e os adolescentes, sejam como vítimas ou autores de atos infracionais, na capital, no período de 1991 a 2002. Estes revelam que as escolas de Florianópolis não estão isentas das violências, manifestadas nas suas distintas formas. E que ao contrário de muitas pesquisas, que centram as análises nos alunos por considerar estes as maiores vítimas, percebendo apenas um dos pólos das relações sociais que os sujeitos estabelecem nas escolas, elas atingem a todos os sujeitos, seja de forma direta ou
indireta. Quando dirigidas, os alunos atingem indiretamente o corpo técnico-pedagógico, e quando dirigidas ao corpo técnico-pedagógico atingem indiretamente os alunos.
No período de 1991 a 2002, foram registrados 16.352 Boletins de Ocorrências envolvendo menores de idade e dentre estes 514 BO’S relacionados às escolas públicas de Florianópolis e 103 BO’S eram de violências contra o corpo técnico-pedagógico: professores/as, diretores/as, especialistas e coordenadores/as. São vários os sujeitos vitimizados nas escolas: alunos/as, professores/as, diretores/as, secretários/as das escolas, supervisores/as, orientadores/as, coordenadores/as, pais de alunos, merendeiras, donos/as do bar da escola, vigias e policiais.
As escolas que tiveram os índices mais elevados, em todo o período pesquisado, se situam geograficamente na região central da Ilha, embora na região do Continente também há escolas que se ressaltaram.
Segundo dados disponibilizados pela Secretaria Estadual e Municipal de Educação, na cidade de Florianópolis, baseados no censo escolar de 2002, existem ao todo 36 escolas (23 de Educação Básica e 13 Desdobradas (1ª à 4ª séries)), e quanto às estaduais existem ao todo 50 escolas (25 de Ensino Médio e 45 de Ensino Fundamental). Nos BO’S, foram encontradas ocorrências de 58 escolas públicas, entre estas as municipais e as estaduais. O que significa que uma parcela significativa das escolas públicas de Florianópolis, em torno de 60,4%, fizeram registro de ocorrência na 6ª DP. As escolas estaduais têm índices mais elevados de violências que as municipais, 82% das escolas estaduais registraram ocorrências, contra 47% das escolas municipais, o que contraria a fala da Secretaria Estadual, quando procurada em busca de dados, de que as escolas municipais são as mais “problemáticas” neste aspecto.
Os profissionais das escolas, os pais ou responsáveis e a polícia procuravam a delegacia para fazer o registro de fatos que aconteciam nos arredores e no interior das escolas. Em 1991 e 1992 foram respectivamente 12 e 7 escolas que registraram ocorrências, nos anos que se seguem o índice foi aumentando gradativamente, chegando a ter em 2001, 33 escolas registradas, como podemos verificar na tabela 1:
TABELA 1 - ÍNDICE DE ESCOLAS QUE FIZERAM O REGISTRO DOS FATOS NA 6ª DP –