Apesar da elaboração do Protocolo Agroambiental ter sido considerada pelos agentes de interesse da pesquisa como “cooperativa”, pode-se evidenciar que alguns grupos sociais não se sentiram contemplados por tal proposta. Não se levou em conta, por exemplo, que as pequenas e médias usinas, como as familiares, encontrariam maiores barreiras econômicas para investir nas inovações tecnológicas que a assinatura do Protocolo demandava. Já os fornecedores de cana42, que também se depararam com essas barreiras, demonstraram resistência em relação à aderência ao documento, segundo Francisco Graziano.
E da onde veio a maior resistência? Dos fornecedores de cana. [...] E eles vinham e falaram “Xico, pra nós isso não vai dar... que a gente como é que... Tem que comprar colheitadeira? A usina compra, financia no BNDS, eu sou fornecedor de cana”. Então, por isso que nós demos um prazo maior pra eles. [...] Na verdade, quando nós chamamos as áreas não mecanizáveis tinham um prazo maior, e as não mecanizáveis e as que tinham um certo tamanho também, que incluíam os fornecedores. Mas, ai na sequência, eles preferiram fazer um outro protocolo pra eles. Não tinha problema nenhum, era mais ou menos repetindo o anterior, mas dando mais segurança. Porque eles falaram “pô, eu não tenho... não consigo financiar”. E as áreas menores já estavam atingidas no primeiro [protocolo], se eu me lembro bem [...] Eu tive que ir a reuniões convencer pessoas, “o mundo tá mudando... vamos parar de queimar cana”, “mas e a cigarrinha?” A cigarrinha é uma praga que dá no canavial que a hora que você bota fogo, mata a cigarrinha. O fogo ajuda a combater pragas, não todas, mas algumas, sim. “Como é que vai fazer com a cigarrinha?” “Você vai ter que encontrar outra forma, como é
42 Considera-se como fornecedores de cana, os produtores rurais que, utilizando da sua própria terra ou arrendando uma outra propriedade, manejam sua produção de cana-de-açúcar às usinas. Se ficar sob sua responsabilidade a estrutura necessária de toda a produção (plantio, colheita e entrega à usina), são considerados como “fornecedor de cana na esteira”; caso haja a intervenção da usina ou de uma equipe terceirizada para realizar as etapas do processo produtivo, são considerados como “fornecedores de cana em pé”.
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que vai fazer?” “Você vai continuar tacando fogo, né?” Efeito estufa... o mundo inteiro falando de aquecimento global e o setor canavieiro botando foto em canavial... (Francisco Graziano, ex-secretário do meio ambiente. Entrevista concedida em 27/10/2015).
É característica do produtor rural ser mais ressabiado. É diferente. Um grupo industrial é mais fácil de aceitar coisas novas. Eles já queriam ver como é que era esse negócio, como funcionava. Então, 2008 só que foi assinado com os fornecedores de cana, mas não diretamente com eles. [...] Então como é que foi feito? Através das associações de fornecedores de cana (Carolina Matos, especialista ambiental – SMA-SP. Entrevista concedida em 14/01/2016).
Em 2008, então, foi criado um Protocolo Agroambiental voltado aos fornecedores de cana, com metas similares àquelas do Protocolo das unidades agroindustriais. O novo protocolo43 é considerado pelos agentes da SMA-SP como um resultado, ou em seus termos um “braço” do primeiro.
Consideram como um “braço”, da mesma forma, o Zoneamento Agroambiental44, que também compõe o Projeto Etanol Verde. Este que, por sua vez, complementa as diretivas do Protocolo Agroambiental, foi responsável pela divisão do estado de São Paulo em algumas áreas com diferentes níveis de restrição para a exploração da cana em níveis crescentes de exigência das questões ambientais, conforme apresentam a Figura 4 e o Quadro 3 em sequência.
43 Assim como o Protocolo voltado às Unidades Agroindustriais, o acordo voltado às Associações de Fornecedores pode ser acessado em: http://www.ambiente.sp.gov.br/etanolverde/protocolo-agroambiental/o- protocolo/. Último acesso em 21/12/2016.
44 Para maiores informações, acesse:http://www.ambiente.sp.gov.br/etanolverde/zoneamento-agroambiental/. Último acesso em 21/12/2016.
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FIGURA 4: Zoneamento Agroambiental do setor sucroalcooleiro do Estado de São Paulo
Fonte: Projeto Etanol Verde (2014).
QUADRO 3: Classificação de áreas com diferentes graus de aptidão agroambiental
Áreas adequadas: correspondem ao território com aptidão edafoclimática favorável para o
desenvolvimento da cultura da cana-de-açúcar e sem restrições ambientais específicas;
Áreas adequadas com limitação ambiental: correspondem ao território com aptidão edafoclimática
favorável para cultura da cana-de-açúcar e incidência de Áreas de Proteção Ambiental (APA); áreas de média prioridade para incremento da conectividade, conforme indicação do Projeto BIOTA- FAPESP; e as bacias hidrográficas consideradas críticas;
Áreas adequadas com restrições ambientais: correspondem ao território com aptidão
edafoclimática favorável para a cultura da cana-de-açúcar e com incidência de zonas de amortecimento das Unidades de Conservação de Proteção Integral – UCPI; as áreas de alta prioridade para incremento de conectividade indicadas pelo Projeto BIOTA-FAPESP; e áreas de alta vulnerabilidade de águas subterrâneas do Estado de São Paulo, conforme publicação IG-CETESB- DAEE – 1997;
Áreas inadequadas: correspondem às Unidades de Conservação de Proteção Integral – UCPI Estaduais e Federais; aos fragmentos classificados como de extrema importância biológica para conservação, indicados pelo projeto BIOTA-FAPESP para a criação de Unidades de Conservação de Proteção Integral – UCPI; às Zonas de Vida Silvestre das Áreas de Proteção Ambiental – APAs; às áreas com restrições edafoclimáticas para cultura da cana-de-açúcar e às áreas com declividade superior a 20%.
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Ambas as ações, quais sejam, a criação do Protocolo Agroambiental voltado às unidades agroindustriais e aos fornecedores de cana e a elaboração do Zoneamento Agroambiental, são significativas para compreender a apropriação da agenda ambiental por parte do setor sucroalcooleiro. Dessa forma, cria-se um conjunto de estratégias a fim de pautar o debate socioambiental, uma vez que o setor passa adotar uma posição que enfatiza uma “tomada de providência” frente às críticas de cunho socioambiental apresentadas contra ele.
Sustentadas, ainda, pelo discurso da Secretaria do Meio Ambiente, que possui autoridade, legitimidade e expertise frente à “resolução” de impactos ambientais, tais regulamentações transmitem a crença de que podem ser a solução dos problemas ambientais ocasionados pela produção sucroalcooleira, como muito bem observado na fala dos agentes da Secretaria do Meio Ambiente, que depositam no Protocolo Agroambiental Paulista a possibilidades de ser um verdadeiro condutor de melhorias socioambientais e, ao mesmo tempo, de melhorias econômicas.
Não se considera, entretanto, o fato de se conseguir burlar o cumprimento das diretivas, por meio da solicitação da “queima controlada”45, a falsa proibição do uso das queimadas por meio da eliminação gradativa, bem como que a inserção de novas tecnologias à lavoura canavieira - como as máquinas colheitadeiras especificas para cortar cana crua - agravam ou criam novas formas de degradação socioambiental e ainda trazem novos desafios para os usineiros.
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Esta seção buscou enfatizar a formulação de uma política de regulamentação socioambiental específica voltada às lavouras canavieiras: o Protocolo Agroambiental Paulista. Nesse sentido, o objetivo principal foi o de resgatar argumentos de agentes de dois setores específicos que estiveram fortemente vinculados à formulação e à gestão desse protocolo, quais sejam o governo do estado de São Paulo, representado pela sua Secretaria do Meio Ambiente, e o setor sucroalcooleiro, representado pela UNICA, mostrando sua centralidade na condução do debate do problema ambiental das queimadas e, por consequência, na criação de uma agenda ambiental do setor.
45 A existência de uma legislação atual, que permite a “queima controlada”, coloca em xeque a validade do Protocolo Agroambiental, visto que permite, quando solicitado, a obtenção de uma licença ambiental para se praticar a queima da palha da cana-de-açúcar.
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Buscou-se, com isso, entrecruzar as duas questões norteadoras no decorrer da discussão. A relação entre Estado, economia e setor sucroalcooleiro apresentou-se de maneira bastante pertinente também na construção política do Protocolo Agroambiental. Enquanto o governo do estado de São Paulo serviu diretamente aos interesses econômicos do setor ao tomar frente da decisão de se criar tal regulamentação, o governo federal concentrou-se em deliberar incentivos de promoção do etanol no mercado internacional.
Já a aproximação entre a temática ambiental e a lavoura canavieira permitiu resgatar argumentos socioambientais que puderam ser agrupados enquanto “opinião pública”, sendo esta utilizada como um recurso do setor na elaboração de diretivas que se debruçaram sobre as exigências contidas nesses argumentos, demonstrando a relevância de interiorizar suas demandas socioambientais na formulação de tal política.
Dessa forma, visava-se propor uma resposta a essas críticas e demandas socioambientais a partir da criação de diretivas que seriam cumpridas de maneira gradativa. Igualmente, estas diretivas voltaram-se àquilo que estava sendo atacado pela opinião pública: queimadas, uso da água, proteção das matas ciliares, descarte de embalagem de agrotóxicos, conservação e uso do solo, etc., sendo esta uma estratégia do setor para incorporar as críticas, porém sem necessariamente resolvê-las. O que ocorre é a criação de novos impactos socioambientais da monocultura canavieira, bem como a continuidade daqueles que já se mostraram alvo de políticas como o Protocolo Agroambiental.
Encara-se, com isso, a elaboração dessa política de regulamentação socioambiental de maneira estratégica enquanto um “jogo”, conforme salientado por um dos agentes de interesse da pesquisa, que pôde absorver as novas demandas no intuito de promover a imagem do etanol, livrando-a da degradação socioambiental decorrente da monocultura canavieira a partir da construção de diretivas voltadas à proteção ambiental e do incentivo à mecanização que eliminaria, ou mascararia, por sua vez, a utilização da prática das queimadas e seus efeitos sobre a saúde, o meio ambiente e a figura do cortador de cana.
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V
DO “VERDE” AO “CINZA”: AS ARMADILHAS DO PROTOCOLO
AGROAMBIENTAL PAULISTA
O Protocolo Agroambiental Paulista foi capaz de atribuir uma centralidade ao setor sucroalcooleiro e ao governo do estado de São Paulo que ultrapassou o estágio de formulação e condução desse “ajuste de conduta” e alcançou um posicionamento estratégico de ambos os setores frente ao debate conflitivo sobre o problema ambiental das queimadas.
Como visto, certo debate acionou uma série de outros agentes direta ou indiretamente atingidos pelos impactos das queimadas, o que veio constituir um campo de disputas em torno desse problema ambiental. Tal campo estaria permeado por críticas e argumentos contrários à prática das queimadas nos canaviais que tornaram possível o alcance do setor a alguns pontos de apoio morais, bem como a construção de justificativas que favoreceriam a manutenção dessa lógica de produção (BOLTANSKI e CHIAPELLO, 2009).
Nesse campo conflitivo, de maneira estratégica, a formulação do Protocolo Agroambiental que pôde ser compreendido como uma operação de justificação, como visto anteriormente, incorporou parte das críticas destinadas à produção sucroalcooleira, funcionando, assim, tanto como uma resposta aos argumentos contrários, em especial, à prática das queimadas quanto um meio de promover o etanol.
Criavam-se, desse modo, novas formas de classificação que, no entanto, não resolveriam plenamente as causas daquelas críticas e, muito menos, chegariam a barrar a expansão desenfreada da produção canavieira. O Protocolo Agroambiental tornou-se, pois, um meio de encobrir a degradação socioambiental ocasionada pelo setor através da emissão de um certificado ambiental, assim como de uma proposta de conversão tecnológica que substituiria o corte manual da cana-de-açúcar pelo mecanizado.
Apesar de servir como a solução encontrada para conter as críticas e prever um aquecimento do mercado para o etanol, a própria conversão tecnológica sinalizaria a continuidade de degradações socioambientais, o que vem sendo intensificada por uma ausência de preocupações setoriais e estatais em gerir as novas demandas vinculadas a essa conversão no que diz respeito às novas e antigas demandas de trabalho e da utilização dos recursos naturais.
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respaldo a novas estratégias do setor para garantir sua acumulação de capital. Busca-se, assim, manter os índices de produtividade anteriormente conquistados a partir da prática das queimadas e desconsidera-se, igualmente, aspectos socioambientais. Contribui-se, assim, para o questionamento das possíveis intenções que encobrem a proposta de “ajustar a conduta” do setor em termos ambientais, pautada pela emissão do Certificado Etanol Verde.
Tendo em vista esse panorama, e na tentativa de desvendar as armadilhas do referido protocolo, objetiva-se refletir sobre como os grupos de interesse se posicionaram nesse campo conflitivo posterior à assinatura do protocolo. O percurso ambicionado, contudo, consiste em evidenciar alguns dos principais efeitos, insuficiências e críticas do referido “ajustamento de conduta” que puderam convergir na problematização da sua eficácia em servir como um veículo estratégico do setor sucroalcooleiro, responsável pela tentativa de pautar o debate sobre as queimadas, bem como de inviabilizar a criação de novas leis de proibição dessa prática e novas críticas voltadas a sua produção, sob o amparo do aparelho burocrático estatal, seus recursos de poder e do princípio da sustentabilidade.
5.1 O lado “verde” do Protocolo Agroambiental: a visão e o posicionamento do