3.3 U M PARTIDO MARXISTA LENINISTA À FRENTE DO E STADO
3.3.2 Os caminhos de afirmação do “poder popular”
Logo após o III Congresso foi desencadeada uma ampla campanha de expansão do Partido (1977-1978) visando à incorporação de integrantes dos mais diversos setores sociais. Segundo Allen e Barbara Isaacman (1983, p.121-123), candidatos eram submetidos à crítica pública sob critérios políticos e morais como firmeza patriótica, disciplina e adesão aos valores democráticos e socialistas. Muitos veriam suas candidaturas rejeitadas nos debates populares, cuja atenção frequentemente se voltava ao passado político dos pleiteantes, especialmente se estiveram ou não ligados às estruturas do regime colonial. Uma questão premente foi a preponderância urbana das células do Partido criadas nesta campanha, as quais, na sua maioria, eram sediadas em órgãos do próprio aparelho estatal e em fábricas (BUENDÍA GÓMEZ, 1999, p.275).
Uma segunda campanha empreendida nos anos de 1980 e 1981 buscava mitigar esta tendência, que contrariava aquela do contexto da luta de libertação no qual a participação camponesa foi fundamental. O resultado das campanhas foi divulgado em 1982, na fase de
preparação para o IV Congresso, quando então o Partido contava com 110 mil membros, dos quais 53,5% eram camponeses, 18,9% operários e 27% funcionários (JOHNTON, 1986166, p.115 apud GÓMEZ, 1999, p.274). Essa conformação, ainda que o campesinato correspondesse à metade dos membros, continuava a contrastar com a configuração anterior da Frente e, sobretudo, com a composição social de Moçambique predominantemente rural167. Com relação às iniciativas que objetivavam a consolidação do “Poder Popular”168
– ou mais especificamente, a participação popular nos processos decisórios e de mobilização popular – destacam-se a instituição (i) da Assembleia Popular e das Assembleias do Povo; e a (ii) revitalização ou criação de organizações democráticas de massa.
Estabelecida na Constituição de 1975, a Assembleia Popular se reunia duas vezes ao ano, por cerca de uma semana, e tinha como competências (FRELIMO, 1977c, p.150): a) pronunciar-se sobre os programas econômicos do Estado; b) fazer aplicar a nova política fiscal, de acordo com os interesses das massas trabalhadoras; c) legislar sobre questões essenciais relativas à política externa e interna, nomeadamente sobre a família, a propriedade, o uso e aproveitamento da terra e dos recursos naturais, a organização das empresas mistas, a estrutura judiciária e a organização da Função Pública. Já as Assembleias do Povo, ou Assembleias Provinciais, Distritais e de Localidade, constituíam “órgãos através dos quais as massas populares participarão na resolução de seus problemas imediatos e na orientação e controlo da acção do Governo aos vários níveis”.
O sistema de representação era constituído por voto direto nas Assembleias Locais, e indireto para os níveis distrital, provincial e nacional, em conferências eleitorais de suas instâncias imediatamente inferiores. A relação entre as Assembleias e o Partido deveria ser assegurada pelas campanhas de ampliação da participação popular na Frelimo
166 JOHNTON, Anton. Study, produce and combat!: education and the Mozambican state, 1962-1984.
Estocolmo, Institute of International Education, University of Stockolm, 1986.
167 Segundo o Censo Geral da População de 1980, o primeiro realizado em Moçambique após a independência,
o país tinha 12,130.000 habitantes dos quais 5,908.500 homens e 6,221.500 mulheres; desta população 13,2% vivia no meio urbano e 86,8% no meio rural (MOÇAMBIQUE, 1982).
168 Segundo Egerö (1990, p.35-36) o termo Poder Popular tinha sentido ampliado no caso Moçambicano. “On
the one hand, it was used to denote democracy, as an objective or principle of the struggle. On the other, it referred to emerging forms of politico-administrative organization in the liberated areas, including (democratic) methods for decision-making, election of office-holders etc. This diffuse character has not changed with Independence; Popular Power remains as an overall guiding concept at the same time as a series of institutions for popular participation”.
Em português: “Por um lado, era de costume denotar a democracia como um objetivo ou princípio da luta. Por outro lado, referia-se às formas emergentes de organização político-administrativas nas áreas liberadas, incluindo métodos (democráticos) de tomadas de decisão, de eleição para cargos oficiais etc. Esse caráter difuso não mudou após a Independência; o Poder Popular permanece como um conceito de base geral ao mesmo tempo que uma série de instituições de participação popular”. (EGERÖ, 1990, p.35-36, tradução nossa).
anteriormente referidas. Segundo relatos de participantes da Assembleia Popular colhidos na pesquisa de Buendía Gómez (1999, p.281-284), o órgão foi para os deputados um espaço de educação política e de aprofundamento de seus conhecimentos sobre a realidade socioeconômica e cultural do país, pré-requisitos essenciais para uma autêntica participação democrática. As Assembleias constituíam também mecanismos de interlocução com a população, donde emergiam alertas sobre necessidades, carências, falhas nas estruturas estatais, erros no trabalho e da infiltração inimiga.
Contudo, a instituição de tais mecanismos no contexto pós-independência encontrou uma série de limitações. Muitos dos deputados, por exemplo, ocupavam outros órgãos de poder, executivos ou partidários, que limitavam sua disponibilidade de dedicação como representantes políticos e afunilava a participação, além da constante razão da falta de recursos para a realização das tarefas atribuídas. No âmbito local a criação das assembleias não garantiu seu funcionamento, ou em alguns casos, sua sobrevivência. A própria Frelimo, no Relatório do Comitê Central ao IV Congresso (1983, p.111), avaliava que em muitos casos as assembleias não contribuíram para resolução de problemas ou melhoria da qualidade de vida dos habitantes de suas respectivas competências. Havia um excesso de formalismo, casos de reuniões “apenas para responder às normas legais e as discussões e decisões não [tinham] segmento nem controlo. Funcionam formalmente, mas o alcance prático da sua acções de direção não se faz sentir”. Algumas das razões levantadas são o deslocamento de lideranças locais para o desempenho de outras atribuições e o mimetismo das Assembleias do Povo em relação à Assembleia Popular pela falta de compreensão de suas atribuições. Egerö (1990, p.126) destaca que a falta de clareza nas instâncias de participação popular era uma dificuldade encontrada com frequência, e que o formalismo e o protocolo podem ter sido decorrência da incompreensão dos deputados de suas diferentes atribuições dos órgãos de escala local à nacional.
Buendía Gómez (loc.cit, negrito nosso) também pontua que o funcionamento das Assembleias se assentava “num modelo muito distante culturalmente dos deputados, que se, por um lado, eram camponeses iletrados, por outro lado possuíam uma educação oral muito desenvolvida”. Também acrescenta que a análise da situação deve levar em conta o contexto de graves privações e carências em que se dava a consecução dessas atividades – i.e.: a simples convocatória de uma reunião demandava grandes esforços já que os meios de comunicação de então eram pouco ágeis, e escassos em muitas localidades.
No que tange a organização da sociedade civil e dos trabalhadores, após o III Congresso foram revitalizadas e criadas as chamadas organizações democráticas das massas (ODM’s). Segundo o relatório do Comitê Central ao III Congresso:
As organizações democráticas de massas constituem o elo de ligação entre o
Partido e o Povo. Nelas a FRELIMO encontra uma fonte inesgotável de energia
revolucionária. As organizações de massas são a grande escola onde se
desenvolve a consciência de milhões e milhões de trabalhadores, homens e
mulheres, velhos, jovens e continuadores. Elas são a base de recrutamento e o centro de formação e aperfeiçoamento contínuo dos militantes do Partido. As organizações democráticas de massas constituem o instrumento fundamental de alargamento e
consolidação da larga frente popular anti-imperialista ao nível nacional, uma escola de vida democrática e de participação organizada do Povo na vida social.. Elas permitem à FRELIMO conhecer e sentir, em cada momento, os
problemas, as necessidades, as opiniões, as críticas e as sugestões dos diversos sectores da população. (FRELIMO, 1977c, p.110-111, negrito nosso).
O trecho explicita, mais uma vez, a tensão entre teor vanguardista do Partido e a aspiração de construir uma democracia popular. As ODMs seriam “escolas” e “bases de recrutamento” para “formação e aperfeiçoamento contínuo dos militantes”, mas também um meio pelo qual o partido deveria se abrir para o diálogo com a população a fim de “conhecer e sentir” as “opiniões e criticas dos diversos setores”. Entre 1977 e 1981 foram instituídas a Organização da Juventude Moçambicana (OJM), a Organização Nacional dos Jornalistas (ONJ) e a Organização Nacional dos Professores (ONP). Soma-se a estas a Organização da Mulher Moçambicana, a mais antiga delas, que realizou sua I Conferência em 1973 (MENESES, 2015, p.33) e que teve forte atuação ainda durante a luta armada na mobilização das mulheres contra o colonialismo e também contra as opressões sociais machistas, mediante o incentivo à participação nos órgãos de tomada de decisão e a assunção de papeis de projeção pública na mobilização popular (ISAACMAN; ISAACMAN, 1983, p.127).
A decisão da criação de algumas dessas organizações aconteceu em 1976, quando também foram dados os primeiros passos para o surgimentode organizações operárias, posteriormente denominadas de Conselhos de Produção (CPs). Desde a independência a produção caiu consideravelmente169 e, para além das dificuldades materiais encontradas, a Frelimo passou a avaliar de forma mais rígida a eficácia dos Grupos Dinamizadores de se incumbirem também da observância dos aspectos produtivos (MACHEL S., 1976b). Os Conselhos de Produção170 então seriam órgãos colegiados, compostos em processos eleitorais envolvendo os trabalhadores, com a tarefa de fiscalizar o funcionamento geral da empresa e
169 Mosca (1999, p.109) aponta que nos primeiros anos de governo, em decorrência da brusca evasão de
profissionais e outras decorrências do processo independentista em alguns setores da economia a produção caiu entre 25% a 30% em comparação com as realizações de 1973.
170 Para mais informações sobre os Conselhos de Produção, o momento de sua instituição e dificuldades
impedir quedas de produção, que constituíam, à época, um grande problema nacional, como também outras tarefas do âmbito social e mesmo cultural171. A inserção deste novo órgão na dinâmica produtiva e entre as outras instâncias de poder, entretanto, implicava em negociações delicadas. Além da clara sobreposição de tarefas entre células do partido, Grupos Dinamizadores e mesmo órgãos vinculados aos Ministérios do Governo, os CPs encontraram direções de empresas hostis à sua participação, ao mesmo tempo em que eram orientados pelo partido a voltar suas ações para a administração produtiva, e não para agirem como órgãos de representação dos trabalhadores. Soma-se a isso o cenário de desorganização das unidades produtivas, tributárias do massivo êxodo de funcionários e de ações de boicotes na saída destes, de maneira explícita ou tácita, de setores sociais que se mantiveram em Moçambique contra o governo independente. Na leitura política de Buendía Gómez (1999, p.253), “desconhecimento dos trabalhadores moçambicanos sobre os objetivos da luta da FRELIMO e da situação económica do país explica, em grande parte, que fossem massa de manobra fácil nas mãos de muitos empresários” que visavam desestabilizar o governo. Segundo o autor, foram mutas as greves, nesse período, que ignoravam a luta política em curso e visando apenas a melhoria salarial. Pressões sociais e a manutenção e gestores, durante o Governo Provisório, contrários às mundaças colocadas em curso pela frelimo, possibiltaram o aumento dos salários de setore da população em patamares insustentáveis, próximos àqueles do setor branco e privilegiado do governo colonial, como uma tentativa de instaurar o caos econômico172. Foi apenas após anos de governo que a situação foi identificada e, em 1980, instaurada uma nova lei salarial pela Assembleia Popular.
171 A listagem das atribuições dos Conselhos de Produção é apresentada por André Cristiano José (2005, p.10-
11, negrito nosso) baseado na Resolução da IV Plenária do CICP. São eles: “a) assuntos econômicos: estudar e propor superiormente metas de produção; estudar a criação das condições para o cumprimento dessas metas; promover, estimular e controlar a prática de emulação socialista ao nível geral e individual; organizar palestras, sobre assuntos relacionados com a economia e produção; b) assuntos sociais: solucionar os litígios entre os trabalhadores; estudar com os restantes departamentos e estruturas da empresa, a criação de benefícios para os trabalhadores (creches, transporte, férias, centros sociais); estudar e propor medidas, normas e acções a realizar para o seguro social (reforma, centros de férias, seguros); c) higiene e segurança: zelar pela garantia das condições necessárias à higiene do trabalhador; estudar, divulgar e fazer aplicar as normas de segurança estabelecidas; d) assuntos culturais: organizar grupos culturais dos trabalhadores
e promover trocas de experiências e sua divulgação; e) formação profissional: estudar o processo de transformação de todos os valores culturais, científicos e técnicos, em benefício dos trabalhadores,
promovendo a elevação do seu nível de instrução e qualificações profissionais; f) controle e disciplina: controlar o trabalho de cada departamento, assim como as actividades realizadas pelos trabalhadores; elevar a consciência dos trabalhadores, de modo a observarem as regras de disciplina, assim como a conservarem os bens e equipamentos da empresa; zelar pelo cumprimento dos direitos dos trabalhadores; detectar e canalizar para as estruturas competentes qualquer tipo de sabotagem”.
172 Sobre esta fase, o Relatório do Comité Central da FRELIMO ao 3º Congresso, afirma: “Durante o chamado
Governo Provisório, a reacção capitalista multiplicou desenfreadamente as suas manobras. Fomentou a anarquia generalizada nas empresas, as greves, os saneamentos indiscriminados, as reivindicações salariais. Fez aumentos demagógicos de salários, sem qualquer correspondência com a produção das empresas. Estas
Posteriormente foi ainda empreendida a Ofensiva Política e Organizacional (em 1980) – assunto abordado nos capítulos seguintes - e fundada a Organização dos Trabalhadores Moçambicanos (em 1984), ambas com a finalidade de inspecionar e garantir a maximização produtiva, bem como a coordenação sindical. É nesse momento que Conselhos de Produção são substituídos por sindicatos, os quais assim como seus antecessores deveriam colaborar e não confrontar o partido. O poder e a responsabilidade tanto nas orientações como na própria definição salarial caberiam à direção.
Em suma, é patente o atrelamento das instituições de participação forjadas – seja as Organizações Democráticas de Massa, seja os Conselhos de Produção ou posteriormente os sindicatos – à direção central da Frelimo. Ainda que, “behind this closeness was not only the need to gather strength in the struggle for new labour relations [but the] immediate tasks at hand brought the two bodies forcefully together”173
(EGERÖ, 1990, p.135), é inegável que a burocratização e formalização decorrentes dessa proximidade forjaram limites para o alcance destes órgãos, assim como a falta de autonomia e a conformação dessas instituições como correias de transmissão de orientações superiores. A falta de experiência democrática da população, marcada pela opressão colonial, é também apontada por parte da bibliografia como outra razão para esta situação (BUENDÍA GÓMEZ, 1999; EGERÖ, 1990; ISAACMAN, ISAACMAN, 1983).
A interpenetração entre o Estado e o Partido erigida no contexto pós- independência, e a proeminência do papel vanguardista, orientador dos mecanismos de mobilização e participação social, desencadearam fortes limitações ao efetivo diálogo entre as instâncias tomadoras de decisão e a população local. É possível que o “centralismo democrático”, justificado pela Frelimo com base na sua orientação marxista-leninista, tenha vigorado de maneira interna– conforme acusa Cahen (2005, p.48), e não externa como preconizado por Lênin – justamente pelo demasiado esforço do Partido-Estado em abarcar e determinar todos os meios de pressão e de construção de governança por parte da sociedade civil.
Há ainda o agravante de que o controle da infinidade de instituições e mecanismos de administração pública criados, acompanhado pelo constante temor de sabotagem e
manobras visavam confundir as massas trabalhadoras, afastá-las da reivindicação fundamental a Independência-desorganizar e paralisar toda a atividade económica. Tratava-se de agravar a crise gerada pelo capitalismo, criar uma situação caótica para impedir ou sabotar a tomada de poder pelo povo”(FRELIMO, 1977c, p.62).
173
“por detrás desta aproximação não estava apenas a necessidade de unir forças na luta por novas relações laborais [mas] as tarefas imediatas com que se debatiam, obrigaram as duas estruturas a se aproximarem” (EGERÖ, 1990, p.135, tradução nossa).
suspeitas de infiltração de opositores ao regime, desdobrava-se na burocratização das relações políticas. Esta, por sua vez, findava por privilegiar quadros que dispunham de formação escolar, ou ao menos o domínio da escrita, restrito a apenas 5%174 da população no momento da independência. O referido viés urbano do Partido foi ainda intensificado pela orientação e consecução das políticas de desenvolvimento adotadas na ocasião. Se por força das circunstâncias do pós-independência o Estado se viu obrigado a assumir uma série de responsabilidades nos setores de produção e de oferecimento de serviços, após 1977 a ampliação do controle estatal destes setores foi adotada como estratégia política.
Por outro lado, foi esta mesma rede de organismos civis, estatais e partidários que ofereceu suporte e capilaridade para as ações do Partido-Estado para uma vigorosa ampliação da oferta de serviços públicos de educação e saúde, a despeito das contingências orçamentárias e da carência de profissionais qualificados. Desde a independência foram lançadas diversas campanhas locais e nacionais para matricular crianças e adultos nas escolas. OMM atuou com afinco para que meninas, jovens e mulheres também ingressassem no sistema educacional, na contramão da negação do acesso à educação formal às mulheres que vigorava anteriormente, justificada pelo papel designado à elas no desempenho de trabalhos domésticos e nas lavouras. Em um discurso publicado na obra “Fazer viver a linha do Partido em cada trabalhador” (1979), Samora Machel declara:
As escolas secundárias, que em 1974 eram frequentadas por trinta e três mil adultos, muitos deles filhos de colonos, hoje são frequentadas por oitenta e dois mil alunos, filhos de trabalhadores moçambicanos.
Em 1974, quando o Governo de Transição tomou posse, a então Universidade de Lourenço Marques tinha quatro mil e quinhentos adultos. Desses só quarenta eram moçambicanos, e muitos eram trabalhadores que estudavam à noite. Hoje temos na Universidade Eduardo Mondlane centenas de alunos moçambicanos.
No tempo colonial morriam anualmente vinte e cinco mil crianças de sarampo. No ano passado em todo o País, só houve cento e dez casos mortais de sarampo.
Na campanha de alfabetização, no ano passado, participaram cento e trinta mil pessoas (MACHEL S., 1979b, p.8-9, negrito nosso).
As campanhas efetivamente obtiveram grande sucesso. Segundo dados apresentados por Allen e Barbara Isaacman (1983, p.138-139), entre 1974 e 1981 o número de crianças nas escolas primárias aumentou de 700 mil para 1,36 milhão, das quais quase a metade eram garotas; no ensino secundário o ingresso cresceu de 20 mil para 135mil, a taxa de analfabetismo caiu de 95% para 75%, e entre moçambicanos de 10 a 24 anos caiu para menos de 60%. Na área da saúde a reestruturação enfrentou desafios ainda maiores do que os no campo educacional. Dos poucos 550 médicos residentes em Moçambique no ano de 1973,
permaneceram apenas 87 após a independência. Para enfrentar essa situação, em 1977 o Estado recrutou cerca de 500 trabalhadores de aproximadamente vinte países e lançou campanhas robustas de medicina preventiva. Enfrentando sérios problemas de transporte, e já sob ataques financiados pela Rodésia do Sul, a campanha de vacinação contra varíola, sarampo e tétano atingiu por volta de 90% da população. Em um relatório de 1981 a Organização Mundial de Saúde175 (OMS/ONU) avaliou a campanha como um dos esforços do gênero mais bem sucedidos na África até a ocasião. Embora as estatísticas de saúde do período sejam escassas, o casal Isaacman (loc.cit.) encontra na pesquisa de Alexandre Gonçalves176 informações de que a taxa de mortalidade infantil durante os primeiros cinco anos de independência caiu 20%, reforçando a comprovação das conquistas do programa de saúde pós-independência.
A saúde e a educação eram setores de atenção prioritária do governo. Além da oferta praticamente gratuita de ambos, buscou dirimir o enorme hiato na cobertura dos serviços entre as áreas urbanas e rurais estabelecido na época colonial, e reunir todas as instituições de saúde (hospitais públicos e das missões e centros de saúde de grandes empresas) numa estrutura nacional única estatal, o Sistema Nacional de Saúde (SNS) moldado segundo o modelo soviético (WEIER, 2012, p.426-427). O grau de importância desses setores pode também ser observado no investimento orçamentário estatal, conforme descrito na tabela a seguir:
Tabela 1 - Orçamento estatal 1980-1982 ($ Milhões)
1980 1981 1982
Saúde e educação 132 151 176
Defesa 132 155 176
Setores econômicos 49 38 64
Outras despesas do estado 85 38 64
Subsídios aos preços 25 25 25
Serviço da dívida, reserva 39 51 38
Total 472 519 594
Déficit esperado 56 74 82
Fonte: Elaboração de Isaacman e Isaacman (1983, p.183) a partir de dados governamentais e do artigo “Mozambique”, de Iain Chistie e Joseph Hanlon, publicado na revista Africa Contemporary Record em 1982.
A expansão dos serviços de saúde e educação acarretou problemas. Mesmo com os avanços na prestação de cuidados de saúde, as enfermarias rurais recém-construídas eram frequentemente mal equipadas e o esforço para introduzir servidores de saúde da comunidade
175
World Health Organization and United Nations Children's Fund. National Decision Making for Primary