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A primeira etapa consistiu na preparação dos pesquisadores da universi- dade e das pesquisadoras autóctones, que eram lideranças e professoras Poty- guara, por meio do estudo orientado do método etnográfico de pesquisa pelo qual se abordou os principais textos da antropologia cultural e treinamento na elaboração de diários de campo. As pesquisadoras Potyguara, que participaram da formação, foram duas professoras de Monsenhor Tabosa que demonstraram preocupação em pesquisar seu próprio sistema de cura e sua relação com a bio- medicina através da simbologia percebida e vivenciada por elas, com vistas à melhoria da situação de saúde de seu povo e de se fazer ver frente às demandas e críticas da sociedade envolvente. Desse modo, começou-se com atividades de formação das duas líderes indígenas, que participaram de duas disciplinas do Mestrado Acadêmico em Saúde Pública (Antropologia da Saúde e Etnografia).

Após o término das disciplinas, as educadoras iniciaram um trabalho de pesquisa juntamente com as participantes do projeto, realizando diários de cam- po, e, com os alunos das escolas indígenas, entrevistas (83) e fotografias (145). Das entrevistas realizadas, durante 02 anos de pesquisa, há conversas com re- zadeiras, pajés, parteiras, agricultores, contadores de estória, apicultores, caça-

dores e mezinheiros1, que versam sobre diferentes temáticas: visagem, ficante2,

doenças espirituais, alimentação, agricultura, caça, mito de origem, práticas de cura, rezas, cantigas, lugares sagrados, entre outras.

O projeto mencionado foi uma etnografia realizada pelas pesquisadoras indígenas, que, além das entrevistas e fotografias, disponibilizaram atas das reuniões das aldeias e trabalhos escritos das(os) alunas(os) da escola indí- gena a respeito das manifestações culturais, histórias de trancoso, canções em tupi, vocabulário, calendário e da formação familiar. As líderes, através das redes sociais, principalmente, em suas páginas do facebook, colocavam,

frequentemente, fotos dos eventos da comunidade e, no início do projeto, compartilhavam vídeos feitos por elas.

O trabalho das pesquisadoras indígenas residentes nas próprias aldeias possibilitou maior aderência para a coleta de informações de conteúdos den- sos em curto espaço de tempo, o que dificilmente seriam possíveis a outros pesquisadores alheios à aldeia.Nos dias 25 e 26 de setembro de 2015, foi re- alizada uma atividade de educação permanente, com a comunidade Potygua- ra de Monsenhor Tabosa e os profissionais de saúde, intitulada “Abordagens Etnomédicas das Práticas em Saúde dos Potyguara do Mundo Novo e Jacinto” com o objetivo de discutir as compreensões de saúde-doença, práticas de cura, recursos e significações do Potyguaras com as práticas de saúde biomédicas, subsidiando a identificação e valorização da etnomedicina.

A atividade de educação permanente intercultural com populações indí- genas visou fomentar reflexões sobre as peculiaridades da população indígena, bem como discutir a PNASPI e subsidiar os profissionais para atuação em contex- to culturalmente diferenciado, através de debates e oficinas para a construção de propostas visando à organização dos serviços de saúde e ao alcance das metas preconizadas no Plano Distrital de Saúde Indígena para o quadriênio 2012-2015.

O evento contou com a participação de 37 profissionais de saúde (mé- dicos, enfermeiras, dentistas, assistente social, agentes indígenas de saúde,

1 - Trabalham com mezinhas, ervas do mato, plantas de cura.

2 - Pajé Darico conta para as pesquisadoras Potyguara em 2009, registrado em diário de campo, que O Ficante “foi

a figura mais falada da Serra e do Sertão. Ele chegou em Monsenhor Tabosa por volta de 1901. Ele era conhecido e conhecia tudo: Boa Viagem, Oitir dos Melos, Catolé, Águas Belas, Sapucaíba, Videl e, principalmente, o Chupador, no município de Monsenhor Tabosa. Ficante andava muito também nas casas dos vizinhos do Saco dos Belchior e Saco dos Veados, localidade já no município de Catunda. Ficante era um índio cheio de bravura. O Ficante era ótimo caceteiro, ele brigava de pedra, cacete e até de dente, e morava no mato, andava com a ‘casa na cabeça’, como diz o ditado. Ele carregava toda sua bagagem em um saco feito de embira do rato: rede, pífano, prato de barro, colher de pau. Quando chegava em uma casa, ficava no terreiro, fazia seu fogo, assava as caças e só pedia farinha nas casas para misturar com a caça assada. Ele também dormia fora das casas, atava sua rede nas atadas das casas. [...] Aquele índio era puro, dos que morava no mato mesmo”.

agente indígena de saneamento) do polobase de Monsenhor Tabosa, Crateús e Poranga, assim como 23 membros da comunidade (lideranças e cuidadores tradicionais indígenas).

A categorização dos dados coletados a partir das entrevistas, conversas e atividades de educação permanente subsidiaram a construção de um material educativo inovador sobre comunicação intercultural em saúde a partir de casos específico das comunidades Potyguara, bem como foi proposto um elenco mí- nimo curricular na formação e qualificação dos profissionais de saúde indígena no Estado do Ceará, em consonância com a PNASPI, demonstrando o quanto a articulação dos serviços de saúde com as medicinas tradicionais dos povos ori- ginários é condição fundamental para a efetivação do princípio da integralidade em um modelo diferenciado de atenção à saúde indígena.

Desse modo, o projeto possibilitou a construção de produções científicas sobre os processos de adoecimento e cura dos Potyguara do Mundo Novo e Ja- cinto, em Monsenhor Tabosa, no Ceará-Brasil, bem como as múltiplas interações entre o sistema tradicional de saúde, as práticas de cuidado em saúde pelos indí- genas e a formação dos profissionais de saúde nas aldeias.

Produzindo diálogos entre profissionais de saúde e