CAPÍTULO 5 – CAMINHOS METODOLÓGICOS
5.4 OS CAMINHOS QUE LEVARAM AO PROCESSO INTERVENTIVO
Conforme já elucidamos anteriormente, a participação dos sujeitos desta pesquisa deu-se devido ao interesse de cada um em conhecer e se envolver com o que estava sendo exposto e proposto.
Portanto, dado este caráter participativo do estudo, tornou-se imperiosa a necessidade de constatar quais indivíduos tinham interesse em construir este processo conosco, dentre o grande grupo.
Delimitamos então, os caminhos que culminaram no processo interventivo construtivo em três etapas, descritas a seguir:
5.4.1 Primeiros olhares
Enquanto educadora ambiental comprometida com a essência dos fenômenos, meu intento inicial era dialogar abertamente com todos os atores envolvidos no ambiente da escola Eulina, conhecê-los melhor, saber seus anseios, suas expectativas, seus saberes, suas opiniões, conceitos e pré-conceitos. Porém, como já afirmava Carlos Drummond de Andrade (2002, p. 61), “no meio do caminho tinha uma pedra”, representada pelos prazos exíguos estabelecidos pela academia, onde o que se prioriza é a produção e não a formação (CHAUÍ, 2003), bem como pelo transtorno que tal fato ocasionaria ao cotidiano escolar, foi necessário estabelecer recortes.
Assim, a possibilidade de entrevistar as centenas de sujeitos tornou-se um sonho impossível, nos fazendo optar pelo questionário enquanto técnica inicial de coleta de dados, tendo em vista tratar-se da etapa inicial de diagnóstico, que subsidiaria as futuras ações participativas.
Sendo o questionário um instrumento muito utilizado nas pesquisas qualitativas da área da educação, sua grande vantagem está no alcance de grandes populações, onde há a uniformidade de questões e o anonimato é garantido (RIBEIRO, 2008). Porém, com o uso desta técnica, perdemos a oportunidade de um diálogo franco, onde o sujeito expressa suas convicções através de gestos, expressões, trejeitos, bem como se tem total liberdade para retornar a um ponto não compreendido, ou aprofundar um assunto instigante.
- Traçar um perfil dos alunos, professores e gestores do colégio Eulina, identificando suas faixas etárias, comunidades de origem, séries, disciplinas, dentre outros.
- Constatar a existência da prática da pesca nas comunidades de origem dos sujeitos, bem como no dia a dia destes, as suas possíveis relações com a atividade pesqueira e seus olhares sobre a temática.
- Verificar dentre os sujeitos àqueles que gostariam de participar do processo interventivo construtivo.
Os questionários, com perguntas abertas e fechadas, conforme modelo no Apêndice A, foram aplicados em junho de 2013, sendo que 237 alunos nos devolveram os questionários respondidos, os quais foram interpretados segundo uma adaptação da “análise textual discursiva” de Moraes (2003) e Moraes e Galiazzi (2006), apresentada com maior profundidade na seção 5.5 deste capítulo. As discussões destas interpretações encontram-se no Capítulo 6 deste estudo.
Ressalvamos que, apesar de o questionário apresentar-se como um método que proporciona certo distanciamento entre os envolvidos no processo investigativo, nós interagimos com muitos, dialogando sobre vivências diárias, sobre “por que você está fazendo
isso?”, “eu te conheço de algum lugar”, “é muito legal ver alguém vir aqui falar disso” e “eu não entendi essa pergunta aqui ó”, dentre tantas outras falas. Esta interação espontânea
fortaleceu nossa relação, fazendo deste ato de conhecer e dar-se a conhecer um diferencial para a aceitação e a permanência na escola, sempre pontuando todas as ações com amor, conforme os conselhos do Riobaldo de Guimarães Rosa (2001).
5.4.2 Conhecendo e sendo conhecido
Eu vos direi "Amei para entendê-las Pois só quem ama pode ter ouvidos Capaz de ouvir e entender as estrelas.”. Olavo Bilac (2007, p. 28).
A partir dos resultados obtidos com o diagnóstico inicial, podemos visualizar o perfil dos sujeitos integrantes da escola Eulina, bem como o interesse daqueles que se dispuseram a participar de um processo interventivo construtivo.
Visto tratar-se de um número de alunos ainda significativo (59 alunos) que afirmou querer participar do processo interventivo construtivo, optamos novamente por um questionário (Apêndice B), porém, com um número maior de perguntas abertas, em que
buscamos verificar a existência da incorporação de saberes populares relacionados à pesca no ambiente escolar e qual a importância deste processo para os sujeitos. Além disto, apesar das limitações deste instrumento de coleta de dados, procuramos saber quais eram os anseios, as expectativas, as disponibilidades e as sugestões de cada participante quanto ao processo interventivo construtivo.
Uma observação pertinente a ser feita, diz respeito aos professores e gestores. A dimensão do amor que a educação ambiental nos proporciona em cada olhar, em cada gesto, nos fez agir segundo o poeta Fernando Pessoa (1994), para o qual, amar é pensar, pensar no outro. Sabendo das dificuldades dos professores e gestores em encontrar tempo extra para dedicar-se a outras atividades, entendemos ser mais sensato aplicarmos os dois questionários conjuntamente (Apêndice C e D), pois em nenhum momento foi nossa intenção impor nossa presença ou nos fazer inoportunos.
A interpretação das respostas dos sujeitos também foi realizada segundo uma adaptação da “análise textual discursiva” de Moraes (2003) e Moraes e Galiazzi (2006), apresentada com maior profundidade na seção 5.5. As discussões destas interpretações encontram-se no Capítulo 7.
5.4.3 Quem não é visto...
Neste período que antecedeu ao processo interventivo construtivo, foram muitas as visitas à escola Eulina, levando questionários, trazendo questionários, conversando com direção, atendendo solicitações de alunos, dentre outras.
Assim, minha presença passou a não representar mais uma figura alheia no ambiente escolar e, portanto, pude observar a rotina escolar com mais naturalidade, sem o estranhamento dos primeiros dias. Porém, na medida em que os questionários foram sendo respondidos, houve um intervalo de tempo de algumas semanas, onde buscávamos interpretar estes dados e, a partir deles, idealizar o que viria a ser o processo interventivo construtivo a ser construído junto aos atores desta pesquisa..
Neste intervalo, continuamos a fazer visitas semanais a escola.
5.4.4 E os pescadores?
Os pescadores que participaram deste estudo não foram selecionados mediante algum critério metodológico. Visto a escola Eulina possuir alunos de muitas comunidades, tal
fato impossibilitou que selecionássemos junto aos alunos aqueles pescadores mais lembrados dentro de cada comunidade. Assim, semelhante ao ocorrido na pesquisa realizada por Oliveira (2009), busquei em minhas referencias enquanto moradora da região, aqueles pescadores que conhecidamente eram artesanais, em idade avançada, com vivências pesqueiras desde crianças. Neste sentido, a quantidade de sujeitos foi o que menos significou para a pesquisa, pois o que cada pescador tinha de saberes e vivência era o maior objetivo:
[...] aquela pessoa está sendo convidada para participar da pesquisa tem uma referencia grupal, expressando de forma típica o conjunto de vivências do seu grupo. O importante nesse contexto, não é o número de pessoas que vai prestar a informação, mas o significado que esses sujeitos têm, em função do que estamos buscando com a pesquisa. A riqueza que isso traz para o pesquisador é muito importante [...] (MARTINELLI, 1999, p. 23-25)
Deste modo, foram entrevistados 3 pescadores inicialmente, porém, como durante a pesquisa meu pai se envolveu no processo interventivo construtivo, transportando os pescadores de suas residências para a escola a na volta para casa, achamos pertinente também entrevista-lo, já que também atende os critérios definidos para os outros pescadores.
Assim, estes pescadores foram entrevistados com o objetivo de saber se em algum momento de suas vivências a escola fez qualquer tipo de interação com estes pescadores, suas impressões sobre o possível fato e, caso negativo, se eles gostariam que isso ocorresse e que saberes populares relativos à vivência pesqueira a escola poderia abordar.
Esta entrevista, assim como os questionários citados acima, não representou a principal estratégia metodológica deste estudo. Ela foi apenas um diagnóstico para que pudéssemos conhecer melhor os sujeitos que iriam participar do processo interventivo construtivo.
5.5 A INTERPRETAÇÃO E DISCUSSÃO DOS INSTRUMENTOS DE DIAGNÓSTICOS
Os dados dos questionários e das entrevistas foram interpretados segundo uma adaptação da “análise textual discursiva” de Moraes (2003) e Moraes e Galiazzi (2006).
A abordagem fenomenológica é delineada por Moraes (2003, p. 193), para o qual, a análise textual discursiva:
[...] implica assumir um olhar fenomenológico em relação aos objetos investigados. Implica assumir uma atitude de deixar que os fenômenos se manifestem, sem impor- lhes direcionamentos. É ficar atento às perspectivas dos participantes, exercitando uma atitude fenomenológica.
Visto a categorização dos metatextos proposta por Moraes (2003) e Moraes e Galliazi (2006) apresentar uma dimensão analítica, de fragmentação das percepções e discursos dos sujeitos, fez-se necessária uma adaptação desta abordagem a luz de uma vertente fenomenológica, à exemplo de Herdt (2013),
Assim, semelhante a Herdt (2013), faremos a interpretação das entrevistas e questionários a partir da fenomenologia, valorizando os elementos do discurso dos participantes e os fenômenos emergentes.
Esta interpretação será realizada no âmbito dos metatextos, que segundo Moraes (203, p. 202) “[...] são constituídos de descrição e interpretação, representando o conjunto um modo de compreensão e teorização dos fenômenos investigados”. Porém, nestes metatextos, não iremos categorizar as falas e as expressões dos sujeitos, mas sim definir os diferentes olhares que emergiram nos discursos.