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5 RESULTADOS E DISCUSSÃO

5.2 Os Catadores e os Ecopontos

A inclusão social dos catadores, que é citada em vários artigos da PNRS, abrange ações que envolvem a responsabilidade compartilhada pelo ciclo de vida dos produtos, o incentivo à criação e ao desenvolvimento de cooperativas e associações, a implementação de coleta seletiva com a participação dos catadores.

Para a entrevistada G1, um dos problemas do Projeto Ecopontos é exatamente a falta de inserção dos catadores. Para ela, o elo com os catadores deve ser fortalecido para que haja eficácia na coleta seletiva, visto que os catadores fazem parte da cadeia da reciclagem, tanto do ponto de vista econômico quanto social.

Para Lopes (2019) a comunicação entre a gestão dos Ecopontos e a sociedade civil é marcada pela ausência de diálogo, pois embora o representante da prefeitura afirme que o projeto esteve aberto de maneira democrática com a sociedade e, em especial, junto às diferentes categorias, como as associações de catadores, através de uma audiência pública, isso não foi notado pelos usuários e catadores. Além disso, embora a população pudesse participar, as audiências públicas têm se tornado um evento cada vez mais técnico e não um evento “para o povo compreender”. Alguns usuários entrevistados por essa pesquisadora afirmaram que o único canal de comunicação é um carro de som que passa no bairro convidando a população a conhecer o Ecoponto e a utilizá-lo quando o equipamento vai ser inaugurado. Nesse sentido,

concluiu a autora, o poder público precisa reelaborar estratégias de comunicação que visem incentivar o processo de participação democrática local.

Para os entrevistados de Oliveira (2018), a relação entre a Prefeitura de Fortaleza e os catadores sempre aconteceu de forma pontual, as decisões, em sua maioria, eram e são impostas pelo agente público e a administração pública não tem interesse de dialogar plenamente com a categoria.

Para a entrevistada G2, a Prefeitura de Fortaleza optou por delegar à Ecofor a responsabilidade pela coleta seletiva em função dos gastos que essa iniciativa traz, ou seja, a sustentabilidade financeira do Ecoponto vem, pelo menos parcialmente, da venda dos resíduos recebidos. Para ela, não tem como o resíduo reciclável ser doado aos catadores, pois o sistema não se sustenta. Para os catadores organizados, a prefeitura disponibiliza o material recebido nos PEV’s existentes nas escolas e terminais.

Santiago, Oliveira e Pugliesi (2016), no município de São Carlos, trazem uma experiência totalmente diferente da observada em Fortaleza-CE. Lá, a prefeitura optou por formalizar um contrato com uma cooperativa de catadores, cedendo o espaço para a instalação da cooperativa, pagando as despesas com água e energia, e comprando os materiais separados.

Silva e Ribeiro (2009) afirmam que em São Paulo existem 94 grupos ou cooperativas organizadas que atuam com a catação dos resíduos sólidos, mas apenas 15 são parceiros da prefeitura na Gestão dos Centros de Triagem. Os outros 79 ainda necessitam de apoio para se formalizarem. A pesquisa demonstrou ainda que o desconhecimento das premissas de economia solidária dificulta o funcionamento dos grupos como cooperativas formalizadas e que, portanto, a falta de uma ação sistematizada por parte da prefeitura junto aos grupos de catadores autônomos tem sido um obstáculo para a ampliação da coleta seletiva.

De acordo com o entrevistado G3, a SCSP vem trabalhando com o modelo de franquia social como forma de inserção dos catadores no Projeto Ecopontos. Atualmente, uma das associações que participa da franquia social é a Sociedade Comunitária de Reciclagem de Lixo do Pirambu - SOCRELP. Na franquia social, a associação recebe os materiais recicláveis como se fosse um Ecoponto e realiza a bonificação do usuário; semelhante ao Programa Recicla Fortaleza. Segundo ele, a prefeitura tem buscado parcerias com outras associações, mas observam resistência à instalação dos Ecopontos em locais com uma associação de catadores ativa.

De acordo com o entrevistado G3, os carroceiros também representam uma parte importante para o sucesso da coleta seletiva, pois ao invés de levarem o RCC de pequenas obras

para os “pontos de lixo” podem levar para os Ecopontos, recebendo uma bonificação pela entrega (programa E-carroceiro).

Para o entrevistado G3, assim como afirmou a entrevistada G2, não existe a possibilidade de manter em funcionamento os Ecopontos e o Programa Recicla Fortaleza em caso de doação dos materiais aos catadores.

Para o entrevistado G4, não tem como as cooperativas atingirem o nível de estrutura necessário para gerenciar a coleta seletiva do município, pois isso exige capital de giro, logística e transporte. Além disso, os Ecopontos recebem materiais (volumosos, RCC) que não são de interesse dos catadores. Para ele, os catadores têm também a opção de trabalhar individualmente (sem a necessidade de uma cooperativa ou associação) e receber o pagamento direto do Banco Palmas, sem passar pelos deposeiros, a partir da entrega de materiais na rede de Ecopontos.

Lopes (2019) concluiu que o Programa Recicla Fortaleza está na contramão de uma gestão participativa, tendo em vista a carência de canais de comunicação entre a gestão e a sociedade e a baixa utilização de ferramentas informatizadas para tornar acessível a política. Além disso, falta compromisso em trabalhar para a inclusão do catador que, por sua vez, não consegue identificar o lado positivo dessa iniciativa.

Ainda segundo a autora, os gestores pecam na aplicabilidade da PNRS quando deixam de ouvir atores importantes e indispensáveis na semântica dos resíduos, ocorrendo assim os conflitos entre a proposta de um (poder público) e as expectativas de outros (catadores). Esses conflitos têm gerado um sentimento de revolta ou decepção nas duas partes e, como consequência, passaram a interferir na representação que um ator tem do outro: o catador enxerga o poder público como um organismo que age contra os interesses da categoria; o poder público vê os catadores como um grupo que não consegue se adaptar às regras.