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3. PROCESSOS SELETIVOS INCLUSIVOS

3.1. OS CEGOS NOS PROCESSOS SELETIVOS

Como pontuado no capítulo 1, a deficiência visual é a de maior incidência na população brasileira, atingindo taxa de 3,6% (IBGE, 2015). Dentre suas categorias, a cegueira possui alto índice incidência na população, o que é refletido também nas inscrições dos processos seletivos, como considera Castro (2011) em sua tese. A pesquisadora, através de levantamento estatístico de 16 universidades públicas brasileiras constatou que pessoas

com baixa-visão e cegos representam a segunda maior quantidade de atendimento especializado nos processos seletivos das instituições.

De maneira geral, recomenda-se que os candidatos cegos de quaisquer processos seletivos realizem a prova em lugar distinto dos outros candidatos, utilizando-se de recursos que garantam a realização da prova em mesma condição dos demais (CASTRO, 2011).

Dentre os recursos comumente disponibilizados, destacam-se:

Prova em Braille: prova transcrita em Braille de acordo com todo o conteúdo original, incluindo fórmulas, imagens e equações (CASTRO, 2011);

Tempo adicional: segundo Fernandes e Healy (2009), não há uma proporção exata de tempo adicional a ser fornecida, ficando a quantificação do recurso a cargo dos responsáveis pelas provas. De acordo com os autores, a partir de longos períodos, a leitura em Braille é comprometida devido a perda de sensibilidade dos dedos.

Portanto, a extensão do tempo de prova proporciona também intervalos de descanso para o tato dos candidatos;

Ledor: profissional habilitado que realiza a leitura da prova como um todo, auxiliando estudantes com necessidades especiais. Trata-se de um trabalho complexo pautado por uma série de recomendações, como a atenção a altura e velocidade da voz, por exemplo (SILVA, 2007);

Transcritor: profissional habilitado responsável pela transcrição de redações e gabaritos. O candidato cego dita textos e respostas a serem escritas pelo transcritor em caligrafia legível. Recomenda-se um profissional atuando como ledor e outro como transcritor para cada candidato cego (CARVALHO, 2013);

Sorobã: ábaco adaptado para realização de cálculos das operações matemáticas fundamentais para cegos (CARVALHO, 2013);

Máquina de datilografia Perkins: com início de fabricação em 1951, a máquina de escrever Braille Perkins Clássica pode ser utilizada em processos seletivos principalmente para anotações que auxiliem na resolução das questões (CARVALHO, 2013);

Reglete: um dos dispositivos mais utilizados para a escrita em Braille por seu baixo custo, facilidade de utilização e formato portátil. É utilizado para anotações e possíveis preenchimentos de documentos durante o exame (CARVALHO, 2013);

Leitores de tela de computador: são softwares que acessam informações educacionais em testes de conhecimento que incluam candidatos com deficiência visual:

QUADRO 1 - TAXONOMIA PARA PRÁTICAS EDUCACIONAIS EM TESTES DE CONHECIMENTO

CATEGORIA RECURSO

Apresentação Fornecimento de um Screen Reader;

• Software de ampliação da tela;

• Fornecimento de gráficos táteis;

• Aumento do espaçamento entre itens, ou itens reduzidos por página ou linha;

• Fornecimento do teste no formato de alfabetização preferido do aluno;

seja braille, impressão em grande, áudio ou E-text;

• Fornecimento de códigos de braille especializado: por exemplo, Braille

Código de Matemática e os Códigos de Música Braille;

• Destaque nas palavras-chave ou frases nas direções;

• Fornecimento de pistas (por exemplo, setas e sinais de parada) na forma de resposta.

Tempo • Permitir a flexibilidade do tempo

pré-estabelecido;

• Permitir intervalos durante o teste.

Espaço Físico • Administrar o teste individualmente em uma

localização separada;

• Promover iluminação e mobiliários adequados;

• Administrar o teste em locações adequadas e com poucas distrações.

Respostas • Transcrever as respostas para um livro;

• Permitir a gravação das respostas;

• disponibilizar “transcrivão” ou “transcritor”

(pessoa para transcrever as respostas).

Dispositivos de auxílio • Ampliadores de tela;

• Impressão ampliada.

FONTE: Adaptado de STEER; GALE; GENTLE (2007).

Os autores pontuam que os recursos ofertados nas provas para as pessoas com deficiência visual não são feitos para as colocar em vantagem, mas sim para nivelá-las às demais; destacam que a primeira vez que um estudante recebe uma acomodação não deve ser no dia de um teste ou avaliação, e que deve existir um conhecimento prévio do que está sendo apresentado como recurso na avaliação por parte dos candidatos com deficiência visual.

Segundo Hakkinen (2015), um número crescente de estudantes prefere usar suas próprias tecnologias assistivas nos momentos de avaliação, tais como leitores de tela ou ampliadores, ao invés de ferramentas semelhantes construídas em ambientes baseados em computador. Uma maneira de solucionar esse problema é criar plataformas de avaliação que suportem ambas as preferências de tecnologia assistiva dos estudantes e desenvolvidas pelas instituições que oferecem as avaliações, porém, isso pode ser tecnicamente muito difícil, pois o autor destaca que as tecnologias assistivas tem sido historicamente caras, requerindo um treinamento especial. Com frequência, elas diminuem as barreiras mas não as eliminam. A tecnologia assistiva pode permitir que uma pessoa complete uma tarefa, mas não tão eficiente quanto uma pessoa sem necessidades especiais.

De acordo com Hakkinen (2015), nas avaliações baseadas em computadores, duas diretrizes emergem como cruciais para sua entrega: a World Wide Web Consortium (W3C) e o IMS Global Learning Consortium Standards (IMS-GLC). Destaca-se que diversas situações em avaliações devem ser analisadas. Por exemplo, a descrição textual automatizada de uma imagem pode revelar a resposta se descritos detalhes salientes ou relações espaciais.

Outra abordagem para “acomodar” estudantes com deficiência visual em avaliações é a utilização de um método multissensorial que combina instruções táteis e verbais.

Johnstone et al. (2009) examinaram o uso da mesa tátil e observaram um impacto positivo na performance em testes de matemática por estudantes com deficiência visual na interpretação de imagens e diagramas. Os resultados da pesquisa indicaram que uma abordagem multissensorial suportada pela tecnologia assistiva pode ser um método eficiente na avaliação de estudantes com deficiência visual.

Como se explica a seguir, há uma grande necessidade de desenvolvimento de tecnologias que suportem a leitura, porém antes de tudo faz-se necessário estudar como essas tecnologias são usadas em sala de aula para indicar uma conexão entre instrução e avaliação.

Desde os movimentos a favor da acessibilidade em 1990, uma vasta gama de recursos tecnológicos foi desenvolvida a fim de facilitar a aplicação de exames seletivos para candidatos cegos (CARVALHO, 2013). No entanto, questiona-se a aplicabilidade das Tecnologias Assistivas (TAs) em processos seletivos de média ou grande proporção.

Borges (2008) levanta discussão sobre a utilização de leitores de tela de computador no Brasil a partir de uma disputa judicial movida por um candidato cego contra a Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) no vestibular de 2007. Na ocasião, a utilização do software DOSVOX para leitura de tela foi negada ao candidato por “[...] o colocar a frente dos demais candidatos que enxergam e não podem utilizar o computador”

(BORGES, 2008, p.21).

Segundo o autor, a utilização de TAs como os leitores de tela em processos seletivos como o vestibular vem a suprir diversas dificuldades operacionais levantadas no procedimento. Questões que fazem uso de gráficos, mapas, ou outros tipos de imagens cuja verbalização ou transcrição é dificultosa, de acordo com o autor, são melhor apresentadas utilizando-se recursos de TA. Além disso, pontua-se sobre o formato atual: “A escrita Braille, mesmo sendo útil em tantas situações da vida diária e do estudo, é vista como desvantajosa arma quando disputando com inimigos tão ferozes: os outros candidatos do concurso”

(BORGES, 2008, p.22).

No entanto, além dos problemas judiciais que se somam, Borges (2008) sintetiza as dificuldades operacionais verificadas quando computadores são disponibilizados para candidatos com deficiência visual em processos seletivos, utilizando o contexto brasileiro como exemplo. São elas:

● Possível indisponibilidade de montante suficiente de computadores por local de aplicação de prova em processo seletivos de larga escala, como por exemplo o ENEM;

● Possíveis dificuldades técnicas para instalar e configurar os softwares requeridos, pelo desconhecimento das equipes responsáveis pelos concursos;

● Possibilidade de pane no computador ou software durante a prova;

● Suspeita que facilidades computacionais - como dicionários do sistema, por exemplo, pudessem favorecer os candidatos;

● Dificuldade em quantificar o tempo de duração da prova quando realizada através de computadores;

● Desconhecimento tecnológico prévio por uma parte dos candidatos com deficiência visual.

Borges (2008) encerra propondo que as comissões avaliadoras dos processo seletivos introduzam e testem a usabilidade dos computadores nos exames gradualmente, aperfeiçoando a tecnologia a ponto de prevenir algumas das falhas operacionais anteriormente citadas. No entanto, o autor destaca que, antes tudo, é necessário se aprimorar os recursos básicos oferecidos aos cegos durante os exames, como a prova em Braille e a formação dos ledores e transcritores.

Destaca-se a discrepância do modelo brasileiro de avaliação aos ofertados em outros países do mundo mais desenvolvidos. Woods, Parkinson e Lewis (2010) analisam o processo de adaptação e aplicação de avaliações para pessoas com deficiência visual no Reino Unido.

Durante os concursos realizados, os alunos podem solicitar os seguintes itens: uma pessoa para ler perguntas de exame (ledor), dispositivos eletrônicos de leitura de texto; tempo extra; um computador portátil para completar o exame, períodos de descanso durante a prova, uma pessoa para transcrever as respostas e uma pessoa para incentivar o candidato e ajudá-lo a se concentrar, conhecido como “prompter” ou na tradução livre, ‘incentivador’.

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