2. FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA
2.2 Áreas Centrais: da popularização ao enobrecimento
2.2.1 Os centros: importância e valor simbólico
O centro surge então a partir da necessidade de afastamentos indesejados mas obrigatórios. Ele, como todas as “localizações” da aglomeração, surge em função de uma disputa: a disputa pelo controle (não necessariamente minimização) do tempo e energia gastos nos deslocamentos humanos (VILLAÇA, 1998, p. 239).
Segundo o olhar de Flavio Villaça (1998, 2012) as aglomerações humanas são formadas devido à necessidade do homem em reduzir os esforços, tanto físicos quanto mentais, envolvidos nas atividades produtivas. Toda aglomeração humana socialmente constituída possui apenas um centro principal cuja formação dá-se concomitantemente à formação da aglomeração, de modo que um não preceda o outro, mas surja através do mesmo processo, constituindo uma relação de interdependência. É, portanto “(...) falsa a separação entre os processos de constituição, tanto do centro como do sistema viário principal e da própria cidade” (VILLAÇA, 2012, p. 98), implicando que o deslocamento do centro no espaço poderia colocar em cheque a ideia tradicional de cidade.
O centro urbano não corresponde necessariamente ao centro geométrico de uma cidade, isso porque a realidade apresenta uma série de outras variáveis que tornam a questão mais complexa, sejam elas de origem natural ou social. Conforme acontece a expansão urbana é possível estender para outros locais a infraestrutura, mas as características presentes no Centro não podem ser replicadas, uma vez que a localização de um ponto no espaço é única e sua reprodução impossível (VILLAÇA, 1998).
O centro é o ponto no território capaz de minimizar os deslocamentos de toda a comunidade no acesso a espaços em comum. Como não é possível que todos habitem esse mesmo ponto ele passa a ter um valor de uso superior ao dos demais, reforçando a disputa pela acessibilidade ao mesmo. O valor de uso é diferente para cada ponto da aglomeração, pois cada ponto oferece distintas possibilidades de conexão a todos os demais. Quanto maior a importância do centro principal em relação a outras centralidades presentes na cidade, maior o valor de uso dos terrenos nele localizados e também a diferença no preço do solo urbano em comparação a outras áreas. Além disso, é muito difícil encontrar em outras centralidades, por mais desenvolvidas que sejam, instituições ou equipamentos públicos tradicionalmente localizados nos centros
principais, seja em matéria de importância ou de concentração desses locais, como por exemplo sedes do poder público, teatros e cinemas tradicionais, parques, dentre outros. Talvez por isso os centros principais nas cidades brasileiras, em sua maioria, continuem a atrair o maior número de viagens diárias, e a concentrar atividades destinadas a maior parte da população, como comércio, serviços e empregos (VILLAÇA, 1998).
Conforme a cidade se desenvolve e avanços nos meios de transporte alteram a acessibilidade a seus vários pontos, é possível que algumas classes sociais optem por se afastar do centro, aumentando, desta forma, seu tempo de deslocamento a ele. Essa troca, no entanto, é em geral compensada por alguma outra vantagem, seja um lote grande, menor congestionamento ou algum tipo de distinção que confira status social ao morador. Ainda assim “O que as classes sociais procuram – e do que a classe dominante não abre mão - é a possibilidade de controle do tempo de deslocamento, possibilidade de opção” (VILLAÇA, 1998, p.239).
Demonstrando dinâmicas diferenciadas em relação ao clássico modelo centro-periferia Hoyt (1939), em um estudo baseado na conformação de várias cidades americanas, coloca o crescimento segundo eixos radiais, apresentando também áreas com baixa taxa de ocupação entre os vetores de crescimento. “A forma exata de cada cidade é influenciada pela topografia e pelos meios de transporte, e não existem duas que tem exatamente a mesma forma” (HOYT, 1939, p.12 – traduzido pela autora). Segundo essa teoria a ocupação do espaço urbano se dá por setores, diferenciados conforme os valores do solo urbano e a faixa de renda dos moradores, a ocupação se estende do centro à periferia seguindo vetores ao longo dos principais eixos viários (Figura 1).
“(...) é possível concluir que as áreas ocupadas nas cidades americanas tendem a se ajustar a um padrão de setores ao invés de círculos concêntricos. As áreas caracterizadas por ocupação de mais alto padrão tendem a se localizar em um ou mais setores da cidade. Existe uma redução gradativa de valor do solo partindo dessa área em todas as direções. Áreas caracterizadas por ocupação de médio padrão juntam-se às áreas de alto padrão em um ou mais lados e tendem a se localizar em um mesmo setor. As áreas que apresentam ocupação de baixa renda ocupam outros setores inteiros da cidade, do centro à periferia (HOYT, 1939, p.76 – traduzido pela autora)
Figura 1 – Diagrama simplificado do modelo de crescimento urbano proposto por Hoyt em 1939
Fonte: a partir de https://prezi.com/cqqmcylfg1la/copy-of-urban-city-models/
O modelo dos setores de Hoyt não fica restrito às cidades americanas. Nas palavras do próprio autor:
Numa viagem para as grandes cidades da América Latina que fiz no verão de 1963, verifiquei que as residências e apartamentos mais finos de uma só família nas cidades de Guatemala, Bogotá, Lima, La Paz, Quito, Santiago, Buenos Aires, Montevidéu, rio de Janeiro, São Paulo e Caracas se localizavam somente num dos lados da cidade (Hoyt, 2008, p. 143).
As variações nos modelos clássicos de desenvolvimento de cidades e as dinâmicas urbanas recentes tornam ainda mais difícil a definição do conceito de centro, na contemporaneidade, até mesmo quanto à delimitação de seu espaço geográfico. Isso porque esse conceito preserva uma característica singular, relacionada à origem da cidade, à diversidade funcional ou à sua carga simbólica como local mais democrático da aglomeração, onde são menores as diferenças sociais ou étnicas. Apresenta também uma característica plural, uma vez que com o processo de metropolização sua posição privilegiada torna-se relativa, passando a concorrer com as demais centralidades presentes na cidade (CASTILHO, 2008).
O sentido de centro sofreu várias alterações ao longo do tempo e de acordo com o local considerado. Entretanto é possível observar que continuam “(...) presentes a expressão e a força da terminologia centro se observadas suas diversas opções de adjetivações compostas e como o sentido permanece em todas: Centro Histórico, Centro Tradicional, Centro principal, Centro velho ou Centro Novo” (CASTILHO, 2008, p.34). O centro, no sentido empregado neste trabalho, conserva a relação com a história da cidade e é também local de diversidade de usos
urbanos e de convergência de fluxos de transportes, informações e pessoas. Trata-se, portanto, de um lugar importante para a sociedade urbana, apresentando o maior nível de complexidade espacial e social. Ele é também o local mais acessível para o conjunto da população urbana, de acordo com as condições de mobilidade mais populares (VILLAÇA, 1998).
A valorização do centro urbano, por parte das classes dominantes, aconteceu em diferentes períodos da história:
A proximidade ao centro foi valorizada na cidade medieval, na cidade hispano-americana através das Leyes de las Indias, em Machu Pichu, em Teotiuhacan, ou em Tenochtitlan (no Peru e México pré-colombianos), nas cidades latino-americanas e mesmo no Rio de Janeiro de meados do século XIX, em que pese a grande quantidade da famílias morando fora da cidade. No Brasil atual, a tendência ao distanciamento do centro é clara em muitas cidades, mas ainda está longe de ser minimamente significativa quando comparada com a proximidade ao centro (VILLAÇA, 1998, p. 247).
Para facilitar a compreensão do espaço urbano é possível dividir as cidades capitalistas em dois períodos distintos, aquele da fase de consolidação do capitalismo, que vai do século XVII ao início do XIX e o período das chamadas cidades tipicamente capitalistas7, formadas nos novos países capitalistas, como Estados Unidos e Canadá, a partir do final do século XIX. A produção do espaço urbano no primeiro período procurava enaltecer o Estado burguês e o homem livre, pregado pelo capitalismo, já no segundo período essa preocupação diminui e a cidade é produzida principalmente segundo mecanismos de mercado. A carga simbólica presente nas cidades como um todo, e no centro urbano em particular, é reduzida, portanto, com o desenvolvimento do capitalismo (VILLAÇA, 1998).
Tão logo o capitalismo se impôs, impôs-se também o mecanismo do mercado e a redução da ação do Estado como produtor direto do espaço urbano. O Estado passou a ser produtor “indireto” com a legislação urbanística, que supostamente, regularia a iniciativa privada (VILLAÇA, 1998, p.251).
Com a hegemonia do mercado imobiliário na produção do espaço urbano, a cidade passou a ser tratada da maneira que fosse mais lucrativa para seus investidores. Como “(...) os valores supremos do capital (...) são o lucro, o dinheiro, a mercadoria, o trabalho assalariado e a iniciativa privada” (VILLAÇA, 1998. p.251) o novo tipo de cidade, característica do segundo período, se distanciava de qualquer simbologia. Como exemplo pode ser citada a cidade de Nova York (Figura 2), cujo distrito comercial central, conforme afirma Hoyt (1939, p.19) “(...) é marcado no skyline da cidade por um cluster de arranha-céus.”
Figura 2 – Simulação eletrônica do Skyline de Nova York
Fonte: http://archive.boston.com/news/nation/specials/sept_11_anniversary/changes_to_new_york_skyline/
Com a consolidação da sociedade de consumo a linguagem da propaganda e do marketing passou a ser simbolicamente utilizada nas cidades. Além disso, com o passar do tempo, o arranha-céu acabou tornando-se símbolo da cidade tipicamente capitalista. No Brasil, entretanto, ele não está necessariamente associado aos centros urbanos ou ao terciário avançado, como acontece nas cidades norte-americanas, o que fica explícito na afirmação abaixo:
O capitalismo começou a fazer um uso simbólico a posteriori do arranha-céu, certamente sua criação. Simboliza o arranha-céu o “moderno” e o “progresso” (...). Além disso, nas cidades sul-americanas – ao contrário do que acontece ao norte -, os arranha-céus são predominantemente residenciais e, como tal, não podem e não devem ser imediatamente associados aos centros urbanos. Nas nossas cidades médias, por exemplo, praticamente não há arranha-céus comerciais. Não é possível, portanto, associá-los aos escritórios, aos bancos ou às grandes lojas (VILLAÇA, 1998, p.251).
Mesmo não sendo utilizado para representar simbolicamente Deus ou o Estado, o centro, na cidade tipicamente capitalista, não perdeu seu valor enquanto espaço importante para a dominação ideológica por parte das classes de alta renda. Vem daí a associação entre as elites e o centro, seja o tradicional ou o Novo, é esse também o motivo da imagem da cidade estar relacionada ao centro, ou ao centro das elites quando ocorre essa subdivisão (VILLAÇA, 2012). Os motivos que levam os centros das cidades brasileiras em particular, e talvez das latino- americanas em geral, a deslocarem-se em direção ao setor de moradia das camadas de alta
renda, setor esse, conforme visto, segredado daqueles ocupados por moradias de características mais populares (HOYT, 1939; 2008) estão, portanto, relacionados tanto a questões ideológicas quanto funcionais. Ideológicas pela necessidade de dominação e funcionais pois o aumento do tempo de deslocamento dessas classes ao centro, ocasionado pelo afastamento de seu local de moradia, é em parte compensado pelo deslocamento do próprio centro (VILLAÇA, 1998).