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Os ciclos patriarcais e a sua interpretação

3 Os Patriarcas As origens de um Povo*

3. Os ciclos patriarcais e a sua interpretação

A história dos patriarcas, como aparece no Génesis, é uma tentativa para descrever o nascimento e a formação do povo hebraico, enquanto povo eleito de

Deus, isto é, descrever a génese do povo eleito. Esta génese etnológica, que diz respeito a todo um povo, não se fez de repente; demorou séculos e podemos dizer que, historicamente, ela se foi fazendo ao longo de 5 séculos, desde o século XVIII até ao século XIII a.C.. Mas esta génese que demorou tanto tempo só foi escrita definitivamente nos princípios do século IV a.C..

Por isso, a árvore genealógica dos patriarcas é também complexa e artificial, porque os redactores não tinham bilhetes de identidade, nem havia arquivo das famílias; foi, por isso, preciso fazer reconstruções.

O capítulo X da Tábua dos Povos, por exemplo, atribui a pessoas aquilo que são nações, isto é, chama Kuch àquilo que é a Etiópia, Misraim ao homem que de facto é o Egipto.

O hagiógrafo, o autor sagrado, falando de pessoas pensa em termos de terras e povos. Há como que uma corporificação concentrada num indivíduo; é por isso que a árvore dos patriarcas também mais que uma árvore de pessoas fisiológi- cas é uma árvore sociológica de tribos, de clãs, de pequenos grupos, de famílias corporizados numa pessoa. Daí que essa pessoa colectivizada seja o epónimo, o antepassado onde tem origem uma nação, um povo, uma tribo, uma família.

Quando falamos de Abraão temos de pensar que, para o escritor sagrado, Abraão, que era pessoa, é sobretudo todo o grupo que dele nasceu, o grupo de famílias que se tornou uma vasta tribo. Quando fala de Jacob, está a falar de uma pessoa que dá origem a todo um povo e, portanto, é a árvore genealógica deste povo que ele tem mais presente do que o indivíduo que se perde nas brumas da antiguidade.

Estas histórias dos Patriarcas, enquanto representantes dos seus clãs, são narrativas independentes de vários grupos de famílias que, com o tempo se foram justapondo, aproximando e unindo de modo que se criou uma árvore genealógica única onde é fácil estabelecer o relacionamento dos vários clãs, dos vários mem- bros. Portanto, houve a personificação e deste modo os patriarcas são os pais de uma família unificada que justifica a unidade do povo hebreu, do povo de Deus enquanto povo eleito de Deus.

O hagiógrafo, falando das famílias patriarcais, desde logo nos quer chamar a atenção para a unidade religiosa, sociológica e etnográfica de todo o povo hebreu.

Deste modo, esquartejando o texto da História Patriarcal, podem-se distinguir pequenos ciclos de histórias patriarcais:

O primeiro ciclo é o ciclo de Abraão que vai do capítulo 12 ao capítulo 25. Curiosamente, Abraão é um emigrante, um homem que vem de outras terras, oriundo possivelmente da Mesopotâmia, e já aqui quero chamar a atenção para o

redactor que fala de Ur da Caldeia, quando os caldeus só aparecem no século XII a.C.; quer dizer, quando o redactor do século X escreve pensando em Ur, pensa nos caldeus quando, afinal, se tratava de homens da Mesopotâmia. Com certeza há aqui um pequeno erro histórico: o pai de Abraão é que deve ter emigrado de Ur da Mesopotâmia para o norte, para a zona de Haran, mais na zona da Síria; e, de facto, mais tarde, sempre que há um regresso às origens, não é à Mesopotâmia mas a Padan-Aram, a terra dos amorreus, que se referem os textos. Portanto, se foi o pai de Abraão que emigrou de Ur da Mesopotâmia, Abraão, todavia veio com as ondas migratórias de outros povos arrastados por razões da transumância para sul à procura de pastagens para os seus rebanhos. Há, pois, uma dualidade no ciclo de Abraão. Mas Abraão vai fixar-se no sul da Palestina, precisamente na zona de Mambré entre o deserto e a parte mais fértil da Palestina do sul. Com o ciclo de Abraão nós somos levados para o sul da Palestina.

O ciclo de Isaac é um ciclo muito pequeno porque Isaac é uma espécie de elo de ligação sociológica; Isaac vai ligar o sul ao norte e ao centro; por isso, o ciclo de Isaac tanto se pode integrar no ciclo de Abraão como no ciclo de Jacob, e Isaac tanto se pode ver teoricamente como filho de Abraão ou como pai de Jacob.

Por esta razão, o ciclo de Isaac é muito pequeno, vai do capítulo 25,5-19 ao capítulo 28,9; também ele está no sul, mais abaixo ainda, no deserto do sul da Palestina, em Bersabé, uma cidade e uma região que está mesmo nos limites do deserto imenso do sul que vai ter ao deserto do Sinai.

O grande ciclo de Jacob vai do capítulo 28,10 ao capítulo 35. Este é o ciclo central, talvez até fosse este o ponto de partida para a explicação de toda a árvo- re genealógica porque é ele que vai concentrar os do sul e os do norte e depois formar a confederação das chamadas doze tribos de ocupação da Palestina. Mas, Jacob aparece-nos como um homem do deserto que vem das zonas da Arábia, da Transjordânia e que depois se vai fixar no centro da Palestina ocupando zonas que se centram à volta de dois grandes santuários cananeus – Siquém e Betel. Estamos já para norte de Jerusalém, naquilo que será o Reino do Norte.

Podíamos ainda falar dum outro ciclo, o ciclo de Israel, que nos aparece quase fundido no ciclo de Jacob, apenas no capítulo 32,39 e no capítulo 35,10. Israel é exactamente o nome que vai perseverar e qualificar todo o povo eleito. Ele é o caminho da fusão de todos estes ciclos, de todas estas tradições.

Finalmente, o grande ciclo de José que vai do capítulo 37 ao capítulo 50 e que, através do capítulo 37 e do capítulo 49, pelas bênçãos de Jacob cria as amarras, os colchetes de ligação com a história de Jacob. A história de José é uma história

de tipo sapiencial, sem lugar fixo, que pretende mostrar como os patriarcas, que estão na origem do povo eleito, acabaram por estar ligados à permanência no Egipto formando aí as doze tribos que irão habitar a terra da Palestina.

Do ponto de vista do estudo dos povos que formam o povo de Israel encon- tra-se, pois, uma grande complicação. Podemos contudo dizer que estes cinco ciclos de Abraão, de Isaac, de Jacob, de Israel e de José são o xadrez político dos povos que se situam no tabuleiro sociológico da Palestina e que, fundidos, vão dar depois o povo de Israel, enquanto povo de Deus. Sobre este ponto ainda hoje restam dúvidas, muitas interrogações, e eu estou a tentar mostrar estas complica- ções para vermos toda a problemática que atrapalha os exegetas e os estudiosos da Sagrada Escritura e que muitas vezes as pessoas que lêem a Escritura só com a fé, não têm.