2 A CONSTITUIÇÃO DO REFERENCIAL TEÓRICO
3. De intensificação da renovação pedagógica
2.4 OS ESTABELECIMENTOS JESUÍTICOS NO BRASIL COLONIAL
2.4.3 Estabelecimentos no século
2.4.3.3 Os Colégios de Olinda e Recife, em Pernambuco
Os jesuítas iniciaram as suas atividades de ensino em Olinda com uma casa de meninos e como esse tipo de instituição não podia mais vigorar, usando as dependências dessa casa, em 1568 passa a existir o Colégio de Olinda, ensinando as primeiras letras e dois anos depois o curso de Humanidades é criado e, em 1576, o de Teologia Moral.
Nesse Colégio quem dava as aulas de primeiras letras e de latim não tinha concluído o curso de Teologia, ou seja, ainda era aluno do curso superior, o que proporcionava a queda na qualidade do ensino. Os alunos sofriam com a falta de preparo dos professores, principalmente, quando iam se submeter ao processo de avaliação do rendimento escolar.
Praticamente, no século XVII, este Colégio permaneceu com os cursos que oferecia, talvez o curso de Filosofia tenha existido antes da invasão holandesa. E o Colégio de Olinda também teve problemas por causa dos holandeses, provavelmente, foi essa situação de guerra quem gerou a instabilidade dos cursos. Os nobres de Pernambuco tiveram que escrever uma carta ao Pe. Geral de Roma para que os cursos pudessem funcionar, pois tinham perdido o caráter de permanência.
Certifico que o vínculo entre a Companhia de Jesus e os nobres pernambucanos confirmou-se mediante a aprovação dos cursos do Colégio de Olinda pelo Pe. Geral, sendo reforçado em 1687 com a equivalência validade temporária do curso de Filosofia do então colégio com o curso ministrado em Coimbra. O referido curso se destina à formação de alunos que fossem seguir carreiras liberais no interior da própria administração política de Pernambuco, como também a preparar catequistas, a fim de suprir a falta de sacerdotes no local. Portanto, o Colégio de Olinda tinha a característica de ser instituição educacional para alunos externos que buscavam formação geral e, para internos, que se tornassem jesuítas, pois não havia em Pernambuco seminário à parte para a formação sacerdotal (WREGE, 1993, p.174).
Ainda sobre o contexto das invasões holandesas, o Colégio de Olinda teve que contar com a ajuda de seus alunos. Estes formaram uma companhia de estudantes, com o objetivo de conseguir alunos para serem soldados e lutarem contra os holandeses. Os índios e os negros também foram enviados para o combate. Contudo, o Colégio foi destruído, mas foi erguido de novo no ano de 1666.
Um acontecimento marcante que ocorreu com o Colégio de Olinda no início do século XVIII, foi a “Guerra dos Mascates”. Esse conflito de caráter político e econômico envolveu olindenses e recifenses. Olinda tinha uma economia agrária, enquanto Recife um comércio intenso, mas como não era vila ainda, dependia de Olinda. No ano de 1710, os recifenses decidiram não pagar mais pelos impostos, que nem ao menos eram convertidos para o desenvolvimento de seu comércio. Eles elevaram Recife a condição de vila e proclamaram a sua independência, inclusive com o apoio do rei de Portugal.
Olinda não concordou com a decisão e o conflito teve início entre as vilas. Os jesuítas procuraram se manter imparciais, na tentativa de evitar represálias tanto para o Colégio de Pernambuco ou Olinda como para o Colégio de Recife, mesmo porque existiam confrarias de senhores de engenho nos dois colégios.
Pelas informações que Serafim Leite oferece substancialmente, durante o momento do conflito entre olindenses e recifenses os jesuítas não se posicionaram com evidência se preferiam a liberdade de recife ou a sua dependência. Mas, havia indícios de que existia, da parte deles, uma simpatia pela criação da vila de Recife devido ao incremento que daria ao seu colégio. E foi o que de fato ocorreu, passando até mesmo a ter mais prestígio e consideração a instrução dada no Colégio do Recife, depois de terminado o conflito em 1714. No âmbito escolar, tanto para este colégio como para o de Olinda conclui que antes, durante e depois da “Guerra dos Mascates” a educação escolar jesuítica não estava desvinculada da vida política e econômica de Pernambuco; os jesuítas só serviram a nobres e a oficiais, não adotaram um e outro partido, pois foram mais astutos com a escolha de proporcionar a existência de nobres e de mercadores nos colégios, além da freqüência de seus filhos nas atividades de ensino. Nesta junção, não se sabe como estudantes nobres e de origem comercial conviviam. O que posso sugerir é que os padres tiraram um bom proveito de tais categorias, na medida em que o Colégio de Olinda se mantinha a partir da iniciativa dos senhores de engenho e o Colégio do Recife se beneficiou com o desenvolvimento comercial e político; tanto isto foi verdade que a documentação sucessória dos governadores de Pernambuco, que no século XVII ficava no Colégio de Olinda, no século seguinte passou a permanecer no Colégio do Recife, dada a maior importância deste se comparado àquele colégio (WREGE, 1993, p.180).
No Colégio de Olinda os jesuítas faziam a catequese corriqueira e o assistencialismo para doentes, pobres e presos. E para manter esse colégio e os trabalhos de catequese, os jesuítas precisavam de ajuda financeira. O rei de Portugal deu para o Colégio uma certa quantia de açúcar, o que acabou estimulando o desenvolvimento da comercialização do açúcar pelos jesuítas. Inclusive para ter mais açúcar para vender os jesuítas passaram a ter engenho em Pernambuco. Com a venda do açúcar, os jesuítas investiram em fazendas de gado para também ajudar nas atividades do Colégio, além disso, tinham o aluguel de casas na vila de Olinda, fazendas arrendadas, uma farmácia no próprio Colégio e até uma olaria para produzir as louças que usavam neste estabelecimento escolar.
A povoação de Recife, fundada no séc. XVI, era no séc. XVIII apenas um entreposto de mercadorias que chegavam ou partiam de Olinda. Em 1619 os jesuítas fundaram ali uma escola de ler e escrever, mesmo que, segundo o Padre Provincial, a casa de Recife fosse de pouca urgência, pois ficava próxima a Olinda e a vila já dispunha de uma
casa dos franciscanos. A fundação oficial do Colégio do Recife deu-se em 1655, por uma Ordem Régia de D. João IV, e foi inaugurado em novembro de 1678. Além do ensino elementar, o Colégio passou a oferecer também o curso de latim, por solicitação dos moradores, que achavam Olinda longe demais. No séc. XVIII, além do ensino elementar de ler e escrever, o Colégio oferecia os cursos de teologia moral, filosofia, letras humanas e doutrina cristã aos meninos brancos e mestiços, e de doutrina cristã aos escravos, ministrado por um padre conhecedor da língua de Angola (HOLLER, 2006, p.46-47).
O Colégio de Recife era um desejo dos moradores, mas estes tiveram que esperar, mesmo porque os padres alegavam que Olinda era perto de Recife e que eles deveriam estudar lá. Só em 1678 quando o pedido foi concretizado, mediante a autorização dos padres superiores. É claro que essa autorização só veio porque o capitão local assumiu a construção do Colégio de Recife.
Tenho a afirmar que a ajuda financeira prestada por nobres colonos e pelos capitães de Recife ofereceu ao Colégio um sólido aparato financeiro, considerando-se que não contava com qualquer auxilio régio. Das doações destaco casas de aluguel, fazendas de gado e engenhos e fazendas para arrendamento. Ainda o Colégio possuía em seu interior uma farmácia bastante lucrativa. Dentre os capitães, o doador mais generoso deu tantas propriedades à Companhia de Jesus no Recife, que elas possibilitaram a construção de uma igreja anexa ao Colégio, sendo que em troca, muitas missas os jesuítas rezaram em favor da alma desse capitão (WREGE, 1993, p.186).
E por meio do Colégio, Recife passou a ter, em 1678, os cursos de Teologia Moral, Filosofia, Humanidades, primeiras letras e de doutrina. Essa doutrina era ministrada nas aulas para os alunos, já para os negros angolanos que trabalhavam nas fazendas pernambucanas eram ministradas de maneira diferente. O curso de Filosofia até o ano de 1721 funcionou de maneira irregular, no entanto com a mesma importância para o Colégio de Recife e para o de Olinda. E Segundo Wrege (1993, p.187) mediante a leitura e a análise da Obra de Serafim leite, a competição entre Recife e Olinda que existia no âmbito econômico, também começou a existir entre as suas instituições
escolares. E vale destacar, no texto de Serafim leite, que Recife conseguiu vencer essa competição tornando-se “a referência máxima de instrução escolar da região”:
Com a preponderância do Recife, o seu Colégio revestiu com o tempo as mesmas características de confiança régia e particular, que assinalam a de outros grandes colégios, que fôssem sedes de Governo, como a Baía e o Rio de Janeiro. As Vias de sucessão, que se guardavam no Colégio de Olinda, passaram a guarda-se no do Recife, se não sempre, algumas vezes; e a posição central do Colégio e a qualidade, segura e acessível do seu famoso cais, tornava-o como o pórtico majestoso da cidade. Era costume hospedarem-se no Colégio os novos Bispos e Governadores, antes de seguirem para Olinda (Leite, t. V, p.483-484 apud WREGE, 1993, p.187).