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CAPÍTULO 2 – A LANTERNA: LIGA ANTICLERICAL E

2.1 OS COLABORADORES DOS JORNAIS E O ELEMENTO

Quem somos? Que queremos, dil-o A Lanterna. Somos moços que não querem ver espesinhada pelo inimigo a bandeira que tremulou victoriosa nas mãos de Ganganelli! Somos soldados do progresso e da civilisação, e não consentiremos que o Vaticano realise os seus planos abominaveis de imperar sobre as consciencias e sobre a

superficie da terra, com o Papa. (A LANTERNA, 1901, p. 1)

O trecho acima aparece no primeiro número do jornal A Lanterna publicado em 7 de março de 1901. Neste exemplar, encontram-se também as razões que motivaram a criação do periódico e a causa comum entre os colaboradores da linha editorial. Definem-se como um ―grupo de homens‖ que lutavam contra um exército subordinado e fiel às ordens clericais. Reconhecia que a disputa era desigual, na medida em que os anticlericais não contavam com uma grande quantidade de simpatizantes, porém isto não era visto como um problema. Conforme sublinhava a redação:

Nós somos apenas um punhado de homens. Somos dez? somos vinte? Que importa? Seremos legião amanhã, quando todos que sabem quanto o clericalismo é prejudicial, quanto o jesuitismo é nefasto, quanto o beatismo embrutece os povos, decidirem-se a vir engrossar as nossas fileiras, fortalecendo o nosso campo.

Somos poucos, mas anima-nos o mesmo amor pela verdade e o mesmo horror pela hypocrisia e pela mentira; anima-nos para a lucta a confiança na nossa causa, que é a do progresso e da civilisação; couraça os nossos peitos de luctadores, que não temem nem os soffrimentos, nem as perseguições, nem a morte, a esperança de uma victoria decisiva sobre o exercito negro do Vaticano, [...].

Somos poucos! Insultam-nos os imbecis educados nas sachristias ou na escola do servilismo moral; insultam-nos esses que fizeram do crime uma virtude, e só vivem para fazer o mal, desde que tirem privilegio das lagrimas que arrancam a nove décimos da Humanidade. (A LANTERNA, 07/03/1901, p. 1, grifo nosso)

Nessa perspectiva, menciona, como ideais compartilhados pelo grupo, o progresso e a civilização, acrescendo no decorrer do artigo a defesa da liberdade de pensamento e a fraternidade humana. No que diz respeito à tese do progresso, ela não é

utilizada apenas para salvaguardar os avanços científicos, mas se manifesta em todas as esferas do conhecimento até na concepção da história, evidenciada pela tensão entre um passado arcaico e o presente civilizado.

De acordo com o jornal, ―as hostes clericaes contam com os milhões de S. Pedro, com os milhões de jesuitas [...] para mover a guerra que encetou contra a sociedade moderna, afim de fazer voltar os povos a era que precedeu a Renascença‖ (A LANTERNA, 1901, p. 1, grifo nosso). Em oposição a Igreja Católica, ratificavam: ―Queremos viver ás claras porque amamos a luz. As trevas só convêm á gente negra do Vaticano, aos decendentes dos Torquemadas e dos Borgias‖ (A LANTERNA, 1901, p. 1).

Para combater este exército religioso, o redator-chefe acentua o papel pedagógico d‘A Lanterna na sociedade brasileira, em especial, na formação dos jovens, que sofriam influência religiosa no país. Diante disso, afirmava:

A Lanterna é um toque de rebate.

Nós resolvemos despertar as consciencias que dormem e as energias accumuladas que precisam ser aproveitadas na campanha do bem, nas luctas que o presente empenhou com o passado tenebroso, para victoria do futuro.

Nós somos soldados da primeira batalha, depois da derrota.

Dormen, repousam nos túmulos os heroés de hontem – Saldanha Marinho, Rio Branco, Luiz Gama – que tanto trabalharam para abater no Brazil o monstro clerical e affastar o perigo jesuíta. (A LANTERNA, 07/03/1901, p. 1, grifo nosso)

Esta passagem d‘A Lanterna assinala como ―heróis de ontem‖, personagens que protagonizaram no Segundo Reinado a tensão entre Igreja e Estado. Saldanha Marinho, o Ganganelli196,

196

Bacharel pela Faculdade de Direito de Olinda em 1836. Exerceu diversos cargos políticos no Império. Foi um dos signatários do Manifesto Republicano de 1870. Escreveu artigos no Jornal do Commercio com o pseudônimo Ganganelli e participou do anteprojeto da Constituição de 1891.

foi um defensor do ensino laico e junto ao visconde do Rio Branco participou ativamente da chamada ―Questão Religiosa‖; Luiz Gama, por sua vez, foi um defensor da secularização da sociedade brasileira. Os três ―heróis‖ citados eram maçons, o que não era de se estranhar197.

O vínculo entre a maçonaria e o jornal A Lanterna é explicado no último número do periódico em 1904. Na ocasião Benjamim Mota declarava: ―em 1901 surgiu A Lanterna graças aos esforços meus e de um grupo de maçons da Loja Luso- Brasileira, desta Capital‖ (A LANTERNA, 29/02/1904, p. 1). Isso explica as notícias frequentes no jornal sobre entidades198 e eventos199 da maçonaria, além da presença de maçons nas listas

197 ―Na segunda metade do século XIX, a maçonaria foi a principal porta-voz dos setores sociais defensores de posicionamentos anticlericais. O anticleticalismo maçônico era compatível com a defesa genérica do ideário liberal e cientificista da maior parte da ilustração brasileira no periodo. Inimigos desde meados do século XVIII, maçonaria e Igreja Católica protagonizaram um embate que cresceu ainda no século XIX‖ (COLUSSI, 2000, p. 47).

198

―Grande Oriente de S. Paulo: No dia 10 de Outubro, no Templo da Benemerita Loja Amizade, instalou-se solemnemente o Grande Oriente de São Paulo, como parte integrante da federação maçônica do Grande Oriente Brazil. Está realisado o maior desejo dos maçons paulistas, que era a federação, e é de esperar que agora as Lojas que se achavam affastadas, ou sob os auspícios de Orientes estrangeiros, entrem para o grêmio da Maçonaria Unida do Brazil. Occupa interinamente o alto cargo de Grão Mestre do Oriente de São Paulo o sr. Dr. Luiz Frederico Rangel de Freitas, ex-venerável da Grande Loja Estadoal. No dia 21 realisou-se a primeira assembléa geral do GR. Oriente de São Paulo, sendo em possados nos respectivos cargos os srs. Dr Rangel de Freitas, Grão Mestre; Dr. Carlos de Campos, Grão Mestre adjuncto; Dr. Mario Buleão, 1° Grande Vigilante; Dr. Carlos Guimarães, 2° Grande Vigilante; Dr. Gomes Cardim, Grande Orador; Neves Junior, Grande Secretario e José Patricio Fernades, Grande Thesoureiro. Interinamente esta administração dirigirá o Gr. Or. até o mez de Junho do proximo anno‖ (A LANTERNA, 14-15/11/1901).

199 ―Congresso Maçonico: Nos dias 22, 23 e 24 do corrente mez realisou-se o congresso maçônico convocado pelo Grande Oriente de São Paulo. As theses sujeitas à discussão e votação do congresso foram as seguintes: 1° serie? Há conveniencia na aação conjuncta e uniforme da maçonaria do Sul da America, para fazer frente à invasão do clericalismo? A maçonaria ssim unida poderá conseguir que as

de subscrição para auxiliar os custos do jornal. O elo, então, entre A Lanterna e a maçonaria é combater o inimigo em comum: o clericalismo. Isso fica patente na afirmação ―A Lanterna que, como a Maçonaria Universal, bate-se pela liberdade de consciencia, combatendo o clericalismo e o jesuitismo [...], sente- se feliz porque muito espera da acção maçônica no sentido de ser debellada a invasão jesuita‖ (A LANTERNA, 14/11/1901, p. 1, grifo nosso).

Como informava Benjamim Mota na primeira edição, ―A Lanterna, é unicamente anti-clerical‖ e, em Carta Aberta ao Padre L. Donato, prosseguia: ―fiel ao programma que, nos impusemos os que nos reunimos para a publicar, fazemos abstração de nossas preferencias, para unidos, fortes pelo numero, combatermos o ultramontanismo‖ (A LANTERNA, 07/03/1901, grifo nosso). Os membros d‘A Lanterna desejavam concentrar-se nas lutas anticlericais, evitando discussões outras sobre a política e a questão social, pois isso levaria à fragmentação do grupo editorial e à perda numérica de soldados pró- ―civilização‖ e ―progresso‖. Naquele contexto, Mota criara o jornal para unir forças contra o jesuitísmo, pois ainda parecia movido pelo debate com o padre Julio Maria descrito no livro A Razão contra a fé.

As divergências entre os indvíduos da redação sobre a questão política e social eram previsíveis, mesmo porque neste período Mota já era conhecido na sociedade paulista como anarquista200. Por sua vez, ―entre os maçons, havia a divisão

nações sul-americanas reajam desde já contra semelhante invasão?Qaes os meios a empregra? As lojas sentem-se com força para a lucta e contam com elementos para agir por si ou auxiliando os poderes supremos?2# série – Convem que a maçonaria intervenha de modo que as nações sul-americanas estabeleçam uma conceção no sentido de estabelecer um Tribunal Internacional no qual sejam desididas as questões diplomáticas entre as potencias, sempre que haja litígio que as possa levar à guerra? [...]‖ (A LANTERNA, 29/02/1904, p. 2).

200

Em 1898, Benjamim Mota é acusado de raptar uma menor, a mãe da menina defende existir vinculação ideológica: ―Disse d. Gabriela que absolutamente não atribui o rapto de sua filha a causas amorosas, pois não acredita que ela, moça inteligente e de educação, se apaixonasse por Armando – um maltrapilho que tira seu sustento dos ganhos do serviço de lavar casas e de outros semelhantes. Atribui – declarou d.

permanente entre republicanos e monarquistas, acentuada pelo gradual afastamento das posições de maior radicalidade política, expresso através da adoção gradual do rito escocês nas lojas [...]‖ (PERES, 2004, p. 51). Sobre a questão social, Benjamim Mota mostra-se um defensor das causas dos trabalhadores, enquanto a maçonaria olhava com reservas as demandas populares201. Ciente disso, Mota utiliza como estratégia de aproximação: o anticlericalismo, a defesa do progresso202 e a liberdade.