Cheguei em campo no mês de julho de 2011, o território era familiar, pois desde o ano de 2009 transitava por aquela localidade. Entretanto, senti certo estranhamento ao adentrar as ruas por onde costumava andar, acredito que por ter ficado muito ausente durante o último ano. Estava distanciada daquela “realidade”.
Encontrava com alguns moradores conhecidos, o que me proporcionava uma sensação de alívio e conforto, mas em outros momentos, de maiores solidão, vinha também forte a lembrança do texto de Simmel (1983), “O estrangeiro”. Pensava, então, que mesmo possuindo alguns vínculos, não sendo assim uma estranha para algumas pessoas, eu possuía uma posição naquele espaço “que era determinada, essencialmente, pelo fato de não ter pertencido a ele desde o começo, pelo fato de ter introduzido qualidades que não se originaram nem poderiam se originar no próprio grupo” (SIMMEL, 1983, p. 182). Carregava comigo diversos símbolos e quando chegava àquele território, estes pulsavam, inevitavelmente. Eram formas de falar, vestir-se e comportar-se que me delatavam o tempo todo como uma estrangeira.
Levei Beatriz comigo, uma colega do laboratório, por achar que ela poderia facilitar alguns diálogos que eu estava disposta a travar, era bem relacionada naquela região. Eu estava em busca de jovens que pudessem permitir um acompanhamento, que pudessem lidar de
maneira tranquila com a minha presença curiosa e que estivessem dispostos a compartilhar um bom tanto de suas vidas comigo. Era a forma que eu tinha escolhido para entender como estavam caracterizadas suas redes sociais e pessoais.
Sabia que um dos meninos que eu tinha conhecido em 2009 estava em uso de alguma droga, desde àquela época já havia rumores sobre este assunto. Um pouco antes dessa ocasião, tinha conversado com pessoas da equipe do METUIA sobre ele e obtive algumas confirmações. Havia ido também ao Centro da Juventude da região, acreditando que lá os profissionais poderiam ter informações mais precisas, uma vez que o jovem costumava utilizar do espaço. Tinha sido uma boa decisão, pois pude conversar diretamente com a Coordenadora Pedagógica e explicar do que se tratava a pesquisa. Ela, gentilmente, além de ter confirmado a situação de Pedrinho18, me passou uma lista com alguns outros nomes e endereços: eram jovens moradores do Jardim Gonzaga ou entorno, que faziam uso de alguma droga ilícita.
Após a confirmação de que Pedrinho estava em uso de drogas e tendo em vista a confiança no vínculo que havíamos construído há mais ou menos um ano, fui até sua casa naquele dia em que Beatriz me acompanhava. Após recepção calorosa, consegui ficar a sós com ele, disse que precisava de ajuda para uma pesquisa e expliquei como a mesma funcionava, então, logo em seguida, perguntei se ele sabia de pessoas para me indicar, possíveis usuários de drogas do bairro. Pensou um pouco e respondeu que ele mesmo poderia me fornecer algumas informações. Dessa forma, iniciaram-se nossos encontros que, no início, costumavam acontecer duas vezes na semana, mas intensificaram-se com o tempo, chegando a uma média de cinco encontros semanais, sempre no período da tarde, com exceção de alguns encontros no período noturno.
Heitor, o outro jovem que as circunstâncias do campo me possibilitaram acompanhar, também foi contatado alguns dias depois, mas a história com ele era um pouco diferente. Lembrava vagamente de termos conversado durante as intervenções realizadas pelo Núcleo UFSCar do METUIA no Centro da Juventude, pois não era um jovem muito presente nas oficinas19. Por esse motivo, jamais teria pensado em lhe propor qualquer participação, porém,
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Todos os nomes próprios dos personagens citados são fictícios. Esta opção de inserir nomes fictícios entra como um dos princípios éticos da pesquisa que busca zelar pela integridade dos participantes e preconiza a não existência de riscos para os mesmos. As alterações dos nomes não interferem na argumentação desta dissertação.
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Semanalmente eram (e são) realizadas pelo METUIA-UFSCar oficinas junto aos jovens no Centro da Juventude do município de São Carlos. As estagiárias que compunham a equipe do laboratório, também compostas por extensionistas, planejavam as atividades a serem realizadas com antecedência, levando em consideração os interesses dos jovens e as demandas do campo, sob supervisão e com a participação de um professor do Laboratório METUIA.
durante a conversa com a coordenação do CJ ele havia sido muito comentado como sendo alvo das preocupações daqueles profissionais que se referiam ao mesmo como um “caso grave”. Decidi me aproximar, mas não sabia como, então, a Profa. Dra. Patrícia de Oliveira Borba20 solidarizou-se, dizendo que eu podia me apresentar como sua amiga, fato que poderia ajudar, já que entre eles havia maior vinculação. Tendo recebido rapidamente seu aval, iniciaram-se também os encontros.
É importante mencionar que eu tinha um histórico diferente com cada um dos jovens, o que, por conseguinte, me possibilitou entradas e permanências diferentes em campo. Com Pedrinho já tinha um vínculo mais ou menos instituído, o que proporcionou que, rapidamente, nos encontrássemos muitas vezes por semana para conversar sobre diversas questões que tangenciavam a pesquisa, mas não somente. Por isso considero que tenho mais elementos de discussão relacionados à história de vida deste jovem. Com relação a Heitor, tive uma aproximação mais lenta, só consegui acessar vivências mais íntimas de sua história após um processo de aproximação mais demorado, quando comparado ao processo construído com o outro jovem.
Eram, então, dois jovens, com histórias absolutamente diversas21, embora fossem moradores do mesmo bairro, mais precisamente há duas ruas de distanciamento um do outro; tivessem idades parecidas, Pedrinho, 17 anos e Heitor, 21 anos e condição socioeconômica também semelhantes. A escolha por histórias diversas, dentro outras que se colocavam como possibilidade, remete neste trabalho à heterogeneidade destes sujeitos e à ruptura com o imaginário social de homogeneidade colocada para os jovens pobres do país e, mais, colocada para os jovens pobres que fazem uso de drogas (VELHO, 1998).
20
A professora Dra. Patrícia Leme de Oliveira Borba integra o grupo de estudos “Cidadania, Ação Social, Educação e Terapia Ocupacional” e encontra-se vinculada à Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP) como professora assistente.
21
A escolha por duas histórias diferentes não configurou, no entanto, a pesquisa em uma perspectiva comparativa convencional. Cada história foi discutida em suas peculiaridades.