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4.1. OS DOCUMENTOS QUE MATERIALIZAM O PROJETO ÉTICO-POLÍTICO NA

4.1.1 Os componentes e elementos que o constituem

Sustenta Netto (1999, p.97-8) que o projeto profissional implica e envolve uma série de componentes distintos que devem ser articulados coerentemente: “uma imagem ideal da profissão, os valores que a legitimam, sua função social e seus objetivos, conhecimentos teóricos, saberes interventivos, normas práticas, etc”.

Parte-se do entendimento que implícito a esta definição, dinamizam-se os elementos da teoria crítica marxiana, que nuclearmente fundamentam a proposta do projeto de formação do Serviço Social e incorrem nas demais orientações da profissão. Este redimensionamento aproxima uma análise crítica da dinâmica em que se inserem os profissionais, assim como o processamento de suas atividades. Neste sentido, vale a aproximação de Marx referindo que “os elementos simples do processo de trabalho são atividades orientadas a um fim ou o trabalho mesmo, seu objeto e seus meios” (MARX, 1996, p.298) e, neste “fim” que o mesmo autor chama de processo de trabalho, “obtém-se um resultado que já no início deste existiu na imaginação do trabalhador, e, portanto idealmente” (idem).

Neste sentido, se a formação profissional faz o sujeito tornar-se um trabalhador Assistente Social, a idealização do Projeto ético-político, gesta-se neste movimento e desafia o desempenho das funções profissionais, ainda que seja para a afirmação ou negação deste mesmo projeto (considerando o pluralismo no interior da categoria). Logo, é possível apreender em Netto (1999) de que entre os componentes que caracterizam o Projeto ético-político articulam-se: a Lei de Regulamentação, o código de ética e a produção de conhecimento no âmbito da profissão, sob algumas observâncias:

a) A Lei de Regulamentação – Regulamenta o Serviço Social como profissão. Esta não dispõe de uma teoria própria e não é ciência, o que não impede a

realização de pesquisas e investigações para a produção teórica, inserido no âmbito das ciências sociais e humanas;

b) O Código de ética – Considera-se a importância da fundamentação sobre os valores da natureza da ética, mas requer o entendimento de que estas disposições não esgotam-se nos códigos pois, “a valoração ética atravessa o projeto profissional como um todo, não constituindo um mero segmento particular dele” (NETTO, 1999, p.98). Há que considerar que os elementos éticos não se limitam as normatizações, mas envolvem as escolhas teóricas, ideológicas e politica dos profissionais.

c) A produção de conhecimento – Se refere desde os princípios da produção teórica, na passagem dos anos setenta e oitenta à sua acumulação teórica com o surgimento dos cursos de pós-graduação. Expressa-se a relevância da massa

critica33 que facilitou uma interlocução da profissão com as ciências sociais e a

criação de intelectuais no âmbito do Serviço Social e outras áreas.

Todo o empenho foi dirigido no sentido de adequar a formação profissional, em nível de graduação, às novas condições postas seja pelo enfrentamento, em um marco demográfico, da questão social potenciada pela ditadura, sejam pelas exigências intelectuais que a massa crítica em acumulação poderia atender (NETTO, 1999, p.102).

Neste sentido, dinamiza-se a abertura da utilização das vertentes críticas, com destaque para as inspiradas na tradição marxista (já expressas neste estudo) e a expressão do pluralismo político na categoria frente às demandas democráticas e populares que requalificam o trabalho profissional. Estas diferenças confluem para que desde o III Congresso Brasileiro de Assistentes Sociais (1979), os segmentos mais ativos da categoria vinculem-se aos movimento dos trabalhadores, o que acabou por redimensionar a organização da categoria (NETTO, 1999).

Neste contexto, sustenta o autor que esta articulação é imprescindível para a hegemonia de um projeto profissional, sendo que é complexa e não se faz em curto espaço de tempo, pois exige recursos político-organizativo, debates, investigações teórico-práticas e elaborações. Considerando o pluralismo profissional e se tratando de um projeto hegemônico, este comporta um pacto entre os seus membros, ou seja, um acordo sobre os componentes que são imperativos e indicativos do projeto. _____________

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Massa crítica: “o conjunto de conhecimentos produzidos e acumulados por uma determinada ciência,disciplina ou área do saber” (NETTO, 1999, p.102)

Os componentes imperativos são os componentes obrigatórios para todos que exercem a profissão, que em geral são objetos de regulamentação estatal. No Serviço Social situa-se a formação acadêmica sob os padrões curriculares e a inscrição nos Conselhos Regionais. Já, os indicativos, são aqueles aos quais não se tem consenso, que garanta o cumprimento rigoroso e idêntico por todos os membros da categoria (NETTO, 1999).

Nestas considerações, os componentes imperativos também expressam divergências, que não se tratam de violações dos códigos, mas a contestação de princípios que os mesmos consagram, conforme cita o autor:

Um exemplo eloqüente diz respeito aos códigos de ética das profissões: mesmo sendo um componente imperativo do exercício profissional (inclusive, na maioria dos casos, com força legal) são comuns os debates e discrepâncias acerca de alguns de seus princípios e implicações – e isto constitui um outro índice das disputas e das tensões que se expressam no interior das categorias profissionais (NETTO, 1999, p.98)

Neste sentido, os componentes que historicamente contribuíram para a superação do conservadorismo na profissão, conjugaram-se para a construção do projeto ético-político do Serviço Social que, comumente não realiza-se sem tensões, devido o pluralismo de idéias existente no interior da categoria.

Seguindo a direção teórica de Netto (1999) e referindo-se aos “componentes que materializam o Projeto ético-político”, Braz (2001) sistematiza que estes constituem-se de elementos que podem ser apresentados sob três dimensões articuladas, como representa a figura:

Nesta perspectiva, o autor sinaliza que a materialidade do projeto pode se efetivar a partir desta tríplice articulação, considerando os significativos aspectos que veiculam suas particularidades, seja a dimensão investigativa da profissão sob as tendências teóricas do pensamento social da área, seja o aparato jurídico-político e institucional da profissão ou a dimensão organizativa que abrange o pluralismo intrínseco na categoria.

Evidencia-se o esforço em explicitar como se processam as articulações para materialização do projeto profissional neste contexto histórico. Importante considerar que, para além do aparato jurídico estritamente profissional (Lei de Regulamentação, código de ética e diretrizes curriculares), atribui-se visibilidade para o aparato de caráter mais abrangente que consiste no conjunto de Leis advindas do capítulo da Ordem Social da Constituição Federal de 1988 que, embora não exclusivo da categoria, foi fruto de lutas que envolveram os Assistentes Sociais (BRAZ, 2009).

Nesta dimensão, envolvem-se as leis e resoluções, documentos e textos políticos da categoria, assim como os instrumentos de direitos que valem ao exercício do trabalho no âmbito das políticas públicas. Trata-se da tecitura dos compromissos e princípios que compõem a materialidade do Projeto ético-político que deve ser compreendido como uma construção coletiva sob uma determinada direção social34.

Neste sentido, faz-se pertinente abordar alguns redimensionamentos da discussão da temática a partir da recente contribuição teórica. Os componentes supra mencionados são expressos como a base para os elementos que materializam o Projeto ético-político, ou seja, estes angariam os elementos que se objetivam na realidade social e de alguma forma se expressam por meio do trabalho do Assistente Social. Estes elementos são expressos na figura a seguir:

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Direção social que envolve valores, compromissos sociais, princípios que estão em permanente discussão dado o movimento vivo e contraditório das classes na sociedade (BRAZ, 2009).

Figura 3 - Elementos constitutivos do Projeto ético-político

A abrangência destes elementos impacta no significado do trabalho profissional na sociedade contemporânea. Implica compreender que os componentes (sobre o influxo de outros fatores que incidem sobre o universo profissional) são os instrumentos que viabilizam o projeto profissional na realidade objetiva, considerando além das atividades profissionais isoladas, a projeção coletiva dos assistentes sociais (BRAZ e TEIXEIRA, 2009).

Percebe-se o aprofundamento elementar da “crítica radical á ordem social”, ao encontro do que dispõe o Código ética: “Opção por um projeto profissional vinculado ao processo de construção de uma nova ordem societária” (CRESS, 2009, p.27) já referido por Netto (1999, p.105) como as “escolhas que o fundam”. Os referidos elementos exponenciam o compromisso firmado nos princípios e valores fundamentais que expressam as contradições que particularizam a profissão na sociedade atual e representam as “escolhas historicamente definidas pelo Serviço Social brasileiro, condicionadas por determinantes histórico-concretos mais abrangentes” que colidem com a ordem do capital (BRAZ e TEIXEIRA, 2009, p.193). Na afirmação de Netto (1999) os projetos profissionais, designados como projeto ético-político, revelam que uma indicação ética adquire efetividade histórico- concreta quando se combina com uma direção político-profissional. Neste sentido, o debate acerca da materialização do Projeto ético-político imprime a qualificação dos elementos que o constituem e aprofundamento da dimensão política da categoria neste contexto.

Nos rumos de análise de Iamamoto (2008), além da regulamentação legal do projeto de profissão, a autora expressa que a realização deste projeto ocorre em diferentes dimensões do universo da profissão, dentre elas nas expressões e manifestações coletivas da categoria, por meio de suas entidades representativas, que afiançam posições políticas frente ao Estado e sociedade, às políticas públicas e às profissões nas articulações com outras entidades do Serviço Social e com outras categorias profissionais e movimentos organizados que integram esforços e lutas comuns, assim como no trabalho profissional realizado nos diferentes espaços ocupacionais, onde se busca preservar a qualidade dos serviços e o fortalecimento da noção de direito social.

Cumpre salientar de que tratam-se de dimensões importantes que, como base da profissão, expressam as dimensões ético-políticas, teórico-metodológicas e técnico-operativas, adjunto à formação e o exercício profissional. Logo, diante dos desafios que metamorfoseiam os diferentes processos de trabalho a que se inserem os profissionais na realidade, Iamamoto (2008, p.233) considera que “o maior deles é tornar esse projeto um guia efetivo para o exercício profissional e consolidá-lo por meio de uma implementação efetiva”. A mesma autora considera que nas últimas duas décadas do Serviço Social redimensionou-se num embate contra o tradicionalismo e conservadorismo, perfazendo um “radical giro” no debate da dimensão da ética por meio da disposição dos princípios e valores radicalmente humanistas no código de ética profissional.

Neste contexto, identifica-se a relevância do artigo de Netto (1999) que augura aspectos conceituais sobre o Projeto ético-político do Serviço Social e seus componentes tornando-se base para os rumos da análise a posteriori, ressalvadas algumas complementações no que compreende a objetividade da materialização na realidade, por meio do trabalho profissional. A seguir, o propósito é apresentar alguns aspectos identificados na revisão teórica, que abrange a hegemonia conquistada na década de noventa, a incorporação da ética e os desafios contemporâneos ao projeto profissional.