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Capítulo V: Os Componentes Social, Tecnológico e Epidemiológico

2. Os Componentes Tecnológicos Condicionantes do Acidente

Saúde, está localizada em Manguinhos (lat 22°51’, long 43°14’28” e altitude 5 m), próxima a uma região industrial e comercial. O prédio, de dois andares, construído em 1995, possui estilo contemporâneo, com traços e acabamentos neo-clássicos, acompanhando a arquitetura do edifício sede, principal. A área em volta é totalmente arborizada e o terreno, que foi uma depressão natural, recebeu aterro para as fundações. Além de 5.600 m2 de área útil, existe no interior do prédio um jardim interno. Esse jardim, devido às portas laterais ficarem abertas, proporcionava um aumento de umidade relativa do ar no prédio, principalmente no primeiro andar.

No primeiro andar localizam-se a recepção, duas salas de consultas, área técnica de reprografia, sala de higienização e restauração do acervo e salas administrativas. Já no segundo andar estão localizados dois armazéns de acervo, duas salas de xerox e cabines de leitura. A iluminação é artificial do tipo fluorescente e em algumas estantes o foco luminoso está muito próximo do acervo.

O sistema de refrigeração do prédio é composto por subsistemas, que dividem o prédio em oito áreas de cobertura; quatro em cada pavimento. Os fatores que influenciam a temperatura no prédio são a incidência de radiação solar sobre as salas, o funcionamento dos diversos subsistemas de refrigeração e a presença de equipamentos com geração de calor.

Figura 3

Planta do 1º pavimento da Biblioteca Central de Manguinhos

Figura 4

Planta do 2º pavimento da Biblioteca Central de Manguinhos

Segundo o "Estudo para Implantação da Nova Biblioteca de Manguinhos", procurou-se projetar "um edifício tão flexível que qualquer parte possa ser usada para qualquer propósito", onde "as condições ambientais fossem apropriadas para qualquer utilização da área". (Sict,1991)

Foi prevista a instalação de um sistema de ar condicionado no edifício como um todo, para permitir inclusive, futuras adaptações e remanejamento, em função das péssimas condições climáticas da cidade do Rio de Janeiro para guarda e conservação de documentos ( calor e umidade intensos ). Foi recomendado que a temperatura do prédio fosse mantida entre 22 a 24ºC ( temperatura de conforto térmico ), embora o ideal para a conservação do papel seria entre 16 e 19ºC e que se mantivesse a umidade relativa do ar em 50% +/- 5% no decorrer do ano. As precauções contra a umidade foram ressaltadas, recomendando-se "máximo cuidado com as instalações hidráulicas, a impermeabilização do telhado, o escoamento das águas pluviais e ao lado da torre de refrigeração". (Sict,1991)

O relatório da empresa de assessoria técnica microbiológica detectou algumas falhas no projeto de construção do prédio, como ausência de calhas de escoamento de águas pluviais, o que permitia que a água da chuva escorresse livremente pelas paredes externas o que, aliado à má vedação das janelas, proporcionava infiltrações e aumento da umidade relativa do ar no ambiente interno. (Machado et al., 1997)

Segundo relato de um funcionário da área de engenharia, as calhas de escoamento foram retiradas do projeto inicial por uma pessoa de grande influência na instituição, que não pertencia à área de engenharia, "para não terem de ocupar-se em limpá-las periodicamente". Mas apesar desta interferência gerencial, a principal causa apontada no relatório pela proliferação de fungos seria a ineficácia do sistema de controle do ar condicionado, decorrente de manutenção e operação inadequadas. O choque térmico, ocasionado pelo desligamento do sistema de refrigeração ao final do dia, provocava condensação dentro dos armazéns. Este foi um fator agravante, não apenas pela possibilidade de

infestação microbiana, mas também por acelerar processos de deterioração do acervo.

De acordo com um dos entrevistados, houve uma alteração importante no projeto da planta física do segundo andar, introduzindo divisórias para a criação de ambientes não contemplados no projeto anterior, visando o acolhimento de equipamentos geradores de calor. O projeto original do sistema de ar condicionado não foi adaptado à nova realidade. Isto gerou, posteriormente, a necessidade de tal alteração. Porém, esta adaptação ficou comprometida pela impossibilidade de climatização dos diversos ambientes, decorrente de uma falha de execução do projeto que não isolou totalmente os armazéns, causando mistura do ar. A flexibilidade a que se propunha o projeto não se concretizou e ainda gerou um grande problema.

Chama a atenção a existência de dois "projetos originais": o primeiro, datado do final dos anos 70, que previa que o prédio fosse ocupado totalmente pelo acervo bibliográfico e um segundo, já sob a nova direção da biblioteca, que foi modificado para atender à instalação do Centro de Informação Científica e Tecnológica, ou seja, um local com necessidades diferenciadas de climatização, a fim de abrigar funcionários (temperatura de conforto térmico) e equipamentos geradores de calor.

Uma das falhas do projeto apontado no relatório da assessoria microbiológica diz respeito à presença do jardim interno, o que também favoreceu o aparecimento e a colonização de fungos no ambiente da biblioteca.

Posteriormente foi detectado que apesar do edifício ter sido construído sobre um terreno pantanoso, somente parte do solo foi impermeabilizada, sobre a qual foram construídos o edifício principal e a central de ar condicionado, porém, o terreno sob os jardins que circundam os prédios e sob o jardim interno, não recebeu impermeabilização. A impermeabilização sob o jardim interno foi feita após o acidente, de acordo com recomendações do relatório.

Os problemas com a climatização persistiram por quase dois anos após o acidente. Um dos entrevistados aponta que houve erro na concepção do projeto

do ar condicionado, pois não levou em conta a localização do prédio onde seria instalado tal sistema, ou seja, sobre um terreno úmido, baseando-se apenas em tabelas padronizadas de climatização.

Outro fato importantíssimo diagnosticado relativo à umidade excessiva no interior do prédio foi a detecção de um alto grau de vapor de água na tomada de ar do exterior (100% de umidade relativa do ar) proveniente do processo de evaporação da água do solo não impermeabilizado. Este problema foi sanado com a suspensão da captação do ar externo por esta via. Outra forma de desumidificação do ar encontrada foi a vedação de três das cinco grades de captação do ar, favorecendo uma passagem mais lenta do ar pela central. Desta forma, hoje, a umidade relativa do ar se mantém em torno de 50%.

Foi detectado que a água gelada chegava à central à 14º C, quando deveria chegar a cerca de 6-7º C, por entupimento dos drenos e alagamento do leito de condução dos ductos. Este era um problema de manutenção não diagnosticado anteriormente. Além disso, foi detectado que as válvulas de controle de temperatura estavam todas queimadas, o que tornava o ambiente interno extremamente frio.

A pane do sistema de refrigeração, como causa imediata do acidente, foi conseqüência da queima de um grupo de compressores, o que não permitia que a água gelasse, aumentando a temperatura interna.

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