Formação de Conceitos e a Importância do jogo na educação
2.1 F ORMAÇÃO DE CONCEITOS CONFORME V YGOTSKY
2.1.3 Os conceitos científicos, espontâneos e a ZPD
Como o estudo do empreendedorismo que é uma novidade para a maioria dos pré- adolescentes, é necessário entender se o jogo do empreendedor transmite o desenvolvimento dos conceitos nas mentes dessas crianças. Para isso, tínhamos que responder e entender:
1. O que acontece na mente da criança com os conceitos científicos que lhe são ensinados na escola?
Para isso, precisávamos entender a diferença entre conceito científico e espontâneo, para ter o melhor meio de educar as crianças com esses novos conceitos e que os mesmos permanecessem e se internalizassem em suas vidas para uso no presente e futuro.
Os conceitos científicos são aqueles relacionados à instrução, aprendidos na escola. Já os conceitos cotidianos ou espontâneos são aqueles formados a partir de vivências, da observação do mundo. Conceitos cotidianos e científicos fazem parte de um único processo: o de desenvolver a formação de conceitos (Vygotsky, 1991, p.71).
Para estudar a relação destes dois conceitos, é preciso estabelecer algum parâmetro para compará-los. Piaget (1977), nesse mesmo contexto, demonstrou que a criança em idade escolar, tem seu conceito com falta de percepção das relações. Ex: se o professor diz que “a aluna não irá ao passeio porque ficou gripada”, elas entendem que a aluna não irá ao passeio e outras, que a aluna está gripada. Não consegue conectar a frase inteira num entendimento só. É como se a palavra porque não fosse usada de maneira correta. Mas na verdade, ela não sabe usá-la; apenas repete a palavra.
A relação do conceito espontâneo e o conceito científico dependem do aprendizado escolar e o desenvolvimento mental da criança.
Vygotsky (1991, p. 80) e seus colaboradores, analisaram três teorias para esta relação:
1. Considera o aprendizado e o desenvolvimento independentes entre si. Esta teoria
baseia-se no fato de que o aprendizado exige um certo grau de maturidade. Ex: não se pode ensinar uma criança de 1 ano a ler, de 3 anos a digitar etc. Aqui fica claro que o desenvolvimento da criança precisa completar ciclos para que o aprendizado ocorra.
2. Considera que o aprendizado e o desenvolvimento só acontecem através dos
processos e da formação de hábitos. Assim, a instrução passa a ser sinônimo de desenvolvimento.
Esta teoria soma as outras duas, tirando suas deficiências. Koffka (1925, apud Vygotsky, 1991, p.82) afirma que todo desenvolvimento tem dois aspectos: a maturação e a aprendizagem. Este aspecto concorda com as outras duas teorias e vai um pouco mais além.
Em sua linha de pensamento, Koffka (apud Vygotsky, 1991) admite que haja interdependência entre a maturação e a aprendizagem. A maturação se aperfeiçoa por meio da aprendizagem e da prática. Outro ponto desta teoria é que a criança, depois que tem sua estrutura formada, pode aplicá-la em outras áreas. O terceiro ponto analisado é que se a criança já tem formada sua estrutura, ela pode reorganizar outras áreas, pode não só seguir o amadurecimento como também pode favorecer o seu progresso ou manter-se no mesmo nível.
Vygotsky (1991) e seus colaboradores Luria, Leontiev, Levina, Galperin e Sakharov, para formular a sua teoria referente as relações entre aprendizado e desenvolvimento realizaram quatro séries de investigação:
Investigação 1: Estudos sobre desenvolvimento das funções psíquicas necessárias
para aprender as matérias básicas escolares (matemática, leitura, escrita).
O que explica a dificuldade da criança escrever, já que ela tem vocabulário?
Porque o desenvolvimento da escrita não acompanha o desenvolvimento da fala. A criança, desde muito cedo, usa mais a linguagem oral para se comunicar. Por isso, uma fala imaginada exigindo sua representação por signos é muito mais difícil para a criança do que a fala oral.
Investigação 2: Relação temporal entre o aprendizado e desenvolvimento das
funções psicológicas correspondentes. Descobriu-se que o aprendizado geralmente vem antes do desenvolvimento. A criança adquire certas habilidades antes de saber aplicá-las com consciência.
Investigação 3: O desenvolvimento intelectual não é compartimentado com os
tópicos do aprendizado. Isto quer dizer que cada matéria aprendida compartilha com a outra, se interagindo umas com as outras.
Investigação 4: A idade mental de crianças de uma mesma idade pode ser igual?
Aplicados testes para crianças de mesma idade resolverem, quando juntas, conseguem resolver além do esperado para a idade. Com ajuda de outra, toda criança pode fazer mais do que o esperado dela. A experiência mostrou que se sai melhor na escola aquela que tem a zona maior de desenvolvimento proximal (ZPD).
Resultado da investigação sobre o desenvolvimento científico e espontâneo: o desenvolvimento científico ultrapassa o espontâneo. Foram dadas situações familiares às crianças do teste. Concluiu-se que a criança deve ter mais dificuldades em solucionar problemas da vida cotidiana porque não tem consciência destes conceitos. Assim confirmou- se a hipótese de que os conceitos científicos e espontâneos da criança se desenvolvem em direções contrárias, mas estão ligados entre si.
Para Vygotsky, (1991) “estudar o pensamento infantil separadamente da influência do aprendizado, como fez Piaget, exclui uma fonte muito importante de transformações e impede o pesquisador de levantar a questão da interação do desenvolvimento e do aprendizado, peculiar de cada faixa etária” (p. 100). Em seus estudos, Newman e Holzman (2002), concordam com Vygotsky sobre essa linha de pensamento de Piaget.
Para Vygotsky (1991), a aprendizagem sempre inclui relações entre pessoas. A relação do indivíduo com o mundo está sempre medida pelo outro. Não há como aprender e apreender o mundo se não tivermos o outro, aquele que nos fornece os significados, que nos permitem pensar no mundo à nossa volta. Vygotsky defende a ideia de que não há um desenvolvimento pronto e previsto dentro de nós, que vai se atualizando conforme o tempo passa ou recebemos influência externa. Bock, (1999) também defende essa ideia.
Assim, entendemos que o desenvolvimento da criança é um processo que se dá de fora para dentro, sendo que o meio (escola, clube, bairro,..) influencia o processo ensino/aprendizagem.
Segundo a concepção de Vygoysky (1991), a aprendizagem não está apenas em função da comunicação ou linguagem, mas também do nível de desenvolvimento que a criança pode alcançar através de sua interação com o meio, mas também o modo como a criança constrói os conceitos. O ser humano cresce num ambiente social e a interação com outras pessoas é fundamental para o seu desenvolvimento.
Vygotsky (1991), em seus estudos, observou que a cooperação é de extrema importância na construção do conhecimento, e o professor ou um moderador experiente tem um papel fundamental nessa etapa. Este autor observou que ao avaliarmos somente os conhecimentos já estruturados na criança, perde-se todo o processo de desenvolvimento mental. À medida que se coloca essa criança em atividades de cooperação, ela terá níveis mais elevados no seu desenvolvimento.
Vygotsky et al. (1998) estudaram a diferença desse nível de desenvolvimento conforme os conceitos abaixo:
Nível de Desenvolvimento Real (NDR): são as conquistas que já estão consolidadas
na criança, no jovem ou no adulto. São todas as capacidades e competências que já foram aprendidas e que fazem parte do dia a dia. Ela as executa e as expressa de forma autônoma, sem assistência do outro ou de alguém mais experiente; seja pai, mãe, educador ou um parceiro mais experiente. É o saber atual.
Nível de Desenvolvimento Potencial (NDP): é quando a criança é capaz de fazer,
mas com a cooperação, suporte e ajuda de outra pessoa mais experiente. Ou seja, é tudo que a criança é capaz de realizar em colaboração com os outros elementos de seu grupo social. É o saber potencial.
Zona de Desenvolvimento Proximal (ZDP): é a distância entre o conhecimento do
que a criança é capaz de fazer sozinha (NDR) e aquilo que a criança realiza somente em cooperação, mediada e estimulada, com outros indivíduos mais experientes (NDP).
Nessa figura, podemos visualizar os saberes de uma criança, e observar que ela faz muitas tarefas com colaboração (NDP) e seu saber atual (NDR) é menor.
Figura 2.2: elaborada pelo autor, ZDP antes
A partir do momento em que a criança construiu o seu conhecimento, mediado pela colaboração do grupo ou educador, o seu saber real aumenta. Note que o conhecimento na ZPD passa a integrar o NDR, aumentando- o. E cria-se uma nova ZPD para desenvolver.
Figura 2.3: elaborada pelo autor, ZDP depois
Nesta perspectiva, tudo o que é ZDP hoje tende a ser NDR amanhã. O que a criança faz em um dado momento com mediação e estimulação passa a poder fazer sozinha e autonomamente em um momento futuro. Então, não vamos apenas levar informação para a criança, mas sim descobrir a ZDP para que adquira essa informação nova e a transforme em conhecimento, para que, internalize, tornando em conhecimento definitivo e aumentando o seu nível de desenvolvimento.
Para Vygotsky (1998), o papel do professor é ser um mediador entre a criança e o mundo. É tornar-se um descobridor da ZDP do aluno, ajudando-o a interagir com os outros e consigo mesmo para que ele seja não melhor que o outro, mas o melhor de si mesmo. Assim, o nosso estudo, através do jogo do empreendedor, levará ao pré-adolescentes a possibilidade de aumentar o seu nível de desenvolvimento real em empreendedorismo e para ter melhores resultados em sua vida pessoal e profissional.