• Nenhum resultado encontrado

OS CONCEITOS DE BAKHTIN E O ROMANCE DE MILTON HATOUM

CAPÍTULO II DOIS IRMÃOS E OS CONCEITOS BAKHTINIANOS

OS CONCEITOS DE BAKHTIN E O ROMANCE DE MILTON HATOUM

Diante da abordagem dos conceitos de Bakhtin que destacamos nessa análise, foi possível verificar de que forma se estabeleceriam esses conceitos, levando em conta diversas forma de se interpretá-los. Como vimos, a polifonia não pode ser encontrada em Dois irmãos, pois entendemos que para que a polifonia seja expressa, exatamente como proposta por Bakhtin, é preciso que contenha um narrador que possui o mesmo status que todos os outros personagens de modo que todas as vozes assumam o mesmo caráter de importância na narrativa.

O narrador Nael não permite essa equiparação entre vozes, pois é apenas através da sua voz, e dos cortes e adições de fatos que ele faz, que tomamos conhecimento dos acontecimentos narrados. Fica clara a presença de outras vozes em seu relato, porém, em nenhum momento abre-se espaço para que elas demonstrem seus pontos de vista, nenhuma voz ocupa posição sequer equivalente à ocupada pela voz do narrador.

Mencionar essa presença nos encaminha para outra conclusão, a de que há uma clara aparição de outras vozes influenciando a do narrador Nael – a plurivocalidade exposta por Bakhtin. Pudemos pontuar ao menos as vozes de Domingas, Halim, Zana e Yaqub, além de sua própria voz aos quase trinta anos, que é quando escreve o livro, uma vez que entendemos que o passar do tempo influenciou-o a ponto de ter uma visão diferente de um fato, com relação à que teve no momento em que aconteceu.

A multiplicidade de estilos pôde ser representada em Dois irmãos mesmo com a constante mediação do narrador Nael, que regula todas as situações ali apresentadas, tanto no que diz respeito à remissão às cartas quanto à representação de discursos próprios de personagens. As situações analisadas indicam que há um entrelaçamento de estilos ao estilo romanesco, mesmo que de forma discreta.

Os discursos extraliterários que figuram como marca de estilização foram identificados ao mencionarmos os momentos em que fatos históricos eram retratados durante o desenrolar da narrativa, como nos trechos em que Nael inseria informações acerca do desenvolvimento das regiões do país, ao mesmo tempo em que contava sobre como foi possível afastar Omar de uma de suas namoradas oferecendo dinheiro a ela.

Percebemos, também, a inserção de uma narrativa escrita que pertencia a um tipo textual diferente do romance, o cartão-postal de Omar já mencionado, que aparece adaptado para figurar no romance, também mediado pela voz de Nael, que havia sabido do conteúdo através da fala de Halim, que, por sua vez, tinha sabido do conteúdo através de Yaqub, o que nos coloca diante da teia de discursos que se cruzaram até a representação do conteúdo feita pelo narrador.

Há, também, o aparecimento de um bilhete e de um relatório de espionagem sobre Omar. Assim, vemos que há a predominância do estilo romanesco na narrativa, talvez por conta da consciência do narrador ao escrever a narrativa, sabendo o efeito que gostaria de causar no leitor tanto técnica quanto interpretativamente.

Faz-se necessário destacar que não foi possível comprovarmos a presença concreta do que é postulado por Bakhtin acerca do plurilinguismo. Entenda-se que utilizamos a expressão concreta no sentido de esclarecer que não é possível perceber a materialização das diversas línguas a que o romance faz menção, uma vez que há a percepção de que existem diversas línguas103, representadas por diferentes personagens, mas não é aberto espaço para que sejam manifestadas e configurem o legítimo cruzamento das linguagens sociais com suas especificidades no texto, visto que o narrador sempre media essa manifestação.

Assim, chegamos à conclusão final de que Dois irmãos engloba a maioria das características atribuídas por Bakhtin ao romance. Trata-se da maioria e não da integralidade por conta da não aparição direta das linguagens diversas que configuram o plurilinguismo, ao mesmo tempo em que é claro o aparecimento da multiplicidade de estilos e de vozes, subordinados à voz do narrador, como pudemos demonstrar nesse capítulo, constituindo um romance monológico.

O dialogismo, outro dos conceitos aqui abordados, também se mostrou marcante na organização da narrativa, tanto no que diz respeito ao efeito da resposta antecipada, representada pelo cuidado que o narrador tem ao manifestar para seu leitor seu ponto de vista e criar os efeitos de mistério que permeiam o livro,

103

É importante mencionar que essa especificidade do plurilinguismo foi apontada pelo professor doutor Caetano Galindo, na defesa do projeto desta dissertação.

como o do diálogo com diversas obras da literatura, visão do conceito apontada por Paulo Venturelli.

A escolha da teoria de Bakhtin para ser utilizada como foco nesse capítulo se justifica pela grande importância que o “outro” exerce no momento da manifestação do discurso. É notável essa característica no narrador de Dois irmãos, que também abre espaço para a reflexão de outros dos conceitos bakhtinianos, resultando numa importante oportunidade de discussão da apresentação dos discursos, línguas e vozes num romance.

Em suma, apresentar esses conceitos vai ao encontro do objetivo principal deste capítulo, que era o de reflexão acerca da teoria do romance proposta por Bakhtin, a fim de servir como apoio para a discussão que acontecerá no próximo capítulo, em que serão trabalhados aspectos pontuais do romance, levando-se em conta as diversas vozes que influenciam o narrador de Dois irmãos.

CAPÍTULO III - AS VOZES E O NARRADOR: NAEL E SUAS FONTES DE