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OS CONCEITOS DE RELIGIÃO, RELIGIOSIDADE E ESPIRITUALIDADE

O conceito de religiosidade é um termo considerado complexo para ser descrito. Pode ser utilizado tanto para o aspecto individual, quanto para o coletivo. Entretanto, considerando-se a relevância do tema e o seu importante impacto na vida das pessoas e dos grupos, a dificuldade conceitual deste campo não pode ser motivo para se deixar de estudá-lo, como parece ter sido interpretado por muitos

estudiosos em psicologia durante anos a fio ao longo de pelo menos metade do século XX.

Conforme aponta Freitas (2013), depois de um período de recuo, recentemente o tema da religiosidade tem despertado um significativo interesse por parte dos pesquisadores, embora ainda sejam muito raros os estudos sobre o assunto voltados especificamente para o período da adolescência.

Freitas (2013) assinala que, no mundo todo, como ilustram diversos levantamentos da literatura desenvolvidos com adultos e idosos, diversas pesquisas têm demonstrado a estreita relação entre religiosidade e saúde e que a crença religiosa e a fé muitas vezes atuam como suporte para enfrentamento de estresse e do tratamento no campo médico.

É importante esclarecer com quais conceitos iremos trabalhar ao longo deste projeto. Pretendemos adotar como ideia central para abordar a religiosidade da adolescência o Esboço da Teoria de Amatuzzi (2001a), pois consideramos que os conceitos propostos por ele são os que mais se aproximam de nossa perspectiva e do modo como pretendemos conduzir o tema da religiosidade com os adolescentes. Segundo este autor, a experiência religiosa tem um papel fundamental para a vida do adolescente, pois ocorre um maior significado de “sua nova relação com o mundo” de valores, do senso de coletividade, do qual ele identifica e define “a si próprio e consequentemente seus próprios conceitos” (op.cit, p. 48).

O autor analisa neste esboço sobre a adolescência: gradativamente os adolescentes que vão desenvolvendo maior “confiança” e conseguem superar melhor os conflitos que chegam até eles e despertam para “novas experiências”, no compartilhar destas experiências, muitas delas podem vir a ser articuladas com suas “concepções religiosas”. Ele também descreve o termo religião como uma “Organização externa, mais ou menos coerente, de crenças, valores, mitos e ritos que giram em torno de um enfoque da questão do último” (AMATUZZI, 2001a, p. 48). O que o autor pretende esclarecer que é a definição de religiosidade pode se ancorar sobre uma existência histórica, em um contexto social e que algumas pessoas aderem a este contexto no sentido de integrar um corpo social, mas o que a define é a experiência subjetiva de cada pessoa, o modo como internaliza os valores da religião que recebeu da sociedade. A religiosidade pode ser considerada, para o adolescente, o modo como este organiza o seu próprio sistema de crenças, que pode ou não estar formalmente vinculado a uma religião específica. O autor ainda

complementa, ao esclarecer melhor sobre o termo religiosidade, referindo-se aos termos como “último”, “divino” “absoluto”, “sagrado”, “numinoso”, “transcendente”, entre outros termos com significados empregados por estudiosos como filósofos, antropólogos e psicólogos da religião, no sentido de caracterizar o objeto ao qual é destinada a crença e a fé que sempre caracteriza a religiosidade e o fenômeno religioso.

Freitas (2012, p.195) esclarece-nos sobre os temas citados acima, correlacionando-os também a outro termo que lhe é correlato e muito empregado na literatura, às vezes como sendo diferente outras vezes, como sinônimo de religiosidade, espiritualidade, o qual, viezes se contextualizam numa perspectiva fenomenológica, será sempre voltado exclusivamente para experiência humana, ou seja, a experiência dos homens enquanto pessoas, e o modo como esta se relaciona a fatores de suas vidas e realização pessoais, incluindo-se as crenças numa dimensão que os transcende. Assim, religiosidade e espiritualidade são temas que se aproximam, sendo relacionados não apenas ao contexto religioso, mas também aos aspectos artístico e filosófico.

Para melhor entendimento se faz necessário considerar o ser humano como um ser composto por níveis articulados, tais como o corporal, o psíquico, o social e o espiritual, do qual vive em uma determinada cultura, configurada como social, ou seja, a cultura compõe um campo que configura o ser humano, embora não o determine. O espiritual é uma das formas pelas quais se configura, em íntima conexão com os demais.

Segundo Marques (2010), nas décadas anteriores, o estudo sobre a religiosidade e a espiritualidade na vida de adolescentes foi negligenciado tanto na Psicologia da Religião quanto na Psicologia do Desenvolvimento. Contudo, a autora aponta “evidências” mais recentes no sentido de maior interesse voltado para religiosidade por parte do adolescente, de sua relação com a saúde e educação, sendo que “do ponto de vista do desenvolvimento do adolescente, parece importante que se possa focalizar como a religiosidade interage com outros aspectos da vida” (MARQUES, 2010, p.04).

A autora destaca em um recente trabalho (MARQUES, 2013), que a espiritualidade pode alterar drasticamente a interconexão na forma em que ocorrem os relacionamentos humanos, levando à possibilidade de reverter a crise de valores na sociedade atual. De todo modo, a espiritualidade não tem necessariamente

relação com a religião, embora a espiritualidade seja característica de todo ser humano, que pode ser cultivada ou não; em linhas gerais.

Não obstante, há uma contextualização importante a ser feita, em especial na cultura brasileira, e mais especialmente ainda, entre os jovens: “a revelação de crenças vem acompanhada do medo do julgamento e da crítica dos seus pares” (MARQUES, 2013, p.224). Numa sociedade que sofre os impactos da secularização, os jovens podem cultivar uma espécie de religiosidade privada ou exercitarem, ainda, uma espécie de “extirpação da crença religiosa da própria personalidade”, especialmente no meio acadêmico, como pode ser observado em pesquisa realizada por Freitas (2002) com jovens universitários, estudantes de psicologia.

Outro relevante estudo sobre o tema da religiosidade, discutido recentemente por diversos autores, é apresentado neste contexto por Aquino (2013), no qual ele aborda que dentre as formas distorcidas de religiosidade, encontramos dois pólos antagônicos “no primeiro caso advoga que não há religiosidade superior ou inferior, e já no segundo caso, a postura seria de reprimir uma religiosidade recalcada no inconsciente” (AQUINO, 2013, p. 139). O autor acrescenta que, apesar dos possíveis conflitos, tanto a religião quanto a religiosidade são temas que podem ser compreendidos, de forma mais ampla como manifestações saudáveis do ser humano.