MATERIAIS E MÉTODOS
CAPÍTULO 1 Segregação Urbana
1.1. Os conceitos de Segregação e a Cidade Global
O uso do termo segregação, como conceito, implica no entendimento
Bógus (2008) indicam algumas visões teóricas principais para
abordarmos o conceito de segregação:
1. A partir da análise social do espaço da “Escola de Chicago”,
desenvolvida por Robert Park e Ernest Burgess, onde a ecologia
humana explicaria a distribuição da população nas cidades1, a
segregação seria a localização específica de determinado grupo social a
partir de afinidades raciais, étnicas ou de posição social, sendo gerada
por escolhas individuais de gosto e conveniência.
2. A Sociologia Urbana Marxista dos anos 1960 e 1970, encontrada,
sobretudo nos textos de Castells (2000), Lojkine (1972) e Harvey
(1980), enfatiza o papel do Estado como agente social da estruturação
urbana. O Estado como representante dos interesses das classes
dominantes possuiria um papel central na divisão social do espaço da
cidade2. Villaça afirma ainda que a segregação é “um processo
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“[Park e Burgess] Partiram da idéia de existência de “áreas naturais”, a partir das quais se constituíam comunidades homogêneas, com sistemas de valores próprios e relações simbólicas específicas. Segundo Park (1926) essas “áreas naturais” eram encontradas em todas as cidades americanas “de certo tamanho” e o modelo da ecologia seria a principal característica das cidades, organizadas por círculos concêntricos, por onde se distribuíam as atividades administrativas, comerciais, industriais e residenciais. A existência de um “modo de vida urbano” (Wirth, 1928) seria decorrência dessa morfologia espacial, que permitia identificar as comunidades que viviam nas cidades, constituindo unidades de vizinhança com suas redes de ajuda mútua e de relações sociais fundadas na reciprocidade.” (Bógus 2008:2)
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“De acordo com outra concepção, inspirada na Sociologia Marxista, a segregação é a expressão das desigualdades sociais circunscritas ao território das cidades como
necessário à dominação social, econômica e política por meio do
espaço” (2001:150).
3. Dentro da noção de Cidade Global3, caracterizada pela dualidade
social e espacial (Sassen 1991, Mollenkopf & Castells 1991, Sabatini
1998 e Ribeiro 2003), a segregação é entendida como a expressão das
desigualdades sociais urbanas a partir da apropriação desigual da
terra, bens e serviços pelas diversas classes sociais. Segundo Sassen
(1991) a dispersão espacial e a integração global criaram um novo tipo
de estratégia para as grandes cidades (major cities). Com a
identificação de cidades chaves usadas pelo capital global como
“pontos base” na organização espacial e na articulação da produção e
dos mercados (Friedmann 1986), foi organizado um novo arranjo entre
essas cidades globais dentro de uma complexa hierarquia espacial,
onde são elas os locais prioritários para a concentração e acumulação
do capital internacional. Muitos estudiosos (Sassen 1991, Mollenkopf &
Castells 1991 e Préteceille 1994) afirmam que a formação das cidades
manifestação da apropriação desigual de terras, bens e serviços pelas diferentes classes sociais. Nesse sentido, a segregação residencial assumiria características específicas nas sociedades capitalistas, sendo fruto da luta de classes, responsável pela apropriação desigual do território, dos bens de consumo, da habitação em suas diferentes formas.” (Bógus 2008:2)
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Patrick Geddes foi o primeiro estudioso a empregar o conceito de cidade mundial, já em 1915 (1994 – ano da edição brasileira), como cidade com grande concentração de negócios importantes do ponto de vista mundial.
globais traz à tona as principais contradições do capitalismo industrial,
entre elas a polarização espacial e de classes.
A hipótese da cidade global considera que as transformações na
atividade econômica das cidades contemporâneas, onde a importância
da produção industrial é suplantada pela oferta de serviços
especializados, vem gerando uma estrutura social polarizada, tanto em
relação à estrutura de empregos como em relação à renda. A oferta de
empregos estaria dividida em vagas com alta remuneração para
pessoal qualificado e empregos muito mal remunerados e de baixa
qualificação. A essas mudanças na estrutura de emprego
corresponderia uma “nova ordem espacial”, também dual (a Dual City
de Mollenkopf e Castells 1991). Castells e Mollenkopf afirmam também
que a fragmentação social leva à fragmentação urbana.
No modelo da Cidade Global, a estrutura sócio-espacial tradicional da
cidade industrial estaria sendo substituída pela polarização entre
segmentos pobres e ricos, com o desaparecimento da classe operária
tradicional e a reconfiguração das classes médias. Segundo Ribeiro
(2000:16), “o ovo é substituído pela ampulheta com metáfora da nova
estrutura social, o que se expressa na existência de um grande
contingente de trabalhadores dos serviços de pouca qualificação e
baixa remuneração e de desempregados vivendo de ‘viração’, e de um
de serviços e financeira (corretores, advogados, analistas de sistemas,
especialistas em marketing, etc), altamente qualificados e muito bem
remunerados”.
Considerando-se a noção mais geral de Cidade Global, algumas
generalizações podem ser feitas em relação à segregação espacial,
porém é importante destacar a necessidade de entendimento da
matriz sócio-histórica de cada país para o entendimento da segregação
sócio-espacial local de forma aprofundada.
A discussão atual sobre os novos padrões de segregação nas principais
cidades latino-americanas tem se baseado no conceito de cidade-
global. Autores como Svampa/Argentina (2004), Ribeiro/Brasil (2006)
e Hidalgo/Chile (2004 e 2006) apontam a globalização econômica, a
reestruturação das relações sociais sobre novas bases, crise do Estado,
desindustrialização e crescente inseguridade urbana com o
conseqüente aumento das desigualdades e da exclusão social
(aumento das distâncias entre ricos e pobres) como causa da
intensificação da segregação espacial urbana. Os autores tomam
como base o modelo de Cidade Dual delineado por Castells e
Mollenkopf (1991), onde a estrutura social aproxima-se do formato de
uma ampulheta, com mais ricos e pobres e praticamente sem classe
Segundo Ribeiro, a segregação espacial pode ser entendida de duas
formas, como a “diferença de localização de um grupo em relação aos
outros grupos” ou como a existência de “chances desiguais de acesso
aos bens materiais e simbólicos materializados na cidade”. (2005:94)
Para Préteceille (1994) a teorização mais elaborada sobre as cidades
globais tem como hipótese central a existência de um vínculo
estrutural entre as transformações econômicas e a dualização social e
urbana. O autor não concorda com a generalização do aumento do
dualismo apontando que, apesar do aumento da desigualdade de
renda na cidade, as atividades mais globalizadas representam uma
pequena parte do emprego total e determinadas ocupações médias, na
realidade, sofreram aumento nos anos 80. A introdução de novas
tecnologias aumenta a demanda por qualificação superior, mas
também por categorias médias técnicas e qualificadas, não gerando
necessariamente o efeito “ampulheta”. No caso de Paris, os espaços
mais polarizados (ricos e pobres) concentram 42% da população,
enquanto a maior parte da população, quase 60%, vive em espaços
mais complexos (médios). A principal característica da Cidade Global
seria a visibilidade do contraste social, fonte de tensões sociais e