CAPÍTULO I I– Os trilhos da descentralização da educação 1 Penetrando num novo paradigma
1.1 Os conceitos de escola e de sociedade educativa ao longo dos tempos
Para que seja possível um entendimento rigoroso sobre os argumentos que justificam que se tivesse chegado à fase actual em que se assiste a um processo de descentralização da Educação, é necessário percorrer algumas etapas da evolução que a Escola e a sociedade educativa sofreram ao longo dos tempos. Isso significa proceder a um enquadramento da sua evolução histórica uma vez que, conhecê-la é ir mais além do simples conhecimento do passado porque se transforma numa via para explicar também o presente. Possibilita, ainda, proceder ao contexto e caracterização das directrizes que foram orientando as diferentes políticas educativas.
Este périplo pelas principais etapas da História da Educação, inserem-se, por conseguinte, na opinião veiculada por Durkheim: O presente, com efeito, no qual somos
convidados a nos fecharmos, o presente não é nada por si próprio; não é senão o prolongamento do passado, do qual não pode ser separado sem perder em grande parte todo o seu significado. O presente é formado por inúmeros elementos, tão estreitamente encavalitados uns nos outros que nos é muito árduo apercebermo-nos onde um começa ou outro acaba, o que é cada um deles, quais as suas relações; não temos, pois, por observação imediata, senão uma impressão turva e confusa. A única maneira de os distinguir, de os dissociar, de introduzir um pouco de clareza nessa confusão é a de procurar na História como eles vieram progressivamente a se acrescentar uns aos outros, a se combinar e a se organizar (1904 In Teodoro, 2002). Para além disso, é
impossível dissociar-se a História da Educação do que foi a evolução da sociedade humana, pois, como afirma Edgar Faure ao apresentar os resultados da investigação da Comissão Internacional para o Desenvolvimento da Educação, (...) uma das conclusões,
para não dizer uma das teses do presente relatório é a de que o passado exerce poderosas influências sobre a educação; com efeito, por um lado, a evolução da educação é função da evolução histórica das sociedades, por outro, contém numerosos vestígios de períodos findos (...) (1977:43 In Carmo, 1997),.
Tal como a História da Humanidade aparece dividida em períodos bem delimitados, de acordo com as características que as tornam distintas, também, segundo
Carmo, se pode considerar que a História da Educação se inscreve em três etapas: a
educação nas sociedades pré-industriais, na sociedade industrial e na sociedade de informação (1997).
No que diz respeito à primeira etapa – a Educação nas Sociedades Pré- Industriais – Carmo considera que o homem é o animal menos especializado da
Natureza (1997). Porém, citando Morin, dá-nos a saber que para suplantar tal fraqueza,
o homem desenvolveu uma surpreendente capacidade de se adaptar ao meio, o que só foi possível através do máximo aproveitamento do seu cérebro. Essa sua capacidade de adaptação ao meio acabou por ser transmitida às gerações vindouras através de um processo: a Educação. Foi através dela que o homem foi transmitindo os seus conhecimentos que permitiriam às sociedades humanas futuras não partir do zero mas de um nível de conhecimentos que se tornou suporte de conhecimentos cada vez mais evoluídos (1975 In Carmo, 1997).
A educação dos jovens, nesta fase, torna-se o instrumento central para a sobrevivência do grupo e a actividade fundamental para realizar a transmissão e o desenvolvimento da cultura. Mais tarde, a divisão educativa segue a mesma linha da divisão do trabalho, apoiada na divisão de género, especialistas do sagrado e grupos de produtores. A aprendizagem passa a ser feita já em locais específicos tais como nos diversos locais de trabalho (oficinas e campo) ou mesmo onde se desenrolavam os rituais.
Nas sociedades onde ainda não era conhecida a escrita, a educação era algo intrínseco à vida quotidiana porque era múltipla e contínua; dirigia-se simultaneamente
ao carácter, às aptidões, às capacidades, à conduta, às qualidades morais do indivíduo, que se educava a si próprio, em simbiose, mais do que era educado. Vida familiar de grupo, trabalhos ou jogos, ritos, cerimónias - tudo era, no fim do dia, ocasião de se instruir. Dos cuidados maternais às lições do pai caçador, da observação das estações à dos animais domésticos, das narrações dos mais velhos aos feitiços do curandeiro... Estas modalidades de aprendizagem não formais, não institucionalizadas, prevaleceram até aos nossos dias (Faure, 1977:45).
Nessas mesmas sociedades a aprendizagem fazia-se através da passagem de testemunho pelos elementos mais idosos – os anciãos – e através dos rituais de passagem, os quais permitiam a cada membro do grupo aceder a um novo estado, para o qual tinham de adaptar novas atitudes e novos comportamentos. Participar nesses rituais significava ser detentor de determinados conhecimentos, os quais eram adquiridos através de vivências sociais.
O aparecimento e generalização da linguagem escrita, vem criar novas necessidades para que se processe a Educação. É que, como diz Faure, (...) a
aprendizagem da leitura supõe muito naturalmente a presença de jovens reunidos à volta de um professor (1977:47). Se o uso da escrita veio permitir alargar o leque das
aprendizagens, também, segundo o mesmo autor, acabou por ter efeitos negativos uma vez que fez nascer a ideia de que (...) a palavra escrita - e a sua recitação textual - seja
a expressão de toda a ciência digna deste nome, (...) deprecia o saber recebido na vida quotidiana (...) (1977:47). Por outras palavras isto significa que se passou a desvalorizar
o tipo de conhecimentos que se integram no que vulgarmente é designado por escola da
vida, uma vez que só os conhecimentos livrescos é que passaram a ser valorizados pela
sociedade. Tal concepção de saber, esteve na origem do aparecimento de dois grupos distintos, designados por Carmo como detentores do saber e os que o não detinham (1997). Deste modo, pode concluir-se que o aparecimento dos professores (mestres) e alunos se deu, ainda, nas sociedades pré-industriais.
Segue-se o período da Educação na sociedade industrial, onde se passa a estabelecer, segundo Faure (1977:52 In Carmo, 1997), (...) uma relação directa entre o
progresso da indústria e a vulgarização da instrução. A ida das crianças para as
fábricas criou a necessidade de os preparar para as suas novas funções, o que acabou por levar à denominada educação em massa baseado em três grandes áreas de aprendizagem: pontualidade, obediência e trabalho maquinal (Faure, 1977:42 In Carmo 1997).
A sociedade industrial para além de ter feito surgir a educação em massa, deu também origem ao sistema de ensino padronizado que seguia de muito perto o tipo de ensino ministrado noutras instituições como é o caso das instituições militares e religiosas. Neste último caso, é importante destacar o facto de que a leitura da Sagrada Escritura foi, assumidamente, uma via para a melhoria do desempenho da leitura e da escrita.
Finalmente, seguindo a assunção de Carmo segue-se a fase da Educação da sociedade de informação (1997), a qual se começou a impor a partir da segunda metade do século XIX, marcada por uma série de alterações que provocaram mudanças ao nível dos conteúdos do ensino e forma como passaram a ser ministradas.
Relativamente ao conteúdo do ensino, Rosnay considera que actualmente se vive uma crise provocada pelo excesso de produção de conhecimentos, (1977:219 In Carmo,
1997). Esta situação acabou por levar alguns autores a defenderem a ideia de que seria mais útil que o ensino privilegie a aprender a aprender de modo a conduzir ao
aprender a ser (Faure, 1977: 31). Deste modo, o ensino deixaria de ser um mero depósito bancário dos conhecimentos de uns – os professores – na conta de outros – os alunos (Paulo Freire In Carmo, 1997).
Mas, como qualquer processo de mudança, o tipo de educação actual, acaba por enfermar de alguns aspectos menos positivos. Nesse âmbito é de destacar a noção defendida por alguns autores de que existe um desajustamento entre as necessidades educativas e o que se ensina. Isto, é considerado como promotor de uma sociedade marcada pelos denominados alfabetos funcionais que, apesar de terem determinado nível de escolaridade, a verdade é que não são capazes de ler, escrever e realizar cálculos simples, de acordo com as solicitações da sua vida quotidiana (Naisbitt, 1988:46). Por outro lado, é impossível escamotear um problema que afecta cada vez mais os jovens que frequentam o Ensino Secundário, ou seja, o absentismo e o abandono escolar precoce. Tal é um efeito da procura cada vez mais cedo do mercado de trabalho. Porém, os factores anteriormente referidos acabam por ser um impedimento para que possuam a preparação necessária para desempenharem tarefas exigidas na vida activa (Naisbitt, 1988:46). Na opinião de Carmo, ainda existe um outro aspecto que serve para agravar ainda mais esta crise. O autor refere-se às solicitações cada vez maiores por parte da sociedade de informação que exige um pleno domínio das novas tecnologias de informação e comunicação. Decorrente desta educação insuficiente, poderemos estar perante uma geração de analfabetos informáticos (1997).