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Os conceitos estruturantes de Esfera Pública e Hegemonia:

De acordo com o filósofo da ciência James Conant (1951), a marca distintiva de uma teoria de sucesso é a sua capacidade para gerar continuamente novas questões e identificar novos percursos de pesquisa acadêmica. Este critério certamente se aplica aos conceitos de Esfera Pública e Hegemonia que garantiram até hoje amplo espaço para discussão, servindo de referencial teórico para diversos trabalhos nas áreas da Ciência Política, da Comunicação Social, e na interação entre esses dois campos.

Para compreender melhor o presente estudo, optamos por recorrer ao conceito de Esfera Pública pela perspectiva que ele lança sobre o papel dos meios de comunicação nas democracias modernas. No projeto, a concepção de que a imprensa, como parte dessa esfera, se encontra no espaço intermediário entre a sociedade civil e o Estado norteará os critérios de atuação benéfica ou deletéria dos meios de comunicação brasileiros.

Elaborado pelo filósofo alemão Jürgen Habermas, em sua obra Mudança Estrutural da Esfera Pública, de 1962, o conceito de Esfera Pública se tornou um marco para os estudos das teorias e da filosofia política contemporânea. Ela pode ser entendida como a esfera das pessoas privadas reunidas em um espaço público para debater assuntos publicamente relevantes. O meio para essa discussão seria, segundo o autor, a argumentação racional dos assuntos de interesse público.

Habermas explica que as origens da esfera pública estão centradas na esfera íntima da família burguesa, para depois se tornar o espaço intermediário entre o indivíduo e a sociedade. Localizado historicamente no século XVIII, principalmente na Inglaterra e, em menor escala, na França, o surgimento deste novo espaço está relacionado à consolidação

das cidades como novo centro vital da sociedade, além da ascensão de uma burguesia revolucionária em detrimento das Cortes palacianas. Nesse sentido, o filósofo ainda completa:

A “cidade” não é apenas economicamente o centro vital da sociedade burguesa; em antítese política e cultural à “corte”, ela caracteriza, antes de mais nada, uma primeira esfera pública literária que encontra as suas instituições nos coffee-houses, nos salons e nas comunidades comensais. Os herdeiros daquela sociedade de aristocratas humanistas, em contato com os intelectuais burgueses que logo passam a transformar as suas conversações sociais em aberta crítica, rebentam a ponte existente entre a forma que restava de uma sociedade decadente, a corte, e a forma primeira de uma nova: a esfera pública burguesa43.

A título de esclarecimento, Habermas apresenta graficamente a estrutura básica da esfera pública burguesa do século XVIII em um esquema dividido por setores sociais: Fig. 1 – Estrutura da Esfera Pública

Bem entendido, a imprensa – como parte integrante da esfera pública – encontra-se no espaço intermediário entre o indivíduo e o Estado, realizando a mediação entre a sociedade e o poder estatal. A esfera privada compreende a sociedade civil burguesa em sentido mais restrito, como o setor de troca de mercadorias, do trabalho social, e da família

43 HABERMAS, Jurgen. Mudança estrutural da Esfera Pública. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1984. p. 45.

e sua esfera íntima. A esfera pública política provém, portanto, da literária, fazendo a ponte entre o Estado e as necessidades da sociedade por meio da opinião pública.

Habermas acrescenta que a multiplicação de jornais e revistas verificadas no contexto do século XVIII é explicada pela consolidação de uma imprensa literária voltada a atender o grande público dos novos centros urbanos. Segundo ele, estes mesmos jornais também serviram para garantir a coesão dos círculos dos coffee-houses e saloons. O autor ressalta que essas novas revistas estão ligadas tão intimamente com a vida nos cafés que ela poderia ser reconstruída através de cada número. Os artigos de jornais não só são transformados pelo público dos cafés, mas também entendidos como parte integrante deles.

Essa visão coloca em perspectiva a importância dos meios de comunicação no embate entre idéias e forças políticas. Partindo da premissa básica de igualdade entre os membros dos círculos nos espaços públicos, Habermas atenta para a mudança estrutural – ou deterioração – da esfera pública na medida em que o burguês que compunha este espaço não se mostrou despido dos seus interesses e de sua classe. A esfera se deslocou, portanto, do seu lugar inicial, a sociedade civil, para o Estado na forma do parlamento.

Dessa forma, o que antes era o conjunto de pessoas privadas discutindo o que é público se tornou um grupo de pessoas públicas discutindo interesses privados, ou seja, uma privatização do público. Todavia, embora Habermas ofereça com isso uma perspectiva norteadora para o entendimento da origem da função desempenhada pelos veículos informativos, o marco teórico desenvolvido por ele não inclui a idéia – mais aproximada da realidade atual dos meios de comunicação – de um embate travado por atores dotados de influência e carga simbólica diferenciada.

É nesse sentido que o conceito de esfera pública será complementado no presente trabalho pela noção de Hegemonia proposta por Gramsci. Segundo o pensador italiano, define-se este conceito como a direção política e cultural que um determinado grupo social exerce nos aparelhos privados de hegemonia, ou seja, na sociedade civil. A hegemonia é, assim, a capacidade da classe dirigente de conquistar a adesão de setores subalternos ao seu

projeto político e cultural e à sua concepção de mundo, garantindo o consenso ativo entre os governados44.

Cabe ressaltar que a hegemonia não é apenas o nível articulado superior de ideologia, nem são as suas formas de controle vistas habitualmente como manipulação ou doutrinação: é todo um conjunto de práticas e expectativas sobre a totalidade da vida. Desse modo, de acordo com Williams, a eficiência de um projeto hegemônico depende da capacidade dos grupos dominantes de incorporar os interesses e demandas das classes subalternas, modificando e recriando constantemente as relações de hegemonia.

É um sistema vivo – constituído e constitutivo – de significados e valores que, ao serem experimentados como práticas, aparecem como reciprocamente confirmadores [...] É, no sentido mais forte, uma ‘cultura’, mas uma cultura que deve ser considerada também como a dominação e subordinação vividas de classes particulares45.

Assim sendo, a classe dominante tende a ser a classe hegemônica nos planos político e cultural. Mas a disputa pela Hegemonia é um processo histórico e contínuo, uma disputa permanente de posições na sociedade civil, não se tratando de um processo mecânico em que a classe dominante impõe sua ideologia às classes dominadas. Como completa Gramsci:

O fato da hegemonia pressupõe indubitavelmente que se deve levar em conta os interesses e as tendências dos grupos sobre as quais a hegemonia será exercida; que se certo equilíbrio de compromisso, isto é, que o grupo dirigente faça sacrifícios de ordem econômico-corporativa. Mas é indubitável também que os sacrifícios e o compromisso não se relacionam com o essencial, pois se a hegemonia é ético-política também é econômica; não pode deixar de se fundamentar na função decisiva que o grupo dirigente exerce no núcleo decisivo da atividade econômica46.

44 PORTO, Mauro. Meios de Comunicação e Hegemonia: O papel da televisão na eleição de 1992 para prefeito de São Paulo. Dissertação de Mestrado. Brasília, 1993.

45 WILLIAMS, Raymond. Marxismo y Literatura. Barcelona: Ediciones Península, 1980. pp. 131-132 (Tradução do autor).

46 GRAMSCI, Antônio. Maquiavel, a Política e o Estado Moderno. Citado por M. Porto, 1993, Op. Cit. pp.38.

Gramsci afirma que todos os homens são “intelectuais”, pois mesmo em qualquer atividade física há um mínimo de atividade intelectual criadora; mas nem todos os homens desempenham a função intelectual, ou seja, a atividade específica de produção teórica. Para o pensador italiano, todo homem é um filósofo e um artista que participa de uma concepção de mundo, contribuindo assim para manter ou criar novas formas de pensar a realidade.

Porto (1993) acrescenta que a filosofia das grandes massas é o senso comum, uma concepção desagregada e incoerente que resume o pensamento genérico de uma certa época em um certo ambiente popular. Detentor de características dispersas e difusas, o senso comum possui uma relação estreita com a religião, que fornece os seus elementos principais. Este conhecimento constitui a concepção de mundo fragmentada das grandes massas, tornando-as ideologicamente homogêneas.

Preenchendo lacunas que se tornaram evidentes com as mudanças estruturais na Esfera Pública, o conceito de Hegemonia é constituído pelo processo histórico marcado essencialmente pela negociação simbólica entre grupos com poderes desiguais. Esse embate de significados e valores é travado a todo o instante da vida cotidiana, seja em casa, no trabalho ou nos meios de comunicação, estabelecendo determinadas concepções a respeito da realidade social.

O papel desempenhado pelos veículos informativos ganha especial relevância pela centralidade na definição dos temas (agendamento) e na forma como eles são contextualizados na realidade social (enquadramento). Com base nesses pressupostos, a análise da cobertura internacional dos veículos brasileiros no Segundo Conflito no Iraque propiciará, em uma visão ampla, o vislumbramento das negociações simbólicas que se realizam diariamente entre diversos grupos e que influenciam as concepções e os valores que utilizamos no entendimento de assuntos políticos e sociais.