Na Psicanálise, de Freud a Lacan, o interesse está voltado justamente aos pontos em que a língua falha, quando um tropeço no discurso do sujeito aponta ao analista a intervenção do inconsciente. É a descoberta de Freud, através da qual ele constatou que o inconsciente é estruturado como uma linguagem, que permitiu a Lacan teorizar sobre o funcionamento do
inconsciente a partir de sua relação íntima com a linguagem, de onde foi possível perceber uma possível analogia entre certos processos que organizam as leis dessas duas instâncias. Como disciplina que atravessa o quadro epistemológico da AD (FUCHS & PÊCHEUX, 2014 [1975]), a psicanálise torna-se fundamental na maneira como concebemos o discurso, a língua e o sujeito.
Normand (2009b, p. 57), na linha de raciocínio que acompanha o exposto acima, expôs essa relação no terreno da Linguística, mostrando em que pontos a língua tem a ver com o inconsciente e, com base nessa analogia, de que formas podemos aproximar a teoria freudiana dos postulados saussurianos. Com foco na reflexão sobre a metáfora, a linguista apresenta as relações complexas entre a língua e o inconsciente – os quais ela chama de sistemas – quando há uma sobredeterminação constante dos processos inconscientes agindo sobre a pré-consciência dos falantes no uso da língua; “há um trabalho próprio do inconsciente que se manifesta particularmente na produção de ‘rebentos’ que influenciam de modo permanente”, diz a autora.
Ao citar Freud, na obra Les mot d’ esprit, Normand salienta o fato de que tanto na consciência dos homens normais como na dos neuróticos as irrupções permanentes são materializadas através de formações fantasmáticas, as quais acontecem sob a forma de representações substitutivas. E a metáfora torna-se, por essa via, expressão da linguagem, substituta de uma ausência, afastando-se da ideia de sentido original. Considerando-se a polissemia como a lei da linguagem, o que pode ser percebido, nos lembra a autora, nas reflexões saussurianas sobre o valor e em seus estudos sobre os anagramas, o trabalho sobre o eixo associativo leva a pensar o não-dito como fundamental à produção de sentido.
Tal forma de percepção do liame entre a língua e o inconsciente põe em questionamento o esquema da comunicação, afasta-se dele, pois ao se levar em consideração esse modo constitutivo de funcionamento, “o papel da metáfora se encontra completamente subvertido, já que ela aparece como um dos meios pelos quais se dá a entender o que não era destinado conscientemente à informação” (NORMAND, 2009b, p. 59). Como é possível perceber, a produção metafórica da linguagem diz respeito ao fato de que o referente de uma palavra passa necessariamente por um desvio, sofrido pela intervenção do inconsciente. A garantia de uma denominação exata é perdida e, pelo fato de essa relação ser constitutiva de toda produção de linguagem, não há negatividade nesse processo, ou seja, os pontos em que a fala derrapa e a língua falha passam a ser considerados essenciais à interpretação, diferente do modo como foi visto na teoria jakobsiana.
Por esse caminho, a psicanálise lacaniana apresenta um percurso que parte de Freud e busca na linguística estrutural de Saussure a via para avançar a Psicanálise na técnica de interpretação, a qual subjaz ao laço estreito entre a língua e o inconsciente. O ponto de subversão à teoria saussuriana acontece no momento em que Lacan reconfigura a relação entre significante e significado no signo linguístico, dando primazia ao significante. O autor apresenta a transformação da fórmula linguística sobre a composição do signo, colocando o significante sobre o significado, a fim de demonstrar que a barra que os separa existe justamente para barrar o significado e, ao mesmo tempo, ser ultrapassada por ele no jogo discursivo.
No seminário 3, entre os anos de 1955 e 1956, dedicado ao estudo sobre as psicoses, Lacan (1985) aprofunda a reflexão sobre o significante, o que dá base a sua teoria sobre a metáfora. E o fato de a estrutura ser inseparável do significante revela a importância deste nos processos de produção de sentido, funcionamento este que permite ao psicanalista aproximar as leis do inconsciente às leis da linguagem, com base na teoria freudiana.
Ao deslocar a subjetividade da consciência do ser falante para o real, ele diz que “todo significante é, enquanto tal, um significante que não significa nada.” (LACAN, 1985, p. 212). E pelo fato de a subjetividade estar presente no real, no inconsciente, toda vez que interagimos no simbólico, enquanto sujeitos submetidos a sua ordem – que é a do significante – no uso da língua, o fazemos “não para significar algo, mais precisamente para enganar sobre o que se tem de significar.” (Idem, p. 213). Vemos aí uma linguagem que está a serviço da castração, quando a língua, cujo domínio é o espaço do simbólico, mostra algo ao mesmo tempo em que recalca um conteúdo que permanece no inconsciente, produzindo sentidos.
Porque possui independência em relação ao significado, funcionando a partir de suas leis próprias, o significante existe como um vazio que barra as significações. Contudo, com a entrada do sujeito no simbólico, a significação é interpretada, causando a ele uma impressão de realidade que coincide com a verdade, permitindo-lhe ser, viver. Essa significação, resultado da substituição de um significante por outro, rompe a barreira que os separa – sob a forma de um significante presente. E a presença desse significante medeia, no jogo estabelecido pela linguagem, a relação entre o imaginário de verdade, advindo dela, e os outros significantes ausentes, que ficam latentes no real, pulsando e, em alguns momentos, cutucando o simbólico para se fazer presentes na forma de um outro significante.
Este funcionamento constitutivo, de soberania do significante como determinante da significação, coloca em cena o sujeito dividido, entre o que significou no espaço do simbólico e aquele que permaneceu na zona obscura do real, cuja estrutura permanecerá nas bordas da
língua, num lugar onde a verdade fala, na alíngua, de acordo com o que foi trazido sobre a leitura milneriana.
A fim de demonstrar esse funcionamento dialético que se dá entre significante e significado na relação entre língua e inconsciente, Lacan busca na retórica as figuras da metáfora e da metonímia, impossíveis de serem pensadas separadas, para dela se distanciar. É nesse momento que o psicanalista estabelece um paralelo entre a psicose e as afasias de Jakobson, para dele se afastar a partir, mais uma vez, da consideração pela primazia do significante. Assim como Normand, Lacan considera que as falhas que constituem a língua é algo que produz sentido, portanto positivo à interpretação, afastando-se do esquema comunicacional que prevê a língua como um sistema homogêneo capaz de servir de instrumento a uma comunicação pura.
Para Lacan (1985), o jogo de articulação discursiva é o que permite o deslizamento do significado na cadeia de significantes, configurando o caráter posicional das palavras como determinante na produção dos sentidos. Trata-se de uma questão de sintaxe, portanto da ordem do significante. Ele salienta o fato de que, apesar de o significado sempre ser colocado em primeiro plano por ser mais sedutor, é preciso levar em consideração o papel do significante como elemento-guia na compreensão dos fenômenos neuróticos e psicóticos. É então que, ao lado da metáfora, enquanto produtora de sentidos, aparece a metonímia, como um recurso da linguagem responsável por articular o dito com o não dito, ou seja, pôr em relação o significante que ganhou corpo na língua e aquele que foi substituído e permaneceu na estrutura do inconsciente. Lacan nos dirá:
A forma retórica que se opõe à metáfora tem um nome – ela se chama metonímia. Ela concerne à substituição de alguma coisa que se trata de nomear – estamos, com efeito, ao nível do nome. Nomeia-se uma coisa por outra, que é o seu continente, ou a parte, ou o que está em conexão com. (LACAN, 1985, p. 251).
Observemos que a escolha da expressão “se opõe”, nessa passagem, não serve para dizer que metáfora e metonímia se excluem, mas, pelo contrário, que elas se articulam constantemente no discurso. Para que o sentido possa ser considerado como um efeito, devido ao deslizamento constante do significado sob o significante, isto é, para a metáfora ser constitutiva, é preciso que algo apareça na língua como parte de um todo o qual não pode se fazer presente, porque precisa ser escondido da consciência do sujeito, permanecendo no inconsciente. Tal oposição serve, na verdade, para salientar o papel do significante na metáfora, como o fez Freud ao analisar os fenômenos atinentes à neurose e aqueles da vida normal ou do sonho – salienta Lacan (Idem, p. 252). “A estruturação, a existência lexical do
conjunto do aparelho significante, são determinantes para os fenômenos presentes na neurose, pois o significante é o instrumento com o qual se exprime o significado desaparecido”, nos diz o autor.
Conforme aponta Lacan (1985), Freud tratou dos mecanismos de substituição e de deslizamento associativo do conteúdo a ser representado (latente) através dos conceitos de condensação e deslocamento. O deslocamento estaria para a metonímia, pois aparece como um representante simbolizado que desliza sob a barreira da censura para despistá-la, representando parte (conteúdo secundário) de um todo (primário) que ficou no nível inconsciente; enquanto a condensação equivaleria ao funcionamento da metáfora, já que ocorreria a substituição de um significante por outro, através da transposição da barreira da censura, dando forma a uma imagem representativa (manifesta) e condensada do conteúdo inconsciente. De acordo com Plon e Roudinesco, no Dicionário de Psicanálise (1998), estes representam os principais mecanismos de funcionamento do inconsciente, reconhecidos por Freud em seu estudo sobre os sonhos.
Essas distinções, conforme as reflexões de Freud e Lacan, servem justamente para afastar o papel predominante do significado na metáfora, conforme a concepção gramatical, como se ele fosse independente do significante e pudesse estabelecer uma relação direta ente a linguagem e o pensamento, entre a palavra e a coisa. Não há, portanto, sentido original do qual uma palavra se afastaria pela via de uma substituição intencional por semelhança, para garantir a eficácia da comunicação. Mas para que haja a transferência de sentido, ou seja, para que a metáfora possa ser constitutiva, é necessário atentar à primazia do significante, sob o qual os significados não cessam de deslizar na busca pela significação; e isso é possível através de sua estruturação na linguagem, a qual se dá por via da articulação metonímica dos significantes.
Lacan aprofunda essa relação entre articulação e transferência de significado para mostrar o quanto estão intrinsecamente ligados os processos metafóricos e os metonímicos na linguagem, de modo que a metáfora só aparecerá de forma mais formalizada mais tarde, no escrito sobre “A instância da letra no inconsciente” (1998 [1966]). Por ora, ele sublinha a importância de se pensar no funcionamento significante, quando a relevância da ordem das palavras é posta em evidência para se pensar no sentido, originado do batimento entre o significante que articula e faz deslizar o significado, enquanto desejo, e o todo que ele esconde por intermédio de sua função determinante no fenômeno da metáfora. Ele nos diz:
É na base da articulação metonímica que esse fenômeno pode se produzir. É preciso em primeiro lugar que a coordenação significante seja possível para que as transferências de significado possam se produzir. A articulação formal do significante é dominante em relação à transferência do significado. (LACAN, 1985, p. 261).
Segundo as duas propriedades do significante em jogo nas articulações – quais sejam a letra enquanto estrutura localizada do significante e a cadeia composta de anéis que se ligam a outros anéis de outras cadeias significantes – é que se pode perceber a ordem, de acordo com Lacan (1998), das invasões constitutivas do significante. Essa condição estruturante permite à relação entre significantes conduzir a busca pela significação, pois “o significante, por sua natureza, sempre antecipa o sentido, desdobrando como que adiante dele sua dimensão.” (LACAN, 1998 [1966], p. 505). Desse modo, a busca pelo sentido requer a percepção de que a ligação entre o dito e o não dito, da parte com o todo, não está em outro lugar senão no significante.
É no ponto em que um significado é associado a um significante, possível de preencher a cadeia no simbólico naquele momento, que o sentido pode existir como um efeito, de forma que, à revelia do controle do sujeito falante, a subjetividade permanece na cadeia estruturante do real, num espaço entre significantes, enganada pelo significante o qual, na língua, representa a verdade do discurso do/para o sujeito. Esses espaços do subjetivo, que não puderam ser preenchidos, permanecem ali, produzindo sentido até que, no tempo de um estalar de dedos, outro significante possa, ou não, se fazer presente/visível/dito no espaço do jogo das palavras. É esse jogo, portanto, que dá condições às possibilidades de dizer algo diferente (estranho) na estrutura da cadeia significante, quando o sujeito busca a verdade latente no real, apenas aproximando-se dela, sob o funcionamento articulatório da metonímia.
Pela expressão uma palavra por outra, o conceito de metáfora é, então, formalizado por Lacan (1998[1966]), para que definitivamente a ideia de conjunção de dois significantes não seja capaz de defini-la, aos moldes das reflexões advindas da retórica. A fim de esclarecer seu ponto de vista sobre a relação dialética entre significante e significado, materializada na pulsação metáfora/metonímia, nos diz o autor:
A centelha criadora da metáfora não brota da presentificação de duas imagens, isto é, de dois significantes igualmente atualizados. Ela brota entre dois significantes dos quais um substitui o outro, assumindo seu lugar na cadeia significante, enquanto o significante oculto permanece presente em sua conexão (metonímica) com o resto da cadeia. (Idem, p. 510, destaque meu).
E nesse processo de produção metafórica do sentido, cumpre destacar a relação de contiguidade entre o significante substituto e o que permaneceu ausente na cadeia, excluído
provisoriamente com seu significado. Ou seja, a existência de um sentido que surge com a presença de um significante novo não o exime da ligação com o significante anterior e seu sentido.
Resumindo sinteticamente, pode-se dizer que para se compreender o funcionamento do inconsciente, enquanto estruturado como a linguagem, é imprescindível a atenção aos processos metafóricos e metonímicos responsáveis pela produção de sentidos no uso da linguagem, os quais materializam, da maneira pensada pela psicanálise lacaniana, a ligação constitutiva entre a língua e o inconsciente. Desse modo, a teoria psicanalítica se aproxima mais da forma como podemos pensar a metáfora e a metonímia na AD, conforme veremos a na próxima seção.
2.4. DA SINTAXE AO DISCURSO: A METÁFORA E A METONÍMIA NA ANÁLISE DO