• Nenhum resultado encontrado

OS CONCEITOS TRABALHADOS E OS PRESSUPOSTOS TEÓRICOS ADOTADOS

2 EDUCAÇÃO SUPERIOR, FRENTE ÀS MUDANÇAS CONTEMPORÂNEAS

3.1 OS CONCEITOS TRABALHADOS E OS PRESSUPOSTOS TEÓRICOS ADOTADOS

O Capítulo 2 desta tese, que sintetizou a revisão de literatura deste projeto, quando inicia a discussão sobre as mudanças sociais contemporâneas e seus reflexos nas demandas educacionais, coloca que o presente projeto partiu da premissa de que o sistema educacional, componente integrante e fundamental da estrutura social, ao tempo em que contribui para as mudanças sociais, sofre, também, os impactos das dinâmicas da sociedade como um todo. De outra parte, no capítulo onde se delimitou o objeto da pesquisa, assim como ao longo dessa síntese, foram utilizadas expressões como sistema social, sistema educacional, sistema da

educação superior, mudanças sociais, instituição social e outros, que necessitam ser definidas, para que seja guardada a uniformidade necessária desses conceitos entre o seu uso no desenvolvimento, bem como na comunicação desta tese. À luz de algumas teorias no campo das Ciências Sociais, busca-se definir, operacionalmente, estes termos, como, também, explicitar alguns pressupostos teóricos, que foram revisitados nesse campo, a partir de outras leituras, e que serão considerados na análise dos dados desta pesquisa.

O conceito de estrutura social é considerado ponto de partida para a explicação dos fenômenos sociais, pois revela a maneira como uma dada sociedade é constituída como um todo, em seus princípios de organização. Compreende o complexo das principais instituições e grupos de uma sociedade que estabelecem relações sociais entre si (GINSBERG e BOTTOMORE, apud LAKATOS, 1999). A rigor, este conceito está ligado à idéia de sistema, que, genericamente, é o conjunto de elementos, de tal modo organizados, que a mudança em um desses elementos implica em alteração dos demais e do sistema como um todo.

Por sua vez, as instituições e grupos se relacionam com as exigências básicas ou os pré-requisitos funcionais da sociedade e formam diferentes sistemas (político, econômico, familiar, religioso, etc.) que se ligam a essas exigências. A instituição social, portanto, se conceitua como

uma estrutura relativamente permanente de padrões, papéis e

relações que os indivíduos realizam segundo determinadas formas sancionadas e unificadas, com o objetivo de satisfazer necessidades sociais básicas (FICHTER, 1973, apud LAKATOS, 1999, p. 74).

Assim, o sistema educacional constitui-se de um conjunto de instituições e grupos que têm finalidade, conteúdo, organização, valores dirigidos para proporcionar a educação, principalmente, formal dos membros da sociedade. Quando aqui se refere ao sistema de educação superior, na realidade, compreende-se um sub-sistema desse sistema educacional, que se ocupa desse segmento da educação. As instituições de educação superior são aquelas que se incumbem da efetivação das políticas públicas voltadas a esse nível de educação, daí por que adota-se, nesta tese, esta denominação, em vez de instituição de ensino superior. A referência ao ensino superior é feita quando se trata dos processos educativos que se desenvolvem nessas instituições de educação.

Voltando à discussão sobre o conceito de estrutura social, ressalta-se que este termo, no entanto, tem recebido diversas conceituações que, muitas vezes, apresentam proposições diferentes e, até mesmo, contraditórias, sendo que a depender da proposição adotada, obtém-

se entendimentos diferentes quanto ao conceito de mudança social. Nesta tese, evita-se considerar o conceito de estrutura ou sistema social das teorias que apelam para as analogias e metáforas, como o funcionalismo orgânico de Spencer, que compara a sociedade com os corpos e organismos humanos, ou como o funcionalismo estrutural em suas múltiplas vertentes de Radcliffe-Brown, de Talcott Parsons e outros, que enfatizam as funções das partes para a manutenção da ordem, estabilidade das estruturas e que, por isso, ressaltam a importância das normas e valores comuns, com o fim de preservar o seu equilíbrio.

Nesta perspectiva, as mudanças são vistas como desvios, ou disfunções que devem ser corrigidas para recompor a ordem do sistema. Mesmo levando em conta que estas teorias ajudam a explicar que a estrutura social é mais que a soma dos seus indivíduos, e que é preciso considerar a maneira como eles estão relacionados entre si, mesmo que elas defendem que a ação de cada indivíduo pode ser explicada, parcialmente, pela organização dos grupos a que pertence, e que a ação de cada grupo pode ser, parcialmente, explicada pela organização da sociedade, mesmo assim, admite-se que essas teorias pecam pelo determinismo inerente a elas e pela falta da consideração de que as sociedades são criadas e mantidas pelas pessoas que possuem interesses, valores diversos e que, por isso, vivem em constantes conflitos. Assim, uma das principais formas de se compreender as mudanças das sociedades, se constitui na análise dos conflitos de interesses entre os diferentes grupos, oriundos de suas diferentes posições, numa estrutura social e dos benefícios diferenciais que recebem dessas posições ( COULSON; RIDDELL, 1979).

Também os teóricos que têm estudado a aplicação da teoria geral dos sistemas na ciência contemporânea, em domínios como o da Cibernética, das teorias da informação e da comunicação, da Psicologia, e, também, da Sociologia, têm alertado para a inadequação dos modelos mecanicistas e organicistas no tratamento do tipo de sistema representado pela esfera sociocultural, defendendo, para uso desta teoria, a distinção entre sistemas fechados e sistemas abertos, e uma perspectiva antagônica “de processo” nos estudos no campo da Sociologia (BERTALANFFY, 1973 e BUCKLEY, 1976). O modelo de processo considera a sociedade

como uma interação complexa, multifacetada e fluida de graus e intensidades amplamente variáveis, de associação e dissociação. A ‘estrutura’ é uma construção abstrata e não algo distinto no processo interativo em marcha, mas a sua representação é temporária, acomodativa, em qualquer tempo. As sociedades e grupos mudam continuamente suas estruturas como adaptações a condições internas e externas (BUCKLEY, 1976, p. 37).

Assim, nesta tese, adota-se uma perspectiva histórico-estrutural, admitindo que a estrutura social é equilíbrio e é, também, mudança, dada a natureza do fenômeno social, sempre em processo de se estruturar, desestruturar e reestruturar. Com isso, tal processo caracteriza-se por uma dinâmica dialética em que as oposições se definem como forças inovadoras, de um lado, e forças conservadoras, de outro, sendo efetivadas as mudanças através de uma evolução, conceituada como a passagem gradativa de uma fase estrutural para outra, ou de uma revolução, quando, de forma radical, muda-se a estrutura.

É nesta perspectiva que se pretende dirigir as análises dos resultados desta pesquisa. Em um campo específico do sistema educacional, focaliza-se as dinâmicas e as mudanças decorrentes das alterações de outros sistemas, sobretudo do econômico e do político, procurando compreender o papel do Estado na formulação e implementação das políticas educacionais, assim como o papel de outros atores do próprio sistema e de outros setores da sociedade, na efetivação dessas políticas, como resultado da interação e ou confronto de interesses, valores e motivações.

Acrescenta-se, no entanto, que na análise da formulação e implementação dessas políticas, deve-se considerar, também, os efeitos das transformações dos instrumentos de poder e das formas de funcionamento dos Estados capitalistas, nas últimas décadas, transformações decorrentes dos fenômenos característicos dos processos da globalização e da integração supra-nacional nas esferas econômica e política que vem se operando a partir dos anos 70, na maioria dos Estados-Nação. Esses efeitos vão incidir nas formas como estes Estados representados pelos grupos que detém o poder, respondem, através de políticas sociais, aos interesses centrais da acumulação capitalista, de um lado, e aos interesses dos diversos grupos sociais que compõem as classes médias e trabalhadores, por outro (OFFE, 1984, apud GOMES, 2001).

Estas principais premissas teóricas vão nortear a discussão dos resultados desta pesquisa.