7 DISCUSSÃO
7.1 OS CONDICIONANTES DO USO DA ACV E SEU PAPEL
Ao buscar entender o que motiva as empresas a utilizarem a ACV, este estudo teve o intuito de investigar se os motivos já apontados pelos autores que constam no referencial teórico dessa tese, se confirmavam e encontrar eventuais novas motivações contemporâneas. O objetivo também foi o de estreitar o conhecimento sobre quais são os efetivos benefícios que a ACV traz frente à crise ecológica.
Nesta seção os grupos de perguntas que deram embasamento para esta análise e discussão foram as relacionadas ao interesse das empresas pela ACV (c.f. seção 6.2), principais impactos ambientais estudados (c.f. seção 6.3), complexidade de um estudo de ACV (c.f. seção 6.5) e participação na elaboração da ICV (c.f. seção 6.6).
O principal motivo apontado pela pesquisa de campo para a utilização da ACV por parte das empresas foi o relacionado às questões de imagem do produto e da empresa, da disseminação das informações dos produtos (principalmente através da rotulagem ambiental e EPDs) e atendimento dos anseios da sociedade, questões que são citadas também na literatura sobre ACV (c.f. capítulo 3). Aqui fica enfatizado o papel que a ACV tem de atender ao que o mercado pede (considerando neste caso um mercado consciente no que se refere às questões ambientais, “mercado verde”). Desta forma, a empresa passa a ter a possibilidade de fazer comparações com os produtos concorrentes, podendo assim divulgar as vantagens ambientais de seus produtos sobre os disponíveis no mercado.
Outro motivo apontado foi o de que o uso da ACV pode promover a busca de hotspots e processos ineficientes em um esforço pela melhoria contínua dos produtos e serviços oferecidos pelas empresas podendo assim proporcionar uma vantagem competitiva40 à empresa que a utiliza, o que reforça também o papel da ACV como uma ferramenta de apoio à decisão.
Junto a estes dois principais motivos, a pesquisa de campo evidenciou outras motivações, inclusive houve a busca do entendimento se a ferramenta cumpria o que deveria ser seu principal papel, o de atuar frente à crise ecológica. Esta questão ambiental foi apontada entre os principais motivadores (20,19% no questionário internacional e 29,62% no questionário nacional), com preocupações com a identificação, quantificação e efetiva redução dos impactos ambientais dos processos produtivos e dos produtos tendo sido expressas, assim como a busca por redução no consumo de recursos naturais e por produtos com menor impacto ambiental.
Uma importante diferença de visões entre os respondentes internacionais e nacionais, que pode ter relação com o estágio em que se encontram as preocupações quanto ao meio ambiente nas diferentes nações observadas neste estudo, diz respeito ao atendimento das leis e políticas como fator de motivação para o uso da ACV. Este fator foi pontuado mais fortemente na pesquisa nacional, sendo o quarto fator motivador (18,51%) apontado. Na pesquisa internacional ficou por último com 4,81% das indicações.
40Vantagem Competitiva é o termo que define a vantagem de uma empresa sobre seus concorrentes, normalmente demonstrada por meio de seu desempenho econômico.
se que no caso do Brasil, este fator é mais relevante que em outros locais e deve ser um fator considerado como crítico para uma efetiva implementação da ACV no país.
Outra visão que, apesar de comum, teve dimensões distintas, foi referente ao uso da ACV como subsídio para P&D e também inovação. Para o público internacional, esta relação e uso da ACV é mais evidente com 31,73% de indicações frente a uma última colocação para os respondentes nacionais (14,82%). Neste caso, questões como usar os estudos de ACV para construção de conhecimento interno, aprimorar a chamada “performance ambiental” do produto, desenvolver materiais e produtos inovativos e promover o ecodesign, também são apontadas.
Esta disparidade de opiniões pode ser relacionada a questões culturais e do nível de percepção das nações envolvidas, mas reforça o papel que a ACV tem com relação a estas duas importantes atividades, tanto de P&D quanto à geração de inovações.
Outro fator relevante mencionado foi a preocupação dos respondentes internacionais sobre as questões relativas à abrangência da ACV dentro da cadeia de valor41 ao qual a empresa faz parte e a avaliações utilizando ferramentas monocategorias como, por exemplo, pegada de carbono e pegada hídrica.
Dentro ainda desta perspectiva de quais as razões para o uso da ACV e quais os benefícios trazidos, a pesquisa de campo investigou os principais impactos ambientais avaliados nos estudos de ACV, onde a pegada de carbono, o consumo de energia e consumo de água são os impactos mais abordados e apurados nos estudos de ACV.
Aqui, mais uma vez houve uma equidade quanto aos impactos, mas uma desigualdade quanto ao grau de importância dada a estes impactos. Na pesquisa internacional, as emissões de gases GEE (pegada de carbono), impactos diretamente relacionados com a mudança climática, teve 90,57% das indicações, seguido do consumo energético (83,96%) e do consumo de água (46,23%). Já na pesquisa nacional, todos estes três impactos obtiveram o mesmo grau de importância e receberam 75,86% das indicações. Tais resultados podem ter alguns motivos distintos, com por exemplo, os altos custos que a eletricidade e a água representam para a indústria nacional, o que pode se misturar à importância ambiental nesta busca por seus impactos no estudo de ACV. Assim como no caso dos respondentes nacionais, a cobrança por reduções de impactos referentes aos GEE e possíveis leis atuantes podem ter feito esta categoria de impacto ser a que mais aflige os respondentes internacionais.
41cadeia de valor é o entendimento de que a organização é na verdade uma série de processos inter-relacionados que geram valor
Pode-se ainda aqui se incorporar as complexidades existentes nos estudos de ACV apontadas na pesquisa como limitadores e desafios para seu uso e implementação. Ao se buscar entender os principais pontos que geram esta complexidade ao estudo, quatro principias aspectos podem explicar: ICV; Modelagem; AICV; trade offs / interpretação / incertezas.
Os respondentes informaram as dificuldades frente às complexidades do estudo de ACV, consideradas informações valiosas para um melhor entendimento dos desafios para seu uso e implementação.
A partir destas informações, destacam-se algumas questões identificadas como geradoras de complexidade e oportunidades para aperfeiçoamento da metodologia ACV, como os apontamentos da dificuldade de uma alocação cientificamente correta contra os interesses em resultados tendenciosos nos estudos de ACV, a falta de fatores de caracterização em alguns estágios do ciclo de vida pesquisados, as dificuldades em se trabalhar com diversas categorias o que cria a necessidade de uma decisão multicritério e consequente dificuldade na avaliação dos trade-offs; dificuldades ainda na fase inicial da ACV quanto a escolha da unidade funcional; grande variedade e muitas das vezes incompatibilidade dos métodos de AICV a serem escolhidos para cada estudo de ACV, barreiras na comunicação dos resultados dos estudos aos “clientes”, temores quanto as possíveis incertezas inerentes ao estudo realizado, limitações na coleta dos dados primários, complexidades quanto a modelagem e alocação.
Fora estas questões, em referência especificamente ao caso brasileiro, outra questão reforçada na pesquisa foi a falta de um banco de dados nacional. No entanto, possivelmente esta condição está prestes a mudar, já que o lançamento do banco de dados brasileiro pelo IBICT está previsto para o início de 2016.
Por fim, outro grupo de pesquisa analisado nesta seção foi o referente a participação da elaboração do ICV, que é o item apontado nesta pesquisa como o mais crítico quanto a complexidade dentro dos estudos de ACV. Em ambas as pesquisas os atores apontados de forma comum foram: a Academia; os Institutos de Pesquisa; as Empresas; os Governos. Sendo ainda apontadas a Consultorias, na pesquisa internacional. A necessidade de uma produção colaborativa foi da mesma forma, reconhecida na pesquisa e apontada ainda a necessidade de que haja um líder para este processo de elaboração, que no caso brasileiro tem sido o IBICT.
As percepções contempladas nesta seção, apontaram o uso da ACV como forma de que as empresas reforcem suas marcar e seu papel ambiental no mercado no qual estão inseridas, apontando ainda como principais impactos ambientais estudados as emissões
de GEE, o consumo de energia e de água. O entendimento de que a metodologia é complexa, foi praticamente unânime e os fatores aprestados na literatura sobre a ACV foram reforçados aqui pela pesquisa de campo, sendo eles a ICV, modelagem, AICV, trade offs / interpretação / incertezas.