1 TRAJETÓRIAS DE VIDAS PATAXÓ
1.4 Os conflitos com a criação do Parque Nacional de Monte Pascoal
O Monte Pascoal, segundo a historiografia, foi o primeiro ponto de “terra firme” avistado pelos portugueses em 1500. Essa região é considerada de grande valor histórico, natural (reminiscência da Mata Atlântica) e cultural. Em razão disso, conforme apontado anteriormente, ele sempre foi um local de conflitos entre os interesses dos colonizadores e dos índios (SAMPAIO, 2000).
Na década de 1930, afigura Castro (1940) que o governo federal nomeou uma comissão encarregada de determinar o “ponto exato do descobrimento do Brasil”, chefiada pelo ministro Bernardino José de Souza, que culminou na criação do Parque Monumento do Monte Pascoal, em 19 de abril de 1943 (CASTRO, 1940, p. 193).
Mas a ideia do Parque tomou forma e se consolidou por intervenção do General Pinto Aleixo, interventor da Bahia. Assim, foi criado o parque Monte Pascoal em terras devolutas do Estado. Até o final da década 1950, o entorno do Parque era habitado por uma pequena população de pescadores, comerciantes e os índios pataxó (Ibidem, 1940).
Na época, a alegação do governo para a criação do PNMP era que na região a extensa expansão agrícola e os desmatamentos crescentes estavam comprometendo a biodiversidade da área, por isso, havia a necessidade de proteção da região, para controlar a devastação do local.
Em 1961, o estado da Bahia repassou o território do Parque para a União, que criou o Parque Nacional Monte Pascoal por meio do decreto n.º 242 de 29.11.1961, com uma área de 22.500 hectares, situado no Município de Porto Seguro (Ibidem, 1940).
A criação do Parque foi uma violenta agressão aos direitos dos povos indígenas, pois em decorrência da criação do PNMP previa-se que os habitantes do entorno deveriam ser retirados daquela área, tantos os indígenas como os não indígenas. Dessa maneira, instaurou-se um clima de ameaça aos habitantes do entorno por parte dos órgãos do governo para a desocupação do Parque (SAMPAIO, 2000).
Porém, antes da consolidação do PNMP, em 1951, aconteceu um trágico conflito de consequências sem precedentes que ficou conhecido pelo povo Pataxó como o “Fogo de 51”. Esse episódio, segundo Sampaio (2000), foi uma ação direta devido à iminente criação do PNMP. Os Pataxó estavam sendo expropriados de suas terras e sofriam com a permanente vigilância do Parque, pois os indígenas não podiam ter mais trânsito livre em seu território, nem mesmo fazer roça para sua subsistência. Diante disso, Honório Ferreira e mais três Pataxó, em 1949, foram para a capital do país, o Rio de Janeiro, em busca de uma solução para o problema e solicitaram uma audiência com o marechal Rondon, fundador e presidente do Serviço de Proteção aos Índios (SPI) (Ibidem, 2000).
Após o retorno da viagem, em 1951, vieram para a aldeia dois homens que se autodenominam funcionários do SPI sugeriram aos Pataxó que eles saqueassem um comércio de Corumbau. Essa ação provocou uma reação imediata da polícia militar da Bahia que cercou a aldeia Barra Velha e atirou para todos os lados. Esse massacre dispersou os sobreviventes. Dessa feita, os Pataxó esconderam-se por um longo período na mata, alguns foram para a cidade e outros para outros territórios (Ibidem, 2000).
Em uma entrevista, Arissana Braz Bonfim de Souza (SOUZA, 2011, s/p), do povo pataxó, contou como se deu esse massacre na visão dos Pataxó e ressaltou que esse massacre teve a intenção de conseguir a retirada total do povo pataxó de seu território.
Na entrevista, ela narra a luta de seu povo por esse território. Segundo a entrevistada, os conhecimentos que ela domina sobre os fatos que aconteceram no ‘Fogo de 51’ foram-lhe transmitidos pelo seu avô e também por meio de relato oral de anciãos do povo de sua comunidade. Ela ressaltou em seu depoimento que “esse conhecimento não se aprende na escola, onde contam que foi o Monte Pascoal que levou as hipotéticas palavras de “terra à vista” à boca de Pedro Alvares Cabral” e dessa forma seria um ponto que marca a ‘descoberta’ do Brasil e por essa razão o local deveria ser preservado. Vale lembrar que o local onde, hoje, foi criado o PNMP há séculos se constitui em focos de conflitos de
disputa de território pelo povo pataxó. Nessa entrevista, Arissana Pataxó Souza conta que, na época, a manobra do governo para que o povo concordasse com a criação do PNMP foi de pedir ajuda ou concordância dos Pataxó, dizendo que assim que o Parque fosse criado, os indígenas teriam assegurado sua permanência no território, mas como podemos observar essa promessa não foi cumprida (SOUZA, 2011).
Em consequência desse massacre, muitos Pataxó fugiram de Barra Velha, o que causou a dispersão e deslocamento do povo, famílias foram separadas, pois temiam serem mortos pelos opressores. Os índios pataxó tiveram que ocultar sua identidade indígena por receio e/ou para evitar discriminação e perseguição; a partir de então, os Pataxó passaram por um processo de sofrimento e negação de sua condição indígena (CARVALHO, 2009a). Desse trágico episódio protagonizado mais uma vez pelas forças dominantes, o povo pataxó teve que criar e recriar seu território e surgiram outras comunidades indígenas. Em 1960, os índios pataxó foram expulsos de suas terras consideradas tradicionais e começaram a migrar para outras regiões (SAMPAIO, 2000).
Contraditoriamente à política governamental para a criação do PNMP, que era de conter o desmatamento e preservar a reminiscência da Mata Atlântica, em 1974, foi inaugurada a rodovia BR 101 e sua construção demandou um largo desmatamento e trouxe para a região um contingente populacional ainda maior do que aquele que havia antes da criação do Parque. Essa nova configuração da região trouxe muitos empreendimentos madeireiros (inclusive diversas serrarias e carvoeiros) e o aumento da pecuária, entre outros problemas (Ibidem, 2000).
Cabe ressaltar que com a criação do Parque Nacional de Monte Pascoal outras medidas foram tomadas pelo governo, com claro objetivo de assegurar por lei o domínio sobre o PNMP. Outra medida, esta mais recente, foi decretar que a região passaria a ser o ‘Museu Aberto do Descobrimento’, em 22 de abril de 1996, mediante Decreto no. 1.874 (BRASIL, 1996).
Esse decreto abrange os municípios de Porto Seguro, em conjunto com os municípios de Prado e Santa Cruz de Cabrália, e a justificativa para esse decreto, segundo o governo, é que a região abriga significativa parcela remanescente da mata atlântica. Junte a esse fato, e como parte do Museu, o tombamento pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), declarando o local como área de Reserva da Biosfera (Ibidem, 2006).
A região do PNMP tem uma importância ímpar devido à sua diversidade ambiental e cultural e se caracterizou por diferentes categorias legais de proteção, abrangendo
aspectos cultural, histórico, ambiental e social, tanto em âmbito nacional como internacional.