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O campo das missões portuguesas no Estado do Maranhão era um bom exemplo das tensões e conflitos que surgiram entre os moradores, a coroa e seus funcionários e o clero missionário, porém, as contendas ocorridas não se resumiam apenas à questão indígena. Conflitos envolvendo os membros da burocracia portuguesa e os moradores do Maranhão também faziam parte do cotidiano da primeira metade do setecentos.

119 CARVALHO JUNIOR, Almir Diniz. Índios Cristãos: a conversão dos gentios na Amazônia

portuguesa, pp. 215-267.

120 PÚRPURA, Christian. Formas de existência em áreas de fronteira: a política portuguesa do espaço e

os espaços de poder no oeste amazônico (séculos XVII e XVIII). Dissertação de Mestrado apresentada à Faculdade de Filosofia Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo, 2006, pp. 91-99. O autor discute a colonização portuguesa no oeste amazônico a partir da atuação dos missionários carmelitas e dos sertanistas na formação do território político português, atribuindo a sua extensão à intensificação do contato com as populações indígenas.

121 Sobre o caso de Pedro de Braga, ver: SOMMER, Bárbara A. “Cracking Down on the Cunhamenas: Renegade Amazonian Trade under Pombaline Reform”, pp. 767-791.

Abuso de autoridade, conflitos de jurisdição, corrupção, descumprimento de determinações régias e participações em motins eram as acusações mais freqüentes, que opunham, geralmente, grupos antagônicos imiscuídos em densas redes de clientela com interesses bem diversos.

De fato, na primeira metade do século XVIII, a América portuguesa foi um campo fértil para a eclosão de revoltas. Nesse período, a Coroa Portuguesa tinha que se preocupar também com as diversas rebeliões que se alastravam por toda a colônia: guerra dos Emboabas em 1707, a dos Mascates em 1710 e a Revolta de Vila Rica em 1720. São conflitos que exemplificam o clima de tensão entre a Coroa, os funcionários régios e os vassalos nas primeiras décadas do setecentos122.

Logo nos primeiros anos do século XVIII, os conflitos envolvendo os membros da administração do Estado já se delineavam no interior da sociedade local. Entre 1702 e 1705, governou o Estado do Maranhão Manuel Rolim de Moura, cuja posse ocorrera na cidade de São Luís em 8 de julho de 1702. No começo do ano seguinte, o governador entrou em atrito com o ouvidor-geral Miguel Monteiro Bravo sobre as arrematações de alguns contratos celebrados, que contrariavam as determinações régias. Recusando-se a comparecer na presença do governador, onde deveria dar explicações sobre o caso, Bravo obteve abrigo no convento dos padres da Companhia de onde seguiu para Lisboa “contra as ordens expressas do governador, não levando passaporte, e nem licença por escrito, como era então de costume”123. Regressando ao Pará, em 22 de julho de 1705, Rolim recebeu uma carta régia dirigida pela rainha regente D. Catarina, destituindo-o do cargo.

No lugar de Rolim, tomou posse João de Velasco Molina em 13 de setembro de 1705 na cidade de Belém. Alguns meses após tomar posse, Molina recebeu informações da cidade de São Luís que estava em curso uma conjura contra ele, sendo a principal liderança o seu antecessor Manuel Rolim de Moura, que pretendia ser restituído ao cargo de governador do Estado. Imediatamente, Molina partiu para a capitania de São Luís levando consigo o ouvidor-geral da capitania do Pará, Antônio da Costa Coelho, encarregado de abrir devassa contra os principais envolvidos no levante. Entre os acusados de promover a suposta conjuração, estava o ouvidor da capitania do

122 A propósito das rebeliões, ver: SOUZA, Laura de Melo e. O Sol e a Sombra: política e administração

na América portuguesa do século XVIII, pp. 78-180.

Maranhão, Manuel da Silva Pereira, que foi preso “sem respeito da imunidade da profissão” em plena rua do Desterro, onde se localizava a sede da Câmara Municipal da cidade.

A Câmara Municipal, em ofício de 5 de março de 1709, denunciou o abuso de poder cometido pelo governador e ouvidor-geral contra os cidadãos da cidade. No ofício, pesava contra o governador e o ouvidor a acusação de querer “destruir os privilégios dos cidadãos desta capitania, que eram iguais aos do Porto”, já que havia mandado prender em “pública e estreita enxovia fechada” os principais representantes dos cidadãos da cidade: os juízes ordinários, o juiz de órfãos e três capitães, “um da fortaleza do Itapecuru, outro de ordenanças, e o último da nobreza, tudo por ódio e caprichos particulares”. Por ordem do governador, Rolim deveria ser também colocado na mesma enxovia junto com seus pares, porém, depois de buscar refúgio em “diferentes sítios da ilha de São Luís”, Rolim obteve acolhida no convento de Santo Antônio entre os franciscanos124.

Molina acreditava que suas ações seriam aprovadas pela Corte e que, portanto, receberia como prêmio a efetivação do seu governo interino. Foi surpreendido com a repentina chegada do seu sucessor à cidade de São Luís, Cristóvão da Costa Freire, em 12 de janeiro de 1707.

Outro acusado de promover desordens na capitania do Pará foi Manoel de Braga, que foi denunciado por estar envolvido na prática irregular de resgates clandestinos no sertão. O sargento-mor Pedro da Costa Rayol, que era o único autorizado a fazer as diligencias ao sertão, mantinha negócios com o acusado nas cercanias do Rio Capim e, quando da denúncia, acolheu Braga em suas propriedades, sendo também convocado a dar explicações na presença do ouvidor-geral. Com o desenrolar do processo Braga foi inocentado, posto em liberdade, já que os verdadeiros culpados acabaram presos125. O procedimento adotado contra Manoel de Braga tinha como objetivo coibir os abusos das constantes entradas clandestinas dos moradores aos sertões do Estado. As leis que

124 Conferir essas escaramuças em: MARQUES, Augusto César. Dicionário Histórico-Geográfico da

Província do Maranhão, pp. 327-328.

125 São os seguintes documentos referentes aos casos de Manuel de Braga: “Parecer do Conselho Ultramarino para o rei D. Pedro II. Lisboa, 24 de Novembro de 1703”. AHU, Pará (Avulsos), Cx. 5, D. 393. “Para o ouvidor-geral da capitania do Pará. Lisboa, 10 de Abril de 1709”. LGM/ABNRJ, vol. 67, pp. 43-44. “Para o governador geral do Estado do Maranhão. Lisboa, 10 de Abril de 1709”. LGM/ABNRJ, vol. 67, p. 44. Para o governador do Maranhão. Lisboa, 2 de Julho de 1710”. LGM/ABNRJ, vol. 67, p. 69.

regulavam o acesso dos moradores à mão-de-obra indígena e a exclusividade dada aos missionários contribuíam para a organização de expedições particulares financiadas pelos próprios moradores126.

Deve-se destacar, também, que a maioria das expedições nesse período era realizada clandestinamente, ou seja, fugindo aos critérios das “guerras justas” e “tropas resgates”. Essas expedições eram objeto das constantes reclamações dos missionários e da ação ostensiva dos funcionários da Coroa na tentativa de fazer valer as determinações régias que as proibiam127. Ocorre que a repressão às expedições, a prisão dos envolvidos e o não atendimento aos pleitos dos moradores criava um clima de expectativa e comoção que geralmente acabava em motins128. Para os moradores a repartição dos índios era crucial para a manutenção de suas atividades produtivas, assim como, para a paz e sossego dos povos do Estado129.

Na época em que tomou posse no governo do Estado, Rolim encontrou a cidade do Pará em “bastantes dissensões ocasionadas pelo letrado Manuel Gomes de Carvalho”. Carvalho, que era advogado, foi preso sob a acusação de “inquietar assim os ânimos com as consciências”, após ter interferido na querela envolvendo o vigário-geral com o capitão da fortaleza da barra, Luís Vieira da Costa, que se recusava a devolver os “papéis” ao cartório eclesiástico e, portanto, sofrendo atos de censura por ter cometido agravos, deveria responder perante o juiz da Coroa. A prisão de Carvalho ocorreu quando Vieira da Costa procurou o vigário para efetuar a devolução dos “papéis” e pedir sua absolvição, porém “o dito letrado lhe impediu, segurando-lhe que havia ter provimento no agravo”. Confirmada a ordem de prisão, Carvalho se refugiou no convento dos carmelitas, de onde passou a negociá-la. Preso na cadeia da cidade, “por cerimônia e logo no descanso de sua casa até a vinda do desembargador Manoel da

126 “Consulta do Conselho Ultramarino ao rei D. João V. Lisboa, 12 de Agosto de 1710”. AHU, Maranhão (Avulsos), Cx. 11, D. 1119.

127 “Para o ouvidor-geral do Pará. Lisboa, 18 de Novembro de 1709”. LGM/ABNRJ, vol. 67, p. 63. “Para o capitão-mor do Camutá. Lisboa, 18 de Novembro de 1709”. LGM/ABNRJ, vol. 67, p. 63

128 “Carta do Senado da Câmara da cidade de Belém do Pará para o rei D. João V. Belém do Pará, 22 de Julho de 1720”. AHU, Pará (Avulsos), Cx. 6, D. 567.

129 “Certidão do escrivão da Câmara da cidade de Belém do Pará, Manuel Álvares Lima, sobre a última tropa de resgates ter saído no ano de 1713. Belém do Pará, 9 de Julho de 1720”. AHU, Pará (Avulsos), Cx. 6, D. 559.

Silva Pereira, ouvidor-geral do Maranhão, a quem o governador havia mandado buscar a custa da fazenda de Vossa Majestade”130.

Na capitania do Maranhão, Carvalho fora denunciado pela morte do juiz dos órfãos, Diogo de Campelo, obtendo do ouvidor o livramento dessa acusação. Entretanto, pesou contra si a acusação de semear a discórdia, insultar a Igreja e desrespeitar as autoridades da Coroa, sendo pedida a sua saída do Maranhão, já que se constituía numa peça indesejável pelos membros da administração do Estado, que temiam a inquietação e eclosão de um motim no Estado. Carvalho foi degredado para a Corte e preso na enxovia do Limoeiro de onde passou a requerer uma autoridade judicial para julgar o seu pleito131.

Na capitania do Piauí, o ouvidor Antônio Marques Cardoso denunciou um princípio de motim, em carta de 23 de setembro de 1727, mencionada pelo rei D. João V num despacho que fez ao governador do Maranhão Alexandre de Souza Freire132. No documento, o ouvidor-geral refere-se ao “marchante” da Vila da Mouxa que, por ocasião do requerimento encaminhado a Câmara da vila e dos pasquins “que se pusera no edital que se fichara”, declarava a forma como o denunciado queria “cortar a arroba de carne no açougue e que os cúmplices dele, como se tinha denunciado eram Manoel Peres Gutierrez e Floriano Correa de Brito”, ambos naturais de Pernambuco, sendo o morador Manoel Peres Gutierrez “homem tumultuoso e de má consciência e costumado a fazer falsidades em papéis como obrara no sítio do papagaio nas minas de onde viera fugido para aquela vila”. O ouvidor justificara a prisão de Gutierrez, alegando que “este homem podia comover no povo algum motim e que por este motivo prendera a ambos estes dois sujeitos e os tinha com guarda na cadeia”133. O governador Alexandre de

130 “Consulta do Conselho Ultramarino para o rei D. Pedro II. Lisboa, 5 de Janeiro de 1706”. AHU, Pará (Avulsos), Cx. 5, D. 413. O assunto também foi tratado pelo vigário-geral no seguinte documento: “Carta do vigário-geral do Pará Antônio Maciel Parente, para o rei D. Pedro II. Belém do Pará, 12 de Janeiro de 1706”. AHU, Pará (Avulsos), Cx. 5, D. 414.

131 A série de documentos que constam do caso, são: “Consulta do Conselho Ultramarino para o rei D. João V. Lisboa, 20 de Dezembro de 1708”. AHU, Pará (Avulsos), Cx. 5, D. 428. “Requerimento de Manuel Gomes de Carvalho, ao rei D. João V. Anterior a 20 de Dezembro de 1708”. AHU, Pará (Avulsos), Cx. 5, D. 427. “Parecer (minuta) do Conselho Ultramarino para o rei D. João V. Lisboa, 19 de Janeiro de 1709”. AHU, Pará (Avulsos), Cx. 5, D. 430.

132 Trata-se do seguinte documento: “Carta do ouvidor-geral da vila da Moucha, Antônio Marques Cardoso, ao rei D. João V. vila da Moucha, 23 de Setembro de 1727”. AHU, Piauí (Avulsos), Cx. 1, D. 34.

133 “[Carta de Dom João V para o governador do Estado do Maranhão]. Lisboa, 10 de Junho de 1728”.

Sousa Freire considerou que fosse mais conveniente “lançá-los fora daquelas partes”, para evitar qualquer possibilidade de revolta entre os moradores do Piauí134.

No Pará, o clérigo secular, Julião dos Santos, foi denunciado pelo vigário geral do Bispado do Pará, Lourenço Roxo, por estar advogando ou patrocinando alguma causa em justiça contra pessoas “afeiçoadas” ao governador. O sacerdote havia obtido provisão para advogar na capitania, por ser douto em direito e ter prática jurídica nos auditórios eclesiástico e secular da cidade de Belém135. O religioso foi acusado pelo vigário de patrocinar distúrbios na cidade e ter enfrentado os oficiais de justiça, secular e eclesiástico, incumbidos de repreendê-lo e dar cumprimento à sua prisão, com armas e escravos, contando com a ajuda de um seu tio, chamado Baltazar Álvares Pestana. O comportamento do padre Julião dos Santos, seus escravos e parentes, provocou escândalo e perturbação da ordem pública, sendo procedido pelos oficiais o “Auto Sumário” contra os revoltosos, que foram condenados a revelia à pena de “pecúnia e degredo”. O religioso e seus seguidores buscaram ainda refúgio no convento dos mercedários, na tentativa de evitar a punição136. Entretanto, a atitude resultou na decisão do rei em mandar prender o sacerdote, “delinqüente e revoltoso”, e degredá-lo do Estado137. O rei determinou que o padre Julião dos Santos fosse recolhido na fortaleza da cidade, enquanto aguardava a embarcação que o conduziria para o degredo138. Porém, o vigário Lourenço Álvares Roxo comunicou ao governador que não havia cadeia fechada para cumprir a determinação régia139. No ano de 1733 o sacerdote

134 “Carta do governador e capitão-general do Estado do Maranhão, Alexandre de Sousa Freire, para o rei D. João V. Santa Maria de Belém do Pará, 2 de Outubro de 1728”. AHU, Pará (Avulsos), Cx. 11, D. 1037.

135 “Requerimento do clérigo do Hábito de São Pedro, padre Julião dos Santos, para o rei D. João V. Anterior a 11, de Fevereiro de 1730”. AHU, Pará (Avulsos), Cx. 12, D. 1086.

136 “Requerimento do clérigo do Hábito de São Pedro, padre Julião dos Santos, para o rei D. João V. Anterior a 6 de Março de 1730”. AHU, Pará (Avulsos), Cx. 12, D. 1091.

137 “[Carta de Dom João V para o governador do Maranhão]. Lisboa, 10 de Janeiro de 1732”. ABAPP, tomo V, pp. 371-372.

138 “Carta do vigário geral do bispado do Grão-Pará, Lourenço Álvares Roxo, para o rei D. João V. Belém do Grão-Pará, 18 de Setembro de 1731”. AHU, Pará (Avulsos), Cx. 13, D. 1199.

139 “Carta do governador e capitão-general do Estado do Maranhão, José da Serra, para o rei D. João V. Belém do Pará, 21 de Setembro de 1732”. AHU, Pará (Avulsos), Cx. 14, D. 1280.

continuava detido na cidade de São Luís aguardando a sua remoção, já que a ordem régia parece não ter sido cumprida pelas autoridades do Estado até aquela data140.

Finalmente, os distúrbios promovidos por membros da família Oliveira Pantoja na capitania do Pará141. Na carta que encaminhou ao rei D. João V, o governador José da Serra informa que havia mandado prender José de Oliveira Pantoja e seus dois filhos, José e Luís Carlos, de onde deveriam seguir para o “Limoeiro”, na Corte, e, posteriormente, degredados para o Estado do Índia. Os irmãos Pantoja eram acusados pelo visitador das missões das Mercês, frei Diogo da Trindade, e pelo governador de terem provocado distúrbios na cercanias da fortaleza dos Tapajós, onde serviam como soldados142. Os Pantoja, juntamente com os membros da família Furtado, também foram acusados de participação no atentado contra o ouvidor Manuel Antunes da Fonseca143. Em documentos da década de 40, verifica-se que outros membros dessa mesma família também se envolveram em desordens, dessa vez, por terem agredido com umas “cutiladas” um morador da cidade de Belém chamado Francisco Dourado144.

Os conflitos ocorridos na primeira metade do século XVIII envolviam os mais diversos segmentos da sociedade colonial. Portugueses, seus descendentes, os naturais da terra, índios, negros, enfim, indivíduos ou grupos de indivíduos que interagiam e davam significados cada vez mais específicos à dinâmica social e cultural que caracterizava a sociedade maranhense daquele período. Na sociedade se destacavam os considerados “cidadãos”, inclusive, os que faziam parte dos quadros militares, da burocracia do governo ou ainda aqueles que eram provenientes de Portugal e que no Maranhão constituíram importantes fontes de rendas.

140 “Carta do vigário geral do bispado de Santa Maria de Belém do Pará, Antônio Maciel Parente para o rei D. João V. Belém do Pará, 25 de Setembro de 1733”. AHU, Pará (Avulsos), Cx. 15, D. 1434.

141 “Carta do governador e capitão-general do Estado do Maranhão, José da Serra, para o rei D. João V. Belém do Pará, 28 de Setembro de 1735”. AHU, Pará (Avulsos), Cx. 18, D. 1681.

142 “Consulta do Conselho Ultramarino para o rei D. João V. Lisboa, 7 de Dezembro de 1735”. AHU, Pará (Avulso), Cx. 18, D. 1694.

143 “Carta do governador e capitão-general do Estado do Maranhão e Pará, João de Abreu de Castelo Branco, para o rei D. João V. Belém do Pará, 24 de Fevereiro de 1737”. AHU, Pará (Avulsos), Cx. 20, D. 1869.

144 Os documentos sobre o caso são: “Requerimento de Francisco de Oliveira Pantoja, morador na cidade do Pará, para o rei D. João V. Anterior a 27 de Janeiro, 1744”. AHU, Pará (Avulsos), Cx. 27, D. 2494; “Requerimento de Álvaro de Oliveira Pantoja, Jerônimo de Oliveira Pantoja e Francisco de Oliveira Pantoja, naturais e moradores na cidade do Pará, para o rei D. João V. Anterior a 27 de Junho de 1744”. AHU, Pará (Avulsos), Cx. 27, D. 2529.

Esses segmentos que compunham a sociedade colonial faziam parte da elite da sociedade maranhense, devido ao poder político e econômico que usufruíam, geralmente através da posse de terras e de escravos, da comercialização das “drogas do sertão”, bem como de atividades ligadas à prática da lavoura e da criação de gado. Entretanto, não podemos esquecer que existiam também outros segmentos sociais que não ocupavam cargos administrativos ou militares, mas que detinham a insígnia de “homens bons”, graças aos “cabedais” que possuíam provenientes de plantações, da posse do trabalho escravo ou de serviços prestados à Coroa. Além disso, a participação nas câmaras municipais das vilas e cidades do Estado lhes propiciava um meio de ascensão social e de status, já que esses organismos eram um dos focos de poder no contexto local e amplamente utilizado como instrumento no jogo de barganha com o poder central.

Rafael Chambouleyron salientou que o poder municipal, por diversas vezes, entrou em choque com as pretensões dos capitães-mores, dos governadores e de outras autoridades e entidades nomeadas pelo rei para o governo do Estado, assim como, com autoridades religiosas, especialmente, com os missionários da Companhia de Jesus145. Sua atuação, geralmente oscilava entre a oposição ou o alinhamento, num ambiente marcado pela negociação e o conflito. Por isso, não devemos superestimar o papel das Câmaras Municipais como instrumento do poder local, pois, do contrário, estaríamos esquecendo que essa instituição tinha uma identidade que estava subordinada ao poder real, a quem devia lealdade. Sua insurgência somente pode ser entendida se levarmos em conta as diversas peculiaridades das tensões verificadas no contexto que ela subsistiu. Esse era o meio-ambiente em que a sociedade colonial local foi gestada e esse será o nosso ponto de partida para entender a trajetória de dois importantes membros da burocracia portuguesa desse período.

145 CAMBOULEYRON, Rafael. “Em torno das missões jesuíticas na Amazônia (século XVII)”.

PARTE II

“VASSALOS TÃO LEAIS”: AS TRAJETÓRIAS DE DOIS

FUNCIONÁRIOS DA

BUROCRACIA PORTUGUESA NO ESTADO DO

MARANHÃO COLONIAL

“À Vossa Majestade que a conservação e aumento dos Estados é o mais importante, para o esplendor a soberania das monarquias, é quase impropriedade supérflua, porque em cousa tão certa, é ociosa a maior intimação; mas sendo isto certo, também e sem duvida, que as regiões são diversas, os Estados diferentes, os comércios nem todos de igual gêneros como a experiência mostra, que as searas, que em Portugal engrossam as comodidades de todos, são de trigo, milho, etc., as da América são de açúcar, e tabaco; as da Ásia são de pedras e roupas; as da África são de peles de animais, dentes e outros haveres; e as do Estado do Maranhão são também de gêneros diversos e especiais com costumes e modos de se haver diferentes com governo econômico especial, de sorte que, o que em uma província, Estado ou comarca, se pratica pode ser conveniente em outra, antes de ver-se proibir, sem que precisamente uns devam seguir o governo dos outros”

Proposta da Câmara do Pará à Sua Majestade apresentada pelo procurador do Estado Paulo da Silva Nunes (1724), pp. 353-354.

Capítulo 3

“Venenosas sementes”:

as hostilidades de Paulo da Silva Nunes

“E posto que Portugal tenha vantagem em todos os domínios para se socorrer nas utilidades, que representa, e nos incômodos em que