A comunidade São Raimundo desenvolve estratégias de resistência para os embates na sua trajetória histórica, como a lei do bacuri verde e a roça das mulheres, com objetivo de alcançar a autonomia territorial e garantir a reprodução do bem viver. Diante da sua concepção enquanto camponês posseiro (FELICIANO, 2009), a luta pelo direito e a permanência no território se faz presente como lema e caminho da luta.
Uma das formas de resistência descrita na comunidade foi a lei do bacuri verde. Aprovada em 29 de dezembro de 2012, a lei vem regimentar os processos de usos do território que não objetivassem a partilha e o bem viver camponês, como expresso em ata anteriormente. Entre os meses de outubro e março, camponeses do Baixo Paranaíba acomodam em sua economia o extrativismo do cerrado dos frutos do bacuri. O fruto é catado maduro e caído ao solo, retirado a “massa” – parte comestível e comercializado pelos camponeses – e armazenado. Na geografia desenvolvida pelos camponeses em atividade familiar, a trilha pelo território São Raimundo e os territórios ao redor é desenvolvida.
Na descrição acima, de modo amplo como a atividade do extrativismo do bacuri acontece, temos duas questões que motivaram a criação desta lei. Em primeiro lugar, essa lei foi criada para que os camponeses e as camponesas acessem ao fruto e possam comercializá-lo. Isso é importante para que se permita que outras famílias também possam realizar essa atividade, preservando o fruto verde até que amadureça e caia para a coleta. Em seguida, há a importância dessa lei porque nas trilhas territoriais que ocorrem permanentemente o plantio, a caça e a coleta, por exemplo, a lógica anterior deve ser assegurada, uma vez que sujeitos de outros territórios também realizam tais atividades, haja vista que os territórios são compreendidos no modelo de integração, não restringindo o acesso e o uso pelo coletivo.
No desembocar de processos, a lei do bacuri verde representa uma perspectiva de gestão interna camponesa do território para aqueles que fazem o São Raimundo gerir-se. E, externamente, estabelece formas de relação e de contato entre os territórios, segundo o bem viver da natureza.
Como desdobramento, a lei do bacuri verde já judicializou alguns sujeitos sociais que não “obedeceram” à autonomia e à demanda territorial concreta
estabelecida e aprovada em assembleia na instância política reconhecida para decisões, que é a associação de moradores de São Raimundo. Mediante a recorrência no flagrante de derrubada do bacuri verde, foi feito, formalmente, junto ao Ministério Público Estadual, na comarca de Urbano Santos, uma denúncia contra o autor da ação. Após deferimento, a denúncia se transformou em processo de crime ambiental, infringindo diretamente o bem viver da natureza e dos camponeses. Na atualidade, o processo está com status de instrução e possível condenação, em que a família em questão possivelmente pagará multa pelo crime ambiental.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Com o objetivo de contribuir com a produção científica e acadêmica, com relevância social, o estudo de tese aqui proposto teve como foco explicar as resistências dos(as) camponeses(as) que se estabelecem no âmbito do conflito territorial, frente ao incremento do cultivo da soja e eucalipto no Baixo Parnaíba maranhense, nos municípios de Santa Quitéria, Urbano Santos e Chapadinha. Diversos dilemas foram encontrados: produzir uma tese com o viés contra- hegemônico, vivenciada e escrita pelos sujeitos em destaque do Baixo Paranaíba;; produção científica e acadêmica: qual a aproximação com a sociedade?;; descolonizar a escrita ao invés de reproduzir formas e modelos coloniais perpétuos no que diz respeito à formação do cientista na academia brasileira e;; formação e envolvimento de uma geografia militante, com total engajamento e qualidade no que se produz, uma vez que sabemos da potencialidade dos resultados.
A produção científica e acadêmica sobre a Geografia (agrária e política) do Maranhão se mostra um tanto limitada, razão que se compreende pela recente formalização dos cursos de ensino superior no Estado, que são dos anos 1980. Assim, está posto o desafio de uma produção interdisciplinar e de protagonismo nos resultados, apontando também para a relevância e a responsabilidade com os resultados.
Quanto aos camponeses, esses sujeitos vivenciam embates constantes com o grande capital e, progressivamente, o choque de racionalidades é posto como estratégia de luta e resistência, como nos usos do bioma cerrado em área de transição do Meio Norte. A heterogeneidade coloca uma arma frente à homogeneidade do modelo agroexportador de soja e eucalipto, revelando o imanente nos conflitos, que é a própria dimensão sociometabólica camponesa. O gênero de vida ainda nos parece pouco explicativo, uma vez que, enquanto chave de leitura das práticas e produções territoriais, unifica os processos de reprodução camponesa. Vimos que, além dos usos da natureza enquanto recurso, a dinâmica aponta para uma possível recomposição metabólica que se deu com a própria reprodução do capital, expresso nas grilagens de terras, no desmatamento indiscriminado, no cercamento de mananciais hídricos e áreas de uso comum dos trabalhadores tradicionais. Estratégias como a reserva extrativista e o
reconhecimento de comunidades tradicionais apontam caminhos de força e permanência nos territórios em conflitos, segundo a condição destes camponeses enquanto posseiros e quilombolas, em grande expressividade (CPT, 2014).
Diante da diversidade do camponês-posseiro do Baixo Parnaíba, compreendemos sua dimensão segundo uma tiponímia resultante das ações ligadas as trilhas territoriais, a saber:
Quadro 05: Dimensões do mundo camponês e ações territoriais no Baixo Parnaíba
Dimensão camponesa Espaço de atuação
Camponês posseiro Baixão, Chapada e Tremendal
Camponês extrativista Chapada e Tremendal
Camponês assalariado Baixão e Chapada
Camponês criador de animais Chapada
Camponês “médico41” Chapada
Camponês da roça Baixão
Fonte: autoria própria
A ampla conceituação que foi exposta, segundo uma toponímia construída segundo relatos de campo e entrevista, aponta para a diversidade camponesa e re-invensão do campesinato, diante da invisibilidade do agronegócio e a negação das práticas tradicionais costumeiras. São os conflitos postos diante da lógica do capitalismo frente as práticas resistentes históricas no Baixo Parnaíba maranhense.
Assim, se revelam novos processos de luta e permanência nos territórios, com identificação e reconhecimento de camponeses enquanto classe e identidade étnica, como manutenção territorial (ALMEIDA, 2010;; PAULA ANDRADE, 1997). Mas afinal, quem são esses camponeses? Quilombolas? Posseiros? O que está posto não nos permite esta definição, e, além disto, não é nosso objetivo o enquadramento teórico e epistemológico dos sujeitos, mas a construção coletiva e autônoma daqueles que lutam pelo Baixo Paranaíba.
Quanto ao modelo do capital para o Baixo Parnaíba, esse não contempla as demandas dos camponeses, como expressão da política agrícola e agrária contemporânea na América Latina. São formas de drenagem dos territórios, agroestratégias de ordenamento territorial e máxima lucratividade, segundo a mão de obra de baixo padrão e espaçadas expressões de descontento e resistência ao
41 Em pesquisa de campo, observou-se que o saber camponês ligado as ervas medicinais do cerrado, titulado os mais velhos como “médicos”, detentores da oralidade e manipulação da natureza, servindo como referência para a comunidade diante da necessidade de usos medicinais.
modelo. Nos três municípios em questão, temos algumas experiências que revelam a força e a mobilização política frente ao modelo do capital, contribuindo pela luta e pela permanência territorial em áreas de chapadas e baixões, nos termos camponeses de apreensão territorial.
O legado histórico maranhense é marcado por fortes políticas que potencializam a reprodução metabólica do capital, diante das transformações da natureza e da lucratividade colocada nas atividades econômicas, com fins exteriores. Como no formato colonial, ainda reproduzido na contemporaneidade, este sistema moderno-colonial objetiva novas áreas no leste maranhense, por questões como localização junto aos equipamentos de exportação (ferrovias e portos), baixo custo de terras (com expressivos casos de grilagem (CARNEIRO, 2013) e alto índice de potencialidades naturais para transformação em mercadoria, a partir do meio de produção do capital ligado ao agronegócio. Essa lógica presente no sul do Estado e que, desde os anos 1990, vem ocupando e avançando em áreas do leste, baseando o que chamamos de expansão sul-leste maranhense.
Ainda, os embates teóricos e políticos aqui propostos apontam para um mergulho quanto à produção sociometabólica do território camponês, com foco no descolamento da dimensão que representa o sujeito social, para uma compreensão descolonial e marxista frente ao modelo capitalista, arraigado historicamente no Maranhão. A visibilidade e a cartografia do conflito são passos importantes, mas se faz necessário a luta e a própria práxis camponesa na grafia dos escritos para nos aproximarmos da totalidade da questão e possibilitarmos outras escritas da trajetória política e agrária maranhense, expressando possibilidades e caminhos (mesmo ainda não descritos neste texto), na busca por emancipação política e ideológica, rompendo com a cultura do empate e/ou apenas convivência dentro do modelo do capital.
A agressividade do modelo capitalista imposto ao espaço agrário é com fins de máxima rentabilidade e objetivamente com fins de fissurar os territórios resistentes. São revoltas e massacres que ao preço do controle do processo produtivo, da exploração da dimensão social camponesa e da falha metabólica da relação sociedade-natureza, é instalado, permanentemente, um quadro de destruição. O que nos parece que esses elementos têm movimentado a dimensão camponesa para outros levantes sociais, em resistências materializadas político,
simbólico e concretamente (SCOTT, 2002).
O território camponês de São Raimundo representa uma desobediência nas formas de reprodução social contra o modelo de produção de sociedade e intensificação do modo agrícola exportador. Com bases nas dimensões de autonomia e resistência, o bem viver camponês permanece e atinge outros patamares de mobilização e de luta social.
Outro elemento é a complementariedade espacial no território entre baixão e chapada, como característica do saber e da luta camponesa. Em diversas rodadas de tentativas de compras de terras, gaúchos, fazendeiros e empresários condicionam apenas os baixões como necessários para permanência camponesa, como também exposto por Moraes (2009) e Oliveira (2015). Imediatamente, em revelia ao processo, a necessidade de uso da chapada é colocada como parte da economia, segundo o extrativismo sendo que neste espaço existem diversos elementos para a produção dos medicamentos, no objetivo do bem viver (MONTENEGRO, 2011).
Algumas dimensões devem ser demarcadas como análise dos rumos e processos da luta camponesa no Baixo Parnaíba e no território São Raimundo, a saber: a) a luta camponesa aciona instâncias estratégicas externas à organização social e política do território, na perspectiva de aumentar o escopo de autonomia e de permanência territorial, como no processo aberto de regularização fundiária junto ao INCRA (MA). A mediação por entidades e movimentos sociais – em foco a Sociedade Maranhense de Direitos Humanos e o Fórum Carajás – proporciona um imobilismo social e político, uma vez que a abertura que se faz para esses sujeitos sociais / entidades transfere para tais instituições um relativo protagonismo no que diz respeito ao tão divulgado “acompanhamento” jurídico do processo. O tencionamento político para fora entra em arrefecimento nessa conjuntura. Um dos resultados é que o processo de compra e venda da terra junto, aberto em 2010, encontra-se parado como umas das razões descritas. Desse modo, é permanente a necessidade de retomada desse espaço pela associação de São Raimundo, com o horizonte de transformação desta realidade;;
b) a defesa do território com as leis do bacuri verde e de criação de animais em cercados representam, internamente, a autonomia camponesa em questão. Diante da possibilidade de articulação com outros territórios e de pautar o Estado com essa
demanda – Ministério Público Estadual, Promotoria do Estado (comarca de Urbano Santos), 38ª Promotoria de Justiça Especializada Conflitos Agrários (1º Promotor de Justiça de Conflitos Agrários), Câmara de Vereadores dos municípios de Urbano Santos e Santa Quitéria e Secretaria de Meio Ambiente do Maranhão –, revela-se a mobilização externa para transformar o modelo social que pauta as comunidades camponesas e povos tradicionais;;
c) a ameaça imediata que se perdeu (ou talvez se reformulou) ao território mediante ao avanço dos monocultivos, como eucalipto, da Suzano Papel e Celulose S. A., por exemplo, ainda é eminente. Com o processo aberto no INCRA, de compra e venda do perímetro que está contido no território de São Raimundo, os conflitos com os tratores ou a abertura de variantes se deslocaram para a dimensão ideológica e política. Constantemente, o proprietário da antiga Fazenda São Raimundo visita a liderança da associação incentivando os camponeses a irem ao INCRA acelerar a negociação. Munido da possibilidade de arquivamento, o gaúcho Evandro Loef tenta utilizar a força que existe na mobilização para almejar um valor maior. Segundo sua cotação, o valor para os 1.635,71 ha é de R$ 3.319.493,44 (três milhões, trezentos e dezenove mil, quatrocentos e noventa e três reais e quarenta e quatro centavos), e não o que avaliou o INCRA, que totaliza R$ 1.521.775,26 (um milhão, quinhentos e vinte e um mil, setecentos e setenta e cinco reais e vinte e seis centavos). Além da pressão na ordem financeira, novos investimentos se aproximam para o Baixo Paranaíba, devido sua imersão na delimitação do MATOPIBA. Diante da ausência da reforma agrária, o agronegócio se articula em novas rotas para os territórios camponeses;; e
d) Diante do recuo do capital corporificado em grandes empresas como a Suzano Papel e Celulose S. A., que é resultado de uma luta camponesa feita nos territórios do Baixo Parnaíba, novas formas e processos de resistência tomam espaço de eclosão e permanência. Em entrevista realizada em setembro de 201442 com Ana Paula Soares, diretora de Responsabilidade Social da Suzano, ela discorre sobre essa recuada, reconhecendo os conflitos territoriais como impeditivo para uma contínua monopolização do território na agricultura (OLIVEIRA, 2014):
42 Entrevista realizada na sede da empresa, em Imperatriz, em atuação de campo com o doutorando em Geografia Guilherme Marini Perpetua (UNESP/PP).
Entrevistador Saulo Costa: Para finalizar, Ana Paula, você dedicou muito tempo da nossa conversa para a Região Tocantina, dessa expansão para o centro-oeste [do estado], em direção a São Luís. Nessa atual conjuntura, o leste [do estado e o Baixo Parnaíba] estaria estagnado, devido à fábrica do Piauí não ter tomado novas proporções. Então a empresa tem se dedicado somente à manutenção das áreas?
Ana Paula Soares: Manutenção das áreas, nós tínhamos uma equipe similar à que a gente tem aqui, nós tínhamos uma equipe lá, equipada com coordenador, com equipe de sustentabilidade;; hoje, devido à redução das atividades, a gente tem uma pessoa de responsabilidade social, até para tocar alguns projetos que já estavam em andamento e para fazer algumas conversações, até
porque, devido ao período de arrendamento das áreas também, a empresa anterior ela gerou alguns conflitos na região, que a gente, depois que retomou as áreas lá vieram como passivo, e aí tem algumas coisas que são de conhecimento nacional, saem notícias e essas coisas todas, e hoje a gente tem essa única
pessoa que faz esse trabalho lá. Se houver a possibilidade de, eu acredito que, à medida que se chegar na situação de fazer colheita e trazer o material para cá, nós vamos precisar fazer um trabalho lá também. Aí eu não sei se revitaliza a equipe, se a equipe daqui vai se subdividir para ir para lá, mas assim, hoje nós estamos focados mesmo mais nessa região onde as operações acontecem, mas assim, temos um “pezinho” lá e a pessoa que era coordenadora de responsabilidade social, hoje ela é coordenadora em São Paulo, mas ela vem mensalmente para cá, para o Piauí, para acompanhar o trabalho da pessoa que ficou também [grifo nosso].
Assim, o modelo agrário exportador em desenvolvimento histórico no Maranhão possui diretrizes básicas para o fim do campesinato, com a concentração fundiária e a erosão das formas de reprodução camponesa, de saberes e das práticas, desqualificando-as enquanto formas de resistência e de luta. É objetivo do modelo hegemônico, a progressiva e violenta exploração dos camponeses em diversos mecanismos, mesmo com a superação de modelos com a cobrança do foro e a relativa condição de fim da escravidão. Os monocultivos são formas de retomadas destes modelos e enfretamento com camponeses. Em meio a este cenário, a condição camponesa revela uma contra-hegemonia em curso, com autonomia e emancipação, principalmente, no que diz respeito ao bem viver, uma vez que possibilita, diante da ancestralidade, a re-organização social e a re-tomada dos territórios. São os territórios livres para o bem viver dos povos e comunidades da América Latina.
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