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Os Conjuntos Habitacionais como Programa Convencional do BNH /SFH

C APÍTULO 1 DESENVOLVIMENTO COMO LIBERDADE CONSOLIDANDO UM NOVO

A INTERVENÇÃO NOS ASSENTAMENTOS POBRES INTRODUZINDO A DIMENSÃO DO DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL

2.1 OS ANOS DOS CONJUNTOS HABITACIONAIS: REMOÇÃO DE FAVELAS

2.1.1 Os Conjuntos Habitacionais como Programa Convencional do BNH /SFH

A partir do golpe militar de abril de 1964, a questão da habitação passa a ser tratada como uma questão de importância estratégica também no aspecto político. O Sistema Financeiro da Habitação é concebido como instrumento de acesso popular à casa própria, esperando com isso o governo que as aspirações de segurança e estabilidade da população fossem satisfeitas, e com isso diminuíssem as desordens e arruaças. A inclusão da população em geral como mutuária do SFH e proprietária da casa própria serve para amenizar o potencial revolucionário das reivindicações populares por melhores condições de vida nas grandes cidades.

Sandra Cavalcanti escreve uma carta a Castello Branco na qual sugere a criação do BNH e deixa claro o alcance político que a questão da habitação passou a ter no novo regime:

Achamos que a revolução vai necessitar agir vigorosamente junto às massas. Elas estão órfãs e magoadas, de modo que vamos ter de nos esforçar para devolver a elas uma certa alegria. Penso que a solução dos problemas de moradia, pelo menos nos grandes centros, atuará de forma amenizadora e balsâmica sobre as suas ferida cívicas. (apud VALLADARES, 1983:39)

Mas a decisão da criação do Banco não ficou restrita à boa vontade do novo governo para com as classes menos favorecidas. A crise existente era política e econômica, e o setor imobiliário apresentava baixas taxas de investimento, o que resultava no aumento do déficit habitacional. A inflação desestimulava os investimentos, favorecia a especulação imobiliária e a desarticulação do setor. Investir então na potencialização de uma indústria que além do mais é grande absorvedora de mão-de-obra foi a saída encontrada pela tecnocracia instalada com os militares. O sonho da casa própria iria servir de estímulo para a adesão da população às propostas governamentais.

Um dos idealizadores da política habitacional em gestação, Roberto Campos, assim se expressa em relação às conseqüências da implementação de tal política:

A solução do problema para casa própria tem esta particular atração de criar o estímulo de poupança que, de outra forma, não existiria e contribui muito mais para a estabilidade social do que o imóvel de aluguel. O proprietário da casa própria pensa duas vezes antes de se meter em arruaças ou depredar propriedades alheias e torna-se um aliado da ordem. (Campos apud SILVA e SILVA, 1989:49).

A partir da criação do BNH, passaram a existir as condições para uma abordagem geral sobre a questão da existência das favelas nos grandes centros. O pensamento corrente na época é que tinha que haver uma solução para o “problema” da favela. A favela é considerada como presença incômoda a ser erradicada. Segundo Parisse,

A Cidade olha a favela como uma realidade patológica, uma doença, uma praga, um quisto, uma calamidade pública. Estas expressões encontram-se em todos os jornais, sob a pena de jornalistas, professores, intelectuais, quer eles exprimam sua hostilidade à favela, ou declarem seus bons sentimentos, suas boas intenções. (apud VALLADARES, 1978:22).

A autora avalia a década de 60 como o momento de uma gigantesca operação de remoção sumária de favelas no Rio de Janeiro, para os conjuntos habitacionais financiados pelo BNH e comercializados pela Companhia de Habitação Popular (COHAB). Segundo ela, até 1960, as formas de atuação frente à existência das favelas variavam desde a promulgação de leis, criação de instituições e apresentação de projetos visando a sua erradicação, como diametralmente opostos, as mesmas providências eram tomadas com o objetivo de sua manutenção e recuperação, oferecendo-se inclusive serviços assistenciais às suas populações.

No Rio de Janeiro, a transferência de favelas para conjuntos habitacionais se deu de forma mais intensa. A partir da administração de Carlos Lacerda (1960-1965) foi lançado o programa de erradicação das favelas, com o objetivo explícito de remover suas populações

para outros locais. A Companhia de Habitação Popular da Guanabara (COHAB-GB) foi criada em 1962, e, com verbas da USAID1, construiu as Vilas Kennedy, Aliança e Esperança, para onde foram removidas as populações de doze favelas do Rio de Janeiro.

Em Pernambuco, a Companhia de Habitação Popular tinha como objetivo a provisão de habitações para a população até 5 salários mínimos (SM), uma faixa de renda que não se constitui demanda solvável para o mercado imobiliário, fazendo-se necessária a intervenção estatal para essa produção (SOUZA, 1990).

Apesar da política habitacional criada pelo Sistema Financeiro da Habitação não admitir o subsídio, as construções para a população de mais baixa renda lograram subsídios indiretos a partir da intermediação não lucrativa do poder público no processo de produção das habitações.

No entanto, por trabalhar

com fundos onerados – O Fundo de Garantia por Tempo de Serviço – FGTS, a contrapartida torna-se inerente ao modelo de financiamento da habitação popular. A necessidade de manutenção de uma taxa de retorno média para o FGTS significa que a expansão dos programas que viabilizam o acesso dos setores de baixa renda à habitação, só poderia ser efetivada com o alargamento do espectro da taxa de juros do esquema de funcionamento. Isto significa que o volume de empréstimos concedidos às COHABs deve ser compensado com determinado volume de empréstimos para renda média e alta, ou para programas de desenvolvimento urbano. (SOUZA, 1990:81)

As COHABs, apesar de poderem construir diretamente não o faziam, contratavam empreiteiras para a construção e comercializavam as unidades produzidas. A COHAB fiscalizava as obras e liberava os pagamentos de acordo com o andamento dos trabalhos. O custo do investimento era composto então do custo da construção mais o preço da terra e da parte da infra-estrutura concernente ao lote, ou seja, a terraplenagem e as ligações domiciliares de água, luz e esgotamento sanitário. Quanto à infra-estrutura do conjunto, tais como rede geral de água, rede de esgoto e eletricidade, esses custos eram arcados pelo governo do estado, numa outra forma de subsídio indireto. (SOUZA, 1990).

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