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3 AS POLÍTICAS PÚBLICAS DE ACESSO À JUSTIÇA NO BRASIL

3.5 Os Juizados Especiais

3.5.2 Antecedentes legais e empíricos dos Juizados Especiais

3.5.2.1 Os conselhos de conciliação e arbitramento

Os Conselhos de Conciliação e Arbitramento passaram a funcionar com o apoio do Poder Judiciário, tendo o primeiro deles, segundo Torres (2005, p. 89), sido instalado na cidade de Rio Grande/RS em 23 de julho de 1982, através de um regulamento elaborado pela AJURIS e com a participação de conciliadores, que

80 Dentre as mudanças no CPC e CPP, implementadas a partir da realização desse encontro, podem ser

destacadas entre outras: Acréscimo do Inciso IV, ao art. 125 do CPC, mudança introduzida pela Lei nº. 8952/1994; A previsão de citação e intimações pelo correio, através da lei 8710/1993, Outra importante proposta, foi a alteração do artigo 604 do CPC, que veio a ser implantada com a Lei nº. 8898/1994. Na verdade, essas alterações são exemplificativas, pois foram discutidas e organizadas mais de cem propostas de alteração dos códigos mencionados. (TORRES, 2005, P.72-73).

81 A exposição de motivos da Lei 7.244, de 07/11/1984, a seguir transcrita, reflete a situação então existente no

judiciário brasileiro, exprimindo a necessidade de criação dos Juizados Especiais de Pequenas Causas: “[...] A ausência de tratamento judicial adequado para as pequenas causas [...] Afeta, em regra, gente humilde, desprovida de capacidade econômica para enfrentar os custos e a demora de uma demanda judicial. A garantia meramente formal de acesso ao Judiciário, sem que se criem as condições básicas para o efetivo exercício do direito de postular em Juízo, não atende a um dos principais basilares da democracia, que é o da proteção judiciária dos direitos individuais”. Ademais, para evitar que a multiplicação de conflitos não solucionados se transmude em comportamento anti-social: “Impõem-se, facilitar à pessoa comum o acesso à Justiça, removendo todos os obstáculos que a isso se antepõem. O alto custo da demanda, a lentidão e a quase certeza da inviabilidade ou inutilidade do ingresso em Juízo são fatores restritivos, cuja eliminação constitui a base fundamental da criação de novo procedimento judicial e do próprio órgão encarregado de sua aplicação, qual seja o Juizado Especial de Pequenas Causas [...]”.

eram advogados voluntários que se dispunham à noite, a realizar audiências de conciliação sob a supervisão de um juiz de direito.

Discorrendo sobre as origens dos juizados de pequenas causas em nosso país, Andrighi (1985, p. 2) 82 associa seu surgimento a uma experiência pioneira realizada por juízes gaúchos, os quais percebendo que a comunidade não estava recebendo a prestação jurisdicional na forma ideal, uma vez que muitos de seus membros deixavam de reivindicar os seus direitos em face do alto custo e da morosidade da justiça, resolveram implantar em 1982, os conselhos de conciliação e arbitramento, voltados para a solução das pequenas causas e a natureza desses conselhos é bem traduzida por Torres (2005, p. 89) logo a seguir.

Esses conselhos, na época não se constituíam em órgãos jurisdicionais e dependiam do interesse das partes na solução dos litígios. Essa visão de justiça tinha na informalidade sua característica básica, atendendo valores considerados pequenos, [...] Na verdade, como experiência pioneira, esse projeto serviu para conscientizar a comunidade jurídica brasileira, dando origem à Lei nº.7.244/84, tratando dos juizados de pequenas causas, mudando o rumo do direito processual civil, e mostrando que era possível uma nova forma de atuação da justiça junto à comunidade.

Segundo Sousa (2004, p. 113), a partir da década de 80, surgem no Brasil as primeiras experiências concretas voltadas a permitir um maior acesso à justiça, quando alguns membro da magistratura do Rio Grande do Sul criaram os conselhos de conciliação e arbitragem, com competência para decidir extrajudicialmente causas de até 40 ORTNs, a fim de evitar o prolongamento de conflitos de menor complexidade. Esse movimento foi tão positivo, que inspirou a edição da lei federal nº 7.244 de 1984, instituindo os Juizados de pequenas causas, destinados a solucionar conflitos de valor econômico pouco expressivo e de menor complexidade. O registro desse momento histórico de criação dos juizados de pequenas causas encontra-se descrito com muita clareza a seguir:

Resolveram, então, estes juízes de forma empírica começar um trabalho pioneiro de atendimento à comunidade à noite na sede do Fórum. A idéia cresceu, em face dos bons resultados, e a associação dos juízes, AJURIS, com o beneplácito do Tribunal de Justiça, instalou na comarca de Rio Grande o primeiro Conselho de Conciliação e Arbitramento- CCA em 23.07.82. A experiência, bem sucedida, foi se difundindo até se chegar à Lei nº. 7244, de 7.11.84, que veio dispor sobre a criação e funcionamento do Juizado Especial de Pequenas Causas, instituída como órgão da Justiça ordinária dos Estados. A contribuição que o Juizado de Pequenas Causas vem dando à solução dos conflitos veio reconhecida constitucionalmente no artigo 98, da Carta. (ANDRIGHI, 1985, p. 2).

82 ANDRIGHI, Fátima Nancy, foi Desembargadora do Tribunal de Justiça do Distrito Federal e Territórios, 1992 a

Logo em seguida aos Conselhos de Conciliação e arbitramento vieram os Juizados informais de Conciliação, criados em São Paulo, que atuavam a partir da tentativa de conciliação entre as pessoas que enfrentavam algum conflito, mas, se não houvesse acordo, as partes eram encaminhadas para a Justiça tradicional. Cabe nesse espaço algumas considerações sobre a diferença entre os Juizados Especiais de Pequenas Causas e os Juizados Informais de Pequenas Causas, as quais serão tecidas a seguir:

O que caracteriza a diferença entre as duas instituições é o caráter jurisdicional. Os Juizados de Pequenas Causas Informais, que é o que temos em Brasília, são presididos por Conciliadores, que podem ser qualquer pessoa do povo, bastando que tenha alguns conhecimentos de direito e gozem de ilibada reputação. O Conciliador presta serviço gratuito e, em audiência com as partes, tenta apresentar solução para o conflito. Obtida a conciliação há um juiz de direito orientador que, depois de indagar das partes, se bem compreenderam os termos do acordo e se estão satisfeitas, passará a homologação do acordo, o qual valerá como título executivo. Neste tipo de Juizado Informal em não havendo acordo nada mais se poderá fazer, senão remeter as partes para a justiça comum. No Juizado Especial de Pequenas Causas a presidência caberá a um juiz de direito que poderá ser auxiliado pelo Conciliador. Inicialmente o juiz fará a proposta de acordo e havendo resposta negativa, este mesmo juiz passará imediatamente a colheita da contestação do réu, colheita de provas e proferirá sentença imediatamente. (ANDRIGHI, 1985, p. 2-3).

Após os juizados informais de Conciliação surgiram movimentos semelhantes, que se utilizavam de formas de composição não litigiosas de conflitos e espalharam-se paulatinamente para outros Estados da federação.