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4 O INSTITUTO DOS CONSELHOS DE DISCIPLINA E

4.2 Os Conselhos de Disciplina e Justificação

Os militares estaduais que sejam contumazes no cometimento de transgressões disciplinares, que venham demonstrar incapacidade moral para permanecer nos quadros das corporações militares poderão ser submetidos a um dos processos regulares mencionados anteriormente, Conselho de Justificação, se Oficial, ou Conselho de Disciplina, se Praça.

A comissão processante concluirá, ao final, se o militar processado é ou não culpado das acusações que lhe são imputadas, sendo absolvido ou condenado, caso em redundará na pena capital.

4.2.1 O Conselho de Disciplina

O Conselho de Disciplina, destina-se a “apurar as transgressões disciplinares cometidas pela praça da ativa ou da reserva remunerada e a incapacidade moral desta para permanecer no serviço ativo militar ou na situação de inatividade em que se encontra” (art. 88) e “será composto por 3 (três) oficiais da ativa e instaurado por ato do respectivo Comandante-Geral ou por outra autoridade a quem for delegada essa atribuição” (art. 88, § 1º).

Para a instauração do Conselho de Disciplina não se faz necessária a existência ou instauração "de inquérito policial comum ou militar, de processo criminal ou de sentença

criminal transitada em julgado" (Art.90). Surgindo "indícios de crime comum ou militar", uma cópia dos autos, deverá ser remetida "à autoridade competente para início do respectivo inquérito policial ou da ação penal cabível" (Art.90, Parágrafo Único).

O Conselho de Disciplina decidirá, em relatório conclusivo, sobre a culpabilidade da praça quanto às acusações que lhe são imputadas (art. 98, § 1º, I) e sobre sua capacidade "de permanecer na ativa ou na situação em que se encontra na inatividade” (art. 98, § 1º, II).

De posse do relatório conclusivo, a autoridade competente decidirá "se aceita ou não o julgamento" emitido pelos membros do Conselho de Disciplina e determinará, se improcedente a acusação, o arquivamento do processo (art 90, I), a punição cabível (art 90, II), a reforma administrativa disciplinar, a demissão ou expulsão (art 90, III), a remessa do processo à Auditoria da Justiça Militar estadual, nos casos em que se configure, em tese, algum crime (art 90, IV).

Em obediência ao princípio da publicidade, a "decisão proferida no processo" será publicada oficialmente no Boletim do Comando Geral da Corporação e transcrita nos assentamentos da Praça (art 90, §1º).

4.2.2 O Conselho de Justificação

O Conselho de Justificação é instaurado com a finalidade de "apurar as transgressões disciplinares cometidas por oficial e a incapacidade deste para permanecer no serviço ativo militar” (art.75), sendo aplicável também, "ao oficial inativo presumivelmente incapaz de permanecer na situação de inatividade” (art.75, parágrafo único).

O Conselho de Justificação será constituído através de “ato do Governador do Estado, que designará 3 (três) oficiais da ativa, dispensados de outras atividades até a conclusão dos trabalhos, de posto superior ao do acusado, contando sempre com pelo menos um oficial superior, cabendo o exercício das funções de presidente, interrogante e relator, respectivamente, por ordem decrescente de antiguidade” (art. 77).

Na prática, o que se verifica é que os Oficiais componentes do Conselho de Justificação, não ficam afastados de suas funções administrativas e operacionais, o que pode

comprometer os trabalhos investigativos.

O relatório conclusivo dos membros do Conselho de Justificação deverá conter a decisão sobre a culpabilidade do Oficial quanto às acusações que lhe são imputadas (art. 84,I), se está ou não definitivamente inabilitado para ingresso no Quadro de Acesso (art. 84, II) e, sobre capacidade "de permanecer na ativa ou na situação em que se encontra na inatividade”.(art. 84, III).

Encaminhado o processo ao Tribunal de Justiça e distribuído o processo, “o relator mandará citar o oficial acusado para, querendo, oferecer defesa, no prazo de 10 (dez) dias, sobre a conclusão do Conselho de Justificação e a decisão do Governador do Estado, em seguida, mandará abrir vista para o parecer do Ministério Público, no prazo de 10 (dez) dias, e, na seqüência, efetuada a revisão, o processo deverá ser incluído em pauta para julgamento”. Julgando procedente as acusações imputadas ao oficial processado, o Tribunal de Justiça "poderá declarar o oficial indigno do oficialato ou com ele incompatível" e decretará ou "a perda do posto e da patente" (art. 87, §1º, I) ou "a reforma administrativa disciplinar, no posto que o oficial possui na ativa, com proventos proporcionais ao tempo de serviço militar" (art. 87, §1º, II).

Havendo sido dada publicidade ao acórdão do Tribunal, "o Governador do Estado decretará a demissão ex-officio ou a reforma administrativa disciplinar do oficial transgressor” (art. 87, §2º)

5 CONSIDERAÇÕES FINAIS

O estudo do juízo ou tribunal de exceção revela suas características. A principal delas é a exclusão do princípio do juiz natural, haja vista que são instaurados em caráter de efemeridade, após a consumação do fato investigado. Como decorrência, fere-se, também o princípio da ampla defesa. Ficam comprometidas a imparcialidade e a impessoalidade do juiz. A segurança jurídica fica abalada pela falta de confiança do jurisdicionado nas instituições.

O princípio do juiz natural garante ao acusado em geral, conhecer onde e por quem será processado e julgado, antes da prática do fato ensejador do processo, seja este penal ou administrativo. O fato deverá ser apreciado por um juiz previamente investido de tal atribuição e não o contrário, ou seja, o juiz não pode ser investido e designado para julgar fato específico e já consumado, como ocorre no tribunal de exceção.

Portanto, configurando-se o conflito de interesses e invocada a tutela jurisdicional, essa deve ser prestada por tribunais pré-constituídos. Não se pode permitir a instituição de tribunais depois de concretizado o fato que motivou a busca da prestação jurisdicional do Estado. Ou seja, objetiva-se erradicar a configuração de qualquer forma de tribunal de exceção ou juízos ad hoc.

O fim da Administração Pública é o bem estar comum. Ela atinge seus objetivos através da atuação dos servidores públicos. Estes, no desempenho de suas funções, podem agir de modo a cometerem desvios que exigem uma resposta da Administração, através da aplicação do poder disciplinar. O meio próprio que permite a investigação do servidor faltoso é o processo disciplinar

Um ilícito administrativo interfere não somente na esfera particular do servidor acusado ou, eventualmente, de sua repartição e outros servidores envolvidos, mas também, na Administração Pública como um todo, que por sua vez, tem como objetivo a satisfação do interesse público, e tem o poder-dever de agir em busca do atingimento de seus fins.

No Estado do Ceará, as corporações militares são regidas pelo Código Disciplinar que prevê entre as formas de processo regular o Conselho de Justificação, constituído através de ato do Governador do Estado e, o Conselho de Disciplina, instaurado por ato do respectivo Comandante-Geral ou por outra autoridade a quem essa atribuição for delegada, podendo

servir de meio que fundamente até a expulsão do servidor militar processado. Verifica-se que a composição e nomeação de seus membros é feita post facto, por tempo determinado.

Assim, presente a desobediência ao princípio do juiz natural. Fica comprometida a defesa do servidor processado pela possibilidade de direcionamento das decisões dos membros da comissão processante, que deixam de seguir os princípios da impessoalidade e da imparcialidade. O servidor não crê que esteja sendo submetido a um processo justo. A segurança jurídica definha.

Os vícios presentes no processo administrativo disciplinar podem eivar de nulidade o ato administrativo decorrente do relatório conclusivo que contém as conclusões a que chegou a comissão processante.

Cotejando a estruturação dos Conselhos de Disciplina e Justificação no âmbito das corporações militares do Estado do Ceará, conforme descritos na Lei nº 13.407, de 21 de Novembro de 2003 e as características próprias do juízo ou tribunal de exceção, é de se concluir que há proximidade entre tais institutos.

Sugere-se a reformulação legal de duas formas de processo regular, previsto no Código Disciplinar da PMCE e CBMCE, que são os Conselhos de Disciplina e Justificação, pelas razões acima elencadas.

Estes seriam substituídos por uma Comissão Permanente de Disciplina, apta a processar Oficiais e Praças, composta por membros com bacharelado em Direito, afastados de outras funções administrativas inerentes ao posto ou graduação.

Finalmente, diante dessa conjuntura espera-se que o aceitamento dessa sugestão afaste das corporações militares do Estado do Ceará estes dois institutos que ainda guardam em si proximidade com o tribunal de exceção, instituto próprio de Estados opressores e totalitários, desrespeitadores dos direitos e garantias individuais e dos valores que caracterizam o Estado Democrático de Direito.

REFERÊNCIAS

COSTA, Ana Edite Olinda Norões. Direito Administrativo: análises e reflexões. 1. ed. Fortaleza: Unifor, 2008.

COSTA, José Armando da. Teoria e prática do processo administrativo disciplinar. 5. ed. Brasília: Brasília Jurídica. 2005.

FILHO, José dos Santos Carvalho. Manual de Direito Administrativo. 13 ed. Rio de Janeiro: Lúmen Júris, 2005.

JÚNIOR, José Cretella. Prática do Processo Administrativo. São Paulo: Editora Revista dos Tribunais, 1988.

LIMA, Marcellus Polastri e, SANTIAGO, Nestor Eduardo Araruna. A Renovação

Processual Penal após a Constituição de 1988. Rio de Janeiro: Lumen Juris Editora, 2009.

MEIRELLES, Hely Lopes. Direito Administrativo Brasileiro. 23. ed. São Paulo: Malheiros. 1998.

PIETRO, Maria Sylvia Zanella Di. Direito Administrativo. 10. ed. São Paulo: Atlas. 1998..

SILVA, José Afonso da. Curso de Direito Constitucional Positivo. 16. ed. São Paulo: Malheiros, 1999.

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