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OS CONSELHOS PROFISSIONAIS COMO MODELO PARA O

5. O CONSELHO E OUTROS ÓRGÃOS DE REGULAMENTAÇÃO

5.1 OS CONSELHOS PROFISSIONAIS COMO MODELO PARA O

Jornalismo ao Congresso, o ministro Luiz Gushiken comparou à profissão de jornalista

com outras carreiras e disse: “Os jornalistas são uma das poucas categorias profissionais

do país que ainda não contam com uma entidade como essa”, disse o ministro que cita

exemplos bem-sucedidos de outras categorias como engenheiros, médicos, arquitetos e

advogados.”

139

O ministro-chefe da Casa Civil, José Dirceu, também recorreu à

comparação: “Da mesma maneira que temos a OAB, o Conselho Federal de Medicina, o

Crea, os jornalistas podem e devem ter o seu conselho federal, mas garantida a liberdade

de informação e de expressão, direito constitucional de todos nós, que, felizmente,

reconquistamos no Brasil”.

140

O presidente da Associação Brasileira de Imprensa, Maurício Azêdo, descartou

essa comparação do jornalismo com outras profissões: “O jornalismo trabalha no campo

imaterial das idéias e não pode, como outras profissões, ser objeto de regulação,

disciplina e fiscalização, como previsto no projeto.”

141

Azêdo criticou a ameaça à

liberdade de expressão e os poderes imperiais do CFJ.

A ex-presidente da Federação Nacional dos Jornalistas, Elisabeth Costa, disse

que o conselho “apenas cumpriria um vazio que existe hoje, até porque o Ministério do

Trabalho não quer mais fiscalizar as profissões. O órgão atuaria em casos de abuso ou

como uma alternativa para quem se sentisse ofendido ou incomodado com alguma

reportagem. Poderia evitar ainda que pessoas não-qualificadas entrassem no

mercado.”

142

139 GUSHIKEN quer “proteger a sociedade” com conselho de jornalismo” Folha de S. Paulo, 07 ago

2004. Anexo II.

140 SCOLESE, Eduardo. Nem liberdade de imprensa é valor absoluto, diz Gushiken. Folha de S. Paulo,

11 ago 2004. Anexo II.

141 ABI reafirma posição contra o Conselho. Disponível em <http://www.abi.org.br>. Acesso em

16/09/2004. Anexo VIII.

142 CHRISTOFOLETTI, Lilian. Fenaj apóia conselho de jornalismo; ABI veta. Folha de S. Paulo, 07 ago

O jornalista Angelo de Souza saiu em defesa da proposta de criação do Conselho

no Observatório da Imprensa, também recorrendo à comparação com conselhos de

outras carreiras.

“Necessariamente escamoteado da pauta cotidiana, o que vem à baila pela agenda do Congresso é: os jornalistas existem. São algo destacado das empresas onde trabalham. São pecinhas da engrenagem, mas têm sua especificidade.

Em tese, formam uma categoria profissional que tem, sim, caráter liberal, de autonomia e independência. Assim é com os médicos, os engenheiros, os advogados- que nem por isso são poupados do trabalho assalariado, nem os exime de obrigações morais a que os sujeitam suas escolhas profissionais. Só que apenas os jornalistas parecem renunciar a isso, sob o peso de um código de ética de dificílima aplicação e de uma suposta função social que nunca se realiza. Mas não é disso que se ocupa a cobertura jornalística do assunto. (...)

O que pode ter paralelo com uma OAB (e, por que não?, com sua história de contribuições à sociedade brasileira) é tratado como um atentado à Constituição.”143

Outro jornalista, Antonio de Oliveira, também defendeu o Conselho pelos

mesmos motivos:

“Médicos, dentistas, advogados, contabilistas, arquitetos, engenheiros (só para citar alguns) são contra os seus conselhos federais? Não. Pelo contrário, procuram manter-se afinados com eles, pois têm certeza de que estas entidades atuam em defesa de suas atividades, zelando pela ética e pela garantia do mercado de trabalho para aqueles que têm formação na área, que têm registro profissional e que atuam com responsabilidade na sua profissão. (...)

Por que será que o primeiro jornal a publicar um editorial contra a criação do Conselho é justamente aquele que defende, com unhas e dentes, que o jornalismo não é profissão, que não precisa qualificação especial para seu exercício e que pode ser feito por qualquer pessoa? (...)

Toda esta balela sobre ameaça à liberdade de imprensa, que estão tentando infundir na cabeça dos leitores, ouvintes e telespectadores brasileiros, é conversa fiada. Se o texto tiver algum verbo a mais, desnecessário, vamos copidescá-lo. Os jornalistas querem apenas o Conselho Necessário.”144

O médico Celio Levyman foi conselheiro e diretor do Departamento Jurídico do

Conselho Regional de Medicina de São Paulo. E traça um paralelo com os processos

disciplinares dos conselhos de Medicina para criticar a possível instituição do CFJ:

“Imaginemos, então, que um jornalista escreva uma matéria que desagrade a um governante ou a um poder como um todo: ele entra com uma denúncia, que se transforma em processo disciplinar e vai a julgamento. Em tempo: sempre é bom lembrar que conselhos e ordens são formados por profissionais eleitos por determinado período de anos, e muitas vezes há acirradas disputas políticas e não raramente apoio financeiro e estratégico de fontes oficiais que não aparecem, claro. Eis que, ao fim do processo imaginário acima citado, o jornalista seja condenado (também deverá existir um Código de Ética, discriminação das punições e outro Código de Processo Ético-Disciplinar, acho eu). E a pena imposta seja a cassação do exercício de sua profissão. Ele recorre à instância superior, o CFJ, que mantém a pena. Aí é que a coisa realmente pega. Nem o Poder Judiciário, a não ser que ocorram erros técnicos que caracterizem violação do devido direito legal ou assemelhados, levando à nulidade processual- pode reverter a questão.

Como no caso dos médicos, a pena transitada em julgado é definitiva: para todo o sempre o jornalista não poderá voltar à profissão. Aí está meu argumento de inconstitucionalidade: se até os

143 SOUZA, Angelo de. Conselho como água. Observatório da Imprensa. Acesso em 1° set 2004. Anexo

III.

144 OLIVEIRA, Antonio de. O conselho necessário. Observatório da Imprensa. Acesso em 1° set 2004.

criminosos mais bárbaros e hediondos passam no máximo 30 anos reclusos, uma infração ético- disciplinar, que em medicina pode abranger aspectos tangíveis e técnicos sujeitos a perícia, no jornalismo seria altamente subjetiva, no caso de profissionais da imprensa pode impedi-los definitivamente de exercer a profissão. E denúncias de cunho meramente pessoal ou político certamente não irão faltar, seja qual for o governo...”145

Para Levyman, se o CFJ não institui a censura direta, ele poderia acabar levando

a autocensura, que como mostrado no capítulo 2, é igualmente corrosiva à liberdade de

imprensa.

“(...) com um CFJ, um órgão independente do governo, uma denúncia contra um jornalista seria analisada por seus pares, eleitos, e a punição aplicada de acordo com as leis vigentes no país, como ocorre com as demais profissões. Para todos os efeitos, governantes poderiam até denunciar, mas não fariam censura, tampouco interfeririam nos resultados de um processo. E isso tem outro nome além de censura punitiva?

O que, caso o CFJ seja formado, deve ocorrer? O medo entre os jornalistas, que passarão a usar da autocensura, tornando-se cada vez mais dóceis frente aos detentores do poder, sem que se possa alegar que haja censura, violência física, ameaças ou coisa parecida.”146

O advogado José Paulo Cavalcanti Filho, presidente do Conselho de

Comunicação Social, contesta a inspiração do Conselho Federal Jornalismo nos órgãos

profissionais de outras categorias:

“Agora vem esse Conselho Federal de Jornalismo, inspirado em órgãos similares de outras categorias profissionais. Não na forma. A Lei do Crea, por exemplo, tem 92 artigos; enquanto o projeto dos jornalistas, apenas 19. Em ambos os casos profissionais são compulsoriamente inscritos e pagam anuidades, é certo. Mas a Lei do Crea regula eleições, qualificações exigidas dos diretores, limites ao processo administrativo, o próprio poder de regular. No projeto dos jornalistas não há nada disso. Vai ser tudo decidido pela Fenaj- entidade de evidente legitimidade, mas que não representa a sociedade civil. E sequer representa todo conjunto dos jornalistas brasileiros.”147

De fato, a lei n° 5.194, de 24 de dezembro de 1966, que regula o exercício das

profissões de engenheiro, arquiteto e engenheiro-agrônomo, possui 92 artigos contra os

parcos 19 do projeto de lei que cria o Conselho Federal de Jornalismo. Antes de entrar

no mérito da criação dos Crea- Conselhos Regionais de Engenharia, Arquitetura e

Agronomia- e do Confea- Conselho Federal de Engenharia, Arquitetura e Agronomia,

em seu Título II, a lei dedica 23 artigos para aclarar quais são as atribuições dessas

profissões, quem pode exercê-las e quais são as suas responsabilidades. O artigo 6°, por

exemplo, enumera quem exerce ilegalmente a profissão de engenheiro, arquiteto ou

engenheiro-agrônomo. O artigo 7°, com oito sub-itens, especifica as atribuições

145 LEVYMAN, Celso. Censura ético-disciplinar. Observatório da Imprensa. 1° set 2004. Anexo III. 146 Idem

147 FILHO, José Paulo Cavalcanti. Em momento inoportuno. Observatório da Imprensa, 1° set 2004.

profissionais e atividades dessas carreiras.

148

Uma vez estabelecidos os direitos e

deveres dos profissionais, é que a lei entra no mérito da fiscalização, instituindo no seu

art. 24 a criação do CONFEA e dos CREA. Mais adiante, somente no Art. 71, a lei entra

no mérito das punições cabíveis por infrações ao Código de Ética das profissões, tópico

esse que no projeto de lei do CFJ está colocado no Art. 7°, denotando qual é a

prioridade que cada lei dá ao assunto.

Nesse ponto cabe colocar que existiu um projeto anterior do CFJ ao que foi

encaminhado ao governo, anterior mesmo àquele que não sofreu as alterações impostas

pela Casa Civil, um anteprojeto de lei com 73 artigos, que era muito mais amplo.

Primeiro, a modelo da lei que cria o Confea, começava por definir o jornalismo. O seu

art. 1° rezava: “A profissão de jornalista é de natureza social e finalidade pública”. Já o

2° dizia: “O jornalista é indispensável à livre circulação de informações na sociedade e

suas fontes de informação, bem como seus arquivos e local de trabalho, são invioláveis

no exercício da profissão, nos limites dessa lei”.

149

O anteprojeto trazia inovações,

como as regulamentações dos assessores de imprensa, no §1° do art. 3° (“Exercem

atividade jornalística para todos os efeitos legais os assessores de imprensa) e dos

estagiários em jornalismo, no §2° do mesmo artigo ( “o estagiário de jornalismo deve se

inscrever no CRJ, de acordo com o disposto no artigo 9°). O capítulo I enumera todas as

atividades privativas de jornalistas e o capítulo II enumera os seus direitos. No capítulo

III, que lista os pré-requisitos para que pessoas possam se inscrever nos Conselhos

Regionais de Jornalismo e, portanto, exercerem a profissão, o art. 8°, no seu item II, diz

que para inscrição como jornalista junto ao Conselho Regional é necessário “diploma de

curso de graduação em jornalismo ou de comunicação social, habilitação jornalismo,

fornecido por instituição de Ensino Superior reconhecida na forma de lei”. A

manutenção do diploma para o exercício da profissão é uma das bandeiras da Fenaj e foi

estranhamente omitida do texto final enviado ao Ministério do Trabalho. O item III do

mesmo artigo estabelece uma espécie de exame da Ordem, como o que existe para se

exercer Direito, dizendo que é necessário para inscrição no Conselho Regional “ter sido

aprovado em procedimento instituído pelo CFJ que aufira a sua capacidade técnica

148 Lei n° 5.194, de 24 de dezembro de 1966. Anexo XIV.

149 Anteprojeto de Lei. Ementa: Cria o Conselho Federal de Jornalismo-CFJ, institui o Código de Ética e

profissional”. No projeto que foi encaminhado ao governo, o texto limita-se a dizer que

‘todo jornalista, para exercício da profissão, deverá inscrever-se no CRJ da região de

seu domicílio, atendendo as condições estabelecidas pela legislação.” (art. 4°).

150

O anteprojeto original também legisla sobre as empresas jornalísticas, colocando

em seu art. 16 que “para poderem exercer atividades jornalísticas as empresas referidas

neste artigo terão que obter o registro no Conselho Regional em cuja base territorial

tiver sua sede”.

O argumento de que o Conselho servirá para defender os profissionais dos

desmandos dos seus patrões, um dos mais colocados pelos defensores do projeto dentro

da Fenaj, como por exemplo o vice-presidente Fred Ghedini (“o jornalista vai se sentir

mais apoiado para exercer sua profissão com independência. Independência de

governos, de partidos, de religiões de empresários. Ele vai ter uma organização que vai

poder apoiá-lo em todos os momentos, sempre que houver conflitos no exercício da

profissão e ele se sentir pequeno, diante de uma força maior”

151

), e que não encontra

nenhum ponto de sustentação no projeto final, está aqui colocada, em artigos como o 19

(“a relação de emprego público ou privado, na qualidade de jornalista, não retira nem

reduz a independência e a isenção técnica e profissional inerente ao jornalismo”) e 26 (“

nenhum receio de desagradar a quem quer que seja deve inibir o jornalista no exercício

de sua profissão”.)

Quando regula sobre as sanções disciplinares, no seu artigo 30, o anteprojeto não

inclui a palavra censura entre as punições cabíveis, mas apenas advertência, multa,

suspensão e exclusão. Nos artigos seguintes, o anteprojeto ainda regulamenta os casos

em que é cabível cada tipo de punição, a passo que o projeto enviado ao Congresso só

traz em parágrafo único do Art. 7° que “o CFJ estabelecerá os procedimentos

administrativos para aplicação das penas previstas neste artigo.”

Os artigos que fizeram parte do projeto final começam a ser listados no Título

III- Do Conselho Federal de Jornalismo. Ainda assim, o capítulo V fala da instituição de

tribunais de ética e disciplina e explica como será o funcionamento desses tribunais,

questão que também não é aclarada no projeto enviado ao Ministério do Trabalho. Em

relação aos primeiros conselheiros, o primeiro anteprojeto também previa a sua escolha

pela Fenaj, mas previa um prazo máximo de dois anos para o mandato desses

conselheiros, sem a possibilidade de prorrogação prevista no parágrafo único do Art. 17

do projeto final.

Por fim, o anteprojeto trazia anexo o Código de Ética do Jornalista aprovado em

Congresso Nacional dos Jornalistas em 1987, e não delegava aos membros do Conselho

a prerrogativa de criar um novo código

152

. Em 2002, a Fenaj enviou o anteprojeto ao

então ministro do trabalho Paulo Jobim. Em 2004, a nova proposta foi enviada ao

ministro Ricardo Berzoini. Com a redução de 73 artigos para 19, a proposta perdeu o

seu caráter original de alterar boa parte da legislação sobre imprensa no Brasil (seu

último artigo revogava disposições em contrário, “especialmente o Decreto-Lei n° 972

de 17 de outubro de 1969”, também conhecido como Lei de Imprensa) e passou a ser

meramente um instrumento de instituição do Conselho Federal de Jornalismo.

De acordo com o repórter Edson Sardinha, os diretores da Fenaj se arrependeram

da mudança, e “estão trabalhando para substituir o projeto de lei que cria o Conselho

Federal de Jornalismo (CFJ) pela versão anterior da proposta, entregue ao então

ministro do Trabalho Paulo Jobim, em 2002.”. De acordo com Sardinha, “a avaliação

interna é que a entidade se equivocou ao reduzir de 73 para 19 o número de artigos do

anteprojeto. O enxugamento excessivo teria comprometido a compreensão da proposta e

facilitado a ação dos críticos.”

153

Ainda segundo a reportagem de Sardinha, a Fenaj estaria estudando outras

mudanças no projeto, voltando ao original e acrescentando outros itens.

“ Membros da entidade também consideram que o desgaste criado em torno do artigo que trata da primeira composição do CFJ poderia ter sido evitado pelo anteprojeto original. De acordo com a proposta atual, o Conselho de Representantes da Fenaj poderá indicar nova composição após dois anos, caso não sejam eleitos cinco Conselhos Regionais.

Esse ponto, por exemplo, é um dos mais combatidos pelo presidente da Associação Brasileira de Imprensa (ABI), Maurício Azedo, que considera que ele dá “poderes imperiais” à Federação. No anteprojeto apresentado ao governo Fernando Henrique Cardoso, não há menção ao Conselho de Representantes, mas apenas a jornalistas profissionais efetivos. Além disso, ele não garante à Fenaj o direito de indicar uma segunda composição.

Os sindicalistas também querem incluir no projeto o dispositivo da cláusula de consciência, que permite que o jornalista se recuse a fazer determinadas tarefas se considerar que elas são contrárias ao Código de Ética, sem perder o emprego. A proposta, que também é polêmica, seria aproveitada do projeto de lei do deputado Celso Russomanno (PL 6817/02) que cria a Ordem dos Jornalistas do Brasil. As duas proposições tramitam em conjunto.

151 QUEM haverá de ser contra? Comunique-se. Acesso em 1° set 2004. Anexo IV. 152 O código de ética já foi abordado no capítulo anterior e encontra-se no Anexo XIII.

Durante audiência pública realizada semana passada (15/08) pela Comissão de Educação, no Senado, o primeiro-secretário da Fenaj, Aloísio Lopes, admitiu que o texto deve passar por mudanças para excluir expressões que possam dar margem à interpretação de que a proposta limita a liberdade de imprensa.

“Um substitutivo é necessário, importante e viável, mas queremos que o Legislativo não nos negue o direito a ter um conselho profissional”, disse o presidente do Sindicato dos Jornalistas Profissionais de Minas Gerais.

Ele também defendeu a transformação em lei do Código de Ética e Disciplina da categoria, como estava previsto na versão anterior do anteprojeto. Segundo Lopes, o projeto apresenta algumas omissões que deverão ser corrigidas pelos parlamentares. Como exemplo, o jornalista citou a falta de referência ao Tribunal de Ética, colegiado que seria responsável por julgar os processos disciplinares, e de um maior detalhamento sobre os casos passíveis de punição”.