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Os contínuos ················································································

Texto 5.8 Aluno do 5º ano, de 12 anos e 8 meses ···········································

2.2 Considerações sobre a Linguística e a Sociolinguística·································

2.2.7 Os contínuos ················································································

Bortoni-Ricardo (2004) idealiza três linhas imaginárias, uma para cada contínuo, às quais ela chama de: (a) contínuo de urbanização, (b) oralidade e letramento e (c) monitoração estilística.

2.2.7.1 O contínuo de urbanização

Todos os três contínuos são muito pertinentes para a compreensão dos modelos e dos usos da língua, porém o contínuo de urbanização se torna de maior pertinência para este estudo. Principalmente, porque esse contínuo torna possível se compreender o trânsito linguístico ao qual os falantes, das diferentes áreas, podem ser submetidos e as alterações que o modo de falar desses falantes sofre gradativamente. Esse contínuo refere-se aos falares que estão localizados em três áreas: rural, urbana e numa área intermediária denominada de rurbana. A autora considera que as fronteiras desse contínuo não são rígidas a ponto de separarem os diferentes falares que ele representa.

Para ela, pode até haver “sobreposição entre os tipos de falares”. Ela o representa da seguinte forma (BORTONI-RICARDO, 2004, p. 52):

variedades área rurbana variedades urbanas rurais isoladas padronizadas

Na extremidade esquerda da linha que representa o contínuo, localizam-se os falares rurais localizados nas áreas mais isoladas onde predomina a cultura de oralidade; na extremidade oposta, ficam as variedades urbanas que foram influenciadas pela modalidade linguística padronizada e no meio, localiza-se a área rurbana. A área intermediária, ou seja, a rurbana representa os falares resultantes do contato dos falantes rurais com a variedade dos falantes urbanos, seja por meio de interação social ou por influência da mídia. Apesar de o modo de falar dos usuários dessa área já ter sofrido modificações, ainda se preserva muito do repertório linguístico anterior.

Dessa forma, a mesma autora acrescenta que, ao longo do contínuo rural-urbano é possível se identificar traços linguísticos que ela chamou de “traços descontínuos” e “traços graduais” (p. 53).

 Os traços descontínuos são os traços mais discriminados pela sociedade urbana detentora do poder. Eles são característicos das comunidades regional e socialmente mais isoladas. Esses traços sofrem alteração e chegam a desaparecer quando o falante é submetido à influência da cultura urbana. Por exemplo: a troca do /l/ pelo /r/ em “planta” > “pranta” ou do /r/ pelo /l/ em “carvão” > “calvão”; vocalização da palatal /lh/ em “mulher” > “muié” ou apagamento da mesma em “melhor” > “mió”, entre outras.

 Os traços graduais podem ser encontrados no repertório linguístico de quase todos os brasileiros. Sua maior incidência é nos registros de fala não monitorada e depende do grau de formalidade exigida pelo contexto de fala. Exemplo de traços graduais: a assimilação do /d/ na sequência /nd/ “comendo” > “comeno” e do /b/ na sequência /mb/ “também” > “tomẽi”; queda do /r/ final nas formas verbais, entre outras.

Esses traços estão diretamente relacionados ao contínuo de oralidade e letramento.

2.2.7.2 O contínuo de oralidade e letramento

Esse contínuo possui algumas características do contínuo de urbanização, por se considerar que dificilmente há fronteiras rígidas ou bem marcadas entre evento de oralidade e de letramento. Nele também ocorrem muitas sobreposições. Os eventos podem ser mesclados ou exercer influência mútua. O contínuo de oralidade e letramento é representado da seguinte forma (p. 62):

eventos de oralidade eventos de letramento

Os eventos de oralidade são mais frequentes nas culturas de oralidade (como as de zona rural) e os de letramento, mais inerentes às culturas letradas (como a de zona urbana).

2.2.7.3 O contínuo de monitoração estilística

Esse contínuo está relacionado à atenção que o falante dispensa à sua fala. Essa atenção diz respeito ao cuidado com o que falar ou com o como falar. A atenção pode ser motivada por diversas razões, como: o ambiente em que se está, o interlocutor e o tópico da conversa, a complexidade do tema ou do gênero textual discutido, dentre outras. Para a autora, a monitoração pode ocorrer também devido à mudança de tópico. Nesse caso, o falante procura mudar a fala conforme as alterações que vão se configurando, enquanto fala. Dessa forma, o estilo sofre um “alinhamento”, para poder ser “enquadrado” na interação. A representação do contínuo é a seguinte (p. 62):

- monitoração + monitoração

Os contínuos apresentados por Bortoni-Ricardo (2004) sistematizam uma metodologia de análise dos falares brasileiros. Eles possibilitam que se analise o modo de falar de um sujeito e se localize em qual polo ou parte da linha o falante se encontra mais próximo, já que as fronteiras não são rígidas. Se a maioria dos professores tivesse conhecimento de estudos sociolinguísticos e realizasse avaliações de si próprios e dos alunos de forma que soubessem localizar onde se encontram nos contínuos, quem sabe, poderiam realizar um trabalho mais objetivo.

Outrossim, faz-se necessário que o professor que tem a responsabilidade de proporcionar a apropriação da língua, principalmente os que trabalham com as classes estigmatizadas, tenha conhecimento sociolinguístico para poder compreender a si mesmo e aos seus alunos. E auxiliá-los de tal forma que o preparo e conhecimento desejáveis sejam alcançados, para que tenham uma participação mais ativa na sociedade e lutem pelos seus direitos, pois, apesar de alguns grupos já estarem nessa luta, ainda há muito a fazer para que os benefícios se tornem realidade. Ademais, conforme Mollica (2007), “do ponto de vista educacional, não há qualquer vantagem em avaliar os alunos quanto à variedade linguística”. Para ela, tratar a variedade do aluno de forma preconceituosa só acarreta em prejuízos para ele. Tal prejuízo, inicialmente, é só do aluno, mas depois ele se expande para a família e até para o país, ou seja, alcança outras instâncias.

Ademais, é necessário que o professor tenha conhecimento linguístico que inclua saber como a língua funciona, por exemplo: como são formadas as sílabas e quais são as principais regras de variação, entre outros.