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4. As origens e os frutos da mudança

4.3. Os contextos de transição com agora e now

Os usos adverbiais e conjuncionais de agora e now coexistem, no português e no inglês contemporâneos, com usos em que os itens explicitam a transição entre tópicos ou subtópicos discursivos, funcionando como recursos metatextuais mobilizados por falantes/escreventes para indicar que, a partir do enunciado introduzido pelos itens, o texto estará orientado em outra direção discursiva. Nesses usos, assumimos que agora e now funcionam como MDs, entendendo MDs, com base em Traugott (1995) e Traugott e Dasher (2004), como itens/expressões que revelam a avaliação dos falantes/escreventes sobre como se dá a organização entre os enunciados. Conforme argumentam Traugott e Dasher (2004, p. 152), MDs não dão contribuições significativas para o conteúdo proposicional dos enunciados, mas se constituem de pouca semântica conceitual e veiculam significados essencialmente pragmáticos. Os dados forneceram 116 e 264 ocorrências de

agora e now, respectivamente, atuando como MDs. A distribuição longitudinal dessas ocorrências

pode ser observada no Capítulo 06.

Na medida em que configuram marcas explícitas de que novas unidades discursivas serão iniciadas, agora e now desempenham funções textuais prospectivas. Segundo Aijmer (2002), MDs prospectivos são attention-getters (“capturadores de atenção”), anunciando “a new point in the discussion, a new topic, or items on a list” (AIJMER, 2002, p. 54). Ao explicitarem a transição para novas unidades do discurso, agora e now também desempenham o papel de estabelecer coesão textual, já que, ao indicarem o início de uma nova unidade discursiva, determinam o término de outra, por maior que seja a relação entre a nova unidade e a unidade anterior. Dessa forma, nos usos como MDs, agora e now também atuam na articulação entre enunciados, organizando-os e estabelecendo uma espécie de ordenação entre eles.

O valor de prospecção dos usos discursivos parece refletir o valor temporal dos usos adverbiais de agora e now, considerando-se que, como MDs, eles também exibem nuanças do significado de tempo, não sendo, entretanto, o mesmo tipo de tempo expresso nos usos adverbiais. Como advérbios temporais, agora e now expressam tempo de referência (SCHIFFRIN, 1987, p. 228), indicando a relação dêitica entre um conteúdo proposicional e seu momento de enunciação. Ao expressarem esse valor temporal (que emerge não apenas dos itens em si, mas de sua correlação com outros dispositivos gramaticais, tal como tempo e modo verbais), agora e now situam o evento

descrito no enunciado como coincidente com o momento de sua produção ou como próximo a ele (cf. Seção 4.1).

Nos usos para expressão de transição textual, assumimos que agora e now expressam o que Schiffrin (1987) denomina tempo do discurso, que, segundo a autora, faz referência às relações temporais entre enunciados em um discurso, de modo a indicar a ordem em que um falante (ou escrevente) apresenta os enunciados (SCHIFFRIN, 1987, p. 229). Esse valor temporal, portanto, permite explicar a função de ordenação que pode ser identificada nos usos de agora e now como MDs, constituindo evidência de que o significado de tempo se reflete em tais usos.

Investigando o funcionamento de um MD do espanhol (o sea), Schwenter (1996) defende (assim como muitos estudos de gramaticalização) que o significado pragmático de MDs preserva traços do significado fonte que lhes dá origem e que, para se compreender o significado dos MDs, é preciso recuperar o significado de conteúdo expresso pelas fontes lexicais. Nas palavras do autor, “ ‘content-less’ forms retain both semantic and distributional idiosyncrasies that can only be accounted for when these are traced back to their ‘content-full’ origins” (SCHWENTER, 1996, p. 871-872).

A relação entre o significado fonte e o significado de agora e now enquanto MDs pode ser explicitada a partir de um recurso mobilizado por Quirk et al. (1985) para evidenciar o caráter transicional do que os autores chamam de advérbios discursivos (dentre os quais incluem alguns usos de now). Segundo os autores, as construções com esses advérbios podem ser reformuladas em estruturas nas quais o advérbio transicional é precedido por uma oração constituída de um verbo de dizer e de um sujeito geralmente correspondente ao falante, conforme a seguinte estrutura, proposta em Quirk et al. (1985, p. 640):

One can

I will say + adverbial

Nessa perspectiva, ao introduzir um enunciado por meio de agora e now MDs, falantes/escreventes parecem implicar eu direi agora/now X.

Embora a expressão de tempo do discurso represente um importante vínculo entre o advérbio e o MD, e essa ligação entre fonte e alvo, conforme observa Schwenter (1996) no estudo

de o sea, é essencial para a compreensão dos novos significados, as construções com os MDs mobilizam contextos de uso particulares, com propriedades morfossintáticas significativamente diferentes daquelas apresentadas pelas construções em que os itens têm função adverbial. Nesse sentido, se é importante compreender as relações entre os usos primeiros e os usos derivados, é também importante compreender as diferenças entre eles, na medida em que tais diferenças podem revelar especializações (na morfossintaxe e no significado) resultantes do processo de mudança. Discutiremos como essas especializações se desenvolveram ao longo do tempo no Capítulo 06. Aqui, focalizamos particularidades semântico-pragmáticas e morfossintáticas que caracterizam a função de agora e now como MDs e que permitem defender sua gramaticalização.

Em termos de significado, a diferença entre expressão de tempo referencial e expressão de tempo discursivo parece ser decorrente da diferença no grau de subjetividade (TRAUGOTT; KÖNIG, 1991; TRAUGOTT, 2010a; TRAUGOTT; DASHER, 2004, cf. Capítulo 02) subjacente a cada valor temporal. Quando veiculam tempo discursivo, agora e now revelam a avaliação do falante/escrevente sobre como se dá a ordenação entre os enunciados no discurso. Esse significado, portanto, é fundado na situação interna ao texto e exibe um grau maior tanto de subjetividade quanto de intersubjetividade em relação ao significado dos usos adverbiais. A subjetividade pode ser evidenciada no papel que agora e now assumem na ordenação dos enunciados pelo falante/escrevente, já que ela passa pela avaliação subjetiva sobre o modo como os enunciados se organizam, ao passo que a intersubjetividade se revela na preocupação do falante/escrevente em indicar para o ouvinte/leitor que uma nova etapa se inicia no texto, pois ele volta sua atenção para a interpretação que o interlocutor fará dos enunciados.

Tempo referencial constitui uma noção semântica já atravessada por certo grau de subjetividade. Segundo Traugott e König (1991, p. 208), relações temporais são relações “internas” no sentido de que exibem menos correlatos físicos do que outros tipos de relações. Entretanto, tendo em vista que o tempo de referência, conforme definido por Schiffrin (1987), estabelece uma relação dêitica entre um conteúdo proposicional e seu momento de enunciação, trata-se de um valor temporal que tem fortes ligações com a situação externa de comunicação. Desse modo, é possível assumir o significado dos usos adverbiais como um significado mais próximo da situação externa e, portanto, menos subjetivo. Isso implica reconhecer que a trajetória de desenvolvimento do MD vai do menos para o mais subjetivo e intersubjetivo.

A partir das construções de (17) e (18), exemplificamos os contextos de transição com

agora, e, a partir das construções de (19) e (20), os contextos de transição com now.

(17) Então você não tem uma concentração que te atue suficientemente... por isso a gente diz que... existem compostos solúveis... alguns pouco solúveis e outros totalmente insolúveis... esses totalmente insolúveis são totalmente insolúveis?

AL.: não...

INF.:a prova é que quando se alcança o grau de solubilidade máxima... ele passa a ser insolúvel... então... o conceito de solubilidade é um conceito relativo... tá? um conceito político é um conceito relativo... agora... em relação a nós... é que nós definimos o que é solubilidade... a gente aqui diz... ó... daqui até aqui é muito solúvel... daqui até aqui é pouco solúvel... daqui até ali é... insolúvel... (TFCN20:2, 56, C1).

(18) AL.: porque ela devia dissociar o produto sete... né? pelo que eu sei isso é alguma coisa assim...

INF.: ao contrário... né? tem menos do que o sete... AL.: tem menos que sete...

INF.: então... não alcançarei sete ainda... então... está tudo solúvel... agora... suponhamos que você

colocasse por exemplo... eh::... vamos... vamos (colocar uma coisa bonitinha aqui nove)... vamos imaginar que tivesse colocado três... de prata... três de prata... e quatro... de cloro... tá? imaginem que eu coloquei três de prata e quatro de cloro... que que ia acontecer? eu ia ter uma precipi-ta-ção... por quê? porque o produto tem que ser... quanto? (TFCN20:2, 44, C1).

(19) You'll have more and more of these oxides all ready to uh uh to prevent severe contact by some passing marauding, asperity. that's the hypothesis now how do you verify or prove this? well, the common metallurgical tools don't work (UNMI20:2/21, 261).

Você vai ter cada vez mais esses óxidos todos prontos para uh uh impedir contato profundo por alguma acidez passageira. Essa é a hipótese agora como você verifica ou prova isso? Bem, as ferramentas metalúrgicas comuns não funcionam.

(20) He had a little knife and he was managing it with his hand right? and and and when he did etchings he was managing it again with his hand and his fingers, he had control over this part of his arm. now this is heavy labor. so um, to carve stone especially stone of this size, we're not talking about a Venus of Willendorf size stone which is, uh you can hold in your hand, here we're talking about, a block of marble that's bigger than the artist. right? (UNMI20:2/21, 283).

Ele tinha uma pequena faca e ele estava a manuseando com sua mão certo? e e e quando ele fez gravuras ele estava a manuseando de novo com sua mão e seus dedos, ele tinha controle sobre essa parte do braço dele. agora esse é um trabalho pesado. então um, para esculpir com pedra especialmente com uma pedra desse tamanho, nós não estamos falando de uma pedra do tamanho da Venus de Willendorf que é, uh você pode segurar em sua mão, aqui nós estamos falando sobre, um bloco de mármore que é maior do que o artista. certo?

Na construção em (17), o enunciado que agora introduz acrescenta uma informação referente ao tópico já focalizado no enunciado anterior, no qual o locutor está argumentando que solubilidade é um conceito relativo. No enunciado seguinte, ele restringe essa relatividade,

especificando que a solubilidade de um dado composto é definida pelo químico que está trabalhando com ele. Assim, agora explicita a transição para um subtópico.

No exemplo (18), agora introduz um enunciado constituído de conteúdo não factual, sendo a semântica do verbo supor, aliada ao pretérito imperfeito do subjuntivo de colocar, os principais traços do contexto que sustentam a não factualidade. Nesse enunciado, o professor incentiva os alunos a imaginarem uma situação em que o composto em foco na aula sofre precipitação, situação distinta da considerada anteriormente, na qual está tudo solúvel. Ocorre, portanto, uma mudança no curso da aula, que é reorientada para uma outra situação envolvendo o mesmo composto. Agora explicita a transição no texto, sinalizando para os ouvintes (alunos) que o falante (o professor) mudará a direção do texto, introduzindo, desse modo, um novo subtópico discursivo. O verbo

suponhamos, tanto pelo valor de condição subjacente a suposições quanto pelo modo imperativo

em que está conjugado, também contribui para a abertura do subtópico, já que leva os ouvintes a reconsiderarem o mesmo tópico da aula à luz de novas circunstâncias (hipotéticas).

Na construção em (19), now sinaliza a transição de uma hipótese para sua verificação empírica. O enunciado que introduz tem força ilocucionária interrogativa, de modo que a transição se dá para o questionamento do locutor sobre como é possível comprovar a hipótese anteriormente discutida. Trata-se de transição para um subtópico, na medida em que o texto permanece centrado no tópico maior da aula (o funcionamento de óxidos). É possível notar que a transição no texto parece refletir uma ordenação geralmente seguida no trabalho científico, que tende a partir de hipóteses primeiramente levantadas e posteriormente confirmadas ou refutadas.

São frequentes nos dados contextos em que a transição sinalizada por now, ou mesmo por

agora, se dá para uma interrogação. A constituição interna dos contextos de transição mostra-se

consideravelmente variáveis nos dados, mas alguns modos de estruturação informacional (como por exemplo uma declaração no enunciado anterior e uma interrogação no enunciado introduzido por agora ou now) parecem mais recorrentes que outros. Dessa forma, o próximo passo da análise dos contextos de transição é verificar se é possível uma sistematização das estruturas informacionais desses contextos. Isso é relevante para identificar funções mais especializadas de

agora e now enquanto MDs.

Na construção em (20), todo o conjunto de enunciados anterior está centrado na descrição de como um determinado tipo de arte é realizado. Now indica uma transição para um comentário

subjetivo do locutor sobre o trabalho artístico em questão. Essa também é uma estrutura informacional recorrente nos dados, tanto de agora quanto de now.

Além de verificar se é possível uma sistematização da constituição interna dos contextos de transição, a análise também está apurando a frequência dos tipos de transição que agora e now sinalizam: transição para tópico novo ou transição para subtópico. O objetivo, assim, é aliar essa subclassificação à possível organização interna sistemática dos enunciados articulados por agora e now enquanto MDs.

Independentemente do tipo de transição em jogo, há um traço morfossintático que é essencial nos contextos em análise. Enquanto MDs, agora e now sempre ocupam a posição inicial do enunciado de que fazem parte, como se pode observar em todos os exemplos apresentados. Se, em tais contextos, os itens forem deslocados para posições à direita, eles recuperam o estatuto original de advérbios temporais. Desse modo, a posição inicial é um correlato morfossintático crucial para a leitura de transição textual, o que pode sugerir, conforme vamos discutir no Capítulo 07, que os itens ainda não atravessaram semantização, já que ainda são fortemente dependentes de suporte contextual para que sejam interpretados como MDs.